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12 – BEIRA DO RIO – Universidade Federal do Pará – Outubro, 2011
Fotos Alexandre Moraes
Entrevista JORNAL DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ • ANO XXVI • N. 98 • Outubro, 2011
Rosyane Rodrigues
J
á está longe o tempo em que pais e professores controlavam crianças e adolescentes com um simples olhar. Hoje, as crianças estão cada vez mais conscientes de seus direitos, buscam formas de expressar seus desejos e pontos de vista, deixando a todos sem saber ,exatamente, como lidar com essa nova postura infantil. Os especialistas alertam para as pressões da mídia, para os perigos do incentivo ao consumo e à postura competitiva. O Jornal Beira do Rio entrevistou Carlos Maciel, professor da Faculdade de Serviço Social da Universidade Federal do Pará e integrante do Programa de Infância e Adolescência, que recentemente promoveu curso de atualização, cujo tema foi “Infância e Família: desafios contemporâneos”. De acordo com o professor, escola, famílias e instituições precisam conversar para encontrar novas referências para essa geração. Beira do Rio – É possível dizer que há um “encurtamento” da infância nos últimos tempos? Carlos Maciel – Segundo alguns autores, estamos vivendo o “desaparecimento da infância”. As pressões da mídia e do próprio mercado têm criado um processo de maior mercantilização da infância, impedindo que a criança possa se desenvolver plenamente em todos os aspectos: físico, emocional e cultural. Isso também tem relação com a sociabilidade própria da infância, pois, cada vez mais, exige-se da criança um comportamento adulto. Hoje, dentro da perspectiva da empregabilidade, ela também tem que adotar um comportamento competitivo muito mais cedo. Todos esses fatores criam uma subtração dos processos próprios da infância, os quais, no passado, eram considerados comuns a todas elas. Ou seja, a criança tinha espaço para brincar, para o desenvolvimento lúdico, para a criação, sem necessariamente estar envolvida em processos competitivos que exigissem dela uma postura de busca por uma posição no mercado. Isso, infelizmente, tem criado uma pressão muito forte para o desaparecimento da infância.
Beira do Rio – Então, temos o mercado como um dos indutores desse fenômeno? Carlos Maciel – Sim, se observarmos atentamente, já existe uma fatia de empresas e indústrias que focaliza a criança, direcionando seus produtos para ela. À medida que essa criança vai incorporando a lógica do consumo desde cedo, ela “naturaliza” esse comportamento consumista e passa a adotá-lo como se isso fosse normal, ou seja, como um modo de vida. O documentário “Criança: a alma do negócio” mostra que, hoje, a criança sofre uma pressão tão forte das mídias voltadas para o consumo que ela consegue identificar, rapidamente, as marcas de empresas e produtos, mas tem dificuldade para reconhecer, por exemplo, um legume, um alimento, coisas que, até bem pouco tempo, seriam parte da vida cotidiana nessa fase. Beira do Rio – Existem dois comportamentos familiares: ou temos a criança como o centro das atenções ou temos um cenário de negligência, violência e falta de compromisso dos adultos. É possível encontrar um ponto de equilíbrio? Carlos Maciel – Há dois ou três séculos, o trato dado às crianças não tinha a ver com o que consideramos comum e natural na vida contemporânea. O processo civilizatório foi alterando a maneira como a sociedade concebe a criança e mudando o que chamamos de infância. Philippe Ariès destaca que, do período renascentista até 1800, houve um processo de transição durante o qual a criança foi reconhecida como um ser que precisava de cuidados especiais. Para o autor, esse é “o novo sentimento da infância”. No entanto podemos dizer que não foram criadas as condições adequadas para que essa família possa desempenhar essa proteção. A precarização do trabalho e os processos de exploração fazem com que homens e mulheres fiquem mais ausentes e tenham pouco tempo para a criança. Geralmente, isso não é acompanhado pelo Estado, com a criação de serviços de escolas e creches, por exemplo. É por isso que a família acaba se constituindo em uma instituição contraditória, ou seja, o espaço familiar pode ser um espaço tanto de proteção quanto de violência. Beira do Rio – Hoje, há um “jogo de empurra”
entre pais e escola quanto à responsabilidade sobre a educação e sobre a formação desse pequeno cidadão? Carlos Maciel – No passado, dentro do ambiente familiar tradicional, as relações entre pais e filhos eram marcadas por comportamentos autoritários. Naquele período, apesar de ter muito mais tempo para a brincadeira, havia pouco espaço para a criança se manifestar. Esse padrão de comportamento e sociabilidade estava presente na casa, na escola, no trabalho, na igreja, era um padrão daquele tempo. Há pouco tempo, por exemplo, os pais controlavam os filhos pelo olhar. Isso funcionava, porque esse controle ocorria em todos os ambientes institucionais. Desse modo, criança não tinha para onde correr, todos os ambientes eram marcados por esse comportamento autoritário. Isso criava uma impressão de que havia maior comunicação entre família e escola. Hoje, as instituições estão enfrentando a falta de sintonia entre esses ambientes de sociabilidade. Por isso, a tendência comum é a família jogar para a escola responsabilidades que são suas e vice-versa. Escola, famílias e instituições precisam conversar para construírem ações conjuntas a fim de melhorar a qualidade da relação com a criança. Esse “jogo de empurra” só vai desampará-la a criança. Uma das consequências pode ser observada em crianças e adolescentes buscando referências no mercado, no consumo, na liberdade sem fronteiras, criando dificuldades para viver, para se expressar como adulto saudável e capaz de viver dignamente. Beira do Rio – Qual é o perfil dessa família contemporânea? Carlos Maciel – Para compreender a família atual, é preciso entendê-la como uma instituição contraditória. Independentemente da classe social, a família tem dimensões tanto protetivas quanto de violência. Quando entendo isso, supero a concepção moralista de família e não as classifico como “estruturadas” e “desestruturadas”. As perspectivas moralistas cristalizam concepções que podem não traduzir a realidade do ambiente familiar. Com o conceito de família contraditória, é possível identificar e reforçar o que for positivo e colaborar para a superação dos seus pontos fracos.
Memória
Clara Pandolfo recebe homenagens
Pág. 3
Câncer de tireoide
Mapeamento genético pode prevenir Pesquisa realizada no Laboratório de Erros Inatos do Metabolismo do ICB teve seus primeiros resultados premiados em Congresso. Pág. 8
Entrevista O professor Carlos Maciel discute família e infância na contemporaneidade. Pág. 12
No centro ou na periferia, violência baixa em 20% o valor final dos imóveis residenciais
Religião
Museologia
Peregrinação de imagens Patrimônio prepara devotos para o Círio preservado na Iniciada em 1972, a tradição é considerada, pela Igreja Católica, um momento de evengelização antes da
grande procissão do segundo domingo de outubro. Entre os devotos é oportunidade de aproximação. Pág. 7
Vila de Joanes.
Pág. 9
Acervo do Pesquisador
É necessário superar o olhar moralista e enxergar as famílias reais
Acervo do Pesquisador
“A família é uma instituição contraditória”
móveis de alvenaria, com um ou dois pavimentos, piso de cerâmica, cobertura de telha ou laje, instalações elétricas embutidas e sem marcas de sofisticação. Na Terra Firme, um imóvel como este pode ser comprado por R$40 mil. Em Nazaré, seu valor chegaria a R$590 mil. A descoberta foi feita pela engenheira Elaine Angelim, que acaba de defender dissertação no Programa de Pós-Graduação em Engenharia Civil da UFPA. A pesquisa analisou de que forma as variáveis localização, violência e regularização fundiária influenciam no valor de venda de imóveis residenciais em seis bairros de Belém: Umarizal, Nazaré, Pedreira, Marco, Guamá e Terra Firme. Pág. 4
Karol Khaled
I
Violência desvaloriza imóveis
Coluna da Reitoria A pró-reitora Marlene Freitas fala sobre os novos caminhos da graduação na UFPA. Pág. 2
Opinião Maria Leonice de Alencar comemora os 20 anos de atividades do Uniterci. Pág. 2
Igreja distribui 5.500 kits com imagem, bíblia, cartaz e livro de peregrinações
Ruínas impressionam visitantes