Discurso Saul António Gomes

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Reflexão sobre Portugal: no dia 14 de agosto de 2012 Campo Militar de S. Jorge Saul António Gomes Dirijo-me a esta ilustre assembleia por amável convite e deferência do Senhor Dr. Alexandre Patrício Gouveia. Convite que agradeço e espero honrar, não porque me assista especial competência científica ou génio criativo literário, mas tão somente pelo elevado significado da data histórica que, uma vez mais, aqui se comemora na comunhão e no reconhecimento de um Portugal marcado, desde muito cedo, no seu percurso secular, por uma profunda e complexa consciência histórica de unidade nacional. Foi-me pedido uma intervenção breve e alusiva ao significado histórico da data que se comemora uma vez mais: o dia 14 de agosto de 1385. Hesitei, também, em aceitar a incumbência porque, em boa verdade, nada poderei acrescentar de novo, de descoberta, ao que todos os presentes conhecem, no essencial, acerca dos acontecimentos bélicos que decorreram neste planalto de S. Jorge há 627 anos atrás. Une-nos, neste momento de encontro com a memória pátria, o reconhecimento de que a comemoração de um acontecimento histórico maior nos anais de Portugal, o da “maravilhosa vitória” da tarde de 14 de agosto de 1385, continua a ter sentido 627 anos após a sua decorrência. Um sentido que, há alguns anos atrás, se revelaria contraditório e até duvidoso, quando pareciam mais certas as alterações políticas internacionais que faziam da Europa um espaço sem fronteiras diluidor das nacionalidades e crescentemente unificado no seu modelo civilizacional. Pura miragem, como sabemos. Os acontecimentos políticos ocidentais dos últimos anos, que contam com guerras intestinas fratricidas e mesmo genocídios, demonstram que a questão dos nacionalismos étnicos permanece resiliente e latente. Só assim se compreenderá as desconfianças que parecem reinar entre a maioria dos Estados europeus e a ausência, entre as elites governantes, de uma visão e de uma consciência verdadeiramente esclarecida que relativize a bipolaridade Norte-Sul, países ricos verso países pobres, Atlântico Norte por oposição à Europa do Sul ou do Mediterrâneo. Se há

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