Uma retirada insólita. Ana Luiza Martins Costa

Page 1

Uma retirada insolita_Capa_100713:open 10/07/13 13:58 Página 1

O mundo do sertão e a obra de João Guimarães Rosa direcionam seu percurso. É formada em Antropologia Social pelo Museu Nacional (PPGAS/UFRJ, 1989), onde desenvolveu a pesquisa de Mestrado que deu origem a este livro, orientada por Lygia Sigaud (in memoriam). O sertão do rio São Francisco despertou seu interesse pelas viagens de Guimarães Rosa através dos campos gerais, levando-a a escrever “João Rosa, viator” (tese de Doutorado em Literatura Comparada, UERJ, 2003), “O mundo escutado”, “O olhar do viajante”, “Cadernetas de viagem” e “Homero no Grande sertão”. É autora do roteiro de Buriti, filmado com o vaqueiro Zito nas veredas de Minas; coautora da pesquisa e roteiro do longa-metragem Mutum, uma adaptação da novela “Campo geral” (a estória de Miguilim, do Corpo de baile). Pesquisadora visitante na Fundação Casa de Rui Barbosa (2003-5); bolsista da Biblioteca Nacional (2006-7); fez uma residência na Escola Francesa de Atenas (jun./ago. 2008), em estudo sobre a obra de Rosa e a épica homérica. Trabalha atualmente como pesquisadora independente.

Uma retirada insólita recebeu Menção Honrosa no Concurso Brasileiro de Teses Universitárias e Obras Científicas em Ciências Sociais, promovido pela Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (ANPOCS), em 1990.

A observação etnográfica desenvolvida na pesquisa de Ana Luiza Martins Costa provoca uma reconfiguração do conhecimento das ciências sociais aplicadas ao estudo de barragens. Dela derivam os fundamentos de uma crítica ao modelo analítico até então prevalecente, segundo o qual os camponeses, por ignorância ou idiossincrasia, não acreditam na veracidade das notícias de que a construção de uma barragem inundará suas terras. No caso de Sobradinho, um conflito cognitivo esteve subjacente, sugerindo explicação distinta. Vigorou ali a crença camponesa de que seu saber sobre a ecologia dos rios é superior ao dos técnicos, evidenciando que sua suposta ignorância é a manifestação legítima da desconfiança e da falta de crédito no discurso técnico e empresarial. Aurélio Vianna Jr.

COLEÇÃO TERRITÓRIO, AMBIENTE E CONFLITOS SOCIAIS

Esta coleção reúne os resultados de pesquisas e debates desenvolvidos no Laboratório Estado, Trabalho, Território e Natureza (ETTERN) do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro. O ETTERN dedica-se ao estudo dos modos de apropriação do território e dos ambientes, considerando a diversidade de atores envolvidos no processo de produção social do espaço. São focalizadas, em particular, as dinâmicas conflituais que constituem sujeitos coletivos e configuram contextos históricos em que os territórios são apropriados material e simbolicamente.

Rio de Janeiro, IPPUR/UFRJ, 2013

Ana Luiza Martins Costa

Uma retirada insólita

Uma retirada insólita

Ana Luiza Martins Costa

COLEÇÃO TERRITÓRIO AMBIENTE E CONFLITOS SOCIAIS n.4

IPPUR

O presente livro registra uma das mais bem sucedidas pesquisas sobre as transformações nos modos de vida que resultam da construção de barragens. A pesquisa antropológica realizada por Ana Luiza Martins Costa junto aos camponeses deslocados pelo enchimento do lago de Sobradinho é um exemplo das descobertas que se pode fazer quando o pesquisador relaciona-se com os atores no terreno, sem perder de vista o caráter relativo de sua inserção e as perturbações criadas por sua presença nos rituais quotidianos. Emerge, então, uma questão cada vez mais pertinente em tempos de disseminação de políticas empresariais que buscam mapear as condições de organização social das populações atingidas, quando da apropriação do território por grandes projetos de “desenvolvimento”: como “assuntar tudo” no universo do campesinato ribeirinho, para realizar pesquisa social, sem ser confundido com técnicos de empresas e órgãos governamentais, cuja presença no local para a realização de estudos de topografia e situação fundiária é fortemente associada à destruição das condições de vida de milhares de famílias? Eis que, ao longo do processo de pesquisa, a elaboração conjunta de um desenho do antigo território (mapa nativo) promoveu um retorno reflexivo sobre a vida de antes da barragem. Contrastando as formas pretéritas de apropriação do espaço com a experiência traumática de sua transformação pela construção da barragem, os camponeses constroem suas vias de acesso às realidades presentes. Expressam, assim, como a perda de espaços com valores distintos – vazante e caatinga – significa a perda de seu mundo, a perda de um mundo. Henri Acselrad, Professor do IPPUR/UFRJ

Rio São Francisco Barragem de Sobradinho


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
Issuu converts static files into: digital portfolios, online yearbooks, online catalogs, digital photo albums and more. Sign up and create your flipbook.
Uma retirada insólita. Ana Luiza Martins Costa by El vivero - Graphic & Industrial Design - Issuu