Matéria: Marcos Demelo

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Cidade

Quarta-feira

Natal, 25 de setembro de 2013

O Jornal de HOJE 13

Cena Urbana VICENTE SEREJO - serejo@terra.com.br w RECORDE Situação financeira do governo atingiu uma tal estranheza que ninguém sabe dizer se mais um recorde de arrecadação de ICMS é bom ou ruim. E olhe que até dezembro montante geral chegará a R$ 4,3 bi.

Do Marquês de Olinda

w VAQUEIRO A Globo ilustrou a notícia da regulamentação do vaqueiro nordestino com um berrante ao invés do aboio, o velho e heráldico canto sem palavras que mereceu um belo poema de Henrique Castriciano.

w MÁGOAS? Só a ex-governadora Wilma de Faria sabe das mágoas que guarda do senador Garibaldi Alves Filho. Derrotado por Wilma e vitorioso com Rosalba, onde estariam mágoas tão dolorosas para um perdão? w ELEIÇÃO O médico e professor Kleber Morais será eleito presidente da Academia de Medicina do Rio Grande do Norte. Sucede a Armando Negreiros que encerra gestão depois de ativar as atividades dos imortais. w ENCONTRO Faz-se um grave silêncio, daqueles pressentidos em velhas abadias, em torno da viagem do arcebispo D. Jaime Vieira a João Pessoa. Seria um encontro com D. Fernando Guimarães, o legado pontifício? w AGENDA Uma língua menos santa comentou numa das noites desta semana, lá na sacristia da antiga matriz, que pode ser uma agenda reunindo alguns temas que causam muitos dissabores ao senhor arcebispo. Será? w SINAL A condenação de Rosemary Noronha por tráfico de influência nos gabinetes do Palácio do Planalto e Ministérios não deixa de ser uma mudança de paradigma diante de uma prática criminosa 'invisível'. w MARINA Independentemente das suspeitas levantadas pelo vereador Fernando Lucena geólogos e ambientalistas temem que a construção da marina na boca da barra venha a gerar, com o tempo, sérias consequências.

S

ó agora, e tantos anos depois, descubro, Senhor Redator: Câmara Cascudo já estava com a sua biografia do Marquês de Olinda pronta desde 1933. Fiquei sabendo pela coincidência de um detalhe: na última capa do livro de crônicas 'Feira Desigual', do médico Dante Costa, filho de Angyone Costa, um norte-rio-grandense esquecido, pioneiro na área de Antropologia e consagrado em três edições da Brasiliana, além de estudos sobre arqueologia, índios, artes plásticas, viagens e um roteiro dos Andes. E aqui, por falar em Dante Costa, não basta citá-lo como filho de Angyone. Foi um médico que deixou vários ensaios sobre nutrição, dois livros de crônicas, um de viagem a Israel, e um Itinerário de Paris que mereceu duas edições, além da sua tiragem especial de cinqüenta exemplares, numerados e assinados pelo autor. Publicou, ainda, ensaio sobre a sensualidade alimentar, a pobreza na Amazônia e é parceiro de Rodrigo Mello Franco de Andrade em dois volumes hoje raros sobre a pintura brasileira. Releve a mania dos detalhes, Senhor Redator, pondo na conta desta alma de colecionador, pois achar que sou bibliófilo seria exagero. É indispensável nesse tipo de colecionismo saber, se possível, a história do livro. E no caso do 'Marquez de Olinda e seu tempo' (na grafia da edição original), há duas singularidades: a coincidência do mesmo título da biografia escrita por Costa Rego, o pernambucano, e de ter sido uma separata dos anais do II Congresso Nacional de História, Rio, 1945, depois de ser livro.

A biografia que Cascudo escreveu estava pronta desde 1933, como atesta o anúncio, e sairia pela Editorial Duco, do Rio, mas só caiu nos olhos dos leitores cinco anos depois, em 1938. Ganhou o número 107, Série 5 da Biblioteca Pedagógica Brasileira, parte integrante da Brasiliana. O volume tem a foto do marquês - Pedro de Araujo Lima, ele que antes de ser marquês foi conde - e um prefácio do Conde de Affonso Celso que trata Cascudo cerimoniosamente de doutor, mas consagra a biografia. A outra, escrita por Costa Porto ou José Antônio da Costa Porto - 1909-1984 - titulado em Teologia e Direito Canônico no Seminário de Olinda e bacharel em Direito pela Faculdade de Direito do Recife, foi publicada originalmente pelo Conselho Estadual de Cultura de Pernambuco em 1974 e uma segunda edição pela Universidade Federal de Pernambuco, em 1976. Oito anos depois, em 1984, sai a terceira edição, Itatiaia, apoio da Universidade de S. Paulo, na Coleção Reconquista do Brasil. A biografia de Cascudo parece mais rica de circunstâncias naquele Brasil-império de lutas e disputas pelo poder, mesmo no talhe historiográfico e por seus próprios limites, é capaz de revelar não só o homem político, mas seu temperamento e habilidade. A única diferença entre os dois títulos está no artigo 'o'. Cascudo, bem antes, fixou 'O Marquez de Olinda e seu Tempo', enquanto Costa Rego grafa 'O Marquês de Olinda e o seu tempo', mesmo sem desconhecer a grande biografia cascudiana.

Artista potiguar inova em suas telas usando fios em pinturas MARCOS DEMELO EVERSON DE ANDRADE EVERSONSDEANDRADE@GMAIL.COM

A entrevista estava marcada para as 10h da manhã em um dos pontos de maior efervescência da cultura popular de Natal: O Beco da Lama e adjacências. A região é famosa pela música, culinária, lojas que vendem livros e disco velhos, outros comércios de relógios de pulso e de parede, cordel e até vitrola e máquinas de escrever. Talvez não fosse um equívoco levar para este mesmo lugar um artista que diz produzir algo até então inédito. O local que marcamos foi o Bar de Nazaré, onde semanalmente nas noites de quintas-feiras o samba e a cerveja gelada tomam conta da rua, dividindo espaço

w RETRATO D. Jaime Vieira quer que todos os padres estejam vestidos como sacerdotes no site da Arquidiocese, ou seja, túnica e casula. E faz muito bem. O site é oficial e lá não pode ter ninguém de mangas de camisa.

DESENVOLVEU A TÉCNICA CHAMADA com as pessoas sambando sobre o calçamento. Mas era terça-feira e próximo à hora do almoço, enquanto a proprietária do bar, na cozinha preparava o feijão com carne de porco, escolhido pouco antes da chegada da nossa equipe. O entrevistado já esperava do lado de fora e até aquele momento ele era o Marcos Antônio da Silva Melo. Porém , durante toda a entrevista, eu passaria a conhecer o Marcos Demelo, o artista plástico. Marcos é um homem magro e suas roupas não denunciam o estereótipo artístico: nem largado demais, nem também com glamour. Apenas o detalhe do corte capilar dá algum sinal da sua veia artística. O homem de 52 ou 53 anos - ele não sabe com certeza - nunca teve a li-

RECICLACIONISMO

berdade que era comum às demais crianças, mas isso não foi algo traumatizante para ele. O garoto que cresceu no bairro das Rocas veio ter o acesso à educação um pouco mais tarde. "Na minha infância eu fui para a escola já tarde. Mas quando fui, eu fui para aprender, não era de ficar perdendo tempo", revelou. Mas parou no colegial. O artista destaca que sempre teve vontade se tornar-se um homem da arte, mesmo sem a ciência para discernir durante a infância. "Eu tinha aquele desejo de entrar no mundo das artes desde criança", disse. Quando mais velho decidiu estudar as artes, conhecer e aprimorar sua técnica. Para isso, desceu para o sul, em direção a São Paulo. Entretanto, na terra da garoa o sonho

encontrou outras barreiras. Além de pagar um curso caro, também tinha a pensão onde vivia. Muitas contas para pouca grana. Desistiu. Voltou para o Rio Grande do Norte. Embora sua história não tivesse dado certo no sudeste, em sua terra natal não deixou o sonho morrer e passou a estudar por conta própria, não só na busca por estilo e uma técnica próprios, mas também lia livros na busca por referências. Paralelamente, Marcos Demelo fez outros trabalhos, mas no que se fixou foi na produção de móveis rústicos, sendo esta, até hoje, a sua principal fonte de renda. CONTINUA NA PÁGINA 14 Heracles Dantas

Técnica inovadora consiste em realizar sobre a pintura contornos com o uso de fios telefônicos e de computação. Leitura de livro sobre o pintor francês impressionista Monet ajudou no processo de elaboração do Reciclacionismo

w LIVRO Nasce um novo contista e com uma pegada que recebeu o elogio de Pablo Capistrano: será no dia 11 de outubro com o lançamento do seu livro Virando Cachorro a Grito. Na Nobel da Salgado Filho, 19h. w VIXE! A quem duvidou: 'vixe' existe, sim. Não está nos dicionários formais, mas poderá ser encontrado no Houaiss como variante de Vige e no dicionário informal Google como 'corruptela fonética de virgem'. w ATENÇÃO - I Alberto Dines incluiu em 'O Mundo Insone', ensaios de Stefan Zweig, uma edição Zahar, o estudo 'Montaigne e a Liberdade Espiritual', escrito no Brasil e inédito em português há mais de há 71 anos. w ALIÁS - II Foi escrito em Petrópolis, Rio, 1942, ano do seu suicídio, levado à França onde foi lançado em 1982 pela Press Universitaire de France, Coleção Grandes Temas, como um dos seus últimos grandes textos. w POESIA Do poeta Drummond em 'E Aconteceu a Primavera': 'Que alguém te cante e te descante / ficou urgente, primavera, / para que ao menos em cantiga, / neste papel aberto às gentes, / a flor antiga se restaure'.


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