Lona - Edição nº 503

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RIO DIÁ do

Curitiba, terça-feira, 9 de junho de 2009 - Ano XI - Número 503 Jornal-Laboratório do Curso de Jornalismo da Universidade Positivo

STF julga amanhã obrigatoriedade de diploma para jornalista Os juízes do Supremo Tribunal Federal (STF) vão decidir amanhã, em Brasília, se vão manter ou não a exigência do diploma de jornalista para o exercício da profissão. A proposta de desregulamentação da atividade, feita pelo sindicato patronal em 2001, possibilitará que profissionais sem diploma sejam contratados por empresas jornalísticas. Contrários à proposta, estudantes, entidades de classes dos jornalistas e instituições do ensino superior farão manifestações em diversas capitais do país. O principal foco dos protestos é Brasília. Página 3 Fernando Emmendoerfer de Castro/LONA

Perfil

Do direito ao

bar

Há 22 anos, Riad Bark deixou para trás sua formação acadêmica para fazer o que gosta. Formado em direito pela UFPR, largou a advocacia para abrir o bar Ponto Final. Com sua simpatia, Riad canta à noite e faz de seu próprio bar referência em MPB em Curitiba. Página 7

BRASI

L

jornalismo@up.edu.br

Geral

Oficinas ajudam na reabilitação de usuários de drogas O Centro de Convivência Menina Mulher (CCMM) promove a reabilitação social para adolescentes. Rosimeire Martins de Oliveira é uma das educadoras do local e tem uma história de força e determinação.

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Ensaio

Fotos mostram castelo que inspirou contos de Walt Disney Ponto turístico da cidade de Füssen, no sul da Alemanha, o castelo é um dos poucos da Europa, a não ser em Portugal, que oferece guias de idioma em português.

Página 8 Colunista “Em comemoração ao Dia dos Namorados, juntei cinco dos melhores episódios que se passam na televisão nesta data”. Por Camila Picheth

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Curitiba, terça-feira, 9 de junho de 2009

Opinião Tecnologia

Sem prosseguir

o mandato Nas últimas semanas, praticamente todos os telejornais das tevês abertas, todos os grandes jornais, todos os grandes portais de internet, todas as emissoras de rádio entraram em pânico, quando Lula, questionado por um repórter sobre se cogita tentar voltar ao poder em... 2014 (?!), disse que “só Deus sabe a resposta a essa pergunta, porque nem sabemos o que acontecerá em 2010, que ainda está longe”. Parece estar bastante confiável nosso Presidente, que em meio a momentos de “tensão” entre seus aliados, por causa da doença da Ministra da Casa Civil Dilma Rousseff, comemora o aumento de popularidade. Seus aliados devem estar pensando que vão conseguir o terceiro mandato. Mas não, não se depender de algumas pessoas que conseguem enxergar todas as besteiras que o Excelentíssimo Senhor Presidente já vez com nosso país. Essas pesquisas devem ser encomendadas pelo próprio Partido dos Trabalhadores. Onde já se viu a exguerrilheira – candidata de Lula – ser “quem sabe” nossa próxima presidente da República? Falando em candidata

de Lula, deve ser por isso que estão falando dessas pesquisas sobre o aumento de sua popularidade. Para que o povo não esqueça do presidente que nunca está no Brasil e para que os que ainda não conhecem Dilma, escutem falar seu nome. Afinal quem escuta um pouco sobre política sabe muito bem que Lula já afirmou que Dilma é sua candidata e quer que ela seja sua sucessora. Candidata que no último mês descobriu estar com um câncer. Não fez o que a maioria dos pacientes com essa doença faz, mas... Foi até um palanque junto com o Lula e através das palavras de “ajuda” do presidente e contou com o apoio do povo para a nova caminhada que está por enfrentar. Desculpe-me, Dilma, mas o que parece é que o seu partido está aproveitando da sua doença para a próxima eleição. Todas essas notícias estão diretamente ligadas ou pelo menos, indiretamente, à campanha do próximo ano. E acredite, não temos medo do que pode ficar na história sobre Lula, quando ele deixar o planalto no dia primeiro de 2011, sobre ter sido o presidente mais popular da história, mas sim se ele conseguir continuar seu mandato através de sua candidata.

Leonardo Schenato Barroso O Brasil, assim como o resto do mundo, sempre foi um lugar de divisão social. Bares, clubes e outros lugares destinados a agrupar a burguesia da sociedade cobram caro pela entrada para ter apenas uma freguesia seleta participando de seus eventos. Mas, neste mês, os membros da elite puderam celebrar - com uma festa bastante “seletiva” algo ainda novo no Brasil: a elitização digital. Esta é a proposta do site de relacionamentos Elisyants, uma espécie de Orkut grã-fino que estreou em São Paulo no dia 12 do mês passado. Lançado em Hong-Kong e funcionando, além de São Paulo, nas cidades de Dubai e Curaçao, o Elisyants só aceita a entrada de pessoas convidadas pelos seus organizadores. Entre eles, estão principalmente celebridades e indivíduos que costumam estar presentes em eventos luxuosos. Confirmando isso, notamos que, na lista dos brasileiros convidados, estão nomes como do ator Bruno Gagliasso e do estilista

Carlos Miele, figuras também conhecidas pelo seu alto poder de compra. E o mais interessante sobre o site é o argumento dos que defendem a sua criação. Eles dizem que será feito na internet o mesmo que acontece fora dela, no mundo real. Ou seja, ao invés de utilizarem a internet para promover o acesso das classes mais pobres da sociedade, os idealizadores do Elisyants querem manter na web a discriminação social que existe nas ruas. Pois é assim mesmo que as ruas são: diferentes classes precisam delas para sobreviver e, por isso, acabam se encontrando. Mas há espaços muito bem determinados para cada classe social: pessoas que moram na favela não são as mesmas que frequentam um iate-clube. Essa divisão espacial que reforça as diferenças sociais dificulta a interação entre os grupos, fazendo com que a exclusão seja cada vez maior.

Com a criação do Elisyants, a internet ficou igual. Diferentes classes sociais vão utilizála para fazer pesquisas, ler blogs, utilizar e-mails e tudo o que a internet possibilita. Mas só os chamados “novos ricos” poderão fazer parte de determinadas comunidades virtuais. A internet, com todo o potencial que tinha para revolucionar e democratizar a sociedade, acabou servindo de ferramenta para uma minoria economicamente favorecida manter seu status de superioridade. É a exclusão social na era digital.

Expediente Missão do curso de Jornalismo

Divulgação: Blog - Luiz Stefano Schirrmann

Katherine Dalçoquio

Exclusão Digital

Divulgação | sxc.hu

Política

“Formar jornalistas com abrangentes conhecimentos gerais e humanísticos, capacitação técnica, espírito criativo e empreendedor, sólidos princípios éticos e responsabilidade social que contribuam com seu trabalho para o enriquecimento cultural, social, político e econômico da sociedade”.

Reitor: Oriovisto Guimarães. Vice-Reitor: José Pio Martins. Pró-Reitor Administrativo: Arno Antônio Gnoatto; Pró-Reitor de Graduação: Renato Casagrande; Pró-Reitora de Extensão: Fani Schiffer Durães; Pró-Reitor de Planejamento e Avaliação Institucional: Renato Casagrande; Coordenador do Curso de Jornalismo: Carlos Alexandre Gruber de Castro; Professores-orientadores: Ana Paula Mira, Elza Aparecida e Marcelo Lima; Editores-chefes: Antonio Carlos Senkovski, Camila Scheffer Franklin e Marisa Rodrigues.

O LONA é o jornal-laboratório diário do Curso de Jornalismo da Universidade Positivo – UP, Rua Pedro V. Parigot de Souza, 5.300 – Conectora 5. Campo Comprido. Curitiba-PR - CEP 81280-30. Fone (41) 3317-3000


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Geral Imprensa

STF julga a obrigatoriedade do diploma de jornalista Entidades de classe promovem manifestações a favor do diploma em várias capitais e em Brasília

Eli Antonelli Está previsto para amanhã o julgamento pelo Supremo Tribunal Federal (STF) da obrigatoriedade do diploma de jornalista para o exercício da profissão. A discussão se originou em 2001, a partir de uma liminar suspendendo a exigência do diploma com parecer favorável ao Sindicato das Empresas de Rádio e Televisão de São Paulo. A decisão foi revogada em 2005, mas o Ministério Público Federal recorreu, e o processo está em andamento no Supremo Tribunal Federal. Atualmente, a necessidade do diploma está suspensa e os desdobramentos dependerão da decisão do Supremo. Há uma possibilidade de que o julgamento seja adiado mais uma vez. O ministro Marco Aurélio de Mello poderá solicitar a substituição do julgamento pelo caso da guarda do menino que está sendo disputado pelo pai norte-americano. A Federação Nacional dos Jornalistas - FENAJ e o GT Coordenação Nacional da Campanha em Defesa do Diploma estão organizando diversas manifestações em prol do diploma. Em todo o país ocorrerá caravanas a Brasília para a manifestação pública em frente ao STF. O Sindicato dos Jornalistas do Paraná está organizando uma manifestação na Boca Maldita às 13h. Outra ação que está sendo divulgada é o envio de e-mails ao STF. A lista de e-mails dos ministros, bem como a sugestão de texto, pode ser obtida na página: http://www.fenaj.org.br/ materia.php?id=2615.

Discussão O Lona entrevistou duas profissionais da área de comunicação com opiniões diferentes, para exporem sua posição nesta discussão. Uma das profissionais, a jornalista Pauline Machado, está entrando no mercado de trabalho, e a segunda, a pesquisadora de comunicação Ivana Bentes, possui ampla experiência na área de comunicação.

Entrevistadas A jornalista Pauline Machado é recém formada em Comunicação Social – Jornalismo pela Universidade Positivo e atualmente, está em busca de sua colocação no mercado de trabalho. Escreve voluntariamente para a Agência de Notícias do Direito dos Animais ANDA – e mantém um blog, “um olhar estrangeiro sobre todas as coisas”: http://www. paulinemachado.com.br .A diretora da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Ivana Bentes, tem mestrado e doutorado pela UFRJ. Atua principalmente em estética, teoria da comunicação e pensamento contemporâneo. Dedica-se a dois campos de pesquisa: estéticas da comunicação, Novos Modelos Teóricos no Capitalismo Cognitivo (CNPq) e Periferias Globais: produção de imagens no capitalismo periférico. Apresenta o programa de debate Curta-Brasil, sobre cinema e cultura, na televisão Educativa (TVE) do Rio. É autora dos livros “Joaquim Pedro de Andrade: a revolução intimista” (Ed. Relume-

Dumará.1996), “Cartas ao Mundo: Glauber Rocha” (organização e apresentação), Companhia das Letras, 1997. É co-editora de Cinemais: Revista de Cinema e Outras Questões Audiovisuais e de Lugar Comum: Comunicação e Política, revista de ensaios no campo da comunicação. E escreve sobre cultura para o jornal Folha de S. Paulo e Jornal do Brasil. Mantém o blog com o tema “O devir estético do capitalismo cognitivo" http:// www.midiarte.blogspot.com

A favor do diploma – Pauline Machado “Parto do princípio de que, assim como qualquer outra profissão regulamentada, o jornalista deve sim ter a obrigatoriedade do diploma para exercer legalmente a profissão. Se anos atrás o pessoal não precisava do diploma para vivenciar a rotina das redações dos jornais e está até hoje no mercado, tudo bem, faz parte da história do jornalismo e do nosso país; agora, a partir do momento em que a profissão foi regulamentada, deve ser obrigatório o diploma, caso contrário, estaríamos andando para trás. Se for assim, penso que posso exercer qualquer outra profissão – advogada, engenheira, psicóloga, dentista, socióloga, filósofa e até ser veterinária, que é o meu sonho, pois não precisaria de diploma para exercer tal função; mas não posso, ainda que tenha total aptidão para isso. Ser jornalista não é tão simples assim, embora para alguns pareça. É preciso técnica (obti-

Ser jornalista não é tão simples assim. É preciso técnica,treino, orientação e moral” PAULINE MACHADO, JORNALISTA da na faculdade ou na prática, não importa), mas é preciso treino, é preciso orientação, é preciso muitos outros detalhes, e extinguir o diploma é desmerecer os profissionais da imprensa. Sem falar na moral, ou falta desta, do ministro relator do caso. Será que essa importante decisão está em boas mãos? Ou melhor, em mãos justas? Enfim, essa já é uma outra história.”

Contra o diploma – Ivana Bentes “Por que a FENAJ e outras entidades corporativas não esclarecem que o fim da exigência de diploma para trabalhar em jornalismo não significa o fim do ensino superior em jornalismo? Ao invés de esclarecer que são duas coisas distintas, confundem a todos! É a pedagogia da desinformação e do ‘medo’, a pedagogia da ‘reserva de mercado’ para um único grupo de profissionais, os ‘jornalistas’, tirando a oportunidade e a empregabilidade de tantos outros jovens formados em comunicação e não reconhecendo a potência da mídia livre. (...) O ‘capital’ e as corporações são os primeiros a contratarem os jornalistas com formação superior. Na UFRJ os estudantes de Comunicação e Jornalismo são ‘caçados’ pelas empresas que dão preferência aos forma-

dos, com nível superior! Os jornais já burlam a exigência de diploma pagando os maiores salários da Redação aos não-jornalistas, cronistas, articulistas, colunistas, todos sem diploma (os sindicatos fizeram o quê?) (...) Estou defendendo a empregabilidade das centenas de jovens formados em Comunicação. Ao invés de se preocuparem com as condições de trabalho de um contigente de jovens que já estão exercendo jornalismo de forma nova e profissional, as corporações impedem o exercício da profissão destes e de centenas de jovens no exercício profissional de jornalismo, restrito pelo poder cartorial e corporativo de um diploma, que já não tem valor de mercado, o que tem valor de mercado e valor simbólico é a formação de qualidade. O raciocínio de parte da FENAJ e FNPJ está na vanguarda da retaguarda, no século fabril, corporativo, estanque. Na defesa de ‘postos de trabalho estanques’, quando no capitalismo cognitivo, no capitalismo dos fluxos e da informação, o que interessa é qualificar não para ‘postos’ ou especialidades (o operário substituível, o salário mais baixo da redação!), mas para campos de conhecimento, para a produção de conhecimento, como o campo da Comunicação”.


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Curitiba, terça-feira, 9 de junho de 2009

Especial Centro de Convivência Menina Mulher

Um modelo de menina Uma história de sofrimento que se tornou exemplo de salvação

Renata de Andrade Numa sala de mais ou menos seis metros de comprimento e quatro de largura, dez meninas entre 12 e 16 anos conversavam. A pouca luz que entrava pela janela iluminava as seis cadeiras no fundo da sala e a única lâmpada não queimada, entre quatro, se encarregava de iluminar um sofá de quatro lugares e o resto da sala. Essas adolescentes não estavam lá para simplesmente bater papo, mas sim para conversar sobre assuntos sérios e realizar atividades no horário em que não

deveriam estar na escola. Era o fim de uma das oficinas, e as meninas já estavam inquietas. Um pedaço de papel foi distribuído e, para terminar, elas tinham que escrever alguma coisa sobre suas vidas, algo que a Ong ajudara a mudar. Como que mecanicamente, elas começaram a escrever. De frente para elas, estavam sentadas a coordenadora e assistente social Simone Taborda Santos Haertel e a educadora Rosimeire Martins de Oliveira. Uma a uma, elas leram seus papéis. Sinceros agradecimentos de quem foi instruído a resistir às

Por meio da produção de jornais, o espaço social em que vivem

as

meninas

tentações da droga e da violência, que aparentemente eram os únicos e mais fáceis caminhos para se seguir. A última a ler foi Rosimeire. A força e determinação estampadas no rosto franzido de mulher, que junto às meninas desmancha-se em um sorriso ingênuo e num olhar compreensivo, marcaram a leitura. Rosimeire surpreendeu a todos. Mesmo depois de quase nove anos de trabalho na Ong, ninguém sabia de sua história. O Centro de Convivência Menina Mulher (CCMM) existe há quase quatorze anos. Com

aprendem

a

valorizar

o apoio do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate a Fome e do Fundo Municipal de Assistência Social, a instituição atende meninas de 6 a 18 anos, a maioria da Vila Parolin, em estado de vulnerabilidade. São famílias que, em sua maioria, trabalha na coleta de material reciclado e são beneficiárias do programa de Erradicação do Trabalho Infantil ou Bolsa Família. Lá, as meninas e mulheres se dedicam a aulas de capoeira, corte e costura, teatro, etiqueta, ballet, oficinas de informática e outras atividades que propiciem a reinserção social e a melhoria da autoestima. Quando a Ong foi fundada, em 1995, uma das que participava das oficinas era Rosimeire. Na época, com 14 anos, ela achou no CCMM uma oportunidade de mudar o rumo que sua vida tinha tomado desde que saíra de casa. Rosimeire nasceu em Borrasópolis, no norte do Paraná. Foi criada por um casal de agricultores, desde que era bebê. “Meus pais não tinham condições de me criar. A solução que encontraram foi me entregar aos meus ‘padrinhos’”. Na cidade interiorana, ela nunca precisou trabalhar. Sua vida se restringia em estudar e brincar, enquanto seus novos pais dedicavam-se à roça. Porém, aos 11 anos, Rose – como é chamada na Ong – quis conhecer sua família verdadeira, que morava em Curitiba. Num gesto de compreensão, seus padrinhos a levaram para a capital e a ajudaram a encontrar a casa onde seu pai biológico estava morando. Ficou sabendo que sua mãe tinha se

mudado há vários anos para São Paulo e lá tinha falecido. Só não soube o motivo da morte. Ela despediu-se de seus padrinhos e afirmou, com um largo sorriso no rosto, que ela ficaria muito bem ali, com sua nova e quase verdadeira família. Isso porque seu viúvo pai já tinha se casado novamente. Porém, não foi fácil conviver com a madrasta. Com toda a autoridade e respaldo do marido, ela mandava e desmandava em Rose, que não gostava nada da ideia de conviver com uma mulher que não a queria bem. Então, com alguns poucos meses de muitas brigas, a menina decidiu sair de casa. Mas não quis voltar para o interior. A capital a encantara. Toda a beleza da Cidade Sorriso a seduziu para o que havia de mais cruel e degradante das cidades grandes – o vício. Rose passou anos pulando de casa em casa. Dormia um dia na casa de colegas da escola, de companheiros da noitada e de pessoas que mal conhecera. Ou que conhecera quando não estava em condições de se lembrar no dia seguinte. Passou por abrigos, pensões, repúblicas. Para ela, essa foi a época mais difícil de sua vida. Lembra-se angustiada do dia em que quase foi levada para o reformatório. Estava a perambular pelas ruas, à procura de outra casa que a aceitasse por pelo menos uma noite, quando foi surpreendida pela polícia. O policial, um robusto homem que a aparentou ter menos de 35 anos, a pegou pelo braço e perguntou se ela era Rosimeire Martins de Oliveira. Assentindo com a cabeça que sim,


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Curitiba, terça-feira , 9 de junho de 2009

Fotos: Renata Andrade

A força e determinação estampadas no rosto franzido de mulher, que junto às meninas desmancha-se em um sorriso ingênuo e num olhar compreensivo, marcaram a leitura. Rosimeire surpreendeu a todos. Mesmo depois de quase nove anos de trabalho na Ong, ninguém sabia de sua história

ela já estava se preparando para o que se acostumara a ver nas ruas. “Autoridades abusando do poder, aproveitandose de nós, meninas que não tínhamos com quem reclamar”. Por um ato de sorte ou consciência, o policial nem chegou a tocar na menina. Ele apenas informou que seu pai e seu irmão foram os mandantes da apreensão. Eles exigiam o seu retorno à casa. Rosimeire desconfiava que por trás dessa preocupação com ela estivesse a vergonha de serem reconhecidos como a família da menina que viva sem casa, perambulando por aí com os “noiados”. Essa é a expressão que se usa para designar aos usuários de drogas. No último abrigo pelo qual passou, o Abrigo Madre Antônia, arranjou um emprego. Passou a auxiliar a coordenadora a ministrar atividades para os adolescentes. Como uma dissidência do Madre Antônia, surgiu o CCMM. Enquanto o abrigo serviria de casa para as adolescentes, o CCMM seria o lugar onde elas ocupariam o tempo ocioso, para que não se deixassem levar pelas dificuldades da vida. Simone e todo o resto da sala ficaram quietas, atentas às palavras de Rosimeire. Era uma história que serviria de modelo para as meninas dali em diante. Foi difícil imaginar que a educadora que elas incluíam nas brincadeiras de menina seria personagem de uma vida tão cheia de aventura, que para a felicidade geral, teve um final feliz. Terminada a oficina, as meninas se dirigiram para o pátio

da Ong. Atravessaram o corredor, que abria espaço para os outros quatro cômodos – cozinha, sala de costura, sala de computadores e banheiro – e ficaram sentadas no chão de concreto. Naquela tarde, até a sombra castigava-as com o calor que fazia com que a sensação térmica não estivesse abaixo dos 30 graus. São poucos os dias quentes de céu limpo em Curitiba. Isso era motivo para quererem aproveitar muito bem o verão. Vendo a animação das meninas, Rosimeire saiu da Ong, andou cinco quarteirões até chegar a um minimercado e comprou um saquinho de bexigas. Encheu-as de água e jogou para as meninas brincarem. Olhando de longe, não se distinguia quem era a educadora e quem eram as alunas. Embora a aparência de mulher vivida, Rosimeire tem apenas 24 anos. Junto com as meninas, teria ao menos 12. Quando percebeu que o risco de se molhar ficava cada vez maior, ela se distanciou da brincadeira. “Eu tinha que pegar ônibus para ir pra casa”. Esse foi o único motivo pelo qual não continuou brincando com elas. Debruçada na janela da sala de computadores que dava para o quintal, Rosimeire analisava a cena das bexigas espatifandose no chão, causando euforia nas meninas que não fugiam da água refrescante. Lembrouse de quando tinha a mesma idade. Não se sentiu triste, apenas agradeceu por poder proporcionar aos outros o que ela não pôde ter quando era apenas uma menina.

Centro meio

de de

Convivência atividades

conscientiza crianças extra-escolares

e

adolescentes

por

O Centro de Convivência Menina Mulher (CCMM) existe há quase 14 anos. Com o apoio do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate a Fome e do Fundo Municipal de Assistência Social, a instituição atende meninas de seis a 18 anos, a maioria da Vila Parolin, em estado de vulnerabilidade. São famílias que, em sua maioria, trabalha na coleta de material reciclado e são beneficiárias do programa de Erradicação do Trabalho Infantil ou Bolsa Família


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Geral Comunicação

Coluna - Televisão

Curso discute jornalismo aplicado ao esporte

Feliz Episódio dos Namorados

Juliane Moura

Camila Picheth

A pró-reitoria de Extensão da Universidade Positivo organizou o curso Jornalismo Esportivo Aplicado, que teve seu início no dia 8 de maio, com aulas nas sextas e sábados, durante um mês. Esta foi a segunda edição do curso, que teve um acréscimo de 20% em relação ao do ano passado. Contando com ótimos palestrantes, ajudou a entender e a desenvolver os conhecimentos relacionados às mídias impressa, televisiva e na internet. Falou também sobre a história e as tendências do mercado de trabalho. O curso foi direcionado para estudantes de comunicação, profissionais da área e interessados no assunto. Para ministrar o curso, foram convidados jornalistas como Cristian Toledo, subeditor de esportes da Tribuna e apresentador do Tribuna no Futebol, da Rede Independência (RIC) e plantonista da rádio Transamérica; Irapitan Costa, setorista do Paraná Clube; Joyce Carvalho, repórter da Tribuna, produtora e apresentadora do Transamérica Esportes; o editor de esportes da Tribuna do Paraná e editor da Tribuna Radical, Carlos Henrique Bório; Leonardo Mendes Junior, da Gazeta do Povo; Marcelo Dias Lopes, editor no núcleo esportivo da Rede Paranaense de Comunicação (RPC).

Ao longo do curso foram apresentados diversos temas, desde ética na profissão, assessoria de imprensa e marketing, novos e velhos conceitos nas áreas, os diferentes modos de trabalho em rádio, TV, jornal e internet, até a história de todas as mídias. Cada assunto foi exposto de modo simples e direto, sendo discutido entre os jornalistas convidados e a turma composta por mais de 30 participantes. Com aulas dialogadas, descontraídas e com muita informação, o jornalista Cristian Toledo comandou os primeiros dias do curso, sempre na companhia dos demais jornalistas, que alternavam o comando de acordo com a área e o tema definido. Com muita interatividade, os dias de curso foram de grande proveito para os participantes, abrangendo os conhecimentos já existentes e acrescentando informações ainda desconhecidas. O jornalista Cristian Toledo falou como é importante esse tipo de conhecimento para quem deseja atuar no jornalismo esportivo. “A nossa ideia é tentar aproximar um pouco mais os estudantes e os recém-formados no mercado de trabalho. Ter um conhecimento de assuntos que as faculdades às vezes não conseguem mostrar justamente porque são instituições de ensino. Procuramos

“A princípio a pessoa tem que sempre se manter atualizada. Tem que ler jornais, buscar notícias, procurar novas informações, acompanhar programas televisivos, ouvir rádio” CRISTIAN TOLEDO,

JORNALISTA

mostrar um pouco a realidade do dia-a-dia do trabalho dos profissionais da área.” Participar de um curso de extensão é sem dúvida muito importante. Toledo fala sobre a diferenciação da primeira edição do curso neste ano. “Primeiro, o número de pessoas aumentou, principalmente o de estudantes. Na primeira edição nós tivemos muito mais participantes recém-formados ou até trabalhando há mais tempo no mercado. Neste ano mais da metade era de estudantes, o que para nós é bem legal. E acho que principalmente foi a integração do pessoal ao curso, todos me pareceram muito interessados. No ano passado todos queriam apenas saber a nossa preferência por times, faziam perguntas relacionadas as nossos colegas de trabalho. Neste curso foi diferente. os participantes se preocuparam principalmente nas questões relacionadas ao mercado esportivo, fizeram perguntas pertinentes sobre os temas. Achei bem legal, porque afinal são as preocupações que vocês estudantes têm que ter.” Para quem deseja seguir no ramo, Toledo deixa uma dica. “A princípio a pessoa tem que sempre se manter atualizada. Tem que ler jornais, buscar notícias, procurar novas informações, acompanhar programas televisivos, ouvir rádio”. Cristian também ressalta a importância do aperfeiçoamento. “Tem que se aprimorar em cursos de extensão, tem que fazer uma boa faculdade. Se possível ter uma pós-graduação e tem que acreditar no próprio esforço. Não pode se desesperar, tem que ter paciência, porque muitas as oportunidades não vêm no momento em que se espera, vêm depois. Por isso tem que continuar confiando, continuar acreditando sempre.” (Colaboração: Aline Reis)

Para comemorar a ocasião, juntei cinco dos melhores episódios que se passam durante o Dia dos Namorados. Tem episódios para todos os gostos: bonitinho, engraçado ou dramático.

All In The Family ER (6x14)

The One With Unagi Friends (6x17)

Em um dos episódios mais marcantes da série, esse dia dos namorados não foi nada bom para os que trabalhavam no hospital. Carter e Lucy são atacados por um paciente esquizofrênico e toda a equipe se mobiliza para tentar salvar a vida dos dois.

E é claro que Friends não poderia ficar de fora. Chandler e Monica comemoram o dia dos namorados duas semanas mais tarde, e combinam de fazer seus próprios presentes (os quais não são feitos por nenhum dos dois). Enquanto isso, Ross quer ensinar a Rachel e Phoebe uma técnica japonesa chamada “Unagi”.

Vineyard Valentine – Gilmore Girls (6x15) Lorelai, Luke, Rory e Logan viajam até Martha’s Vineyard para passar o fim de semana do Dia dos Namorados. Além do episódio acontecer fora de Stars Hollow, outra peculiaridade da trama é a ida dos quatro até uma academia de ginástica.

Bewitched, Bothered and Bewildered – Buffy (2x16) Na época em que Buffy ainda tinha uma trama decente, tiradas inteligentes e episódios comemorativos legais, o Dia dos Namorados é lembrado com mais um feitiço que sai pela culatra. Depois que Cordelia termina com Xander no Dia dos Namorados, ele tenta recuperá-la por meio de magia.

St. Valentine’s Day 30 Rock (3x11) Acidentalmente, Liz marca seu primeiro encontro com Drew no Dia dos Namorados. A partir de então tudo começa a dar errado, como um incidente com a porta do banheiro e uma revelação familiar. Enquanto isso, Jack planeja um jantar romântico com Eliza, mas as coisas não ocorrem como planejado quando ele é obrigado a ir à igreja.


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Geral Perfil

Doutor em MPB Advogado por formação e músico por natureza, Riad Bark canta e encanta

Fernando Emmendoerfer de Castro No ano de 1979, a Universidade Federal do Paraná (UFPR) formava mais uma turma do curso de direito. Entre os formandos, Riad Bark, 54, realizava o sonho de muitos, obtinha o diploma da consagrada universidade. Mas a vida lhe reservava muito mais realizações do que a advocacia poderia lhe proporcionar. Se a empatia do “Turco” poderia lhe credenciar sucesso em uma série de profissões, inclusive no direito, certamente nenhuma delas o permitiria alçar voos tão longos como a carreira de músico e proprietário de bar lhe possibilitaram. Exerceu a advocacia na área trabalhista por cerca de sete anos. Obteve certo êxito profissional trabalhando em prefeituras, mas, ainda assim, seu histórico de vida permite facilmente a compreensão relativa à mudança tão drástica de ofício. Componente de uma família que respira música, Riad já teve contato com o canto desde cedo, com o coral da família Bark, composto por ele e seus irmãos. E foi para unir o talento, o prazer e o trabalho que Riad abriu seu bar, o Ponto Final. Então, 1987 seria marcado como o ano em que a classe trabalhadora perderia um de seus defensores, para a MPB ganhar um de seus baluartes. No comando do reduto boêmio - tão original quanto duradouro-, Riad consegue manter a excelência e as raízes até hoje, fato cada vez mais raro no ramo de casas noturnas. Se a interferência da família de Riad o auxiliou para identificar seu dom, com certe-

za não foi a última vez que exerceu sua influência na vida do cantor. Ao contrário do que a vida boêmia de Riad poderia sugerir, as referências familiares podem ser notadas em seu ambiente de trabalho. O quibe, especialidade do bar do cantor, é preparado por sua mãe. Riad inclusive é extremamente modesto – tal como um bom filho – ao creditar o diferencial do Ponto Final ao quitute materno: “Acho que o bar não tem nada de mais. Eu me esforço, tento fazer o que o pessoal gosta. O quibe que minha mãe faz que é o diferencial único”, confidencia. E o resto da família? Estão juntos também. As duas filhas são frequentadoras assíduas do bar, enquanto seu sobrinho anota os pedidos dos clientes e sua esposa, Marlene, é responsável pelo caixa do estabelecimento. Essa proximidade que Riad mantém entre sua família e seu local de trabalho fala por si só sobre sua personalidade afetiva, o legítimo paizão. Além disso, não precisa nem inventar desculpas para ficar até tarde no bar com os amigos. Precisa de mais? Com seu tradicional bigode, cabelos escovados para trás e a barriga saliente – que demonstra sua autoridade botequeira – Riad sobe ao palco do Ponto Final por volta das 23 horas nas sextas-feiras e sábados, únicos dias em que o bar abre. Ao longo da noite, passeia pelo seu repertório, atende aos pedidos dos clientes e amigos, e como se fosse apenas mais um dos frequentadores assíduos do local, degusta doses e mais doses de Guaraná Diet com Bacardi: “Whisky jamais!”, exclama Riad para depois explicar

como evoluiu das doses de conhaque, passou pela fase da gim tônica, da cuba, até culminar no estágio atual, que ele mesmo denonima como “meiacuba”. “Se eu tomar 15 doses de cuba, é bem menos do que 15 doses de conhaque”, justifica o cantor. A personalidade simples de Riad se reflete no ambiente do Ponto Final e, em cada momento da noite, bar e cantor unem-se mais e mais para, em uníssono, trazer de volta aos mais antigos “aqueles tempos que não voltam mais”, e também para despertar nos jovens a paixão pela MPB. É com irreverência que Riad conta sobre essa união de gerações: “O bar é frequentado por todas as camadas e idades; eu estou na terceira geração já. Tem uma menina que vem aqui que diz ‘meu avô adorava tua voz’”. Tal como é evidente o toque de cantor em cada detalhe de seu bar, não é exagero afirmar que, quando Riad evoca canções de artistas como Chico Buarque, Vinícius de Moraes, Tom Jobim ou Toquinho, é como se os quadros destes grandes nomes da música ganhassem vida e sentassem nas mesas quadradas do local para apreciar o show. Falando em mesas, essas - ao lado das cadeiras - parecem dançar timidamente quando os mestres Cartola, Noel Rosa e Adoniran Barbosa se fazem presentes na voz do bardo. Até mesmo as paredes verdes e antigas cumprem sua função, que vai além de reter toda a fumaça do local, fato que, apesar de não ser

Quando Riad evoca canções de artistas como Chico Buarque, Vinícius de Moraes, Tom Jobim ou Toquinho, é como se os quadros destes grandes nomes da música ganhassem vida e sentassem nas mesas quadradas do local para apreciar o show. exatamente um problema, às vezes incomoda o cantor: “No meu bar muita gente reclama da fumaça, se vier aquela lei que tem em São Paulo, eu não ligaria tanto assim”, afirma Riad, referindo-se à lei que proíbe o fumo em locais fechados. O vozeirão de Riad, projetado para fora do bar, é o anúncio da grande noite que se aproxima, sendo essa a principal e verdadeira função

das paredes locais. Mesmo com todo o sucesso profissional e pessoal, Riad é precavido e se antecipa a qualquer infortúnio que a vida possa lhe reservar - continua pagando anualmente a OAB. “Vai que um dia eu perco a voz”, justifica. Os amantes da MPB fazem votos sinceros para que isto jamais aconteça – ou ao menos que Riad seja eterno enquanto dure.


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Curitiba, terça-feira, 9 de junho de 2009

Ensaio Castelo do Rei Ludwig II

Um castelo de

contos de fadas

Texto e fotos: Gustavo Krelling Está nas geladas terras de Füssen, no sul da Alemanha, um castelo romântico, típico de contos de fadas que inspirou até Walt Disney. O castelo é considerado um tanto antiquado para a época. Isso porque, na metade do século XIX, os castelos estavam fora de moda. Mas o rei da Baviera, Ludwig II, era fascinado pelas óperas de Richard Wagner e pela monarquia francesa da época de Luís XVI, por isso construiu o castelo. Muitos cômodos são inspirados em óperas de Wagner, como Tristão e Isolda e Parsifal. Não é possível fotografar no interior do palácio, mas é claro que os orientais se arriscam. O castelo é um dos únicos pontos turísticos da Europa, descartando Portugal, que oferece guias de áudio em português.


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