Beira 96

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12 – BEIRA DO RIO – Universidade Federal do Pará – Agosto, 2011

Fotos Karol Khaled

Entrevista 25 Anos JORNAL DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ • ANO XXV • N. 96 • Agosto, 2011

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Roteiros propõem a interação entre visitantes e visitados

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ara muitos de nós, aproveitar bem os dias de folga – férias ou feriados prolongados – significa viajar. Ao arrumar as malas e partir para algum lugar distante da nossa casa, estamos, num só tempo, fazendo um bem para o corpo, para a alma e para a economia. Sim, a atividade turística movimenta cerca de 10% do PIB mundial. O que é sinal de crise para uns pode ser visto como oportunidade para outros, com isso, as bagagens não deixam de ir e vir por ar, terra e mar. Além dos pacotes comerciais, com roteiros conhecidos e percursos cronometrados, há um novo nicho sendo explorado pelo mercado: o turismo cultural. Para falar sobre o assunto, o Jornal Beira do Rio entrevistou Fernanda Delgado Cravidão, professora catedrática do Departamento de Geografia da Universidade de Coimbra – coordenadora e investigadora do Centro de Estudos em Geografia e Ordenamento do Território (CEGOT). Segundo a professora, "o que o paradigma do ‘novo turismo’ propõe é em vez de ver, perceber; em vez de olhar, mexer; em vez de passear, interagir". Beira do Rio – Como relacionar turismo e cultura? Como isso tem sido feito em Portugal? Fernanda Delgado Cravidão – Minha perspectiva é que todo turismo é cultural. Do meu ponto de vista, viajar é salutar para o corpo e para a mente. Quando regressamos ao nosso lugar de partida, já olhamos esse lugar com outros olhos. Em Portugal, os paradigmas da atividade turística têm mudado. Durante a segunda metade do século XX, o turismo era essencialmente praia e balneário. Progressivamente, entre 1950 e 1970, passamos do turismo massificado para o das preocupações ambientais. Hoje, estamos em outro paradigma: temos uma população que é mais escolarizada e melhor informada, com maior esperança de vida e que viaja mais. Uma das grandes conquistas da atividade turística é saber olhar o outro e respeitá-lo. Há um exercício de cidadania e de educação ligado à atividade turística. E neste contexto, entra o patrimônio natural, material e imaterial. O patrimônio é tudo: a gastronomia, a música, as igrejas, os edifícios, as ruas e, sobretudo, as pessoas. Hoje, o território português oferece um número imenso de atividades turísticas que podem ser "consumidas" durante todo o ano. Estamos entrando no paradigma do "novo turismo": em vez de ver, perceber; em vez de olhar, mexer; em vez de passear, interagir. Beira do Rio – Que efeitos a globalização tem sobre as

atividades turísticas e a maneira como nos interessamos pelos espaços? F.D.C. – O turismo é um fenômeno em contradições e global. Até uns anos, a língua era o inglês, e a moeda era o dólar. Hoje, as coisas modificaram-se. Claro que se viaja mais de um país para o outro e que há mais turistas em determinadas regiões por razões históricas, sociais e econômicas.Aglobalização fez com que houvesse a necessidade de identidade, de singularidade, de diferença, de respeito pelo outro e, portanto, esse sentido de lugar que a globalização anula, o turismo reacende com novas roupagens. Por isso aparece a cozinha de autor, a qual liga o antigo ao moderno. São nichos novos da atividade turística. Beira do Rio – Normalmente, os centros antigos guardam a memória da cidade. Revitalizar esses espaços contribui para gerar interesse por eles? F.D.C. – Os centros históricos são espaços vazios e envelhecidos, com edifícios degradados, em alguns casos, onde vivem populações esquecidas socialmente. Os projetos devem manter os traços originais e garantir, interiormente, o conforto do século XXI. Isso é necessário e obrigatório. Na Europa, a população mais jovem, de classe média, entende que viver no centro histórico é ter acesso mais fácil ao trabalho, é viver em uma casa com mais qualidade e esteticamente mais bonita, é estar em um espaço de memória e contribuir para que esse espaço não morra, é conviver com a população que ainda lá vive. Isso é extremamente salutar, pois permite que classes etárias e grupos sociais diferentes possam conviver num espaço bem concebido do ponto de vista urbano. Depois, essa recuperação leva a que se abram pequenas lojas de roupa e artesanato, bares, centros de revistas, cafés, bibliotecas, isto é, novos espaços de sociabilidade. A experiência do centro histórico de Coimbra é extremamente positiva. Beira do Rio – O que é possível fazer para que a população se aproprie desses espaços? F.D.C. – Eu acho que essa população que vive no centro histórico gosta de que ele tenha vida, não gosta de que interfira no seu sossego. Em Coimbra, nós temos um autocarro que se chama "pantufinha", serve o centro histórico e é só para as pessoas de idade, por isso não tem paragem obrigatória. Isso é um compromisso que se vai progressivamente construindo. Mas acho que, de uma maneira geral, o resultado é positivo, sobretudo para a estética da paisagem e para a segurança no local. Beira do Rio – O que difere um roteiro cultural de um

roteiro comercial? F.D.C. – Os roteiros comerciais são feitos pelas agências de viagens. Os cruzeiros são bons exemplos de um roteiro comercial. Tudo o que se faz no cruzeiro é dentro do cruzeiro. E o mar, que, no meu ponto de vista, é o maior cartaz de turismo, não se usufrui. Os grandes operadores turísticos já perceberam que os roteiros têm que ser feitos à medida do perfil de quem compra. Se for um turista jovem e informado, provavelmente não gosta de andar de autocarro pela cidade. Se for um turista de certa idade, habituado a não viajar, vai gostar de visitar as igrejas, porque elas fazem parte dos seus símbolos. Tem que haver roteiro para toda a gente, não podemos ser tão fundamentalista. No meu ponto de vista, viagem é o melhor que existe, quer sejam cinco, 500, quer sejam cinco mil quilômetros. O roteiro cultural pode ser um roteiro temático visitando as aldeias históricas na fronteira entre Portugal e Espanha. Posso fazer um roteiro cultural em que apenas se vá ver o mar, as dunas, os faróis ao longo da praia. Depende muito de a quem se dirige e do modo como é construído.

Tecnologia

Empresas paraenses não investem em TI

Pág. 4 O quilo da amêndoa é vendido a R$ 0,20. Com o beneficiamento, o litro do óleo pode chegar a R$ 10,00

Vestibular

UFPA renova lista de leituras recomendadas

Beira do Rio – Esse pode ser considerado um nicho de mercado? As agências já descobriram isso? F.D.C. – É um nicho de mercado em ascensão. Quando visito, por meio de uma agência turística, um bocadinho da favela da Rocinha, eu estou fazendo turismo cultural. Os roteiros gastronômicos e religiosos acabam todos estando ligados ao turismo cultural, que são nichos que vêm dar sentido ao lugar. Por que este lugar no mundo global é diferente daquele? A resposta é alguma coisa que passa pela cultura, qualquer que ela seja. É preciso saber olhar o outro. Começa a haver outros roteiros culturais temáticos: a rota dos castelos, o patrimônio militar, a rota dos escritores – onde vamos visitar os lugares descritos nos livros. Ligar a literatura à paisagem é o puro turismo cultural. Beira do Rio – Como isso muda a formação do guia turístico? F.D.C. – Em Portugal, a atividade turística consolidou-se nos anos de 1980. O turismo sempre teve essa visão muito econômica, de gestão, de marketing. A dimensão holística e humanística não estava presente na formação. Em Coimbra, criou-se, na Faculdade de Letras, a Licenciatura em Turismo, Lazer e Patrimônio. Em seguida, criamos os cursos de Mestrado e Doutorado em Turismo, Lazer e Cultura. Nosso objetivo é formar gente que entenda de turismo e saiba como a cultura e o lazer podem estar associados a ele. Precisamos de um profissional que perceba quem é o turista que está à sua frente.

Memória

Para o Processo Seletivo de 2012, lista terá 12 obras. De acordo com a comissão responsável pelas indicações,

o programa de Literatura precisava estar adequado ao Exame Nacional do Ensino Médio. Pág. 3

Arquitetura conta história da saúde

Pág. 11

Entrevista

Karol Khaled

Rosyane Rodrigues

Karol Khaled

"Estamos vivendo um novo turismo"

á um ano, as comunidades do Mutirão, no município de Igarapé-Miri, vêm explorando a andiroba como fonte de renda alternativa para o período de entressafra do açaí. O Projeto "Capacitação de comunidades do Baixo Tocantins para a exploração de plantas oleaginosas com foco na geração de renda e inclusão social", desenvolvido pelo Laboratório de Operações de Separação (LAOS) do Instituto de Tecnologia da UFPA, instalou uma pequena unidade de extração de óleo vegetal para beneficiar as sementes coletadas. Além dos já conhecidos efeitos fitoterápicos, o óleo da andiroba também pode ser utilizado para produção de cosméticos e biodiesel. Pág. 10

Fotos Alexandre Moraes

Igarapé-Miri explora andiroba

"Viajar é salutar para o corpo e para a mente", afirma a professora Fernanda Cravidão. Pág. 12

Coluna da Reitoria

Equipamentos têm alto custo

O pró-reitor Fernando Arthur Neves fala sobre extensão e meio ambiente. Pág. 2

Música

Livro homenageia Helena Maia

Pág. 7

Opinião Obras do Humanismo, Barroco e Arcadismo estão entre as indicadas

Theodomiro Júnior discute os eventos ambientais globais e a geopolítica amazônica. Pág. 2


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