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O Declínio da Inovação Europeia

Vítor Ferreira *

* Diretor Executivo Startup Leiria / Docente Politécnico de Leiria

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Apple, Samsung, Alphabet, Alibaba, Amazon, Tencent, TSMC: estas são algumas das maiores empresas de tecnologia do mundo e têm uma coisa em comum nenhuma delas é europeia. Embora a UE seja a segunda maior economia do mundo - atrás dos EUA em termos nominais, e da China, em relação à paridade de poder de compra – a Europa já não é vista como uma potência tecnológica. Para que recupere o seu lugar de ator principal, é necessária uma ação política mais musculada. O investimento em Investigação e Desenvolvimento (I&D), a base que sustenta o progresso tecnológico, tem diminuído na UE de forma relativa face aos principais blocos/países. Em 2000, a UE alocou 1,67% do seu PIB para I&D, quase o dobro da China (0,89%) nesse ano. Porém, em 2018 a China gastou 2,14% do seu PIB em I&D, os EUA 2,83%, o Japão 3,3%, Coreia 4,5% e UE apenas 2,03% (OCDE, 2021). Mas aumentar simplesmente a despesa de I&D não vai resolver o problema e recuperar o domínio tecnológico. Complementarmente, as atitudes culturais em relação ao risco precisam de ser desafiadas e as estruturas regulatórias devem ser reformadas, caso seja demonstrado que estas sufocam a inovação. Infelizmente, mesmo isto pode não ser suficiente, pois o problema de negligenciar a I&D e Inovação é que, uma vez que se “perde o comboio”, é cada vez mais difícil acompanhar os líderes, dada a natureza cumulativa da inovação, o facto de estes dominarem e protegerem as suas tecnologias e de as grandes empresas criarem barreiras à entrada, capturando o espaço de mercado e a notoriedade junto dos consumidores.

Em todo o caso, a UE não é, na verdade, totalmente homogénea, mantendo a liderança mundial em sectores como a produção automóvel, petroquímica e serviços financeiros, farmacêutica, etc. No entanto, não tem sido capaz de competir com os EUA ou a

China quando se trata de indústrias digitais disruptivas. Nenhuma das atuais 15 maiores empresas digitais do mundo é europeia, e os Estados Unidos devem gastar 175% mais em desenvolvimento de TI do que a Europa Ocidental entre 2018 e 2022, alertou a empresa de inteligência de mercado (IDC, 2020).

É claro que a Europa ainda tem várias empresas de tecnologia que desempenham um importante papel global. Empresas como a Siemens, Accenture ou mesmo Capgemini reinventaram-se, de diferentes formas no mundo tecnológico. Dados produzidos pelo “think tank” - “Tornando a Europa o Continente Mais Empreendedor” - colocavam em 2020, o valor das empresas europeias de tecnologia em €618 biliões. Em 2020, o valor das empresas europeias de tecnologia aumentou 46%, embora o maior salto tenha ocorrido entre 2015 e o início de janeiro de 2020. Em outubro de 2020, um terço do valor combinado das empresas baseava-se nas dez principais empresas de tecnologia da Europa: Adyen, BioNtech, Delivery Hero, Klarna, Spotify, Ocado, HelloFresh, Takeaway.com, UiPath e Zalando.

A mesma pesquisa constatou que existiam dois milhões de empregados na área de tecnologia, um aumento de 43% em relação aos números de 2016 e 73% dos empregos europeus em tecnologia são gerados por mais de 4900 start-ups. Estes parecem ser dados empolgantes, mas não podemos esquecer que no final de 2020 a Apple valia mais de $2,2 triliões, a Microsoft $1,68 triliões e a Amazon $1,6 triliões e a Google $1,18 triliões, o que significa que as quatro maiores empresas de tecnologia do mundo valiam dez vezes mais do que todo o sector de tecnologia na Europa. E mesmo as empresas europeias de tecnologia com avaliações mais altas dificilmente podem ser consideradas disruptivas - o relatório de 2019 do Banco Europeu de Investimento considerava que apenas 8% das empresas na UE são classificadas como ‘inovadores líderes’. Nos Estados Unidos, esse número é duas vezes maior.

Várias razões podem ser encontradas para justificar este problema.

Por exemplo, embora a UE tenha um mercado comum para bens físicos, esse mercado não tem um correspondente de serviços. Quando a indústria de telemóveis estava focada em hardware, isso não era um problema, e empresas como a Nokia e a Ericsson conseguiram destacar-se. Hoje, porém, os smartphones são artefactos de software e a economia digital é centrada em plataformas. Desta forma, para empresas digitais fundadas na UE, a expansão dentro do seu país é “algo fácil”, porém capturar clientes em toda UE é muito mais difícil. Casos como a Bookings são exceções (ou, por exemplo, a nossa Lovys que está em França, Portugal e Espanha). Existem barreiras de idioma a serem superadas e diferentes considerações de mercado para navegar. Isso torna muito mais difícil crescer rapidamente. Uma start-up nos Estados Unidos pode capturar uma fatia significativa dos 327 milhões de clientes potenciais do país com uma estratégia de negócios relativamente homogénea. Uma empresa chinesa pode fazer o mesmo quando tem como alvo 1,39 biliões de pessoas. Ou seja, embora a UE possa ter mais de 500 milhões de habitantes, estes dificilmente são um mercado homogéneo.

Outro aspeto do dilema da I&D da UE é uma questão de cultura: os empresários europeus parecem muito mais avessos ao risco do que os seus homólogos noutros locais. O acesso ao capital - especialmente para negócios não comprovados - é mais desafiador. Como referia o fundador da Lovys em recente entrevista, nos EUA é fácil angariar capital só para “falhar”. Na UE, as start-ups são forçadas a concentrarem-se nas receitas e nos lucros desde o início, enquanto as empresas americanas e chinesas podem priorizar o crescimento. A última abordagem permitiu que empresas como a Netflix, a Uber e a Alibaba acumulassem montanhas de dívidas em troca de participação no mercado.

Enquanto o investimento de capital de risco dos EUA atingiu um recorde de US $ 130,9 biliões (€ 116,6 biliões) em 2018, a Europa registou, comparativamente, uns magros € 23 biliões. Essa divisão surge apesar de a UE possuir uma população maior do que os EUA e uma economia de tamanho semelhante. Além disso, 40% de todo o capital de risco na Europa vem do sector público, conhecido pela sua aversão ao risco. E na Europa estão situados apenas 10% dos unicórnios do mundo (start-ups com uma avaliação de mercado de mais de 1 bilião de dólares) e a maioria destas empresas está localizada no Reino Unido. Parte do motivo pelo qual esse número não é maior parece dever-se à falta de acesso das empresas europeias ao capital necessário para escalar. O Skype é um exemplo: embora a empresa tenha sido fundada na Europa, não demorou muito para que a empresa aceitasse uma oferta de aquisição de US $ 8,5 biliões (€ 7,6 biliões) da Microsoft.

Na Europa, as PMEs e as empresas em crescimento lutam para encontrar o capital de que precisam para comercializar e expandir, devido à limitação dos mercados de capital de risco menor. O investimento nas fases iniciais de desenvolvimento de negócios - trazer uma ideia ao mercado - foi nove vezes maior nos EUA do que na UE em 2015, de acordo com a Association for Financial Markets in Europe. A diferença aumenta ainda mais quando se trata de expansão. Os investimentos de capital de risco em estágio posterior foram 20 vezes maiores nos EUA do que na UE em 2015.

No fundo, para além do mercado e da cultura, outro problema é a falta de capital de risco. Isto significa que as empresas europeias são forçadas a procurar financiamento noutros lugares e muitas vezes mudam de continente como consequência. Claramente, com maiores incentivos, como redução de impostos de I&D, recompensas fiscais para investimentos de alto risco ou taxas de impostos mais baixas para lucros obtidos de trabalhos relacionados com I&D em toda a Europa, isso pode mudar.

Se as empresas europeias lutam para angariar o capital de que precisam para alcançar o status de unicórnio, os governos poderiam pelo menos oferecer maiores incentivos financeiros para aqueles que investem em I&D. Por outro lado, as empresas também precisam começar a assumir alguns riscos adicionais. Por exemplo, os retornos das despesas com I&D variam entre 20 e 30%, o que é significativamente maior do que os investimentos em ativos físicos. Mesmo que os proprietários prefiram uma abordagem lenta e constante a uma de expansão rápida, investir em inovação deveria ser o caminho a percorrer.

A fragmentação continua a ser um grande obstáculo à criação de empresas europeias de classe mundial, com os diferentes regulamentos, impostos e normas da indústria encontrados em diversos países, constituindo obstáculos aos investimentos transfronteiriços. Estas são áreas em que a UE poderia fazer mais

para encorajar a uniformidade, especialmente no que diz respeito às despesas de I&D. Enquanto países como Suécia, Áustria, Dinamarca e Alemanha gastaram mais de 3% do PIB em I&D em 2017, oito estados membros registraram uma intensidade de I&D abaixo de 1%. Há muito que os formuladores de políticas da UE podem fazer e cabe aos governos nacionais individuais reduzir a burocracia, criar ambientes que promovam I&D e trabalhar em estreita colaboração com outras nações europeias para garantir uma abordagem unificada. A Europa precisa de pensar como uma região global, se quiser competir com gigantes como os EUA e a China.

Em muitos aspetos, a UE deu grandes passos na promoção de normas comuns e de uma reflexão conjunta além das fronteiras nacionais. A abolição das tarifas de roaming em 2017, o Regulamento Geral de Proteção de Dados e a segunda Diretiva de Serviços de Pagamento são passos para um mercado único digital unificado. No entanto, quando a concorrência vem de países como EUA e China, a fragmentação que ainda existe entre os estados-membros da UE representa outro obstáculo a ser superado por empresas e investidores.

Apesar de tudo, existem alguns sinais no sentido certo. O programa Horizonte tem 100 biliões de euros para apoiar o cultivo de habilidades digitais e o desenvolvimento das empresas que delas dependem. Este ambicioso programa espera aproveitar os progressos já realizados pelo seu antecessor, o Horizonte 2020. O Horizonte 2020, que pretendia investir 80 mil milhões de euros entre 2014 e 2020, foi um sucesso relativo embora qualificado. Foi responsável pela emissão de mais de 15.000 bolsas de pesquisa desde 2014 e apoiou o desenvolvimento tecnológico em áreas como medicina, agricultura e astronomia. Mas várias críticas ao projeto apontavam falta de visão e falta de apoio a projetos mais arriscados.

Mais uma vez, o dinheiro, só por si, não será suficiente. As universidades da Europa Ocidental também têm mais experiência no processo de financiamento e o conhecimento da melhor forma de estruturar uma proposta de financiamento. Uma colaboração mais próxima entre instituições baseadas em diferentes estados da UE pode ser uma forma de garantir que propostas de pesquisa promissoras vindas de fora dos centros de tecnologia de Londres, Paris e Berlim não sejam esquecidas.

As novas tecnologias em áreas como inteligência artificial, realidade virtual e biomedicina serão o principal motor do crescimento económico e da prosperidade na próxima década, mas só surgirão na Europa com um significativo investimento de longo prazo em I&D e uma mudança substancial de mentalidade. Talvez uma boa forma de perceber que o continente está a ficar num papel secundário, e que todos se perguntam se será a China, ou os EUA, os vencedores desta corrida, e ninguém aponta a Europa.

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