Comunicações - Junho 2020

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//revista JUNHO DE 2020 ANO LXVIII • N o 06

PROVÍNCIA FRANCISCANA DA IMACULADA CONCEIÇÃO DO BRASIL

EM TEMPO DE PANDEMIA


//sumário PALAVRA DO MINISTRO PROVINCIAL

““Estende a tua mão ao pobre””.............................................................. 319 Carta da CFMB ao povo brasileiro......................................................... 321

FORMAÇÃO PERMANENTE “A vocação e o testemunho dos Protomártires do Marrocos e do jovem Fernando de Bulhões”, artigo de Victor Camacho ......................................................................... 322

FRATERNIDADES

ENTREVISTA: FREI JOSÉ ARIOVALDO DA SILVA

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O abraço solidário às famílias enlutadas ......................................... 324 ESPECIAL SANTO ANTÔNIO .............................................................. 328 Solenidade de Corpus Christi é celebrada na Paróquia São Luiz Gonzaga .............................................................. 347 Paróquia Santa Clara de Imbariê em tempos de pandemia .................................................................................. 348 “Especial com Maria” marca o encerramento do Mês Mariano em Petrópolis ............................................................. 356 SÉRIE NOSSOS FRADES: Frei José Ariovaldo da Silva ...................................................................... 359 Frei Clarêncio lança o livro: “Ministério da Esperança – roteiros para velórios e exéquias” ..................... 365

EVANGELIZAÇÃO

“É TEMPO DE OLHAR PARA O FUNDAMENTO DE NOSSA OPÇÃO”

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Uma Revolução pela Laudato Si’ .......................................................... 366 “É tempo de olhar para o fundamento de nossa opção”, texto de Frei Marx R. dos Reis ............................................... 367 Aniversário da Laudato Si’ na FIMDA ................................................. 369 “Escolhas Felizes” é tema de aniversário da FAE .......................... 370 Missa do Dia das Mães disponível no Youtube ........................... 371 Tenda Franciscana: ação contra a fome no Rio ........................... 372 Na pandemia, os comunicadores devem ser portadores da esperança .................................................................. 374 Rádios Coroado e Movimento: 65 anos em Curitibanos ................................................................................................ 375 Missão no Marrocos: Fraternidade Franciscana de Rabat ................................................................................... 376 Frente da Educação realiza “meet on-line” .................................... 377 “A economia de Francisco”, artigo de Frei Luiz Iakovacz ....... 380 Pró-Vocações: Os números da generosidade ............................... 381

DEFINITÓRIO PROVINCIAL

Reunião na Sede Provincial no dia 17 de junho.......................... 382

PROVÍNCIA FRANCISCANA DA IMACULADA CONCEIÇÃO DO BRASIL Rua Borges Lagoa, 1209 CEP 04038-033 | São Paulo - SP www.franciscanos.org.br ofmimac@franciscanos.org.br

OFM

Mexicano é o novo reitor da PUA ........................................................ 385 O racismo sistêmico deve acabar: declaração dos Frades Menores dos EUA ................................................................ 385

FALECIMENTO

Frei Rui Guido Depiné ................................................................................. 386


palavra do ministro provincial//

“Estende a tua mão ao pobre”

A

s festividades de Santo Antônio, neste mês de junho, são sempre um tempo intenso na vida da maior parte de nossas presenças, principalmente os santuários e as paróquias. Ele é um dos nossos mestres no carisma franciscano e é dos santos mais queridos de toda a Igreja. Este ano de 2020 marca a celebração dos 800 anos da vocação franciscana de Santo Antônio. Logo depois de sua ordenação sacerdotal, que foi em 1219, ele teria hospedado no Convento Agostiniano de Coimbra cinco frades franciscanos missionários que iriam para Marrocos. Conversou muito com eles e sentiu crescer em seu peito o desejo de ser menor e missionário. Este desejo arde muito mais ainda, quando em janeiro de 1220, eles sofrem o martírio e se tornam os primeiros mártires da Ordem Franciscana. Os corpos destes protomártires voltam a Coimbra, onde são venerados e sepultados. Diante deste testemunho de fé, também ele pede para se tornar franciscano e partir em missão. No mês de junho daquele ano recebe o hábito, o nome de Antônio e o envio missionário para o mesmo lugar em Marrocos, como era seu desejo de martírio. Nem tudo aconteceu conforme o planejado. Importa não tanto os fatos da história, mas aquilo que foi a motivação que o chamou para ser franciscano. Apesar de jovem, era profundo estudioso e conhecedor da Palavra. Abraça esta forma de vida franciscana porque quer ser Evangelho vivo. A Palavra acolhida em seu íntimo não fica estagnada, mas quer ser anunciada, vivida e torna-se seu novo plano de vida. A Palavra move a vida de Antônio. É ela mes-

ma que em Antônio vai ao encontro dos homens e mulheres do seu tempo ansiosos por conhecer a Verdade, vai ao encontro dos pecadores, restaura a paz e a justiça, mesmo em grandes tiranos, revela a verdade e a força dos sacramentos e manifesta a grandeza da misericórdia e da bondade de Deus. Por isso, é o defensor dos fracos, auxílio dos doentes e desesperados. Volta-se cheio de ternura e afeto aos pobres e famintos, garantindo-lhes o pão que nasce da partilha. Estes são alguns dos sinais do homem considerado “Arca do Testamento”, “Trombeta do Evangelho” e proclamado Doutor da Igreja. Mas, um traço importante na vocação de Antônio é que esta Palavra Viva também o faz compreender que ele é apenas instrumento e servidor. Por isso, entrega-se por COMUNICAÇÕES

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//palavra do ministro provincial inteiro, cheio de fé e com humildade, aos seus desígnios. Não tem medo de gastar a vida sendo irmão, servindo e rezando no recolhimento de um simples eremitério. Podemos entender a generosidade e a plenitude de sua resposta vocacional a partir de suas próprias palavras: “...os vários testemunhos que podemos dar a Cristo, como a humildade, a pobreza, a paciência e a obediência: falamos essas línguas quando mostramos aos outros essas virtudes, praticadas em nós mesmos. O falar é vivo quando falam as obras. Peço-vos: cessem as palavras e falem as obras. Somos cheios de palavras, mas vazios de obras!”1 Com tudo isto, vemos que Santo Antônio, com sua vida, palavras e obras, tornou-se uma das mais belas expressões de encarnação do carisma franciscano. Como Francisco, teve os olhos e o coração voltados para o Evangelho, feito Forma de Vida. A experiência de Deus é amadurecida na busca lúcida da verdade que, por sua vez, impulsiona à partilha e ao anúncio. Tudo isto se traduz num caminho intenso em direção ao outro, com atitudes de cuidado e desejos de salvação. E hoje, celebrar os 800 anos da vocação franciscana de Santo Antônio significa que este chamado de Deus permanece atual e necessário e pede de nós a coragem de uma resposta generosa e atenta aos desafios e sinais do nosso tempo. Vivemos um tempo ainda complicado pela atual pandemia do Coronavírus. O isolamento e distanciamento necessários fizeram com que os festejos de Santo Antônio tivessem que ser reinventados em nossas fraternidades e presenças evangelizadoras. Um tempo complicado pelos sinais evidentes da doença e da morte: quase dez milhões de pessoas infectadas, quase meio milhão de mortos no mundo e mais de 50 mil no Brasil e, isto em dados oficiais e sem uma correta notificação em toda parte. E, diante deste quadro desolador, assusta presenciar o descaso daqueles que têm a missão de governar para cuidar e proteger. Ficamos estarrecidos com o crescimento das atitudes de ódio, de agressividade, de preconceito e de racismo. Esta é uma doença grave que fere a vida, muito mais do que o vírus. É também contagiosa e, mais triste ver que é capaz de até ser feita em nome da religião e do cristianismo. Vivemos num tempo que precisa de novos vocacionados e vocacionadas, pessoas chamadas para

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abraçar a força salvadora de Deus, traduzida em práticas de amor, de solidariedade e de cuidado! Graças a Deus, vemos as atitudes bonitas de tantos cristãos, principalmente com os que mais precisam, os doentes, os idosos, os grupos de risco e os pobres. Também são belas as ações a partir de nossas fraternidades, presenças e instituições. A partir do testemunho vocacional de Antônio nascem também gestos para toda a Igreja. Já é o quarto ano em que o Papa Francisco, no dia de Santo Antônio, faz o seu convite para o Dia Mundial dos Pobres. Neste ano, ele será celebrado no dia 15 de novembro e terá como inspiração bíblica: “Estende a tua mão ao pobre” (Eclo 7,32). Em sua mensagem, o Papa nos adverte que “são inseparáveis a oração a Deus e a solidariedade para com os pobres e os enfermos. Para celebrar um culto agradável ao Senhor, é preciso reconhecer que toda a pessoa, mesmo a mais indigente e desprezada, traz gravada em si mesma a imagem de Deus. [...] Estender a mão é um sinal: um sinal que apela imediatamente à proximidade, à solidariedade, ao amor.” Assim, estender a mão não é uma ação facultativa, mas uma consequência da autenticidade da fé que professamos. E o objetivo de todas as nossas ações “só pode ser o amor. E nada deve distrair-nos dele”. Santo Antônio é representado, muitas vezes, com a mão estendida ou para o Menino-Palavra ou para dar o pão. Estes gestos antonianos e as provocações do Santo Padre nos pedem novas relações, fundadas na fé e no amor. Como frades menores, como franciscanos e franciscanas, como devotos de Santo Antônio, somos vocacionados, chamados por Deus para entregarmos a nossa vida e a nossa sensibilidade para que esse Deus que ama e quer salvar habite o nosso coração, como habitou o coração de Antônio, e nos transforme em instrumentos portadores de sua graça e do seu amor. A resposta vocacional franciscana não é para fugir do mundo, mas é vida no mundo onde queremos testemunhar e anunciar que mulheres e homens, a criação toda, possui a dignidade de filhos e filhas de Deus e que juntos vamos construir relações novas, com lugar para todos e, portanto, mais fraternas.

Frei César Külkamp, ofm Ministro Provincial

1 Santo Antônio: Sermões. Editora Vozes, 2019, Pg. 317.


mensagem//

Carta da CFMB ao povo brasileiro “Quem de vós dá ao filho uma pedra, quando ele pede um pão? Ou lhe dá uma cobra, quando ele pede um peixe?” (Mt 7,9-10) São Paulo, 12 de junho de 2020. Estimados irmãos e irmãs, Paz e Bem! xatamente no dia compreendido entre duas datas centrais para a vida da Igreja e para a história franciscana, quando acabamos de celebrar a Festa Eucarística de Corpus Christi e estamos às vésperas de comemorar Santo Antônio, nós, Ministros Provinciais e Custódios das entidades da Ordem dos Frades Menores (OFM) no Brasil, decidimos nos manifestar a todo o povo brasileiro sobre o momento sanitário, político, econômico, religioso e social que todos estamos vivendo. O compromisso irrenunciável com o Evangelho pelo qual escolhemos reger as nossas vidas é vínculo que nos impele a este pronunciamento em data tão significativa. Partindo da provocação que Jesus apresenta no Evangelho de Mateus, é muito desolador perceber o quanto nosso país tem recebido pedras e pedradas duras e dolorosas daqueles que deveriam lhe oferecer o pão. Igualmente penoso é notar que aqueles cujo o compromisso seria o de possibilitar a pesca em situação de “maré baixa” preferem investir no desmando e na desorganização, gerando medo e insegurança. E o que é mais grave: muitas vezes tais inversões se realizam em nome da fé em Deus. É célebre a exortação de Santo Antônio proferida em um Sermão por ocasião de Pentecostes: “O falar é vivo quando falam as obras. Peço-vos: cessem as palavras e falem as obras”. É claro que o santo se utiliza deste jogo

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de palavras para abordar positivamente a importância da coerência no testemunho cristão, quando palavra e ação devem caminhar juntas. No entanto, em nosso país esta lógica foi virada do avesso e, nas ações e opções daqueles que nos dirigem, percebemos uma sólida e sórdida coerência de quem, com a boca, pronuncia palavras de descaso para com a vida - já bem conhecidas e divulgadas – e que, na prática, promove disputas mesquinhas, desencontros, ambiguidades e falta de coordenação e planejamento nas ações, tornando ainda mais letal a força do vírus. Além do avanço exponencial do número de mortes, ainda temos de lidar com frequentes ameaças à democracia, com o desprezo à ciência, com a destruição desenfreada do meio ambiente, com o agravamento da situação de pobreza e miséria e, para completar, com o clima de ódio e beligerância que volta a ganhar fôlego no país. Também nos machuca profundamente o oportunismo corrupto daqueles que, diante da emergência do momento, aproveitam-se para lucrar criminosamente à custa de compras superfaturadas na aquisição de materiais que nunca chegam e de obras que jamais terminam. Em vez do pão do cuidado e da proteção da vida, oferecem-nos as pedras da indiferença, do egoísmo e da agressividade. Manifestam-se ainda como chaga dolorosa também as inúmeras demonstrações de racismo e preconceitos de

diferentes ordens e origens. Cada gesto desta natureza representa uma derrota para a humanidade inteira. Na qualidade de herdeiros de São Francisco no seguimento do Evangelho, nosso posicionamento diante de qualquer forma de racismo ou preconceito, pontual ou estrutural, deve ser de repulsa imediata e inegociável, a fim de fazermos jus à consagração que abraçamos livremente. Santo Antônio destacou-se em sua vida como o homem da generosidade e da esperança. Também nós, frades menores, desejamos nos esforçar para encontrarmos, em meio a tantos sinais de morte e medo, a força do Espírito de Deus que, na Paixão do Filho, fez nascer da cruz – a “árvore” da dor e do sofrimento – o fruto maduro que trouxe ao mundo a paz e a salvação. Como irmãos e menores, em nossos pecados e limites, em espírito de comunhão e fidelidade à Igreja e ao Papa Francisco, colocamo-nos à disposição de todos aqueles e aquelas que, preocupados com a gravidade do momento que vivemos, desejem dialogar na busca de possíveis caminhos de superação da ampla crise que estamos atravessando.

Frei César Külkamp Presidente da CFMB

Entidades que compõem a Conferência dos Ministros Provinciais do Brasil (CFMB) Custódia Franciscana das Sete Alegrias de Nossa Senhora Custódia Franciscana do Sagrado Coração de Jesus Custódia São Benedito da Amazônia Província do Santíssimo Nome de Jesus do Brasil Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil Província Franciscana da Santa Cruz Província Franciscana de Santo Antônio do Brasil Província Franciscana de São Francisco de Assis Província Franciscana Nossa Senhora da Assunção COMUNICAÇÕES

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A vocação e o testemunho dos Protomártires do Marrocos e do jovem Fernando de Bulhões Piero Casentini

a primeira metade do século XIII, diante do ímpeto das Cruzadas, o Cristianismo volta a valorizar mais do que nunca a santidade conquistada pelo martírio. Entretanto, a morte heroica em defesa da fé católica não seria mais aquela sofrida durante a perseguição do Império Romano, mas em decorrência do embate contra os muçulmanos. Enquanto entre os cavaleiros se promovia o conflito bélico, entre os religiosos a palma do martírio deveria vir por meio da pregação no Oriente. Embora em diversos momentos o Papado apelasse pela cautela em relação à busca do martírio, durante o século XIII, com os movimentos de Vita Apostolica que ansiavam pelo retorno a um Cristianismo aos moldes do início da missão dos apóstolos, religiosos e até mesmo leigos se lançavam em terras conquistadas pelos muçulmanos com o intuito de, por meio do martírio, obterem a santidade. Entre os Frades Menores, Ordem cuja forma de vida proposta pelo jovem Francisco Bernadone da cidade de Assis, aprovada por volta de 1209

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pelo Papa Inocêncio III, não foi diferente. Aqueles que abraçavam a vida de austeridade, desapego e itinerância ansiavam obter a santidade por meio do seguimento ao Evangelho que também englobava entregar a vida pela fé em Cristo até as últimas consequências. A Ordem de irmãos menores e penitentes se expandiu por várias regiões da Europa e logo buscou também promover missões entre os muçulmanos. O próprio Francisco chegou a ter contato com os sarracenos em 1219 durante sua viagem ao Egito, porém, em 1220, cinco minoritas tiveram outra experiência missionária, mas que desta vez culminou com o martírio. O episódio contribuiu também para o estabelecimento das primeiras fraternidades franciscanas em solo português. A tradição do século XVI, narrada nas crônicas do português Frei Marcos de Lisboa, informa que no ano anterior ao estabelecimento dos frades em Portugal, em um Capítulo Geral, seis religiosos - Vital, Bernardo, Pedro, Adjunto, Otto e Acúrsio - teriam

sido enviados ao Marrocos, a fim de pregarem a fé católica aos sarracenos. O primeiro deles, Frei Vital, que havia sido designado como o guardião da missão, adoeceu em Aragão, mas os outros cinco seguiram viagem. No caminho foram recebidos em Coimbra pela Rainha Urraca. Os frades se dirigiram para Sevilha, onde teriam pregado publicamente aos muçulmanos. O sultão os expulsou, enviando-os ao Marrocos. Em Marrakesh, os missionários teriam se hospedado na casa do português Dom Pedro, que era irmão do Rei Afonso II. Novamente pregaram diante dos mouros e, após serem expulsos pelo califa, teriam retornado ao Marrocos, onde novamente proferiram exortações publicamente. Após serem despidos e surrados pela população local, foram decapitados. A monarquia portuguesa logo fomentou a devoção aos mártires minoritas. Desta forma, o Infante D. Pedro suplicou aos mouros que lhe entregassem os restos mortais dos religiosos mortos no Marrocos e os enviassem a Portugal. O fato marca, portanto, a fundação das primeiras fraternidades franciscanas em Portugal. O estabelecimento da Ordem em Coimbra tem início a partir da doação de um antigo hospital de acolhimento de peregrinos dedicado a Santo Antão, em Olivais, pela Rainha Urraca, esposa de Afonso II. A fama e o testemunho daqueles homens simples despertaram a vocação de diversos jovens portugueses, sendo um dos primeiros o cônego regrante Fernando Martins de Bulhões. O jovem Fernando, nascido em Lisboa, no seio de uma família abastada, já na infância estudou na Sé de sua cidade natal. Depois, tornou-se cônego ao ingressar no mosteiro de São Vicente e, após passar um tempo


formação permanente// nesta casa, solicitou a sua transferência para o mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra. Embora tivesse tido uma formação teológica sólida, ao que parece, o lisboeta era um sonhador, muito mais do que ser religioso e presbítero, desejava ser santo, o que o fez solicitar a dispensa dos seus superiores para então ingressar na Ordem dos Frades Menores. Concedida a dispensa, fez seu noviciado entre os minoritas no Mosteiro de Santo Antão, onde alterou seu nome para Antônio e, em seguida, lançou-se em uma missão no Oriente para que, assim como os cinco confrades martirizados no Marrocos, ele também pudesse alcançar a santidade por meio da defesa da fé cristã. A sua tentativa, entretanto, mostrou-se frustrada devido a uma enfermidade no percurso da sua viagem e uma tormenta que fez com que sua embarcação rumasse para o Sul da Península Itálica. Depois disso, vai para o Norte da região onde viveria o resto de sua breve vida. Antônio, depois de Francisco e Clara, um dos maiores santos da família franciscana, provavelmente pouco contato teve com o Poverello de Assis. Ao que tudo indica, existe a possibilidade de terem se encontrado brevemente por ocasião do Capítulo Geral de 1221 em que o frade português estivera presente. Talvez, Antônio tenha tido conhecimento da Ordem onde acabara de ingressar muito mais por meio do martírio dos seus irmãos do Marrocos do que propriamente pela figura do assisense. Contudo, o

que é necessário destacar em sua vida é a providência de Deus. Se os cinco frades não tivessem passado por Portugal em sua viagem ao Oriente, talvez Antônio continuasse

cônego e provavelmente morreria com o nome de Fernando. No entanto, a vocação e os desígnios de Deus não se explicam. O fato é que, em 1220, ele vestiu o hábito simples em forma de cruz e abraçou a forma de vida evangélica aos moldes de Francisco. Como frade menor, Antônio contribuiu para a formação intelectual de seus confrades e aprimorou a ação pastoral dos religiosos da Ordem: lecionou noções elementares de Teologia na casa de estudos gerais em Bolonha,

instruindo aqueles que fossem pregar (uma exigência do papado). Outra contribuição foram seus Sermões Dominicais e Festivos para todo o ano litúrgico que serviram de manuais de pregação para os minoritas. Depois de desempenhar a função de custódio em Limognes, no Sul da França, pregando em diversas missões promovidas pelo papado na região, seus últimos dias de vida transcorreram em Pádua, no Norte da Península Itálica, onde pregou intensamente durante a Quaresma de 1231, vindo a falecer prematuramente em junho do mesmo ano. Se não alcançou sua santidade no Oriente, assim como os cinco Protomártires do Marrocos, Antônio deu sua vida ao Evangelho, consumindo não só a sua mente, mas também seu corpo. Com uma saúde frágil, morreu aos 36 anos, aclamado pelo povo de Pádua como santo, o que fez o Papa Gregório IX reconhecê-lo como tal em menos de um ano. Hoje, um dos santos mais famosos e populares da Igreja e uma das figuras mais importantes da Família Franciscana, Antônio, outrora Fernando, nos ensina que nem sempre é possível que tudo o que foi planejado em nossa vida se concretize. Propósitos e desejos são necessários, pois são essenciais para manter viva a chama da vocação. Todavia, vocação nada mais é que se entregar à vontade de Deus para que sejamos operários na edificação do seu Reino.

Victor Mariano Camacho Doutorando em História Comparada pela UFRJ

Para saber mais: GRANDON, Patrício. Santo Antonio nas Fontes Franciscanas e sua inserção no pauperismo evangélico-minorítico das origens. In: FILHO, Joaquim Mamede (ed). Antônio, homem evangélico na América Latina. Santo André: O Mensageiro de Santo Antônio, 1996. GRÉGOIRE, Reginald. Dimensione storica e construzione agiografica nell biografie antoniane. In: Il Santo: revista franciscana di storia dottrina arte, Padova, v. 36, serie II, fasc. 12, p. 336-345, 1996. HARDICK, Lothar. Santo Antôno: vida e doutrina. Petrópolis: Vozes, 1991.

LISBOA, Marcos de. Chronicas da Ordem dos Frades Menores do Seraphico Padre San Francisco. Lisboa: [s.n.], 1556 p. 147-149. LOMBARDI, Teodosio. Sant’ Antonio di Padova maestro di teologia a Bologna. Il problemi degli estudi agli inizi dell’ordine francescano. In: POPI, Antonio (org). Le fonti e la teologia dei sermoni antoniani. CONGRESSO INTERNAZIONALE DI STUDIO SUI SERMONES DI S. ANTONIO DI PADOVA. Padova, 1981. Atti... Padova: Edizioni Mensagero, 1981. p.797-819. MANSELI, Raoul. I primi cento anni di storia franciscana.

Milano: Edizionni San Paolo, 2004. MERLO, Grado Giovanni. Em nome de São Francisco. Petrópolis: Vozes, 2005. PACHECO, Milton Pedro Dias. Os protomártires do Marrocos da Ordem de São Francisco. Revista lusófona de ciências das religiões. Campo Grande, n. 15. p. 85-108, 2009. VAUCHEZ, André. A espiritualidade na Idade Média Ocidental. Lisboa: Estampa, 1995. VITA PRIMA DI S. ANTONIO, o “Assidua” (c. 1232). Padova: Edizioni Messagero, 1981.


O abraço solidário às famílias enlutadas D

iante da tristeza de milhares de pessoas que nem podem se despedir de seus entes queridos, vítimas do Covid-19 e outras causas, a Província Franciscana da Imaculada Conceição deu início, no dia 10 de maio, à “Celebração do Abraço e da Esperança”, através TVFranciscanos, seu canal no Youtube. Desde então, as Fraternidades da Sede Provincial, do Sagrado Coração de Jesus (Petrópolis, RJ); do Convento São Francisco (São Paulo, SP); da Paróquia Santo Estêvão (Ituporanga, SC); da Paróquia São Pedro Apóstolo (Pato Branco, PR); da Paróquia Santa Inês (Balneário Camboriú, SC); e do Convento da Penha (Vila Velha, ES) se revezaram nas celebrações diariamente, oferecendo conforto e solidariedade às pessoas que os procuraram de todo o país. “O empenho das Fraternidades envolvidas desde o início da proposta e a gratidão das famílias atendidas vêm confirmar a importância desta iniciativa. Mostram o quanto a força da solidariedade é capaz de superar as distâncias e outros limites para se fazer presente na vida daqueles que mais precisam. Neste caso, não oferecemos nada de material, mas com todo carinho, temos procurado levar a esperança de um abraço solidário àquelas famílias que perderam seus entes queridos e não tiveram a chance de se despedir adequadamente”, avalia o Vigário Provincial e Secretário da Evangelização da Província, Frei Gustavo Medella. Segundo Frei Medella, diante da tristeza e dor das famílias sem conseguirem se despedir de seus entes que-

A equipe da Pascom de Balneário Camboriú com Frei Daniel

ridos e tampouco fazer um ritual de despedida, era preciso se aproximar “deste campo do sofrimento humano no qual a Igreja também é chamada a ser samaritana junto às famílias enlutadas”. Essa celebração, segundo o Vigário Provincial, busca oferecer, pelos meios digitais, uma celebração simples, mas afetuosa, um momento

de memória, gratidão e consolação a partir da fé cristã. Para Frei Gustavo, o direito sagrado de cada um ver e tocar seu ente querido que faleceu é algo presente no profundo da identidade humana e também na tradição cristã. “Essa dimensão simbólica do abraço àquele que partiu nutre a certeza de que


Marilisa Flissak

ele não partiu a sós. Por isso, queremos levar, ainda que virtualmente, o abraço de conforto e solidariedade para aqueles que ficam, além do grande abraço de Deus, Pai de toda Consolação que nos envolve em Cristo Jesus”, explica. Para Frei Alessandro Dias Nascimento, do Convento da Penha, embora ainda esteja se familiarizando com os novos meios de comunicação, tem sido um gesto muito positivo chegar “aos corações das pessoas”, como mensageiros de Jesus e da paz. Para ele, a experiência de celebrar as exéquias foi adquirida no tempo dos estudos de Teologia e, ao longo dos anos, em outras realidades pastorais. “Isso nos deu uma certa ‘autoridade’ para levar o conforto sincero e solidário às famílias que sofrem a dor da perda de um ente querido”. O estudante de Teologia, Frei Jhones Martins, também lembra este aprendizado pastoral em Petrópolis, mas destaca a novidade virtual que não estava nos planos da formação. “Os frades estudantes daqui já estão acostumados a fazerem as exéquias todos os dias. Quando a gente se viu nesse novo modo de evangelizar, que agora é virtual, percebemos que não estamos longe das pessoas enlutadas, mesmo não podendo estar presencialmente nas celebrações”. Para ele, essa adaptação ao virtual “serviu para percebermos como a Igreja e como nós estamos pouco inseridos nesses meios de comunicação”. Segundo ele, a Igreja só tem a ganhar com essa nova realidade. “Essa celebração está nos ajudando a ter esse outro olhar. Mesmo distantes, a comunicação virtual nos aproximou”, reforçou. Para Frei Evandro Balestrin, da Fraternidade de Santo Estêvão, em Ituporanga (SC), a Fraternidade “ficou feliz” por participar deste projeto. “Eu sei que não é felicidade nenhuma rezar a morte ou fazer o enterro de alguém, mas a nossa felicidade é estar colaborando e participando deste trabalho evangelizador da Província”, explicou. Segundo ele, a Fraternidade optou por não contar com a presença de leigos na celebração, para que pudessem fazer o isolamento em suas

casas. “Nós temos dois frades que tocam violão, então, podemos revezar, partilhando tudo de uma forma bem fraterna”, disse. Frei Evandro destacou a força da fé e a importância desta celebração. “Podemos não nos abraçarmos, estarmos próximos, chorarmos juntos, mas o abraço da fé, o abraço que Cristo nos dá, conforta muito na hora de dor”, disse. Para o guardião do Convento São Francisco, Frei Mário Tagliari, diariamente tem aumentado o número de pessoas que solicitam orações, enviam fotos das pessoas falecidas e participam das celebrações. “Mas é gratificante receber o retorno das pessoas, agradecendo, dizendo que foi confortante, que foi um momento muito especial de oração, de apaziguar e serenar a própria tristeza e angústia, pelo fato de não ter acontecido um velório, um enterro em que pudessem expressar o carinho, o amor, afeto pela pessoa falecida. Penso realmente que é uma celebração que atinge o seu objetivo de ser esse momento de oração e de encontro com Deus no momento decisivo diante da morte de alguém muito próximo”, acrescentou. A coordenadora de Liturgia da Paróquia de São Pedro de Pato Branco (PR), Marilisa Flissak, falou de sua alegria por participar das celebrações do Abraço e da Esperança. “Eu queria primeiramente parabenizar a Província pela iniciativa de ter organizado essas celebrações, onde tantas pessoas podem acompanhar através das mídias sociais, e onde podem rezar por aqueles que não puderam, talvez, no último momento da vida de seus entes queridos estarem próximos. É muito gratificante para a gente poder levar um abraço, mesmo estando longe, uma palavra de conforto a tantas famílias enlutadas”, observou. A equipe da Pastoral de Comunicação da Paróquia Santa Inês, em Balneário Camboriú (SC), define esse


encontro celebrativo como “um ponto de luz e esperança” neste momento de dificuldade. “Mesmo estando sozinhos dentro da igreja, sentimos a presença e o amor de diversas famílias que também nos abraçam. É um ato de empatia e de solidariedade mútua”, avalia a Pascom. “Quando cremos, a nossa tristeza se torna menos

pesada. Sintam-se sempre próximos de nós, franciscanos”, dizia na primeira celebração o Definidor Provincial e guardião, Frei Daniel Dellandrea. .

Juliana de São João de Meriti, RJ

Essa experiência, promovida pela Província Franciscana da imaculada Conceição, é um alento para nós que somos familiares e que perdemos pessoas queridas para esse vírus que

tem assolado muitas pessoas que têm vivido esse momento difícil, de você não poder dar um adeus, não poder se despedir de seu familiar. É uma celebração belíssima e que toca o nosso coração e nos traz um alento de que nós oferecemos ao Nosso Senhor a alma do nosso ente querido falecido. É uma celebração que dá a certeza de que entregamos a alma do nosso ente querido. Uma experiência muito importante.

Avô de Frei Tiago Elias é vítima da Covid-19

Dona Irene Elias, viúva do sr. Antônio Elias avô do Frei Tiago Gomes, acompanha a “Celebração do Abraço e da Esperança”, em São Gonçalo (RJ).

“Que nossa oração possa ser uma forma de dizer aos entes queridos que partiram que o amamos e que sempre vamos guardá-los no coração. Que possamos sentir o abraço de Deus que acolhe estes entes queridos e abraça calorosamente cada um de vocês que nos acompanha”, disse Frei Jorge Paulo Schiavini, na Igreja do Sagrado Coração de Jesus de Petrópolis (RJ), durante a Celebração do Abraço e da Esperança, no dia 11 de maio. Entre as intenções estava o avô do Frei Tiago Gomes Elias, que falecera na véspera (10/05), vítima da Covid-19, aos 85 anos. Para Frei Jorge, este é o momento de partilhar o precioso dom da fé

que nos ilumina, aquece e nos conduz nos momentos mais difíceis de nossas vidas. Para Frei Tiago, a fé na ressurreição não é um mero acreditar: “É uma experiência única e verdadeira quando vivenciamos a perda de um ente querido e recebemos da Mãe Igreja o consolo e o conforto do encontro com o Sumo Bem, Deus”. Depois, no canto do Magnifcat, Frei Tiago Elia, depositou, aos pés do ambão da palavra, um pouco de incenso. “Junto com o incenso, suba até Deus a nossa oração e a vida dos irmãos e irmãs que partiam. Que o Senhor, Deus da vida, os acolha neste momento”, rezou.


Frei César homenageia Frei Rui Na sexta-feira, 12 de junho, a Paróquia Santa Inês, em Balneário Camboriú (SC), presidiu a Celebração do Abraço e da Esperança, que também teve entre as suas intenções Frei Rui Guido Depiné, que faleceu na madrugada deste dia. O pároco e definidor provincial, Frei Daniel Dellandrea, presidiu a celebração. Na sua reflexão, lembrou dos falecidos: Frei Rui Depiné, Luiz Carlos Rezende, Iracema Julia Geminiani, Ana de Souza, Getrudes Melo, Paulo Redondo e Maria de Fátima Cruz. O Ministro Frei César Külkamp, fez uma mensagem carinhosa ao seu confrade. “Nesta madrugada do dia 12 de junho, nossa Fraternidade Provincial foi visitada pela irmã morte e devolveu a Deus o dom da vida do Frei Rui Depiné. Eu gostaria de dedicar um instante desta celebração à memória desse confrade, verdadeiro frade menor, que por mais de 40 anos dedicou-se, de corpo e alma, aos mais pobres e aos doentes, especialmente os hansenianos do Hospital São Roque, em Piraquara, no Paraná. São Francisco de Assis, no

século XIII, vai ao encontro destes que eram os mais pobres entre os pobres. E ali relata ter acontecido sua verdadeira conversão. Os vários ramos nascidos do franciscanismo, ao longo da história, procuraram manter presença junto a esses irmãos esquecidos da sociedade, mas preferidos de Deus. Mesmo no início do século XX, as pessoas hansenianas sofreram todo tipo de privação e discriminação. A Colônia São Roque foi criada nos anos 20 pelo Governo do Paraná. Os frades menores de nossa Província logo criaram ali uma capelania. Precisava ser numa área isolada e era difícil conseguir profissionais de saúde para este trabalho. Frei Nicodemos, um frade alemão e primeiro capelão, juntamente com o Governador conseguiu sensibilizar para esta missão a Congregação das Irmãs Franciscanas de São José, presentes na Alemanha e na Holanda. Com muita disposição e ardor em servir aos abandonados de seu tempo, elas chegaram no mesmo ano a Piraquara. Depois de servir nas Paróquias de Duque de Caxias (Rj), Concórdia

(SC), Frei Rui aceitou o convite da Província para ser presença nesta capelania ao lado do trabalho generoso e incansável das irmãs. Chegou ali no final de 78, com apenas sete anos de sacerdócio. E só deixou este trabalho mais de 40 anos depois. E não por sua escolha, mas pelos sinais da doença que tiravam as suas forças. Ele foi acometido dos males de Alzheimer e Parkinson. Com a consciência não mais tão presente, ele foi cuidado com muito carinho pela Fraternidade São Francisco em Bragança Paulista (SP). Mesmo aí nesta situação, os frades e profissionais testemunham as suas atitudes de cortesia e de gratidão. Também pude presenciar isto desde que o conheci no final dos anos 80. Era o frade que demonstrava a maior entrega e coragem no serviço aos doentes, mas também aos pobres de toda a região. Mas, fazia isso com leveza e desprendimento. Gostava de cultivar a Mãe Terra, produzindo frutos e flores, o fazia com a mesma delicadeza que dirigia a cada pessoa. Enchia seus dias e suas relações com poesia e com música. Frei Rui, verdadeiro frade menor, homem de integridade e fé, você que cumpriu sua jornada com sabedoria, simplicidade e muito amor, nós não precisamos pedir a Deus que o acolha neste dia. Você sempre esteve com Ele e o trouxe para todos nós, especialmente aos mais pequeninos com os seus gestos de amor e de generosidade. Pede, hoje, a Deus por nós e pelos tantos que sofrem em nosso país neste tempo de pandemia. Também por todas as famílias enlutadas que estamos lembrando nesta celebração e te pedimos, sobretudo, que continues inspirando as nossas vidas. Hoje, nós o devolvemos a Deus. Sua vida foi um presente de Deus. Por isso, rendemos graças e louvores a este Deus que nos permitiu chamá-lo de irmão. Descanse na paz sempiterna e contemple o brilho do olhar misericordioso do nosso Deus!.”


ESPECIAL

O MESMO

TEMPO

F O RT E

DA FÉ


ESPECIAL

A

pandemia da Covid-19, que desde o início de 2020 já impactou os grandes momentos da fé, como a Semana Santa e o Mês Mariano, chegou ao mês das festas juninas e mudou as celebrações do santo mais querido em todo o mundo: Santo Antônio. Mesmo assim, os devotos e devotas de Santo Antônio, não ficaram privados desse tempo forte da fé. Celebrações calorosas e afetuosas que marcam o dia deste santo franciscano fizeram parte, ainda que virtualmente, da maioria das Paróquias e Conventos da Província da Imaculada Conceição, como pode-se ver neste “Especial”. Através da tecnologia ou de plataformas como Youtube, Facebook e Instagram, as celebrações, eventos, conferências, etc ganha-

ram novos horizontes. O Whatsapp ajudou a tornar a comunicação mais próxima. Desde a pandemia de 1918, não se tem notícia de um cenário como este que estamos vivendo e que impactou toda a sociedade. Naquele tempo, estabelecimentos foram fechados, aglomerações foram proibidas e os fiéis foram desaconselhados a ir às missas. O medo era tão grande que as pessoas não saíam às ruas. A chamada gripe espanhola – que nada tem de espanhola – matou de 50 a 100 milhões de pessoas em 1918 e 1919. Esse número representa mais mortes do que o montante das duas guerras mundiais. No Brasil, foram 35 mil mortes. Hoje (17 de junho), o Brasil tem 45.467 mortes pelo novo coronavírus.

Frei César pede mais ‘atitudes de amor e desejo de salvar’ O Ministro Provincial da Província Franciscana da Imaculada Conceição, Frei César Külkamp, foi o pregador no 8º dia da Trezena de Santo Antônio e concelebrou a Missa de encerramento da 106ª Festa da Paróquia Santo Antônio do Pari. O tema escolhido para a Trezena deste ano - “Santo Antônio nos convida ao Cuidado!” – teve em vista a Campanha da Fraternidade 2020. Frei César celebrou na solenidade da Santíssima Trindade (7 de junho), e falou sobre o “cuidado da Fé”. Ele teve como concelebrantes o pároco Frei Wilson Batista Simão e Frei Nilo Agostini.

As festas de Santo Antônio costumam lotar a bela e centenária igreja do Pari, mas neste ano, devido à pandemia, todas as celebrações foram virtuais para evitar aglomeração de público e a disseminação do coronavírus. Para a Igreja e para os franciscanos, a vida é mais importante. E vida com amor: “Jesus Cristo nos mostra que a essência de Deus é o amor. Um amor tão generoso que transborda de si criando todas as coisas que existem. Mas, também é um amor feito comunhão de pessoas em Deus. ‘Eu e o Pai somos um’”, lembra Frei César, re-

ferindo-se ao mistério da fé trinitária. Segundo Frei César, Antônio foi um gigante da fé. “Uma fé orante, consciente e comprometida. Por sua fidelidade a este Deus que se revela e quer chegar a todo coração humano, ele consagra a própria vida, a sua saúde e vive pouco, mas com profunda intensidade. O Pai, o Filho e o Espírito desceram muito concretamente nele e ali fizeram sua morada. Converteram Antônio num autêntico representante da sua Unidade Divina. Fizeram dele um precioso caminho de cuidado e de salvação”, destacou.

CONFIRA A ÍNTEGRA DA HOMILIA DO MINISTRO PROVINCIAL “Santo Antônio e o Cuidado com a Fé” Solenidade da Santíssima Trindade Estamos no 8º dia da Trezena em preparação à festa do glorioso Santo Antônio, o santo do mundo inteiro. E neste dia celebramos com toda a Igreja a solenidade da Santíssima Trindade.

Em geral, as solenidades do Ano Litúrgico celebram um acontecimento da história da salvação. Mas, hoje celebramos um mistério, mistério cristão por excelência, pois nos foi revelado pelo próprio Cristo: nosso Deus tem sua unidade na distinção ou pluralidade – é um só Deus em três pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo. Jesus Cristo nos mostra que a essência de Deus é o amor. Um amor tão gene-

roso que transborda de si criando todas as coisas que existem. Mas, também é um amor feito comunhão de pessoas em Deus. “Eu e o Pai somos um”. Este mistério nem sempre conseguimos compreender, por sua profundidade, mas continuamente o invocamos, traçando sobre nós, na liturgia por muitas vezes, mas também nas mais diversas situações da vida: quando queremos rezar, quando sentimos medo, COMUNICAÇÕES

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quando entramos ou saímos de um lugar sagrado, quando iniciamos e terminamos uma viagem, quando conseguimos realizar algo importante, por vezes quando saímos e retornamos salvos à nossa casa. Nos entregamos, assim, a este Deus-família. Buscamos esta marca de uma fé trinitária. A passagem do Evangelho hoje é pequena, mas muito importante porque nos leva a rever que imagem nós temos de Deus. Podemos ainda nos perder numa imagem de um Deus que castiga, condena e que mede nossos atos. Mas, Jesus nos revela que Deus amou tanto o mundo, que deu a ele o seu Filho. E fez isto porque o seu desejo não é o de condenar, mas sim salvar. Deus é amor e salvação. E é nesta dinâmica que Ele se apresenta trinitário: o Pai é aquele que toma a iniciativa de salvar o ser humano, reservando para ele a felicidade eterna na sua Família Trinitária; o Filho é quem cumpre esta obra de salvação, com a sua encarnação, vindo morar entre nós e sendo fiel até a morte; o Espírito é o amor que une o Pai e o Filho e que foi derramado em nossos corações, especialmente em nosso batismo. Ou seja, nós somos acolhidos nesta família da Trindade. E é por isso que o Cristo nos revela a face do Deus Trino. E isto não é para ser uma teoria difícil que ninguém entende, mas é para que saibamos que Deus vem ao nosso encontro como numa cascata de amor, mistura-se conosco e nos prepara para a comunhão eterna com Ele. E não apenas eu, mas também o meu irmão, a minha irmã. E é por isso que São Paulo, na 2ª leitura, convida-nos a nos saudarmos uns aos outros neste sinal de unidade, de membros da mesma comunidade, todos pertencentes à Família de Deus. Por isso, entendemos que ser filhos e participantes desta Família de Deus, sig-

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nifica também amar, acolher cada irmão e cada irmã. Se Deus se revela como aquele que ama e quer salvar, não compete a nós ter qualquer outra atitude senão a de amar e resgatar os nossos irmãos e irmãs. Somente assim, seremos plenamente participantes deste grande mistério do Deus Trindade. Ele é único mas é plural, são três pessoas. Assim também nossas comunidades não são formadas por pessoas iguais. Precisamos aprender a amar e cuidar do que é diferente de nós. Isto é comunhão. O contrário é uniformidade. Vivemos num tempo que precisa tanto desta atitude de amor e do desejo de salvar! Graças a Deus, vemos atitudes bonitas de tantos cristãos, neste tempo de pandemia, na solidariedade, principalmente com os que mais precisam, os doentes, os idosos, os grupos de riscos e os pobres. Mas, infelizmente, não encontramos esta empatia em muitos dos nossos governantes, em muitos empresários e poderosos. Ao contrário, nos deparamos estarrecidos com discursos de ódio, de descaso e muita agressividade. Esta é uma doença grave que fere a vida, muito mais do que o vírus. E é também contagiosa, pois se espalha pela população e é capaz de até ser feita em nome da religião. Também acompanhamos a série de

protestos pelas cidades dos Estados Unidos por conta da violência e da truculência por motivos raciais, por discriminação. Mas, isto acontece também aqui, bem perto de nós. Até mesmo por aqueles que deveriam cuidar dos direitos e da igualdade das raças. Todas estas atitudes ferem a comunhão e não podem partir do amor misericordioso do nosso Deus. E é por isso, que ele vem ao nosso encontro cheio deste amor que salva. Vem em nosso socorro, mas também vem para fazer de cada um de nós instrumentos de amor e de salvação. Instrumentos da comunhão. E é aqui que encontramos o gancho que nos liga ao nosso querido Santo Antônio. Estamos celebrando estes dias de Trezena na sequência do tema da Campanha da Fraternidade deste ano: “Santo Antônio nos convida ao Cuidado!” E, hoje, dentro desta solenidade, o tema é “o cuidado da Fé”. Este ano de 2020 marca a celebração dos 800 anos da vocação franciscana de Santo Antônio. Quando ele se encontra com os frades que se tornaram os primeiros mártires da Ordem Franciscana, em Marrocos. Antes de irem ao Marrocos, eles passaram por Portugal e conversaram longamente com o jovem, que ainda se chamava Fernando. Depois de sofrerem o martírio, seus corpos voltam a Portugal. Diante deste testemunho de fé, também ele, que já se alimentava da Palavra de Deus, pede para se tornar franciscano e partir em missão. Recebeu o hábito e o nome de Antônio, mas o destaque é a transformação que acontece nele pela vida de fé. Fé, no sentido bíblico, é um dom de Deus em vista da salvação: a própria salvação e a salvação dos outros. O jovem Antônio, viu nestes mártires justamente este testemunho de fé. Seu coração foi tomado pelo mesmo ardor e quis também se fazer instrumento deste amor salvífico do Deus Uno e Trino. Parte para o martírio, mas não o al-


ESPECIAL

cança de fato. Lança-se então a cumprir a vontade de Deus. Torna-se um modelo de fé que impressionou a todos, não só pelo grande conhecimento da Escritura e da Teologia, mas por seu desejo de salvação. Restaura a paz onde havia conflito, prega a verdadeira doutrina e enfrenta seus erros, vai ao encontro dos pecadores, aponta para a verdade dos sacramentos, mas também da justiça, mesmo a grandes tiranos. É o defensor dos fracos, auxílio dos doentes e desesperados. Volta-se cheio de ternura e afeto aos pobres e famintos, garantindo-lhes o pão que surge da partilha. E até hoje, diante dele, os devotos chegam com o coração despedaçado. Olhando para a sua imagem, rezam e choram lágrimas que pedem a paz no coração, na consciência, nas relações, diante das ansiedades, da intolerância e da agressividade da vida. Antônio foi um gigante da fé. Uma fé orante, consciente e comprometida. Por sua fidelidade a este Deus que se revela e

quer chegar a todo coração humano, ele consagra a própria vida, a sua saúde e vive pouco, mas com profunda intensidade. O Pai, o Filho e o Espírito desceram muito concretamente nele e ali fizeram sua morada. Converteram Antônio num autêntico representante da sua Unidade Divina. Fizeram dele um precioso caminho de cuidado e de salvação. Hoje também nós, ao celebramos a comunhão de Deus e a d’Ele conosco na Santíssima Trindade e, ao celebramos a fé em Santo Antônio, somos provocados em nossa própria fé. Devemos também nós abrirmos nossa vida e a nossa sensibilidade para que esse Deus que ama e quer habitar o nosso coração, como habitou o coração de Antônio, e nos transforme em instrumentos portadores de sua graça e do seu amor, mesmo num mundo violento e agressivo. Desta forma, conheceremos o rosto de Deus revelado em Jesus Cristo. E o Papa Francisco já nos disse que este rosto de Deus é a misericórdia.

E num certo domingo de Pentecostes, Santo Antônio pregou assim:

“A misericórdia de Deus tem três faces. Também a nossa misericórdia para com o próximo deve ser tripla. A misericórdia do Pai é agradável, espaçosa e preciosa. Agradável porque limpa os vícios... Espaçosa, porque se dilata pelo tempo afora em boas obras... Preciosa, nas delícias da vida eterna... E continua a pregar Santo Antônio, agora dirigindo-se a cada um de nós: Também a tua misericórdia com o próximo deve ser tripla: se ele pecou contra ti, perdoa-lhe; Se saiu do caminho da verdade, ajude-o a voltar; Se tem fome, dá-lhe de comer.” Que estas indicações trinitárias de Santo Antônio, repletas de uma fé comprometida, ajudem a cada um de nós a buscarmos o amor e a salvação de Deus que é Uno e Trino!

DIA DE SANTO ANTÔNIO

Carreata leva o Padroeiro pelas ruas do Pari or causa da pandemia, a festa não foi grandiosa como nos anos anteriores, mas deu a possibilidade para os devotos rezarem e prestaram suas homenagens. Além da igreja aberta, a Paróquia montou as tradicionais barracas do pão e do bolo de Santo Antônio. Ao lado dos pães, os frades se revezaram na bênção aos fiéis. A rotina paroquial mudou com, como o uso de álcool para higienizar as mãos e superfícies, uso de máscaras e assentos reduzidos – apenas 3 pessoas por banco. Além disso, as 10 missas diárias foram substituídas por 2, que foram transmitidas na página do Facebook da Paróquia: uma interna de ma-

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nhã, e outra na igreja, com limitação de público, às 19h. Pelo segundo ano como pároco, Frei Wilson Simão afirmou que as mudanças para a festa deste ano foram planejadas aos poucos, de acordo com os comunicados enviados pela Arquidiocese de São Paulo a todas as Paróquias. “A equipe de festas, com algumas pessoas do Conselho de Pastoral, viu que teríamos estrutura e poderíamos fazer uma festa - não de grandes proporções - mas uma festa com a igreja aberta para os devotos, peregrinos e paroquianos expressarem sua fé e devoção a Santo Antônio. Faríamos a bênção e distribuição dos pães e a venda do bolo. Com a equipe das senhoras que há muitos anos confeitam o bolo, decidimos fazer 2 mil pedaços de bolo para não ficarmos sem esta tradição”, relata. “Percebi que muitas pessoas se preocuparam se a igreja estaria aberta, porque é tradição vir à igreja do Pari neste dia. Vejo que as pessoas estão correspondendo a este momento que estamos vivendo e isso me acalma um pouco. Me preocupava se as pessoas iriam corresponder às nossas expectativas, ou se haveria tumulto. Mas percebi que as coisas fluíram bem, de forma tranquila e serena. Certamente Santo Antônio nos ajudou”, comemorou Frei Wilson.

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Reencontro com os amigos e paroquianos

Uma das devotas que veio rezar neste dia foi a paroquiana Margarete Valseche, de 75 anos. Nascida e criada no bairro, ela conta que a sua vida foi dedicada à família, à Paróquia Santo Antônio do Pari e à Capela Nossa Senhora Aparecida. Para ela, foi difícil ver a igreja com poucas pessoas, sem celebrações e com as restrições necessárias por causa da pandemia. Outro fator que causa tristeza na paroquiana é o fato de o bairro, ao longo dos anos, ter se tornado comercial, com poucas residências e poucos paroquianos morando nas proximidades. “Essa igreja era lotada! Praticamente todos moravam no bairro, por isso tínhamos contato diário. A Paróquia era o ponto de encontro com tudo aquilo que acontecia. A trezena de Santo Antônio era um evento que todos parti-

cipavam. Com a saída dos moradores do bairro, sentimos falta das pessoas com as quais nós convivíamos. O dia de hoje é quando essas pessoas voltam. Além de fazer sua devoção, é momento de reencontro. Para quem viveu aqui é difícil”, emociona-se a voluntária. Apesar da tristeza pela ausência dos conhecidos, ela sabe a importância das medidas necessárias para se proteger do vírus. “Neste ano, com a pandemia, temos que ser conscientes e manter o distanciamento. Com isso, não há o convívio que tínhamos antes, o contato físico. Para quem tinha dez missas por dia, todas lotadas, é difícil chegar e ver a igreja com poucas pessoas. Mas, sem saúde não podemos continuar a missão! Temos que pensar nisso. Neste ano, rezamos de casa”, afirmou Margarete. Avessa às redes sociais, ela lamenta o fato de não participar das celebrações transmitidas on-line. Mesmo assim, prefere manter-se longe da tecnologia. “Não tenho e nem quero celular. Acredito que a tecnologia acabou com a relação entre as pessoas. Não há mais contato olho no olho. É só trocar mensagem, por isso não gosto. Eu não vi uma missa on-line, vejo pela televisão e só. Acho que quanto mais as pessoas se conectam com as redes sociais, a relação fraternal deixa de existir. Prefiro assim, coração com coração”, manifesta a paroquiana.


ESPECIAL

Dom Eduardo, a ausência de boas obras nos desqualifica a sermos devotos de Santo Antônio

No início da noite, após a carreta que substituiu a procissão deste ano, levando a imagem de Santo Antônio nas principais ruas do bairro, visitando inclusive alguns paroquianos impedidos de celebrar in loco os festejos do Padroeiro, aconteceu a Missa Solene; presidida por Dom Eduardo Vieira dos Santos, bispo da Região Sé, e concelebrada por Frei César Külkamp, Ministro Provincial, e pela Fraternidade local. A

Missa foi transmitida através do Facebook e contou com a presença de um número reduzido de fiéis. Em sua homilia, Dom Eduardo observou que Santo Antônio gastou a sua vida no anúncio da Palavra de Deus, sem descuidar-se dos que sofrem: os pobres e os famintos. Segundo o bispo, a “ausência da prática das boas obras nos desqualifica a sermos devotos de Santo Antônio”. “A missão de Santo Antônio e a de tantos santos e santas não deve ser diferente da nossa vida: anunciar o Evangelho. Com palavras e, sobretudo,

ações”, afirmou Dom Eduardo, destacando o atendimento realizado pelo Sefras durante a pandemia de Covid-19 aos moradores de rua e pessoas necessitadas. “Os franciscanos, aqui no Pari e no Largo São Francisco, têm se preocupado grandemente em dar o testemunho do cuidado, sobretudo com aqueles que não têm o pão material. A nossa cidade tem uma multidão de homens, mulheres, jovens e crianças famintos. E muitos deles vivem, literalmente, nas ruas. Embaixo de viadutos, marquises, nas calçadas. Ignorar esta situação seria dar um contratestemunho, nos desqualificaria para estarmos aqui hoje rezando a Santo Antônio, porque este não foi o seu testemunho”, afirmou o prelado. Ao final da celebração, Frei César agradeceu o convite para estar presente neste momento e também agradeceu a presença fraterna de Dom Eduardo. “Estamos celebrando esta grande festa de modo tão diferente, mas mesmo nessa diferença, queremos agradecer a Deus o dom da vida e da santidade de Santo Antônio”, recordou o Ministro Provincial. O Provincial afirmou que em seu seguimento a Cristo, Santo Antônio foi ao encontro do próximo através da caridade e da missão, e seu testemunho chega até os nossos dias. “Para toda Igreja e para todos nós, hoje, devotos franciscanos, sobra como herança esse grande apelo que Santo Antônio quis viver na sua devoção, no seu seguimento de Jesus Cristo, na busca da verdade, fazendo de tudo isso não apenas ciência, mas acima de tudo caridade, indo ao encontro de todas as pessoas, como missionário, como aquele que poderia ser um instrumento da ação de Deus no coração de cada pessoa e, por isso, conseguiu chegar também a todos os pobres, aqueles que mais precisavam, os doentes, e até os nossos dias, tantos necessitados, concluiu Frei César. COMUNICAÇÕES

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FLORIANÓPOLIS - SC

Padroeiro tem festa com presença dos fiéis

Paróquia Santo Antônio, na ilha de Florianópolis (ES), foi uma das poucas, no território da Província, que pôde celebrar com a presença do público, mantendo o distanciamento de 2 metros. Já na parte festiva, os paroquianos e devotos do santo franciscano puderam retirar o bolo e feijoada na Secretaria Paroquial. Para o pároco e guardião Frei Germano Guesser, foi uma festa atípica, mas mesmo assim os paroquianos não deixaram de celebrar o santo franciscano. “É um santo tão querido pelas pessoas que, mesmo aquelas que não puderam participar da Trezena e do dia festivo, com certeza estiveram em sintonia com ele”, acredita Frei Germano. Para o celebrante, nesse tempo de muita dor e medo, muitas pessoas fizeram pedidos pelo fim da pandemia ao protetor dos aflitos e desesperados. “As angústias, os medos, as

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dúvidas e dívidas, os conflitos e injustiças não ficavam sem uma resposta e acolhida carinhosa de Santo Antônio, que, com bom senso e equilíbrio, com respeito e atenção, recebia a todos! É o apelo que o Papa Francisco, na mensagem aos sacerdotes, também nos faz: ‘Convido os pastores a escutar, com carinho e serenidade, com o desejo sin-

cero de entrar no coração e no drama das pessoas, para ajudá-las a viver melhor e reconhecer seu lugar na igreja’”!, acrescentou Frei Germano. Na Missa solene de Santo Antônio, às 19 horas, Frei Germano lembrou alguns dados da vida deste santo, que celebra 800 anos de vocação franciscana em 2020. O frade citou que o franciscano não escreveu nenhum livro, apenas esquemas de seus famosos sermões, e ganhou o título de ‘Doutor da Igreja’ do Papa Pio XII. “Mas sua sabedoria andava ao lado da simplicidade e da pobreza franciscana. Por isso, também é o santo dos pobres. Do pão dos pobres. Os mais humildes, aqueles que vivem à margem da sociedade, consideram-no um protetor e intercessor”, disse. Frei Germano lembra que a devoção a Santo Antônio é muito forte na capital e em todo o Litoral de Santa Catarina, que foi colonizado por imigrantes das Ilhas de Açores.


ESPECIAL

RIO DE JANEIRO - RJ

Um Largo da Carioca diferente ocalizado no Largo da Carioca, no Centro do Rio, o Convento de Santo Antônio costuma lotar todo dia 13 de junho, data em que se celebra o santo conhecido por ajudar aqueles que buscam o casamento. No ano passado, mais de 30 mil pessoas estiveram na tradicional Festa. Em 2020, porém, o Convento teve que promover mudanças inéditas por conta da pandemia do novo coronavírus. Desde março, o Cardeal Dom Orani Tempesta, Arcebispo do Rio de Janeiro, informou que a saúde pública é prioridade da instituição e, por isso, todas as missas das igrejas no Estado são celebradas sem nenhum fiel e transmitidas pela internet. Com a tradicional trezena de Santo Antônio, realizada há 338 anos, também não foi diferente, já que o convento vem exibindo as missas pelas plataformas Facebook e YouTube. À frente do Convento, Frei José Pereira reiterou que, de fato, o formato aderido é o mais seguro às pessoas que frequentam e trabalham no local, já que a idade da maioria dos fadres do Convento é superior a 70 anos e, portanto, integram o grupo de risco da Covid-19. — Foi a única solução que encontramos, porque nós estamos inteiramente limitados, de porta fechadas. O que nós

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mais lamentamos é a comunicação com o povo, porque o Convento de Santo Antônio é referência de confissão da Arquidiocese. Muitos padres indicam para o atendimento aqui. Essa situação (isolamento social) nos constrange, mas temos que pensar também na situação tão difícil, embaraçosa e constrangedora que tanta gente vive nos morros e favelas — diz o Frei. Neste mês, o Convento comemorou 412 anos de existência e, apesar do funcionamento estar limitado por conta da pandemia, o espaço ainda tenta estar ligado ao aspecto social da cidade. De acordo com o Frei José, no portão do local são distribuídas, por dia, cerca de 400 quentinhas à população em situação de rua do Centro. Mas a festa presencial vai fazer falta. — Eram mais de 30 mil pessoas que vinham no Convento no dia 13 de junho, o que era uma motivação muito especial, porque aqui é uma referência para a história do Rio de Janeiro. Quem subia por um lado não tinha mais como voltar, tinha que descer pelo outro lado, de tão cheio que ficava — relembra o Frei.

Sem o tradicional pãozinho

A tradição do dia de Santo Antônio faz falta para o extenso grupo de fiéis, principalmente os que eram voluntários na festa do convento. O pãozinho que simboliza a fartura e a tradicional canjica não está mais na programação, e os pedidos para a missa agora são enviados como pelo WhatsApp. As missas são transmitidas ao vivo e ficam disponíveis para visualização na página Convento de Santo Antônio, no Facebook, e no canal Convento de Santo Antônio Largo da Carioca, no YouTube. No dia do Padroeiro foram celebradas Missas às 8h, 10h, 12h, 15h e 18h. Às 17h, aconteceu a bênção de Santo Antônio.

A fé não tem paredes

Frei José presidiu a Missa das 12 horas e Frei Neylor Tonin fez a homilia. Segundo Frei Neylor, foram 13 dias da Trezena em festa espiritual. “Pena que não pudemos fazer uma grande quermese. Hoje, seria um dia com a igreja cheia. Mas eu queria dizer para vocês, com uma honsestidade espiritual, que a nossa fé não tem paredes. Eu estou aqui entre essas paredes materiais, que chamamos de casa de Deus. A mesma fé aqui celebrada é sentida e vivenciada onde vocês estiverem”, disse o pregador.

Fonte: Jornal Extra COMUNICAÇÕES

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SANTOS - SP

Olhem para o modelo evangélico! histórico Convento do Valongo, em Santos, que neste ano comemorou 380 anos de fundação - foi fundado em 26 de janeiro de 1640 -, celebrou o seu Padroeiro de maneira diferente com esta pandemia. O povo que costumava encher a igreja nesse dia festivo, dessa vez só pode acompanhar pelo Facebook, nos horários às 10h, 15h, 19h. A procissão que sai às ruas com a imagem de Santo Antônio, desta vez saiu em carreata pelas ruas da cidade praiana. Segundo o guardião e reitor do Santuário, Frei João Pereira Lopes, a “Carreata Solidária”, abençoou os profissionais de saúde, os enfermos e todos os devotos e devotas de Santo Antônio. Para Frei João, este ano, com a pandemia, foi de aprendizado e precisou-se reiventar a ação pastoral. “Mas estamos próximos dos devotos através do Facebook. O devoto está sendo acompanhado mesmo à distância com a nossa oração”, disse. Na celebração das 15 horas, Frei Hipólito Martendal disse: “Nós temos a graça de celebrar essa criatura extraordinária que é Santo Antônio, não por causa de milagrizinhos e favores que pode fazer, ou ajudar a procurar coisas perdidas, ajudar a arrumar um casamento. Não olhem para isso! De graça vocês receberam, de graça devem dar, de graça devem procurar. Nós procuramos Santo Antônio porque era um modelo acabado da vida evangélica”, enfatizou, lembrando que ele era um profundo conhecedor da Palavra. Tanto que o Papa Gregório IX o chamou de “Arca da Aliança”.”, explicou.

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ESPECIAL

BAURU - SP

D. Rubens preside Santa Missa do Padroeiro

Paróquia Santo Antônio celebrou o seu Padroeiro nas transmissões on-line e com a distribuição de pães e bênção dos devotos através de um drive-thru. O bispo de Bauru, Dom Rubens Sevilha, OCD, presidiu a Santa Missa solene deste dia. Segundo ele, depois de mais des 800 anos, falamos muito de Santo An-

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tônio. “O que tinha de especial este homem?”, perguntou, lembrando que ele teve uma vida curta e poderia ser pouco lembrado. “Deus o agraciou com muitas qualidades e ele soube colocar essas qualidades a serviço de Deus. Era pregador, homem inteligente, doutor e teólogo. Três símbolos na palavra de Deus da celebração de hoje - o óleo da

primeira leitura; o sal e a luz do evangelho - que resplandeceram na vida de Santo Antônio de forma especial”, disse o bispo. O casal Liandra e Kleber (foto acima) encontrou a primeira medalha de ouro no tradicional bolo de Santo Antônio, entregue pelo pároco Frei Ademir Sanquetti .

SOROCABA - SP

Frei Gilberto destaca a oração em Santo Antônio paróquia de Santo Antônio, em Sorocaba (SP), homenageou, depois da Trezena, o seu Padroeiro com a 64ª Festa no dia 13. Para participar das Missas - nos horários das 7, 10, 12, 15, 17 e 19 - os fiéis devotos precisaram de uma senha, que era retirada na Secretaria Paroquial. A medida foi tomada para evitar aglomerações neste tempo de pandemia. Na parte social da festa, foi servido lanche de calabresa e realizado um leilão de bolos. A Missa das 15 horas foi presidida pelo pároco Frei Gilberto Piscitelli, que recordou a data

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histórica que se celebra neste ano: 800 anos da vocação franciscana de Santo Antônio. Na sua homilia, Frei Gilberto destacou a oração na vida de Santo Antônio e

disse que a gente não deve rezar como se fosse uma tarefa, mas fazer da oração um encontro com Deus. “Esse encontro deve ser algo especial”. Segundo o frade, Santo Antônio, que era um grande pregador e missionário, sempre tinha um tempo para oração, como quando subia numa nogueira para rezar. Frei Gilberto lembrou também que quando São Francisco pediu ao santo para ensinar Teologia aos frades, fez uma ressalva importante: não perder o espírito de oração. “Nós também temos o compromisso de não perder esse espírito de oração”, completou. COMUNICAÇÕES

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NITERÓI - RJ

“Nós anunciaremos o Senhor, se fizermos do mundo nossa casa!” primeira celebração da Festa de Santo Antônio 2020 foi realizada às 8 horas e presidida pelo pároco Frei Salésio Hillesheim. Na homilia, Frei Salésio falou sobre o tema da festa deste ano: “Santo Antônio, samaritano ontem e hoje”, inspirado na Campanha da Fraternidade de 2020. O pároco lembrou que Santo Antônio escolheu o mundo como sua casa e devemos seguir esse exemplo. Frei Salésio afirmou que seremos melhores quando entendermos a mensagem de Santo Antônio: “Precisamos, do jeito de Santo Antônio, fazer com que o mundo seja nossa casa. Não temos mais um lugar só, mas onde estivermos, precisamos fazer ali nossa casa. Não existe nada mais importante que a nossa casa; por ela, perdemos tudo. Se estou na rua, no trabalho, ali é minha casa”. No final da celebração, Frei Salésio deu a bênção de Santo Antônio a todos que acompanharam on line, pelo Facebook e Youtube. A programação seguiu durante o dia, com Missas às 12h e 18h e a Bênção de Santo Antônio às 10h e 15h.

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Agradecimento

Diante da pandemia do coronavírus, mudamos nossa Festa de Santo Antônio 2020. Nossa proposta foi uma festa voltada para oração, para o próximo, para o agradecimento. Conseguimos! A cada Missa e Bênção de Santo Antônio percebemos a união e oração da nossa comunidade, como se fôssemos um coro, daqueles bem bonitos que realizamos nas celebrações da Porciúncula. Nossa festa de Santo

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Antônio sempre foi marcada pela devoção e solidariedade; neste ano, não foi diferente! Mesmo isolados, as doações ao Sefras continuaram; mesmo nas dificuldades que atingem nossa

sociedade, mostramos nossa solidariedade. Oferecemos aos nossos irmãos, que estão na linha de frente da pandemia, um gesto de amor: a nossa prece. Tudo vai ficar bem! Nosso muito obrigado a todos que ficaram conectados conosco em nossa Festa Virtual, a saudade é grande, mas não é maior que o desejo de estarmos todos com saúde e preservando vidas. Em 2021, esperamos fazer uma “Festa em dobro”, como bem disse nosso pároco. Seguimos conectados com Santo Antônio, São Francisco, Santa Clara... com o desejo de em breve estarmos juntos. Santo Antônio, rogai por nós! Paz e Bem!


ESPECIAL

CURITIBA - PR

Paróquia Bom Jesus vai fazer o “Reencontro de Santo Antônio com São Francisco” Paróquia Bom Jesus dos Perdões priorizou a festa religiosa de Santo Antônio, com as transmissões on-line. Mas o pároco e guardião, Frei Alexandre Magno, deu uma grande notícia ao informar aos paroquianos que, no dia 4 de outubro, quando se celebra São Francisco de Assis, promoverá a Festa do Reencontro entre Santo Antônio e São Francisco, assim como aconteceu no Capítulo das Esteiras em 1221. Na primavera daquele ano, embarcou de regresso a Portugal para tratar da saúde, mas um furacão arrastou a nave, e Frei Antônio desembarcou na Sicília, sendo hospedado pelos franciscanos de Messina. Em maio, viajou para Assis, onde par-

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ticipou do famoso “Capítulo das Esteiras”. Desse modo, Antônio conheceu Francisco pessoalmente, seu mestre e o fundador da Ordem Franciscana. Frei Alexandre explicou que o Bolo de Santo Antônio, com 60 anos de tradição, foi cancelado para não colocar em risco as pessoas que o preparam e a multidão que vem à festa. “Nesse tempo, como Santo Antônio pregou, o cuidado com a vida é mais importante”, disse. “Vamos fazer uma grande celebração em outubro. Um pouco mais de paciência, de recolhimento e oração e nós nos encontraremos na primavera”, animou Frei Alexandre.

CONCÓRDIA - SC

Somos chamados a cuidar a Paróquia Nossa Senhora do Rosário de Concórdia (SC), na Missa das 19 horas, concelebrada por toda a Fraternidade, o guardião e pároco, Frei José Idair Ferreira Augusto, destacou que a vida e a pregação de Santo Antônio estão cheias de exemplos, sobretudo na defesa dos mais pobres e em denúncias aos poderosos do seu tempo. “Que a sua luz desponte como aurora porque se dedicou de corpo e alma para fazer o bem a todas as pessoas como incansável consolador dos aflitos”, disse Frei Idair. “Certamente, na misericórdia de Santo Antônio não cabe a indiferença, o descaso, como ouvimos antes: ‘Se tem gente morrendo por causa da pandemia, e aí?! Todos um dia terão que

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morrer!’ Certamente isso não cabe no coração de Santo Antônio e não caberá no coração santo de qualquer cristão sensato, que prima pela mínima busca de seriedade na sua vida cristã”, destacou. Para ele, nesse momento, mais do que nunca, somos chamados a cuidar. “Cuidar é a palavra que estamos ouvindo toda hora. Cuidar da sua vida e saber cuidar do outro. Que Santo Antônio seja para nós testemunho de alguém que não renuncia à verdade do Evangelho por outra verdade qualquer, mas é sempre capaz de se comprometer com a vida, sobretudo onde a vida está ameaçada, agredida na sua dignidade em todos os aspectos, em todos os sentidos, em todos os lugares, em todas as circunstãncias”, pediu. COMUNICAÇÕES

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XAXIM - SC

Paróquia celebra Santo Antônio e São Luiz dia de Santo Antônio foi celebrado na Paróquia São Luiz Gonzaga, em Xaxim (SC), com a segunda noite da Novena em honra ao Padroeiro. Santo Antônio e São Luiz são modelos de caridade e exemplos de cristãos. A missa das 19 horas foi presidida por Frei Jacir Zolet. Na sua homilia, ressaltou que Santo Antônio via nos pobres o rosto de Jesus sofredor, por isso não hesitava em dar os pães aos pobres”. E, talvez, o maior milagre que Santo Antônio continua realizando são aquelas pessoas que continuam, nos dias de hoje, as obras que ele fez, as obras de misericórdia. Jesus via a multidão faminta e dava de comer. E o pão simboliza tudo: vida, fraternidade, cuidado, solidariedade, proximidade, doação, partilha. O pão de São Luiz é o cuidado, especialmente os doentes”. São Luiz é celebrado no dia 21 de junho.

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BLUMENAU - SC

Devoção cresce no Santuário de Nossa Senhora Aparecida em Blumenau Paróquia e Santuário Nossa Senhora Aparecida, em Blumenau (SC), celebrou Santo Antônio com a Trezena e festa. Na Missa solene do dia de Santo Antônio, Frei Nélson Hillesheim contou que a devoção ao santo franciscano vem crescendo na Paróquia e isso pôde ser visto na Trezena e na bênção dos pães às terças-feiras. O Bolo de Santo Antônio, instituído para este dia, acabou rapidamente nas primeiras horas da manhã. Para Frei Nélson, Santo Antônio continua sendo referencial de vida. “O Evangelho de São Marcos narra o pedido de Jesus aos apóstolos para ir e pregar a boa nova a todos os po-

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vos. Santo Antônio viveu pregando o Cristo. Conhecia as Escrituras praticamente de cor. Somos chamados hoje a conhecer esse grande franciscano,

esse apóstolo. Teve um tempo curto de vida, apenas 36 anos, mas fez muito, deixando-nos um legado de vida cristã”, disse.


ESPECIAL

DUQUE DE CAXIAS - RJ

Bênção dos pães marca dia de Santo Antônio na Paróquia Santa Clara de Imbariê ara marcar o dia de Santo Antônio (13/06), a Fraternidade Mãe Terra realizou, às 12h, um breve momento de oração transmitido pela página do Facebook da Paróquia Santa Clara – Imbariê. O clima estava ensolarado, permitindo assim que esta iniciativa acontecesse no jardim da casa. Iniciando com o Ângelus, os frades também refletiram com os irmãos e irmãs que acompanharam a Live um trecho do sermão de Santo

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Antônio por ocasião da Solenidade de Pentecostes, onde encontra-se a famosa frase antoniana: “Cessem as palavras e falem as obras”, incitando os pregadores à prática coerente com seus discursos. Em seguida, no momento das preces, a Fraternidade entrelaçou características antonianas com anseios da comunidade, rezando pelos movimentos e pastorais que procuram seguir o exemplo do santo franciscano na dis-

Pedir a Santo Antônio mais que milagres Frei Cláudio Siqueira, guardião da Fraternidade São Francisco de Assis, em Duque de Caxias (RJ), fez a homilia na Missa solene de Santo Antônio, que foi transmitida on-line. Ele fez um resumo de sua vida até ingressar na Ordem Franciscana, onde se tornou um dos grandes pregadores da Igreja. Lembrou, entre seus ensinamentos, que “a caridade é alma da fé” e que “só uma alma que reza pode conseguir progresso espiritual”. Frei Cláudio lembrou que nas Paróquias e Conventos franciscanos existe o costume de celebrar a Missa de

Santo Antônio às terças-feiras, com a bênção do santo e a distribuição dos pãezinhos. “Uma devoção que nasceu porque o santo foi sepultado numa terça-feira”, lembrou. Segundo o frade, Santo Antônio foi fiel a Jesus Cristo e ao Evangelho. “Procurou levar de fato uma vida austera e santa. Ele foi um grande pregador, mas pregava, em primeiro lugar, com a vida. Que nós possamos olhar para a vida de Santo Antônio não só para pedir milagres, mas pedir a sabedoria de Deus”, recomendou.

tribuição do pão/alimentos. Além disso, uma prece também foi dirigida aos professores, uma vez que Antônio foi o primeiro educador da Ordem Franciscana, sendo até mesmo convidado por Francisco para exercer este ofício. Por fim, todos foram convidados a rezar pelos jovens namorados, lembrando a devoção de santo casamenteiro atribuída a Santo Antônio. As três preces, respectivamente, foram elaboradas por: uma liderança da paróquia que está atuando na distribuição de cestas básicas, uma professora e um casal jovem. Por fim, a tradicional bênção dos pães e a ladainha de Santo Antônio fecharam o momento simples, porém profundo e orante, neste dia especial. Ao realizar esta iniciativa, a Fraternidade quer estar em comunhão com toda a Província, mas também com as pessoas da Paróquia que trazem essa devoção ao santo de Lisboa ou de Pádua, que na verdade já é do mundo inteiro. Além disso, foi ocasião também para apresentar um pouco mais sobre o nosso fecundo e profético carisma franciscano, que desde os seus inícios preocupa-se com o partir do pão, grande lição antoniana para os nossos tempos de pandemia e crise!

Frei Gabriel Dellandrea


SÃO PAULO - SP

Largo São Francisco mantém a tradição de celebrar Santo Antônio nio. Neste ano, foi montado um espaço para venda dos pães do convento e itens religiosos. “Estamos vivendo cada dia da pandemia, com os desafios que ele nos dá, sem fazer muitos planos”, afirmou o guardião.

Distanciamento físico, proximidade virtual

o Largo São Francisco, a festa de Santo Antônio chega a reunir mais devotos que a festa do Padroeiro. Neste ano, com as restrições para conter o avanço da pandemia de Covid-19, a festa ficou reduzida. As missas foram celebradas apenas na capela interna da Fraternidade. Mas, ainda assim, os devotos marcaram presença, já que a igreja estava aberta à visitação. Para o pároco e guardião do Convento, Frei Mário Luiz Tagliari, a chegada da pandemia e seus desdobramentos causou insegurança à festa: “Para nós foi um impacto, primeiro pensando nos fiéis, uma multidão que passa por aqui no dia de Santo Antônio. Nos anos anteriores eram feitas 27 tábuas de bolo. Desta vez, fizemos cinco. Ha-

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via a incerteza se as pessoas viriam ou não. No lado financeiro, também sofremos um grande impacto, pois o Convento tem muita despesa e as festas nos dão segurança para cobrir os déficits do ano. Também isso é uma consequência muito ruim, mas não pensamos só neste lado financeiro. Pensamos, sobretudo, nas pessoas que estão impossibilitadas de vir”. Com relação aos pães, muitas doações continuaram chegando. Algumas vindas da tradicional igreja Santo Antônio do Largo do Patriarca, que neste ano ficou fechada. De máscara e higienizados, devotos que compareceram ao Largo São Francisco puderam rezar diante da imagem de Santo Antônio, receber a bênção dos frades, levar os pães bentos e o bolo de Santo Antô-

Para Frei Mário, um dos frutos colhidos nesta experiência de ser igreja diante da pandemia foi a proximidade virtual com os fiéis. E não apenas os que costumam frequentar o Convento e Santuário, mas pessoas de diversas partes do Brasil, que com o início das transmissões passou a acompanhar de perto as atividades do Convento. “Começamos fazendo uma experiência inédita com a novena do Espírito Santo. No domingo de Pentecostes já realizamos o primeiro dia da Trezena. Foi muito bom!”, relata o frade. Outro aspecto destacado por ele foram as transmissões pelo Youtube, além do Facebook, fato que aumentou a participação. “Tínhamos aos domingos cerca de 130 pessoas acompanhando a missa, durante a semana entre 70 e 90. Agora, esse número dobrou. Tenho a impressão que o número de pessoas fazendo a Trezena foi maior do que se estivéssemos sem a pandemia, com a igreja aberta. Não chegávamos a cem pessoas durante os dias da Trezena”, conta Frei Mário. Para ele, a tendência é que este tipo de comunicação seja mantida mesmo após o fim das restrições por causa da pandemia. “Estas plataformas


ESPECIAL

vieram para ficar, mesmo quando voltarem as missas normais. Todas as celebrações especiais e festividades pretendemos fazer com as pessoas na igreja e também a transmissão on-line. Recebemos muitas avaliações positivas a respeito da formação que está sendo feita através das novas mídias”, relata o religioso.

A atualidade da pregação de Santo Antônio

Às 18h, os frades celebraram a Eucaristia na capela interna do Convento São Francisco. Frei Fidêncio Vanboemmel, moderador da Formação Permanente da Província da Imaculada, presidiu a Celebração, que foi transmitida pelo Facebook e Youtube do Convento e Santuário. No início da Missa, o frade destacou que o fato de rezarem internamente não diminui a grandeza da celebração. “A Eucaristia não perde sua solenidade e grandeza porque nós, a partir desta capela, estamos unidos a tantas pessoas de diferentes regiões do nossos Brasil”, pontuou Frei Fidêncio. O religioso - que também foi o pregador da Trezena deste ano - iniciou sua homilia a partir do trecho da bula de canonização de Santo Antônio. Ele ainda afirmou que durante os 13 dias de celebração, eles buscaram celebrar o presente. “A grande motivação que nos animava a celebrar era pedir para que Santo Antônio intercedesse junto a Deus pela humanidade ferida, não apenas por conta do coronavírus, mas em tantas outras pandemias, pecados, vazios, ausência de Deus”, recordou o frade. Em sua fala, o frade destacou diversos aspectos que a humanidade vive hoje e como a pregação de Santo Antônio se faz atual. “Neste mundo machucado e ferido, tão cheio de vícios, Santo Antônio nos provoca e ensina a cultivarmos as virtudes, a sermos homens e mulheres virtuosos. Pela globalização da indiferença, para a qual nos chama a atenção o Papa Francisco, Santo Antônio nos mostra que necessitamos a graça de viver a caridade no tempo presente. Num mundo tão conflitivo, cheio de ódio, divisões, marcados pelo racismo cruel, pela indiferença às etnias indígenas, pela crueldade, pelo apontar armas, Santo Antônio nos convida a viver no tempo presente a graça da paz, da reconciliação, de sermos pacíficos num mundo tão antiético”, conclamou o frade. COMUNICAÇÕES

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PETRÓPOLIS - RJ

Com Santo Antônio, ser sinais no mundo Paróquia do Sagrado Coração de Jesus, de Petrópolis (RJ), assistida pela Fraternidade permanente e pelos frades estudantes do tempo de Teologia, celebrou Santo Antônio solenemente, com transmissões on-line pelo Facebook. A começar pela Oração das Laudes. Na Celebração Eucarística, às 16 horas, o pároco Frei Jorge Schiavini destacou o grande pregador que era Santo Antônio. “Que bom seria tê-lo entre nós! Mas temos a graça de acompanhar seus Sermões, por isso selecionei um trecho do sermão que ele fala do envio dos apóstolos, que é o evangelho deste domingo (14/6): ‘O mísero homem, do início ao fim de sua vida, está sempre em movimento, e nunca repousa enquanto não chegar ao seu ‘lugar’, isto é, a Deus. De fato, diz Santo Agostinho, ‘inquieto está o nosso coração enquanto não repousar em ti’ e ‘na paz é o seu lugar’. O lugar do homem é Deus, nunca haverá paz senão nele e, portanto, a ele deve-se voltar. Os sinais acompanharão aqueles que deram o coração a Deus, porque no seu coração já existe o sinal de que fala o Cântico dos Cânticos: ‘Poe-me como um sinal sobre o teu coração’ (ct. 8,6)”. “Com Santo Antônio, que possamos ser sinais no mundo!”, pediu Frei Jorge. Durante treze dias, a série “Que seria de mim sem a fé em Antônio”, com inspiração em uma das canções de Maria Bethânia, foi veiculada no Facebook da Paróquia e no Youtube da TvFranciscanos. Segundo Frei Augusto Luiz Gabriel, um dos idealizadores da série, tratou-se de um momento de oração e devoção com a oração da “Trezena de Santo Antônio”.

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ESPECIAL

SÃO PAULO - VILA CLEMENTINO

“Importa o que está no coração” aróquia São Francisco de Assis, na Vila Clementino, em São Paulo, celebrou Santo Antônio com um tríduo preparatório e a Santa Missa, no dia 13, pelas mídias sociais da Paróquia. O pároco Frei Valdecir Schwambach e os Frades da Paróquia e Sede Provincial se revezaram nas celebrações. Em um desses momentos, Frei Valdecir citava o Sermão de Pentecostes , em que Santo Antônio dizia “cessem as palavras e falem as obras”. “Cessem inclusive as palavras, digamos, promissoras, aquelas palavras que pregam uma caridade que muitas vezes estão revestidas de maldade e de segundas intenções. Para Deus, importa sempre o que está no coração humano. E Santo Antônio, que carregava o Menino Jesus no colo, mostra para cada um de nós que o importante é carregarmos esse Jesus nas nossas mãos, na nossa boca, no nosso coração, no nosso olhar e também na forma com que ouvimos as muitas

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palavras”, indicou. “Algo interessante é perceber que Santo Antônio viveu no tempo dos chamados hereges, mas ele nunca quis bater de frente com eles. Tendo a orientação do fundador

São Francisco, que queria os frades trabalhando pelo diálogo em vez do confronto, à heresia ele incentivava com as virtudes”. Santo Antônio nos ensina a levar Jesus a outras pessoas.

NILÓPOLIS - RJ

O grande Santo Antônio Paróquia Nossa Senhora Aparecida de Nilópolis (RJ) celebrou Santo Antônio na Missa das 16 horas. Frei José Clemente Müller fez a homilia e foi enfático: “É quase uma heresia a gente dizer, mas é uma verdade. Santo Antônio, se não temos um pouco de cuidado, ele ofusca toda a nossa devoção ao próprio Cristo. Ele é de uma força tão grande, pela sua vida, pela sua simplicidade, que ele ofusca a Jesus, a Maria, ofusca a tudo. É um pouco exagerado, mas a gente vê pelas festas, pela presença, pela participação, e por que ele quase que ofusca? A intenção dele sempre foi conduzir as almas a Deus. Ele foi um grande filho de São Francisco e por isso um grande devoto de Maria Santíssima, a Mãe de Jesus”, disse. Frei Walter Ferreira Junior, o guardião e pároco, presidiu a celebração.

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ITUPORANGA

O penitente Santo Antônio Fraternidade Santo Estêvão celebrou Santo Antônio na missa das 17 horas. Frei Fabiano Kessin fez a homilia e assinalou que Santo Antônio entrou na Ordem Franciscana e também foi em busca do martírio depois que viu os cinco frades mortos no Marrocos. “Gostaria de destacar um trecho dos seus Sermões na festa de Pentecostes: ‘Quem está repleto do Espírito Santo fala várias línguas. As várias línguas são os vários teste-

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munhos sobre Cristo, a saber: a humildade, a pobreza, a paciência e a obediência; falamos estas línguas quando os outros as veem em nós mesmos. A palavra é viva quando são as obras que falam. Cessem, portanto, os discursos e falem as obras. Estamos saturados de palavras, mas vazios de obras. Por este motivo o Senhor nos amaldiçoa, como

amaldiçoou a figueira em que não encontrara frutos, mas apenas folhas. Diz São Gregório: “Há uma lei para o pregador: que faça o que prega”. Em vão pregará o conhecimento da lei quem destrói a doutrina por suas obras’”. Segundo Frei Kessin, é um dos grandes homens da Igreja e da história humana. “Nosso confrade e nosso irmão era um homem da penitência, da oração. Nós também somos chamados de frades da penitência e temos de ter consciência disso”. “Que a luz dele nos ilumine, na paz, no amor e na justiça de Deus”, completou.

PATO BRANCO - PR

Santo Antônio se doou à causa do Reino guardião da Fraternidade São Pedro Apóstolo, Frei Neuri Reinisch celebrou a Missa de Santo Antônio às 19 horas. Para ele, um dos santos com maior devoção no Brasil. Assim como Fernando foi escolhido por Deus, também nós somos escolhidos. “Jesus escolheu Antônio, foi enviado e foi capaz de dar sua vida pela

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causa do Reino de Deus”, disse, ressaltando que foi um grande conhecedor da Bíblia e protetor de todos os povos. “Suas palavras eram tão cativantes, que tantos os letrados como os iletrados ficavam encantados”, lembra. “Olhemos o exemplo de Santo Antônio e nos animemos nesse tempo difícil que vivemos”, completou.

GASPAR - SC

Festa da Comunidade Santo Antônio festa de Santo Antônio na Paróquia de São Pedro Apóstolo, em Gaspar (SC), foi comemorada na Comunidade Santo Antônio, uma das maiores da Paróquia. Na Missa solene, o pároco Frei Paulijacson de Moura fez um resumo de sua vida e lembrou que neste ano estamos celebrando 800 anos da vocação franciscana de Antônio. Há oito

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séculos, o jovem Fernando de Bulhões, ingressou na Ordem de São Francisco, recebendo o nome de Antônio. Para Frei Paulijacson, Santo Antônio viveu pouco, mas é um santo completo. Pode-se destacar várias dimensões de sua vida religiosa e de sua evangelização. Para ele, a sua vida missionária é um grande exemplo que nos deixou.

Moacir Beggo, Érika Augusto (Pari e Convento São Francisco) e informações do Facebook das Paróquias.


fraternidades//

Solenidade de Corpus Christi é celebrada na Paróquia São Luiz Gonzaga Freis celebraram nas igrejas dos municípios de Xaxim, Lajeado Grande e Marema Solenidade de Corpus Christi deste ano, na Paróquia São Luiz Gonzaga, foi marcada pela nova forma em que aprendemos a nos comunicar, a rezar juntos, na distância de nossas casas. A Missa foi transmitida pelas redes sociais da Paróquia (Facebook e YouTube). Em um pequeno tapete confeccionado no corredor das igrejas em Xaxim, Lajeado Grande e Marema, a solenidade teve início às 9h da manhã da quinta-feira (11/06). Na Igreja Matriz, em Xaxim, o presidente da solenidade foi Frei Gilson Kammer; em Lajeado Grande, na Igreja Santo Antônio, Frei Jacir Zolet; e, em Marema, na Igreja Nossa Senhora do Bom Conselho, Frei Vanderlei da Silva Neves. A celebração de Corpus Christi está no calendário da Igreja Católica desde 1264, quando foi oficialmente definida a data pelo então Papa Urbano IV. Na data, tradicionalmente, os fiéis se reúnem para confeccionar tapetes pelas ruas e acompanham a procissão que segue o Santíssimo Sacramento, carregado pelo sacerdote sobre os tapetes. “É com muita alegria que hoje,

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com toda a nossa igreja, nossas comunidades, nossa Paróquia, podemos celebrar a Solenidade do Corpo de Cristo, mais conhecido como Corpus Christi, em que a gente faz os nossos tapetes como um sinal da nossa devoção, da nossa fé. E hoje ela é demonstrada de uma maneira pública, por isso, então, o grande costume de a gente poder fazer os tapetes nas ruas das nossas cidades. Hoje, um pouquinho diferente, mas, nossa alegria, nossa fé, permanece a mesma, penso eu que até mais forte”, disse Frei Gilson no início da celebração.

Uma pequena equipe ficou responsável pela preparação litúrgica da solenidade em cada município. Na homilia, Frei Gilson saudou, a quem estava acompanhando em casa a celebração, com muito carinho. “Que você consiga descobrir a melhor forma de comunhão. Que todos possamos fazer a comunhão, não somente comungar”, ressaltou Frei Gilson. Assim como na Santa Ceia, quando Jesus se reuniu com os discípulos, também nós, quando estamos reunidos na mesa com nossa família, com os que nos amam, devemos agradecer pelo alimento, devemos fazer a comunhão. Um breve momento de oração e adoração foi realizado antes da procissão do altar até a porta principal de entrada da Igreja. Com o Santíssimo Sacramento, Frei Gilson caminhou pelo tapete que foi confeccionado no corredor central da igreja até à porta central, onde teve um momento de adoração dos fiéis, das 10 às 12 horas.

Pascom da Paróquia de Xaxim COMUNICAÇÕES

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//fraternidades

Paróquia Santa Clara de Imbariê em tempos de pandemia tentes, para garantir uma evangelização que amenize os efeitos do distanciamento social em tempos de pandemia. Neste aspecto, nós da Paróquia Santa Clara de Assis, do distrito de Imbariê – Duque de Caxias/ RJ, procuramos também, com diversas iniciativas, “primeirear” ou avançar para águas mais profundas nas nossas atividades, mesmo que suspendendo outras que não possíveis de adequação. É claro que experimentamos a doçura de plasmar novos horizontes, mas também o amargo dos limites que, Tripé, cabos, computador, câmera: os aliados para garantir uma boa transmissão agora fazem parte dos itens para preparar a missa. apesar dos esforços, não superam o modo “normal” que pode nos ajudar a compreender ardinagem, pequenas reformas, como as coisas eram feitas. tudo o que vivemos na Igreja nesse culinária, cantorias nas sacadas, Selecionamos, então, alguns relatos período: o neologismo “primeirear”. O vídeos em aplicativos ou até de iniciativas que foram acontecendo Pontífice define este verbo como “tomar mesmo exercícios físicos. Essas e outras em nossa Paróquia. É claro que nessas a iniciativa”. Assim, muitas comunidades atividades foram iniciativas que muitas poucas linhas não conseguiremos viveram essa busca por dar um pontapé pessoas criaram ou aprimoraram para demonstrar tudo o que foi feito, pois há em ações novas ou aprimorar as exisenfrentar o período de isolamento social, realizações mais visíveis, há aquelas que tendo em vista os tempos de chegaram aos nossos ouvidos pandemia em que vivemos. e há, outrossim, aquelas que Assim, a criatividade e a permaneceram no silêncio da capacidade de se reinventar experiência de fé de algumas também atingiram em cheio pessoas. Mas no intuito de a Igreja e suas formas de partilhar e fazer conhecer alevangelização e presença na guns aspectos, queremos que vida das pessoas. Inovações, o leitor se delicie com alguadaptações, alegrias e desamas das “primeireações” que o Senhor Deus tem inspirado fios foram sentidos na pele em nossas comunidades. pelos cristãos que diariamenPedimos desculpas por não te procuraram inovar na sua conseguir contemplar todos, forma de vivenciar a fé. Painel de São Francisco e Santa Clara pintado no samas Deus vê aquilo que o O Papa Francisco, na Encíclica lão paroquial: os santos de Assis são a nossa inspiralimite humano não consegue Evangelii Gaudium, no paráção para “primeirear” enxergar! grafo 24, utiliza um termo

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Celebração da Solenidade de Pentecostes, que contou também com a coroação de Nossa Senhora.

Detalhe da ornamentação para a Quinta-feira santa

Uma paróquia em oração! “Apesar da distância, somos um só coração”: é com essas palavras que procuramos a motivação para a realização de transmissões on-line das celebrações eucarísticas e outras orações. A chamada “live” entrou em cheio em nossas casas, batendo nas portas das nossas ondas de Wi-Fi e dizendo que podemos estar um pouco mais próximos, mesmo que iluminados pela tela do celular – e pela luz do Espírito Santo. Foram mais de 50 transmissões ao vivo até o fechamento desta matéria (4 de junho), onde rezamos juntos, cantamos, nos emocionamos, trouxemos nossos louvores e pedidos a Deus Pai. Durante a Quaresma, tempo litúrgico que iniciamos as transmissões, além das celebrações eucarísticas, realizamos a oração da Via-Sacra

contemplando as dores do Senhor com relação às dores do mundo em tempos de pandemia. A Cruz do Senhor agora ganha também um nome na cruz de muitos irmãos: Covid-19. Enquanto lembrávamos do Cristo carregando sua cruz pelas ruas de Jerusalém, recordávamos das ruas vazias da nossa “Jerusalém”, que estava lutando contra o vírus. As lágrimas do Cristo na cruz eram as nossas diante das mortes que víamos chegando cada vez mais perto de nossa realidade já sofrida da Baixada Fluminense. Além deste momento devocional, realizamos a chamada Celebração Penitencial, procurando preparar bem o nosso coração para contemplar o mistério da Ressurreição. A Semana Santa, sendo o ponto mais importante do calendário litúrgico, foi vivida com intensidade apesar da distância. Um símbolo muito forte de união foi a presença dos círios pascais das 12 comunidades na noite da Vigília Pascal. Os cânticos, que outrora eram entoados por um grupo paroquial, agora eram entoados pelas vozes dos quatro freis que também prepararam todos os outros elementos da liturgia para que quem estivesse do outro lado das telas pudesse ao menos ouvir a Palavra e contemplá-la em sua profundidade. Durante todo o Tempo Pascal, bem como a Solenidade de Pentecostes, que também lembramos da Imagem para celebrar, mesmo que a comunidade Divino Espírito distância, o patrono da Comunidade Santo que recorda seu paDivino Espírito Santo, por ocasião do trono neste dia, inúmeros dia de Pentecostes

fiéis continuaram acompanhando as transmissões. Sobre as transmissões ao vivo das celebrações, Eloísa Helena Martins, da comunidade São Francisco, partilhou conosco que “neste tempo de pandemia, a nossa comunidade tem permanecido fechada como todas as outras. Mas tem sido muito gratificante poder assistir pela internet as missas, o terço, e todas as outras atividades realizadas pela paróquia. Estamos mesmo precisando de palavras de conforto. Este tempo está muito difícil pois a minha família está longe e, através da transmissão, a Paróquia se confirmou como sendo também minha família, que está comigo!”.

No jardim da Mãe Terra a flor representa a Páscoa: uma nova esperança, vigor e beleza


//fraternidades Maio: mês de Maria, dos terços e das devoções online! Fraternidade Mãe Terra, ora aconteceu nas casas das famílias das nossas 12 comunidades. A transmissão da Oração do Terço nas casas das famílias das comunidades foi um misto de alegria e tensão: houve quem até escreveu o passo a passo do terço para que, no nervosismo, não errasse qualquer palavra em louvor a Maria. Houve quem preparou cantos, Rosilda Lima e sua família: inauguraram as orações do terço transmitidas ao altares com imagens de vivo a partir das casas Nossa Senhora, chamou toda a família para rezar. O mês de maio, junto com a alegria Na Comunidade Santa Bárbara, na casa do Tempo Pascal, trouxe uma perfumada da Simone da Silva Vitor, o Emanuell, flor para os nossos jardins das “Lives”: a seu filho de 5 anos, rezou um mistério intensa memória acerca de Maria que do terço e cativou a todos com a sua fé. a Igreja realiza nesse período. Foram 31 Enfim, as iniciativas foram todas muito dias de uma programação especial para bem elaboradas e, apesar do medo de recordar da Virgem do Sim, que no seu estar “ao vivo”, cada comunidade vivensilêncio e serviço ao Reino, nos dá indíciou muito bem do seu jeito. A primeira família que “primeireou” na transmissão cios de como viver bem a nossa fé. Por ao vivo pela nossa página da Oração isso, dando continuidade a uma prática do terço foi a igreja doméstica da casa de muitas comunidades e famílias da da Rosilda Lima, da comunidade Nossa Paróquia, rezamos todos os dias o terço, Senhora Aparecida. Ela nos deixou seu com exceção dos dias que tínhamos testemunho dizendo: “Fiquei muito feliz a Missa. Ora esta oração aconteceu na em representar minha Comunidade rezando com minha família. O terço foi rezado todos os dias com todos juntos. A nossa mãe merece! Agradeço muito por fazer parte dessa Paróquia que muito tem nos ajudado neste momento tão difícil que estamos passando”. O jovem Adriano Firmino de Souza representou a sua comunidade Santa Terezinha fazendo a Oração do Terço que foi transmitida a partir da capela da própria Comunidade. Ele partilhou conosco que “representar a comunidade é o sentimento de ser um filho que representa a sua família. Eu tenho todo carinho pela comunidade, que eu amo de coração. Para mim é um privilégio um dos oratórios de Nossa fazer parte desta Comunidade e ser parte Senhora enviada por uma desta família”. família da paróquia

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Flores da Irmã Terezinha sempre enfeitando a capela da Mãe Terra. Além disso, o altar onde estava a imagem de Nossa Senhora da Fraternidade Mãe Terra sempre estava muito florido graças à generosidade de alguém que sempre floriu a nossa Paróquia: a Irmã Terezinha Boni, das Irmãs Catequistas Franciscanas. Não demorava muito para chegarem aquelas coloridas flores que ornamentavam a nossa capela e faziam a nossa transmissão ainda mais colorida e alegre. Mas não foi só a capela da Mãe Terra que esteve florida. Como é de costume, as famílias prepararam seus oratórios em suas casas e enviaram as suas fotos para a página do Facebook. Estas estão no álbum do especial: “A Mãe está na minha casa”. Somado a isso, todos os dias eram divulgados pequenos vídeos com frases sobre Maria, proferidas por muitos irmãos e irmãs que traduziram em palavras suas experiências de fé com Nossa Senhora.

Transmissão do terço na casa da Simone. O Emanuell, de 5 anos, demonstrou a sua fé para toda a comunidade paroquial, rezando uma dezena do terço


Uma Paróquia em constante formação Uma característica forte de nossa realidade paroquial é o aspecto formativo. Seja pelo Curso de Teologia ou outras iniciativas, os paroquianos constantemente são envolvidos com momentos de formação e atualização. E neste período não poderia ser diferente. É claro que diminuímos o ritmo e sabemos que não conseguimos atingir todas as pessoas, mas a internet tem sido uma ferramenta que nos ajuda a manter esse “fio formativo” nas nossas comunidades. Durante o mês de maio, duas formações sobre Maria – assessoradas por Frei James Girardi e Frei Gabriel Dellandrea, com o apoio de toda a Fraternidade – procuraram compreender melhor “O Lugar de Maria na Palavra de Deus”. Para os próximos meses, procuraremos fazer um calendário, que aos poucos será divulgado! Nesse sentido, o jovem Francisco Martins partilhou conosco um pouco de como tem sido para ele também o uso das ferramentas das mídias digitais para aprimorar seus conhecimentos: “Vivemos um momento complicado. Por vezes, me vejo tomado por preocupações. Além disso, fico cheio de saudades: saudades de ver os amigos, de estar em comunidade, dos abraços… Mas, por mais que seja difícil, é um tempo que também me ensina muita coisa. Aprendi que, mesmo não estando juntos presencialmente, estamos sempre juntos espiritualmente. É tempo de perceber isso e se reinventar. Usar a tecnologia nas nossas mãos para se conectar ao que realmente importa e, ao mesmo tempo, valorizar mais os momentos simples em casa e

Frei James apresentando o tema: “O lugar de Maria na Palavra de Deus” com a família. Agora, a igreja é doméstica, assim como as primeiras igrejas. Busco rezar com a família, com a Paróquia e com toda a Igreja pelas redes sociais. Vivo momentos de espiritualidade em vídeos, lives, podcasts, textos, notícias… Estar em casa também foi oportunidade para que eu pudesse me voltar a mim mesmo, me conhecer melhor, me aprimorar, me reinventar, para cada vez mais ser o melhor que posso ser”.

Equipe administrativa: um retorno sobre a situação da Paróquia

Sabemos que o aspecto financeiro tem afetado grandemente as nossas famílias. Todos sentimos na pele que neste tempo de instabilidade, e com maior ou menor intensidade, foi preciso refletir bem nos gastos para garantir o essencial. E em nossa Paróquia aconteceu este mesmo movimento. Logo a preocupação com os gastos apareceu, pois mesmo diante do fechamento das igrejas para atividades, outras saídas financeiras continuaram acontecendo. Apesar da preocupação, Deus nos surpreendeu

Além disso, ainda no mês de maio, no dia 23, a Paróquia realizou, juntamente com as ONGs “Desata-me/Paz e bem” e “Amigos do Ministério Público”, uma celebração em comemoração aos cinco anos da Encíclica Laudato Si’. Estas organizações, juntamente com outras iniciativas, têm garantido à nossa Paróquia um número considerável de cestas básicas. Elas quiseram celebrar conosco, mesmo que com todas as limitações do isolamento social e evitando aglomerações, esta data importante, trazendo também um número de materiais a serem distribuídos em nossas comunidades.

com sua infinita bondade e suscitou a solidariedade entre os membros de nossa Paróquia, dizimistas e benfeitores. Fátima Magalhães de Oliveira, da Comunidade São Pedro e São Paulo, que faz parte da equipe administrativa da Paróquia, nos brindou com este bonito relato: “Foi uma alegria ver que nossos irmãos e irmãs responderam com muita generosidade para com as necessidades e compromissos de nossa Paróquia. Isso com campanhas de conscientização para continuarem dando seus dízimos e ofertas, mesmo não tendo nossas celebrações presenciais. O carinho e a preocupação para com esses irmãos e irmãs foram correspondidos pela Paróquia, que, mesmo com todas as limitações, fizeram as transmissões on-line. Foram formas para as comunidades estarem envolvidas. Acredito que foi muito importante para nos sentirmos unidos, mesmo que distantes. Assim, nossos irmãos e irmãs nos mandavam mensagens perguntando sobre como poderiam nos enviar seu dízimo, e em isso tudo prevaleceu o amor”.

Material chegando para doações no dia da celebração em ação de graças pelos cinco anos da encíclica Laudato Si’ COMUNICAÇÕES

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//fraternidades Live Solidária: a festa da Paróquia Sabemos que uma das atividades mais recorrentes em nossas comunidades pelo Brasil afora são as chamadas “festa de Igreja”. Para os membros da comunidade é tempo de muito trabalho de preparação, mas também de alegria, descontração. É o lúdico de nossas comunidades, e precisa ser vivido e valorizado! E neste tempo de isolamento, aglomerações não são permitidas. Mas a Paróquia não deixou de “aglomerar alegria” e mesmo on-line, garantiu uma festa, com direito a música e animação, garantidas pelo cantor e tecladista Marcelo Vinícius. A live teve também sorteio de prêmios e prestação de contas. Síntia Porfíria de Souza da Silva, da Comunidade Jesus Crucificado, assim resumiu os sentimentos que viveu durante a Live e já mandou um recado para a próxima: “Nós, aqui em casa, principalmente eu e a Rafaela Maria, estávamos muito empolgadas com a Live Solidária. Ainda mais uma live promovida por gente que nós conhecíamos, gente da gente. Montamos um ambiente, colocando um

globo iluminado para ficar ainda mais alegre e divertido. A Rafaela Maria achou sensacional, mas deu a sugestão que na próxima live tivesse músicas infantis! Mas tudo deu certo, o caminho é esse a ser seguido. Nosso muito O cantor e tecladista Marcelo Vinícius obrigado por aquele que animou nossa live fim de domingo agradável e feliz”. nesse momento, queremos recordar um Mas a Live tinha um adjetivo que a episódio emocionante da Live. Frei João definia: Solidária. Ela era um momento Reinert anunciou que a sua família estava não só de descontração, mas também oferecendo uma ajuda para a aquisição de prestação de contas e exercício da de cestas básicas e outros elementos. E solidariedade. Muitas pessoas fizeram ele lembrou que um dos benfeitores era suas doações durante a transmissão, o seu familiar Fábio Fachini, da cidade de bem como depois, impelidos pelo apelo Gaspar (SC), que há quatro anos recebeu feito durante o ocorrido, lembrando da as orações da nossa Paróquia, pois foi nossa alegria na caridade! A todos, o acometido pelo vírus H1N1, sendo denosso muito obrigado! Seja em dinheiro, cestas básicas ou outros materiais, qualsenganado pelos médicos, mas que, por um milagre, venceu a doença com uma quer doação é sempre bem-vinda e será rápida recuperação. encaminhada aos mais necessitados! E,

“Comida para quem precisa” A nossa Baixada Fluminense possui inúmeras qualidades que tornam este um local sagrado. Muitas pessoas vivem uma busca intensa de espiritualida-

Um projeto de Igreja: com os pobres!

de, amizade, caridade e amor. Apesar disso, há também inúmeras fragilidades sociais e problemas que deixam a população deste território muitas vezes desassistida. Saneamento básico, segurança, saúde de qualidade, educação… essas e outras pautas são necessidades recorrentes que são enfatizadas pela fala ou pela simples análise da realidade da população. E neste tempo de instabilidade, esses problemas se agravam. A insegurança com relação ao trabalho, a diminuição na oferta de empregos, a limitação de tantos recursos fez com que as dores de muitos se tornassem ainda maiores, ou ao menos as suas preocupações com o amanhã, que se antes eram grandes, foram ampliadas. Diante deste contexto não é possível ficar indiferente, de braços cruzados, enquanto que os nossos irmãos e irmãs têm fome. E foi assim que

toda a Paróquia se mobilizou numa rede do bem que contou com duas iniciativas, que serão resumidas aqui, com alguns testemunhos:

Caridade e distribuição de cestas com proteção, mas sem perder o carisma!


fraternidades//

Os jovens Bruna Maria, Osmar Paulino e Frei Gabriel na distribuição de cestas

Parceria FAIM e Paróquia Uma das iniciativas foi idealizada e iniciada pelo FAIM (Festival de Artes de Imbariê), grupo artístico que realiza atividades culturais na região. No início da crise causada pelo coronavírus, o grupo se questionou: “O que podemos fazer diante disso tudo?”. Foi, então, que iniciaram as tratativas para arrecadar cestas de alimentos para famílias em situação de vulnerabilidade social. As primeiras doações vieram de professores universitários de membros do grupo. Essa atividade ganhou visibilidade de modo que o projeto foi contemplado com a oportunidade de fazer parte de um coletivo que se chama “Rio contra o Corona”, que

Distribuição de cestas na Vila Sapê

recebe doações de insumos de empresas para distribuir cestas básicas. A metodologia de trabalho foi de estabelecer um limite territorial para entregar as cestas nos sub-bairros do terceiro distrito de Duque de Caxias (chamado de Imbariê). De tal forma, o projeto acabou também tendo envolvimento com o território de algumas das comunidades de nossa Paróquia. A ideia do projeto, para evitar aglomerações, foi de criar subpolos com representantes locais para ajudar na distribuição. O apoio paroquial para este grupo Cestas básicas com livros: a fome também é de informação e cultura também se dá com voluntários que são representantes locais, ou ajudam a separar o material, estudante Bruna Maria, da Comunidade entregar nos subpolos… Além disso, o Jesus Crucificado, e que participa do espaço da comunidade Jesus Crucificado FAIM, como uma das organizadoras desse tornou o polo central onde são reunite projeto. Na dedicação ao projeto, ela afirmou que acaba não participando das das as doações a serem distribuídas. transmissões ao vivo da Paróquia como Todo o trabalho tem sido muito gostaria, mas procura seus meios de forte, ocorrendo sempre nos domingos nutrir a fé. Um exemplo disso é o bonito a principal tarefa de distribuição. Este dia testemunho que ela nos deixou: foi escolhido como mais adequado peloa “Eu tenho certeza que o projeto, grupo de voluntários. Porém, muitos apesar de não conter os ritos de uma tiveram que abrir mão de seus comproliturgia tradicional, é a minha comunhão missos e gostos, como é o caso da jovem dominical para que eu consiga ter forças para continuar. Essa quarentena não está sendo fácil para absolutamente ninguém. Nós, que também continuamos estudando, temos que continuar produzindo. Então, como podemos diante disso preparar o nosso emocional para viver esse tempo? Esse projeto tem me dado muita força. O FAIM, como grupo de manifestação artística, com isso procurou apoio também nos grupos religiosos, para justamente ajudar na construção de um Reino de Amor, da civilização do bem, da solidariedade e da misericórdia. Jesus passou um perrengue na vida para demonstrar justamente isso: que precisamos nos unir para ajudar o próximo e a próxima! Diante da indiferença dos governantes, esses pequenos grupos se COMUNICAÇÕES

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//fraternidades mobilizam para tentar amenizar todo esse problema. Tudo isso tem sido muito produtivo para o meu coração, para a minha mente e para a minha fé”. Experiência parecida vivenciou o jovem estudante Luiz Henrique da Silva dos Santos, da Comunidade São Domingos, que tem sido voluntário no projeto e relatou os sentimentos que afloram com tal prática: “Tem sido uma experiência desafiadora e impactante pois, por mais que eu more e conheça essa região há 15 anos, tem certas

realidades que fogem aos nossos olhos. Chegar em algumas casas e ou saber de algumas situações mais a fundo tem me feito perceber o quanto o Estado quis fazer pouco por nós, e, quando fez, foi só para maquiar determinados pontos do bairro. O sentimento, por vezes, é um misto de satisfação por poder ajudar as pessoas mas também isso se une a uma angústia de não poder fazer mais, pois a realidade de quem está ajudando não é de um megaprivilégio”.

Cestas numa associação de moradores em Santa Luzia

Somos a Igreja do Pão Repartido

Doações arrecadadas para as cestas (material de higiene e cartinhas) Embora a Paróquia tenha feito a sua parceria com o FAIM, essa realidade não abarcou todas as comunidades. Além disso, no começo não se tinha ideia de como as coisas seriam, e a Paróquia começou um forte trabalho também de cadastro de famílias, uma vez que a demanda é grande e mesmo os dois projetos atuando nas comunidades, há ainda famílias sem assistência. Assim, não faltaram iniciativas nas comunidades para garantir o alimento necessário. Afinal, a nossa forma de celebrar a Eucaristia nos impele a saciar a fome de nossos irmãos, mesmo que nós também estejamos com fome de celebrarmos juntos em comunidade. Assim, com doações da Paróquia

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toda (campanha do quilo nas comunidades), da Fraternidade Mãe Terra, de ONGs, de benfeitores, do Sefras (Serviço Franciscano de Solidariedade), a nossa Paróquia – até o fechamento desta matéria – arrecadou quase 500 cestas básicas que foram distribuídas para famílias carentes. Além disso, foram investidos valores na aquisição de remédios e gás de cozinha aos mais necessitados que apresentavam suas necessidades nas nossas portas. Os jovens da Paróquia se mobilizaram na arrecadação de material de limpeza para acrescentar nas cestas. Mais que rapidamente sabonetes, pastas de dente e pacotes de papel higiênico deram ainda mais dignidade às cestas. Além disso, como a juventude é criativa e

sensível, elaboraram uma série de cartas, bilhetes, dobraduras em formato de coração para acompanhar a cesta, com frases motivacionais, pois a fome não é só de pão, mas de carinho, atenção, cuidado e amor. Uma das jovens que fez os bilhetes, Isadora Alves, da Comunidade Divino Espírito Santo, ressaltou: “Foi bem gratificante fazer parte deste momento. Eu achei que não fosse conseguir, porém com a ajuda de todos, nós conseguimos. Foi com muito amor, muita dedicação! Fiquei horas dobrando papel, mas no final ficamos com saudades de estar escrevendo cartinhas”. Atrelado a esse trabalho, a Pastoral da Criança da nossa Paróquia não deixou de continuar a sua tarefa, embora adaptada com as medidas de restrição e isolamento. As famílias mais necessitadas que participam da pastoral têm sido contempladas com cestas pela Paróquia. Siomara de Azevedo, da Comunidade Jesus Crucificado, que atua nesta área, afirma que “eu vejo as crianças aqui na minha rua e eu fico preocupada pois algumas não estão utilizando as máscaras. Logo procuro lembrar às famílias dos cuidados essenciais. Eu sinto assim que, mesmo sendo muito pouco o que temos feito enquanto pastoral, me sinto muito comprometida com o meu trabalho e minha missão. Mesmo sendo iniciativas restritas, fico com o coração apertado, mas confiante”. Para evitar aglomerações, a Paróquia


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As doações têm sido um milagre da partilha! seguiu com a indicação de nomear um coordenador em cada Comunidade para atuar na distribuição das cestas. Todos os coordenadores procuraram fazer a sua parte com muito carinho, garantindo um trabalho que procurou atender ao máximo as necessidades, dentro das nossas possibilidades. Enesi Salmarino, da Comunidade Nossa Senhora Estrela, partilhou conosco que nasceu nesta região e sempre viveu aqui, mas por conta da rotina acabou não conhecendo tão bem a realidade das famílias necessitadas ao seu redor. Com o trabalho desse período, ela afirmou que “eu tomei consciência disso tudo agora através desse período de pandemia, onde tivemos a oportunidade de fazer o trabalho social de ajudar as pessoas do bairro. Através disso eu tive consciência das situações de miséria do meu bairro, independente da religião”. Da mesma forma, Lúcia Regina A. dos Santos, da Comunidade Santa Rosa de Lima, partilhou conosco um sentimento que é também de todas as pessoas que ajudam na distribuição de alimentos: “Durante a pandemia tivemos um tempo maior para olharmos os irmãos e irmãs sem emprego, sem salário, sem poder sair às ruas para ganhar o seu pão de cada dia. Ao sairmos de casa ouvimos os relatos e sabemos de perto as necessidades de cada um. O coração dói muito ao vermos essa dor. A distribuição de alimento nos dá alento”. Este relato se soma com a bonita conclusão que a Sebastiana Firmino da Silva, da Imacula-

Alimentos que compõem uma das cestas distribuídas pela paróquia da Conceição, nos apresentou: “Me sinto agradecida por estar fazendo parte deste momento de solidariedade, recebendo os alimentos em minha casa e fazendo as doações às famílias carentes”.

O que nos une é maior do que aquilo que poderia nos separar

Nesta distribuição de materiais essenciais para garantir a dignidade de nossos irmãos e irmãs do território de nossa Paróquia, Deus ainda nos presenteou com experiências ecumênicas. Uma delas foi na Comunidade São Sebastião. A coordenadora da comunidade, Simone Cruz Rodrigues, também esteve em atuação constante com a Kátia Maria da Silva Santos, que congrega na Igreja

Pessoas assistidas recebendo as cestas.

Assembleia de Deus do ministério ALFA, localizada em Parada Morabi. Esta nossa irmã nos relatou que por causa da sua infância, onde conviveu com pessoas de diferentes religiões, percebeu que “Jesus não é uma religião. Ele é o amor, a caridade, a ressurreição e a graça. Quando eu comecei a fazer esse trabalho eu pedi uma ajuda e a ajuda da Paróquia toda foi muito abençoada pois me levou a atingir um número maior de pessoas necessitadas”.

Conclusão

Fazemos nossas as mesmas palavras de Frei João Reinert em sua mensagem para a Paróquia: “Apesar de todas as dificuldades, de todas as sombras, em cada instante nos iluminou a presença santificadora do Espírito Santo. Apesar da saudade que sentimos de estarmos juntos fisicamente, de podermos nos abraçar, de nossos apertos de mão, de ouvirmos nossos cantos em uma só voz em nossas comunidades, apesar da saudade de visitarmos nossas comunidades. Apesar de tudo isso, nossos corações permanecem unidos pela fé, pela solidariedade e pela certeza de que passaremos por este momento difícil unidos e sairemos ainda mais fortes! Nosso muito obrigado a cada um de vocês pelo cuidado para com você mesmo, para com os outros, para com as nossas comunidades, e especialmente para os mais empobrecidos!”.

Frei Gabriel Dellandrea COMUNICAÇÕES

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//fraternidades

“Especial com Maria” marca o encerramento do mês mariano em Petrópolis s freis franciscanos do Convento e Paróquia do Sagrado Coração de Jesus de Petrópolis (RJ) encerraram, no domingo (31/05), o mês de maio, dedicado especialmente à devoção a Maria. A portas fechadas, por conta da pandemia do novo coronavírus e sem a presença dos fiéis, os frades encheram a centenária Igreja do Sagrado com espiritualidade, música, arte, poesia e interação, reunindo participantes do Brasil e até do exterior para reverenciar a Mãe de Deus numa noite especial. A Paróquia do Sagrado foi a anfitriã deste evento on-line e interativo. Durante a transmissão, os participantes foram convidados a publicar em suas redes sociais fotos e comentários com a hashtag “Live Mariana”. Além disso, os freis contaram com a parceria da TvFranciscanos da Província da Imaculada Conceição do Brasil, do Serviço de Justiça Paz e Integridade da Criação (JPIC) da Ordem dos Frades Menores, da Custódia das Sete Alegrias de Nossa Senhora do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, da Paróquia Santa Clara de

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Imbariê (RJ), Convento São Boaventura de Campo Largo (PR), Paróquia São Francisco de Assis de Duque de Caxias (RJ), blog do Conexão Fraterna do Rio, Paróquia Nossa Senhora do Rosário e do Convento da Penha de Vila Velha (ES), como também das páginas da Folhinha do Sagrado Coração de Jesus, do Centro Filatélico Franciscano e de outros canais e grupos do Facebook e YouTube. Frei Jaime Campos, coordenador do Serviço de Justiça, Paz e Integridade da Criação (JPIC), da Ordem dos Frades Menores, deixou em vídeo mensagem sobre a comemoração dos cinco anos da Encíclica Laudato Si’. Segundo ele, o Papa Francisco situa a Virgem Maria como uma pessoa que foi capaz de acompanhar o sofrimento do seu Filho Jesus Cristo. “Hoje, Maria acompanha a dor e o sofrimento de tantos crucificados e também de toda a criação”, observou. Frei Jaime aproveitou para anunciar que, durante todo este ano, a Família Franciscana mundial celebra o aniversário de cinco anos da Encíclica, através de uma campanha


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lançada na semana passada, chamada “Revolução Laudato Si’”. “Convido todos vocês para que se unam nesta Campanha e que possamos colocar em ações concretas a mensagem e os valores da Encíclica do Papa Francisco sobre o Cuidado da Criação”, propôs. A jovem Shayana Baptista, da comunidade Santa Rita de Cássia da Paróquia Nossa Senhora Aparecida de Nilópolis (RJ), dançou e interpretou a canção “Negra Mariama”, canto popular e bem conhecido pelo povo da Baixada Fluminense, rendendo louvores à Mãe de Deus, pela intercessão de Nossa Senhora Aparecida. “É sempre uma honra poder homenagear a nossa mãezinha”, disse emocionada. De Sorocaba (SP), da Paróquia Bom Jesus dos Aflitos, Frei Florival Mariano de Toledo abrilhantou a noite, entoando a música da qual é coautor, “Nossa Senhora dos Anjos”, do CD “Perfeita Alegria”. Frei José Ariovaldo Silva, vigário paroquial da Paróquia do Sagrado,

lançou com exclusividade a poesia “Do lado de cá”, arrancando muitas reações e comentários positivos dos internautas. Segundo ele, a inspiração se deu através de uma pintura do quadro do artista Luis Sainz. Já da Paróquia Santa Clara de Assis, de Imbariê (RJ), Frei Gabriel Dellandrea cantou “Anunciação”, do cantor e compositor Alceu Valença. “Maria sabia que Jesus estava a caminho, e por isso já escutava os seus sinais”, recordou o jovem frade. Durante toda a transmissão, o apresentador Frei Felipe Carretta interagiu com os telespectadores lendo alguns comentários, como o de Sandra Guedes, que agradeceu todos os freis “por trazer esse lindo trabalho para dentro de nossas residências”. Já Tainá Freitas disse que a “live com louvores à Mãe Maria foi maravilhosa”! Rosana Sousa dos Santos, de Natal (RN), disse: “Que coisa boa de ouvir! A música, assim como Maria, é um acalento em nossa vida”. Frei Rafael Spricigo, de Ituporanga (SC), também deixou registrado a sua participação: “Imensamente feliz por rever os confrades de caminhada. Por intercessão de Maria Imaculada Deus abençoe a todos. Obrigado por este momento de oração e arte”. Os frades da Fundação Imaculada Mãe

de Deus de Angola deixaram a live mais animada e fizeram um intercâmbio cultural, com músicas e ritmos próprios do povo angolano. Entre as canções, os freis entoaram, a caráter, a música “Mama Muxima”. Segundo Frei Canga Manoel Mazoa, “Mama Muxima” representa o grande amor dos angolanos por Maria. “Ela é a mãe do coração e está presente na vida dos angolanos em todos os momentos, seja de alegria, tristeza, como também de esperança”, enfatizou. “Para nós, Maria é a Mama Muxima”, finalizou. Entre uma interação e outra, os freis do Sagrado cantaram canções populares em estilo pot-pourri e em gregoriano. Diretamente do Convento São Boaventura de Campo Largo (PR), os frades de Rondinha cantaram a música “Salve Rainha mãe de Deus”, do compositor José Alves, com direito a flauta, harmônio, baixo e violão. E de Araraquara (SP), a jovem irmã Karine Edvirges Zendro, da Congregação das Irmãs Franciscanas da Imaculada Conceição, cantou em alemão a música “Ave-Maria”. No final da transmissão ao vivo, que durou 1h40, Frei Felipe agradeceu a todos pela participação e interação, especialmente ao pároco e guardião Frei Jorge Paulo Schiavini, que apoiou desde o começo o “Especial com Maria”. Com a palavra, Frei Jorge agradeceu a todos pela companhia e também aqueles que colaboraram para o bom êxito da live. “Como é bom estar perto de nossa Mãe Maria por meio da oração, arte e poesia”, refletiu. Frei Felipe agradeceu todas as páginas pela parceria, divulgação e apoio na promoção da #LiveMariana. E, convidou todos os freis participantes a se dirigirem em frente da imagem de Nossa Senhora da Imaculada Conceição para, juntos, entoarem o “Tota Pulchra”, canto tradicional dos franciscanos.

Frei Augusto Luiz Gabriel COMUNICAÇÕES

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//fraternidades SÉRIE Frei José Ariovaldo Da Silva

“Sou um velho feliz!” A

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alegria da gratidão dissolveu possíveis lamentos ou murmurações por desconfortos passados. Sou um velho feliz! E serei ainda muito mais feliz, com certeza!”. Essa sinceridade e espontaneidade é de Frei José Ariovaldo, celebrando 50 anos de vida religiosa franciscana e 75 anos de uma história que começou em Canoinhas (SC), no dia 1º de janeiro de 1945. Até se tornar um dos grandes liturgistas do Brasil, superou desafios dores e angústias, como diz, mas também alegrias e sucessos vividos. Ordenado presbítero no dia 30 de dezembro de 1973, se doutorou em Liturgia pelo Pontificio Ateneo S. Anselmo (1981), em Roma. Professor no ITF desde 1981, quando retornou de Roma; foi também professor no Instituto Teológico de Juiz de Fora, na Pós-graduação da Faculdade de Teologia N. Sra. da Assunção, em SP, mais tarde membro do Centro de Liturgia “Dom Clemente Isnard”, ligado ao Instituto Pio XI (UNISAL – São Paulo), deu aulas também na Pontifícia Universidade Antonianum de Roma. Foi membro fundador da Associação dos Liturgistas do Brasil (ASLI), da qual foi o primeiro presidente. Enquanto conferencista, viajou o Brasil de Norte a Sul, do Leste ao Oeste, para levar o aprofundamento litúrgico a fim de que houvesse uma renovação da prática celebrativa das comunidades. Prestou inúmeras assessorias em dioceses, paróquias, congregações e ordens religiosas. Contribuiu em diversos cursos, seminários, congressos, semanas de liturgia. Foi membro da Comissão Episcopal para a liturgia da CNBB, fazendo parte por muitos anos da equipe de reflexão da linha 4 (dimensão litúrgica da CNBB) e membro da Comissão para Acabamento da Basílica Nacional de Aparecida. Conheça um pouco mais Frei José nesta entrevista a Moacir Beggo.


fraternidades// Comunicações - Em que momento de sua vida se sentiu atraído pelo carisma franciscano? Frei José Ariovaldo - Tenho certa dificuldade em definir exatamente o “momento” em que me senti atraído pelo carisma franciscano. Diria que a atração foi processual. Foi despertando aos poucos e evoluindo mais e mais com o “andar da carroça” do meu viver. Creio que começou, embora de forma tênue e superficial, lá no tempo de minha infância pelo contato, embora distante, com os frades de nossa Província em Canoinhas (SC), minha terra natal, bem como, mais diretamente, com as Irmãs Franciscanas de Maria Auxiliadora, em cujo colégio fui alfabetizado e catequizado. O jeito carinhoso e amável de ser das Irmãs me marcou muito. Cultivava no meu corpo de criança certa admiração e encantamento também pela cor marrom do hábito, tanto dos frades como das freiras. Lembro-me de quando, aos 14 anos (em 1959), manifestei o desejo e a decisão de “ser padre” (era assim que se pensava na época!). Não faltou quem me propusesse a possibilidade de ser padre jesuíta, redentorista ou diocesano, ao que pronta e firmemente reagi: “Não! Padre de batina preta não quero ser!” Comunicações - Então foi essa a motivação que o trouxe para a Ordem dos Frades Menores? Frei José Ariovaldo - Remotamente, muito remotamente, creio que sim. Foi o chute inicial. Mas, como eu disse, com o “andar da carroça”, depois, ela foi se ressignificando mais e mais por outras mais consistentes. O que me motivou mesmo, depois de longo processo de amadurecimento, passando pela experiência de sete anos de seminário, bem como de noviciado e primeira profissão no dia 03.02.1969, e de todo tempo de estudos filosófico-teológicos, foi a conclusiva descoberta – desafiante descoberta! – do ser franciscano como constante e teimosa busca do “não ser dono de nada, nem da vida” e, consequentemente, viver uma vida fraterna

e pacífica com tudo e com todos. Deus é o Senhor e Pai, e nós, com todas as criaturas, somos todos irmãos e irmãs. Foi o exercício de conversão permanente que Francisco fez, a seu modo, à luz da provocação do Evangelho de Jesus Cristo. E pensa que foi fácil? Não foi não! Ele mesmo se via o pior pecador, um mísero vermezinho. Foi-lhe impossível? Também não, pois sentia e cultivava uma misteriosa Presença: A viva presença do Senhor em sua própria carne e na carne dos irmãos, sobretudo os mais pobres, os leprosos, bem como em toda a Natureza, a dar-lhe alegria e suporte na teimosa tentativa de amansar seu lobo interior. Essa foi a descoberta que fiz e que me motivou a viver na Ordem. Lembro-me da minha profissão solene, no dia 04.08.1972. Prostrado ao chão, no momento da Ladainha de Todos os Santos, sussurrei no meu íntimo: “De nada sou dono. Entrego-me totalmente a ti, Senhor, para viver em Fraternidade. E é com este propósito franciscano que vou continuar a me trabalhar”. É uma motivação que me fez sofrer, pois sempre de novo me percebi pecador, isto é, muito senhor e pouco servo. No fundo, também me cobrava muito por isso! Tive que trabalhar em mim também esta questão, o que, enfim, graças a Deus, me fez perceber e sentir em mim, mais e mais, uma misteriosa, amorosa, compreensiva e confortadora força, que me levava a jamais desistir da luta na busca de autossuperação. É a tal presença do Senhor em minha carne, do Senhor que fez de nossos corpos o seu espaço sagrado. Lembro-me ainda da experiência que vivi no meu ano jubilar, ano passado, 2019. Vi que dentro de mim aninhou-se, de repente, um intenso e profundo sentimento de gratidão, muita gratidão! Fazendo um balanço dos meus 50 anos de vida religiosa franciscana, lembrando os desafios enfrentados, dores e angústias que passei e, por outro lado, revendo tantas alegrias e sucessos vividos na convivência com os confrades e com o povo de Deus em geral, nos estudos, nos trabalhos pastorais e acadêmicos, nos contatos com tantas

pessoas em cursos e assessorias, nas produções escritas, vejo nitidamente como Deus “cuidou” de mim! Resultado: Aqui dentro de mim, Ariovaldo, agora é quase só gratidão, e tão intensa que, inclusive, hoje não tenho praticamente nada do que lamentar de eventuais desventuras passadas. A alegria da gratidão dissolveu possíveis lamentos ou murmurações por desconfortos passados. Sou um velho feliz! E serei ainda muito mais feliz, com certeza!

Comunicações - Fale um pouco de sua família, de sua vida. Frei José Ariovaldo - Pois é! Tanta coisa pra contar! De alguma coisa já falei há pouco. Vou trazer alguns detalhes a mais, dos inícios. Nasci no dia 1o de janeiro de 1945, num lugarejo do interior do município de Canoinhas (SC), chamado Sereia. Portanto, estou agora com 75 anos. Vivi minha infância no interior. Meus pais eram agricultores. Sou o mais velho de uma família numerosa de 12 filhos. Depois de certo tempo, moramos a uma distância de uns 8 quilômetros da cidade. Família muito religiosa, todos costumávamos ir à missa aos domingos, às vezes a pé, às vezes de carroça. A reza do terço, todas as noites após a janta, era sagrada, mesmo cansados da labuta da roça. Papai era muito devoto de Nossa Senhora Aparecida. E aí me lembro de um fato interessante, quando meu pai comprou um rádio. Era um SEMP a pilha. Isso lá por 1953/54. Certa feita, papai e eu ouvíamos um programa da Rádio Aparecida, em que um missionário redentorista conclamava os jovens para serem missionários. Eu devia ter uns 8 ou 9 anos de idade. Terminado o programa, papai olhou para mim, deu um leve sorriso e, como que a brincar, me provocou: “E daí, não quer ir, ser missionário?”. Fiquei quieto, um jeito surpreso. Não respondi nada. Mas aquilo calou fundo. Pensativo, fui “cozinhando”, daí em diante, dentro em mim, a possibilidade de um dia ser “padre missionário”. E sem dizer nada a ninguém! Aquilo sempre me inquietava. E tinha que decidir. Enfim, lá pelo mês COMUNICAÇÕES

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//fraternidades de agosto/setembro de 1959, num belo dia, à noite, já com 14 anos, sentado e pensativo à beira do fogão, antes da janta, tomei a decisão. Falei pra mim: “É hoje! Hoje vou revelar meu segredo. Vou falar do que estou querendo mesmo da vida!”. Dito e feito! À mesa, família toda jantando, diante do papai falei: “Pai, tenho uma coisa pra dizer. Quero ir para o seminário. Quero ser padre. Será que posso?”

Comunicações - E como a

família recebeu a notícia? Frei José Ariovaldo - Todos foram tomados de surpresa. Profundo silêncio momentâneo tomou conta do entorno à mesa. “Ser padre, o José?!...”, era com certeza o silencioso refrão de susto e surpresa. Mas ninguém se opôs. Mamãe exultou com uma breve exclamação de alegria: “Meu filho!” Papai deve ter tido arrepios na alma e no corpo. Mas aquele natural sentimento humano de “perda” do filho mais velho, na hora, com certeza, fora sublimado por outro maior, ou seja, pelo religioso sentimento de “entrega”. “Sem problema, meu filho. Vai ser difícil para nós. Mas se é essa a tua vocação, seja como Deus quer. Pode ir, sim. De nossa parte, damos todo apoio possível. Vamos dar um jeito”, comentou papai. O medo imaginário de papai era, com certeza, como custear os estudos, pois éramos uma família pobre. Logo na semana seguinte, papai me levou para uma conversa com os freis na paróquia. Encontramos o pároco, Frei Cristóvão Horn, que, devido ao meu longo tempo sem estudar mais – tinha completado o primário havia já três anos –, questionou sobre minha aptidão intelectual para o seminário. No entanto, a decisão sobre mim não cabia a ele, mas ao Frei Samuel Both que, no momento se encontrava em visita às comunidades do interior. Passou-se um mês, e lá fui eu conversar pessoalmen-

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te com Frei Samuel, aquele frade alto, grandão, enorme. Uma bondade de pessoa! Pela simplicidade, bem afinada a quem do interior, da roça, me deixou muito à vontade para falar de minha decisão tomada. Mais outro mês passou e, então, ele me fez um teste oral de conhecimentos de fé e religião. Terceiro mês passado, Frei Samuel me comunicou a aprovação para o ingresso no seminário, entregando-me ao mesmo tempo a listagem do enxoval a ser provi-

Fazendo um balanço dos meus 50 anos de vida religiosa franciscana (...), vejo nitidamente como Deus “cuidou” de mim! denciado. O susto de papai foi grande. Não o demonstrou abertamente. Mas pela expressão facial dava para notar sua preocupação. Imagino o esforço dele para ter que comprar tudo aquilo: roupa de cama, toalha de banho e de rosto, sapato, chinelo, meias, camisas, paletó, calças, cuecas, pijamas, sabonete, pasta e escova de dente etc. Alta despesa para um pequeno agricultor com família numerosa. Mas, com muito sacrifício, conseguiu. Em fevereiro de 1960, despedi-me de meus pais e irmãos para uma viagem que, hoje, já dura 60 anos. Foi

um momento de muitas lágrimas por parte de mamãe e papai, num misto de alegria pela missão que eu haveria de assumir, e de tristeza pela saudade que já estavam a sentir. Quanto a mim, saí de cabeça erguida, disposto ao que der e vier. Acompanhado de Frei Samuel, com outros garotos viajei para o Seminário São João Batista, em Luzerna (SC). Primeira vez que viajava de ônibus (Canoinhas e Porto União) e primeira vez de trem (de Porto União a Luzerna). Em Luzerna permaneci só um ano, preparando-me para o Ginásio no Seminário São Luís de Tolosa, em Rio Negro (PR), onde estudei dois anos (1961-1962). De Rio Negro, fui encaminhado depois para o Seminário Santo Antônio de Agudos (SP), onde, após o término do Ginásio em 1964, cursei os três anos de Científico (1965-1967). Mantive permanente contato com a família, mediante cartas que trocávamos e, sobretudo, pelo tempo de férias de final de ano com ela, sobretudo ajudando nos trabalhos de agricultura. Lá por 1964, papai passava por dificuldades econômicas. Frei Onésimo Dreyer, reitor do Seminário de Agudos, entendendo a situação, generoso e compassivo, conseguiu-me da Alemanha um padrinho na pessoa do Sr. Heinrich Lang e família, que assumiu os custos das mensalidades do Seminário. Ficamos imensamente gratos a Deus pela família Lang e o querido Frei Onésimo, por quem oramos sempre.

Comunicações - Você é feliz como frade menor? Frei José Ariovaldo - O tempo de Seminário foi maravilho. Foi um tempo rico que, pela formação humana, espiritual e intelectual dada, contribuiu intensamente para minha posterior vida de frade feliz. Tantos detalhes de experiências lindas vividas e de desafios enfrentados! Daria um livro!


fraternidades// Depois veio o tempo de Noviciado (1968), conduzido pelo querido Frei Basílio Prim, um santo frade que primava pela retidão de vida. Tempo inesquecível, pelas primeiras experiências de vida fraterna, de oração pessoal e comunitária intensa e, por que não, pelos momentos de crise e decisões a serem tomadas. Por exemplo, foi aí que tive que dar uma ressignificada à minha decisão vocacional, ou seja, antes de ser padre tinha que trabalhar para ser frade menor. Uma experiência que me marcou também: Vivi uma crise de fé no tocante à existência de Deus. Incomodava-me e me angustiava a ausência de uma compreensão pessoal de Deus que me preenchesse. Até que, num belo dia, ao ler a Primeira Carta de São João, deparei-me com uma definição de Deus que me marcou para o resto da vida, ou seja, que “Deus é amor” (1Jo 4,8). Virou, mais tarde, até lema do meu ministério ordenado! O tempo de estudos filosófico-teológicos, em Petrópolis (1969-1974), foi também riquíssimo, trazendo-me enorme crescimento humano, espiritual, intelectual, em que, inclusive o tema “Deus é amor” foi sendo ressignificado e aprofundado. O intenso exercício do pensar filosófico através das aulas, seminários de Filosofia e leituras, as aulas de Psicologia, o apurado contato com a Sagrada Escritura pelo estudo da exegese bíblica, o intenso contato com o pensamento teológico para os tempos atuais, o contado com a História da Igreja, o mergulho nos Escritos de São Francisco, o exemplo de vida dos confrades mais velhos, os contatos com as comunidades eclesiais nas pastorais de final de semana, e tudo isso em meio a naturais crises, conflitos e dificuldades a serem superados, veio me contribuir para o ser frade menor feliz. Depois veio o tempo de estudos em Roma (1974-1981), especializando-me naquela que, junto à compreensão de Deus como Amor, virou minha paixão, a divina Liturgia. Descobrir o maravilhoso sentido da divina Liturgia, bem como partilhá-lo depois como professor,

assessor, escritor, contribuiu em muito para a minha felicidade como frade menor. Enfim, respondendo à pergunta se sou feliz como frade menor, posso dizer que sim, e muito! Como já aludi antes, sou feliz, sobretudo, pela experiência de imensa gratidão que senti no ano passado, por ocasião do meu jubileu de ouro na Ordem. Gratidão pelo quanto Deus cuidou de mim, me amou, nestes anos todos, feitos de alegria e tristeza, saúde e doença, dando-me a graça da teimosia na caminhada sempre em busca de conversão. Gratidão inclusive terapêutica que, com o passar dos anos recentes, graças a Deus, veio me purificando de eventuais mágoas e amarguras por sofrimentos passados. Até poesias passei a compor, de 2013 para cá. Numa delas, com o título “Deo gratias”, de 14.04.2018, concluo assim: “Não mais me sinto nem senhor do dono que me vejo ser, sou um vazio bem cheio só de pura gratidão”.

Comunicações - Como ser um bom frade? Quais os desafios da vida em fraternidade? Frei José Ariovaldo - São Francisco continua sendo o nosso melhor facilitador para ser um bom frade. Claro, antes dele, temos nosso Mestre Jesus Cristo. Ele, no momento dramático do Getsêmani (cf. Mt 26,36-46), alerta os seus discípulos para algo que, a meu ver, é de suma importância na vida: A vigilância. “Vigiai e orai para não cairdes em tentação”, nos alerta (Mt 26,41). Mas, atenção: Vigiar, no meu entender, não significa “se policiar”, neuroticamente ficar “se cobrando”. Vigiar tem a ver com pôr-se em sereno e permanente estado de atenção, de observação plena sobre o que a gente está a sentir e pensar. Se você se habitua a estar neste estado, mais facilmente você percebe quando é o seu ego que está querendo pôr-se no comando, pronto a derrubar você num clima de medo, ansiedade, culpa, controle, ódio, agressividade etc... A oração de Jesus no Getsêmani, “Pai, se for possível, afasta de mim este cálice, contudo

não se faça como eu quero, mas como tu queres” (v. 39), expressa bem o seu estado de vigilância que o leva a flagrar o “eu” querendo estar no comando para mergulhá-lo no desespero total. Ele mesmo, naquele crítico momento, faz o exercício desta vigilância e, assim, superando a tentação do “eu”, atira-se confiante à vontade do Pai. São Francisco também, com certeza, procurava viver este estado de permanente vigilância e, nesta vigilância, ia se superando, entregando-se à vontade do Pai. Provavelmente, o fazia com muita dificuldade e dor, pois sempre de novo percebia o quanto seu “eu” o perturbava no projeto de seguimento do Mestre Jesus. Isso se percebe pelo quanto ele se via seguidamente um vermezinho pecador e, ao mesmo tempo, sumamente amado por Deus. No meu entender, pela minha experiência pessoal atual, a estas alturas da vida, um excelente caminho para ser um bom frade é este do exercício permanente de estar alerta em relação aos sentimentos e pensamentos que vão aparecendo, ao que os nossos irmãos budistas chamam também de permanente estado de presença ou de meditação em qualquer tipo de ação, inclusive na ação de ficar com o corpo imóvel e a mente meditando. Este “trabalho” com a gente mesmo, no meu entender, tem repercussão positiva para a vida em fraternidade. Pois, por ele, chega-se a um ponto em que a gente já não julga mais os outros, mas apenas convive com todos de maneira humilde, simples, gratuita, alegre, compassiva e compreensiva. Cria-se um feliz clima de harmonia entre os irmãos. É o desafio que temos pela frente, sobretudo neste tempo em que, pelo consumismo da época, somos facilmente “distraídos”, alienados de nós mesmos, desconectados de nossa alma.

Comunicações - O senhor acha que os frades estão aproveitando bem a evidência do carisma franciscano que o Papa Francisco sempre faz questão de colocar em pauta? COMUNICAÇÕES

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//fraternidades Frei José Ariovaldo - Papa Francisco é uma bênção para nós, frades, nestes desafiantes tempos em que vivemos. Ele, resgatando o espírito do Vaticano II de volta à Fonte originária cristã, na pessoa de Jesus Cristo – o que nosso Pai São Francisco buscou também fazer no seu tempo –, constitui para nós um enorme estímulo para a vivência do Evangelho hoje. Tenho impressão que os frades estão se dedicando a viver o carisma franciscano lembrado pelo Papa. Não é fácil, devido a padrões egoicos (do ego) que, como parasitas agarrados em nossos corpos, nos dificultam a dar o salto para “viver o Espírito do Senhor e seu santo modo de operar” (RB X,9). Mas não é impossível. Há uma preocupação e empenho de muitos frades no sentido de arriscar o salto...

sempre tinha eu, codificado, padronizado, um conceito de Liturgia tipo “complexo de ritos eclesiásticos, ritual”, como se podia ver em antigos dicionários para escolas médias. Nosso exímio professor e mestre em Liturgia no ITF, Frei Alberto Beckhäuser, me abriu os horizontes de compreensão da Liturgia como Mistério do culto da Igreja. Tinha a ver com o mistério de Deus a agir no culto da Igreja. Em Roma, as aulas de teologia

Comunicações - Como você

apresentaria a Ordem dos Frades Menores a um jovem hoje? Frei José Ariovaldo - Antes de tudo, pediria para o jovem buscar conhecer São Francisco, através da leitura de biografias do Poverello e seus escritos. Então sim, a partir daí, em conexão o São Francisco aos poucos conhecido e descoberto, lhe mostraria como a Ordem é organizada e como o carisma está sendo vivido hoje: Vida em Fraternidade, Vida de oração e contemplação, Ação evangelizadora.

Comunicações - O senhor disse que se especializou em Liturgia em Roma. O que é Liturgia? Frei José Ariovaldo - Uma coisa é a Liturgia como ciência, a saber, a pesquisa e estudo sobre a Liturgia como tal. Mas, o que é esta “Liturgia como tal”? Como já disse antes, a descoberta do seu sentido teológico é que me fez dela um grande apaixonado. Já digo por quê. No meu inconsciente, ligado também de um inconsciente coletivo, 362 COMUNICAÇÕES JUNHO DE 2020

Já notou que, nas missas, muitas vezes, quase só “nós” ou “eu” que falamos do começo ao fim? Pouco espaço sobra para Deus falar. da Liturgia ministradas pelo saudoso professor Salvatore Marsili me possibilitaram um insight que me marcou para sempre e, a partir daí, como costumo dizer, a Liturgia para mim “virou uma cachaça”. Liturgia: trata-se de um vocábulo grego. Seu sentido mais originário grego tem a ver com “prestação de serviço comunitário”. Qualquer tipo de ação, operação, serviço de alguém, que venha beneficiar uma pessoa ou coletividade, os gregos chamavam de liturgia. Assim sendo, olhando para a Santíssima Trindade (Pai e Filho e Espírito Santo),

cheguei à conclusão que esse Deus Trindade, o melhor servidor da humanidade, é aquele que realiza a melhor liturgia. Assim sendo, Liturgia é o próprio modo de Deus ser e agir qual servidor da humanidade. O mais perfeito. É o mesmo que dizer: “Deus é amor” (1Jo 4,8)! Por isso, quando eu disse que “Deus cuidou de mim”, eu posso chamar esse amoroso cuidado dele de divina Liturgia. Pois bem, toda essa divina Liturgia se torna célebre – é celebrada! –, atualizada, de muitos modos: Pela Natureza que nos cerca, pelas práticas de serviços fraternos, pela vida vivida segundo o Evangelho e, por fim, por nossas ações rituais memoriais da divina Liturgia, a fim de vivê-la melhor no dia a dia. Portanto, não se trata apenas de executar ritos religiosos. Trata-se de uma vivência da divina Liturgia presente em todas as nossas ações, sejam elas rituais, sejam elas relacionadas a práticas concretas, a serviços fraternos. Ver a Liturgia nessa perspectiva faz a diferença no próprio modo de celebrá-la, que se torna eminentemente evangelizador. Comunicações - Como o senhor vê hoje o crescimento a posturas rígidas e ultraconservadoras contra o Concílio Vaticano II, que faz de jovens desinformados da história, da teologia da Igreja e da sua Liturgia, uma presa fácil? Frei José Ariovaldo - O problema é que, coletivamente, sobretudo no Ocidente, estamos inconscientemente ainda muito padronizados, codificados, segundo um conceito de Liturgia como mera execução de rituais religiosos... Isso vem de longa data e se cristalizou de tal maneira no corpo coletivo, na cultura católica, que se chama isso de verdadeira “tradição” da Igreja. Nascemos e crescemos dentro desta cultura, e nossos corpos – sem percebermos – acabam sendo programados com este modo de


fraternidades// pensar, dito cristão. Creio que vai levar um bocado de tempo para se rever e desconstruir essa secular “tradição” conceitual da mente humana para, aos poucos, os cristãos se re-conectarem com a Fonte que é o liturgo Jesus Cristo. Haja paciência!...

Comunicações - Os sonhos acalen-

tados por muitas décadas de uma liturgia acolhedora e participativa, tendo como sujeito a assembleia do povo santo, consolidada pela reforma e renovação conciliar e enunciada na Sacrosanctum Concilium, correm perigo depois de 50 anos em terras brasileiras? Frei José Ariovaldo - Não diria que correm perigo, mas constituem um permanente apelo evangelizador no sentido de superar a compreensão da Liturgia celebrada como mera execução de ritos religiosos, como já disse antes. A Liturgia celebrada é um momento de experiência pessoal e comunitária de fé cristã pela escuta da Palavra e participação no sacramento, que necessariamente se desdobra depois, no dia a dia, como vivência prática do amor, da justiça, da paz, do respeito à vida, em todos os âmbitos das relações humanas e com a Natureza. Não foi o que aconteceu em séculos passados, por exemplo, no Brasil colônia e toda a América Latina. Muitos católicos “fervorosos” participavam dos rituais religiosos, mas na prática matavam os índios, invadiam suas terras, roubavam o ouro, escravizavam e torturavam os negros, depredavam as florestas, e assim por diante. Alguma coisa estava errada nestes rituais, pois não humanizavam seus participantes!

Comunicações - Comente, por favor, a frase da poetisa e pensadora Adélia Prado: “Missa é como um poema, não suporta enfeite nenhum” Frei José Ariovaldo - Tenho imensa admiração por esta nossa irmã poetisa, da Ordem Franciscana Secular, Adélia Prado. Compus até uma poesia em sua homenagem. Chama-se “Preito à poetisa”. A frase, dita por ela em Aparecida, no dia

29.11.2007 – se não me engano –, numa palestra sobre “a linguagem poética e linguagem religiosa”, para os participantes de um festival musical e cultural chamado “Vozes da Igreja”, fala muito e é provocadora. Na ocasião, com um tom de humor e lamento, referindo-se a certas missas por aí, ela disse: “Olha, gente, tem algumas celebrações que a gente sai da igreja com vontade de procurar um lugar para rezar”. O problema é que, por não se entender que a missa é expressão enxuta e simples daquilo que é essencial da vida da Igreja – poesia pura, portanto –, sempre houve e há ainda uma tendência muito acentuada de inventar coisa nova e entulhá-la de “enfeites”, movimentações alegóricas, ruídos de muitas palavras e sons, músicas e cantos barulhentos sem gosto artístico, com letras que não têm nada a ver etc. Adélia Prado então enfatiza: “A missa é a coisa mais absurdamente poética que existe. É o absolutamente novo sempre. É Cristo se encarnando, tendo a sua Paixão, morrendo e ressuscitando. Nós não temos de botar mais nada em cima disso, é só isso”. Já notou que, nas missas, muitas vezes, quase só “nós” ou “eu” que falamos do começo ao fim? Pouco espaço sobra para Deus falar. Só nós, nós, nós... eu, eu, eu... Daí a importância do silêncio, ou seja, do calar-se, como linguagem eminentemente poética. Há uma forma silenciosa de proclamar a Palavra, cantar canto litúrgico, tocar um instrumento, pronunciar uma oração, fazer uma homilia etc. Trata-se de fazer tudo isso, mas na permanente audição de Deus. Como diz a poetisa: “A palavra foi inventada para ser calada. É só depois que se cala que a gente ouve. A beleza de uma celebração e de qualquer coisa, a beleza da arte, é puro silêncio e pura audição”. E continua: “Parece que há um horror ao vazio. Não se pode parar um minuto... Não há silêncio. Não havendo silêncio, não há audição. Eu não ouço a palavra, porque eu não ouço o mistério, e eu estou celebrando o mistério”.

Comunicações - É recomendável que se prepare a equipe da Liturgia da Palavra com antecedência?

Frei José Ariovaldo - Com certeza, porque a Palavra na celebração não são palavras apenas, mas o Cristo vivo, Palavra do Pai, se comunicando com os membros do seu Corpo mediante o livro, os códigos verbais (palavras), o espaço da sua proclamação (o ambão) e, sobretudo, pelo leitor(a) que a proclama. Então, qual a missão da equipe celebração da divina Liturgia? É a de possibilitar que a assembleia litúrgica, toda ela, se transforme num espaço aberto, bem aberto, de audição da Presença do Cristo-Palavra... Depende de como (com que espírito) os agentes (o livro, as palavras, o ambão, os leitores e outros ministros e ministras) se apresentam e são apresentados. Ora, para que tal experiência do mistério aconteça na celebração, é fundamental que a equipe de Liturgia se prepare, não só do ponto de vista técnico, mas, sobretudo, do ponto de vista espiritual.

Comunicações - Muitas vezes, tem-

-se a impressão que um presidente da Celebração litúrgica, e mesmo equipes de Liturgia, está na frente dando seu showzinho particular e roubando ao povo o direito à Palavra e ao canto. O que o senhor opina sobre isso? Frei José Ariovaldo - Ligando com o que há pouco ouvíamos da poetisa Adélia Prado, há que se educar para uma forma silenciosa de agir na Celebração. Atuar em qualquer ministério numa assembleia litúrgica exige vigilância e muita ascese. Pessoalmente me esforço por fazer sempre comigo o exercício de vigilância sobre o meu ego. Pois, se cochilo, vacilo e meu “eu” toma o comando e – pronto! – corro o risco de fazer muito barulho, de tornar-me um showman, e a voz do mistério fica abafada.

Comunicações - O que o senhor traria como preocupação hoje, após 37 anos de publicação de sua tese de doutorado, “O Movimento Litúrgico no Brasil – Estudo Histórico”? Frei José Ariovaldo - A partir do século 19 desenvolveram-se na Europa grandes centros de pesquisa e descoCOMUNICAÇÕES

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//fraternidades berta no âmbito da Sagrada Escritura, Patrística, Arqueologia cristã e, sobretudo, das fontes litúrgicas antigas (Sacramentários, Missais, Pontificais, Rituais etc.). Com tais pesquisas foi se tomando consciência cada vez mais aguçada sobre o quanto a compreensão de Liturgia e suas práticas celebrativas se distanciaram das Fontes mais originárias de vivência cristã. Daí surgiu na Europa – a partir de 1909 – um influente movimento de reforma da Liturgia dentro da Igreja. O movimento desembocou no Concílio Vaticano II com a Constituição Sacrosanctum Concilium sobre a Sagrada Liturgia, que apresentou as bases teológicas e orientações pastorais para uma reforma da Liturgia e consequente renovação da vida litúrgica da Igreja. O movimento chegou aqui no Brasil e, a partir de 1933 criou corpo para valer por influência dos monges beneditinos, alguns bispos, vários padres e as lideranças leigas da Ação Católica. Pesquisei-o em sua evolução até o anúncio do Concílio pelo Papa João XXIII em janeiro de 1959. Uma das coisas que me chamaram atenção foi o feroz estranhamento que alguns segmentos conservadores da Igreja Católica, mais ligados às devoções marianas, manifestaram frente esta busca pela reforma da Liturgia. Houve muitos conflitos, pois era uma coisa nova que aparecia. Os promotores da reforma litúrgica eram acusados de hereges, e até de comunistas pelo fato de, a partir da Liturgia, incentivar a experiência de vida comunitária e participativa na Liturgia. É que os conservadores traziam dentro deles padrões religiosos devocionais acentuadamente individualistas, provindos da Idade Média, e que o resgate do sentido próprio de Liturgia, bebido das fontes patrísticas e das fontes litúrgicas antigas, questionava. O que me incomoda é que, não obstante o movimento litúrgico e, depois, os 47

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anos já passados de reforma litúrgica pós-conciliar, tais padrões religiosos conservadores não foram equilibrados, muito menos sanados, no inconsciente coletivo de fortes segmentos da Igreja. Mas tenho a impressão que a própria sociedade, aos poucos, daqui para frente vai se encarregando de questionar e desconstruir tais padrões e, ao mesmo tempo, ajudar a construir vivências autenticamente cristãs da sagrada Liturgia.

Atuar em qualquer ministério numa assembleia litúrgica exige vigilância e muita ascese.

Comunicações - Quais são os desafios para o estudo de liturgia hoje e o que pode contribuir para o homem pós-moderno? Frei José Ariovaldo - Eu ressaltaria três desafios. 1) Que o estudo da Liturgia seja feito a partir da Liturgia mesma, representada pelos textos dos livros litúrgicos, cujo conteúdo esteja em conexão, é claro, com as realidades concretas atuais do mundo, da sociedade e da Igreja. “Padre, deixe a Liturgia falar”, advertia certa vez uma religiosa sensível ao espírito da Liturgia, ao padre que vinha fazer o show dele

e inventar coisas novas, dando assim a entender que a Liturgia mesma, o mistério celebrado, ficava em segundo plano. 2) Penso que tal metodologia de estudo e vivência da Liturgia deva também contribuir para amansar os ferozes lobos, egoicos, agarrados nos corpos dos conservadores, aguerridos no combate ao emergir do Novo, do diferente dos padrões mentais meramente humanos de entender e viver a divina Liturgia. É o que o Papa Francisco vem tentando fazer, mas com muita dificuldade, até mesmo recebendo ameaça. Eles, inclusive, são economicamente muito poderosos. De nossa parte, precisamos também estar conscientes de que assim é, a saber: Que existe um inconsciente coletivo ritualístico católico tão arraigado e rígido – como os “religiosos” no tempo de Jesus! – que, mesmo diante da evidência do Novo, não arredam pé e são agressivos. Importante perceber isso e, como Jesus, no fim dizer: “Pai, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34). 3) No estudo da Liturgia, principalmente para quem assume algum ministério, temos o desafio de criar o hábito da vigilância sobre o que o corpo sente e o que a mente arquiteta. O ego pode ser esperto e sabotador e, se não nos habituarmos ao estado de presença, vacilamos, caímos e nos transformamos em celebrantes, não do mistério, mas dele, do nosso “eu”, ávido de aplausos, confetes e/ou de controle e dominação sobre os outros. E aqui, enfim, valeria a pena trazer a palavra da poetisa Adélia Prado: “A liturgia celebra o quê? O mistério. E que mistério é esse? É mistério de uma criatura que reverencia e se prostra diante do Criador. É o humano diante do divino. Não há como colocar esse procedimento num nível de coisas banais ou comuns”.


fraternidades//

Frei Clarêncio lança o livro: “Ministério da Esperança – roteiros para velórios e exéquias”

Um subsídio para a Pastoral da Esperança com oito roteiros de celebrações das exéquias é a nova obra de Frei Clarêncio Neotti, expressando a dimensão fraterna e solidária da Igreja, em um momento de dor, sofrimento causado pela experiência da morte. “O presente subsídio manifesta o sentido cristão da vida que, no seguimento a Jesus Cristo, encontra sentido para sua “páscoa definitiva’”, escreve Dom Frei Dario Campos, Arcebispo Metropolitano de Vitória do Espírito Santo. Na sua introdução, Frei Clarêncio

lembra que enterrar os mortos é uma das Obras de Misericórdia praticada pelos cristãos. “É um dos mais bonitos gestos da caridade fraterna”, ressalta. Segundo ele, trata-se de um gesto que tem várias dimensões. “Uma dimensão é a comunitária: o morto pertenceu a nossa Comunidade, era um dos nossos. Morrendo, ele não se separa inteiramente de nós, porque sua alma sobrevive e entra na chamada Comunhão dos Santos, que é sinônimo de Igreja”, explica. “Uma segunda dimensão é o respeito para com o corpo humano: damos-lhe uma sepultura digna, às vezes, coberta de flores, às vezes, cercada de pedras, e sempre com a cruz de Cristo na cabeceira. A Comunidade cristã tem grande respeito à sepultura. Nela descansa um corpo, que foi

JUNHO, MÊS RICO Frei Walter Hugo de Almeida, ofm.

batizado, um corpo santificado pela Eucaristia, um corpo que foi templo do Espírito Santo, um corpo à espera da ressurreição, como rezamos no Credo: “Creio na ressurreição da carne’”, destaca e, por fim, a terceira dimensão é o consolo aos parentes e amigos. “Nossa presença e nossa oração são conforto para os que a morte entristeceu. E consolar os tristes e abatidos é também um gesto de caridade fraterna”, completa. Na morte temos a plenitude da misericórdia divina para quem deixa a vida terrena. É também na morte de um irmão de nossa Comunidade que externa mos a misericórdia de nosso coração. O livro, com 98 páginas, é uma publicação da Livraria Santuário. No site https://www.editorasantuario.com.br, custa R$ 10,00.

Junho, mês rico de famosos Padroeiros, Caros, populares santos de nossa tradição de fé; São devoções fervorosas dos brasileiros, Pedro, João, Paulo, Antônio, Anchieta e Barnabé!... Noites de São João, de São Pedro e as fogueiras, A acontecerem nesse Brasil a sonhar... Sons de viola, violões, canções seresteiras, Cristalizam nossa cultura popular. Sabemos todos que é impossível ficar fora De uma Liturgia sagrada o que o povo quer: - Quer esses Santos, mas enfim, a Deus adora! E a Igreja entra no jogo, e compreende com amor, A fé do povo simples e sua devoção, E assim Deus é louvado e Glória ao Senhor!... COMUNICAÇÕES

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Franciscanos do mundo todo se unem para a Revolução Laudato Si’ Do dia 24 de maio de 2020 até o dia 24 de maio de 2021, a Família Franciscana se unirá em uma campanha global para celebrar e colocar em prática a Encíclica Laudato Si’ do Papa Francisco. A ideia surgiu durante o Conselho Internacional de Justiça, Paz e Integridade da Criação, celebrado em 2019 em Jerusalém, quando os irmãos franciscanos decidiram organizar uma campanha global junto com todas as pessoas admiradoras de São Francisco de Assis, “exemplo por excelência de cuidar do que é frágil de uma ecologia integral, vivida com alegria e autenticidade” (LS.10). Nasceu assim a “Revolução Laudato Si’” que conta com cerca de 45 instituições colaboradoras. A Revolução Laudato Si’ é uma campanha global cujo objetivo é animar e promover a conversão à ecologia integral, quer dizer, uma ecologia ambiental, econômica e social. As dimensões humanas e sociais estão no centro de nossa campanha, pois desejamos que os valores da justiça social e ambiental, o cuidado e o respeito pela criação e a solidariedade intergeracional façam parte de nossa vida cotidiana. A crise sanitária provocada pela pandemia Covid-19 nos fez recordar nossa fragilidade e nossos limites. Com tristeza vimos a morte de tantas pessoas, ninguém ficou fora, nem se viu livre desta emergência internacional. Assim vemos que 366 COMUNICAÇÕES JUNHO DE 2020

certamente tudo está intimamente relacionado. Apesar da incerteza, não perdemos a esperança. Nas palavras do Ministro Geral da Ordem dos Frades Menores (OFM), Michael A. Perry, “este não é o momento de nos fecharmos em nós mesmos, Laudato Si’ nos anima a estender a mão, a sair. Nos recorda que todos estamos conectados e que o grito dos pobres é nosso grito e também é o grito da terra”. Hoje, mais que nunca, nos é apresentada a oportunidade de pensar um novo mundo possível. Neste contexto cremos que os ensinamentos da Encíclica Laudato Si’ podem oferecer um marco mais humano e fraterno para pensar um desenvolvimento integral e mais justo para todo o gênero humano. Por isso, Frei Michael Perry con-

vida a unir-se a uma revolução, “não uma revolução em sentido político, mas a uma revolução espiritual. Uma conversão da mente e do coração que nos aproxime mais da realidade da vida”. Junto com os eventos a serem realizados pelo mundo, esta iniciativa apresenta uma série de recursos para a liturgia, a reflexão e a formação. Todas as informações no site: http://www.laudatosirevolution. org A Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil acolheu o convite para fazer parte da campanha global Revolução Laudato Si’ comprometendo-se a organizar algumas atividades que promovam a vivência dos valores da Encíclica Laudato Si’ entre seus membros.


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É tempo de olhar para o fundamento de nossa opção No dia 24 de maio, a Igreja comemorou o 5º ano da Carta Encíclica Laudato Si’. Com essa célebre comemoração, diversas pessoas de todo o mundo se uniram à Família Franciscana para iniciar um ano de práticas e reflexões que dizem respeito à Ecologia Integral. A Campanha chama-se: “Revolução Laudato Si’”! A concepção deste ano teve seu início com o Conselho Internacional de Justiça, Paz e Integridade da Criação (JPIC), celebrado em 2019 em Jerusalém, buscando organizar um movimento global com diversas pessoas de boa vontade que coadunam com o carisma franciscano. Esse desejo do passado tornou-se fato concreto neste ano. Sendo assim, a Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil convoca os frades, leigos e todas as pessoas de boa vontade a se unirem ao movimento que irá propor uma nova cultura em favor de nossa Casa Comum. Esse ano pretende ir além do sentido celebrativo, ritual, para se tornar uma proposta de vida. Pois a vida no planeta está ameaçada frente à forma com que a humanidade está lidando com o meio ambiente e com os seus irmãos mais fragilizados. “O ambiente humano e o ambiente natural degradam-se em conjunto; e não podemos enfrentar adequadamente a degradação ambiental, se não prestarmos atenção às causas que têm a ver com a degradação humana e social. De fato, a degradação do meio ambiente e a da sociedade afetam de modo especial os mais frágeis do planeta: “Tanto a experiência comum da vida quotidiana como a investigação científica demonstram que os efeitos mais graves de todas as agressões ambientais

recaem sobre as pessoas mais pobres” (Laudato Si’, n. 48, 2015).

A voz profética do Papa Francisco corrobora com os inúmeros estudos científicos acerca das mudanças climáticas. Não se trata apenas de um impasse entre aumentar ou não o território de preservação, entre avolumar ou não a produção de alimentos, entre ampliar ou não a geração de energia. A questão ambiental diz respeito ao desequilíbrio imposto ao planeta Terra. Trata-se de um conjunto de ações que podem levar aos seres vivos, inclusive à humanidade, a sua destruição. A mudança climática é o maior e o mais complexo problema ambiental da atualidade. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) aponta que as emissões antropogênicas de Gases do Efeito Estufa (GEE) são provavelmente a principal causa do aumento da temperatura desde meados do século XX e, portanto, a maior responsável pelo

desequilíbrio ambiental vigente (IPCC, 2013). As projeções feitas pelo IPCC no Quinto Relatório de Avaliação (AR5) indicam que as mudanças ocorrerão mesmo em diferentes cenários de emissão e que, caso se mantenham os níveis atuais, a previsão para o final do século seria um aumento de 2,6 a 4,8 graus Celsius na temperatura média global, com incremento de 0,45 a 0,82 metro no nível do mar (PBMC - Relatório Mudanças Climáticas e Cidades, gripo do autor, p.18, 2016). Behrenfeld et al. (2006) publicaram um estudo sobre os oceanos e sugerem que o fitoplâncton - o primeiro elo na cadeia alimentar marítima - será fortemente afetado pelo aquecimento climático. A pesca nos trópicos e nas médias latitudes pode ser gravemente afetada pela perda destes microrganismos como resultados de águas mais quentes. O fitoplâncton não é apenas o primeiro COMUNICAÇÕES

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//evangelização elo essencial na cadeia alimentar da qual dependem as criaturas dos oceanos. Ele também absorve dióxido de carbono (CO2) da atmosfera ao fazer a fotossíntese e, portanto, qualquer distúrbio neste processo aceleraria o mecanismo de mudança climática (MARENGO p. 76, 2006).

Infelizmente, a humanidade ainda olha para o meio ambiente de forma predatória, dando atenção apenas aos impactos que ela poderia receber, desconsiderando os danos aos demais seres vivos, como também desconsidera os efeitos ambientais para os mais pobres. “Nos tempos modernos, verificou-se um notável excesso antropocêntrico, que hoje, com outra roupagem, continua a minar toda a referência a algo comum e qualquer tentativa de reforçar os laços socais” (Laudato Si’ n. 116). As marcas dessa forma de ler o mundo são antigas e distorcem, inclusive, a Fonte Sagrada, colocando a Palavra de Deus como “cúmplice” das atrocidades de um pensamento mesquinho. “Muitas vezes foi transmitido um sonho prometeico de domínio sobre o mundo, que provocou a impressão de que o cuidado da natureza fosse atividade de fracos. Mas a intepretação correta do conceito de ser humano como senhor do universo é atendê-lo no sentido de administrador responsável” (Laudato Si’, n. 116). A falta de responsabilidade com o meio ambiente tem gerado efeitos perceptíveis a olho nu, como as geleiras do Himalaia, basta procurar as imagens atuais e comparar com as de duas décadas atrás. Estudos afirmam que, mesmo se a redução das emissões de gases do efeito estufa, alcançar as metas estabelecidas no Acordo do Clima de Paris, que visa limitar o aquecimento global a 1,5°C, um terço das geleiras da região do Himalaia derreterá no decorrer neste século. Mesmo com tantos dados preocupantes, a humanidade mergulha em um processo de desconfiança e

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descrédito, espalhando a ideia que os cientistas estão todos equivocados e que agem por interesses políticos. Tal questão implica ao solo brasileiro uma outra questão problemática, pois, na terra do verde e amarelo, muitos estão mergulhados em conflitos políticos, muitas vezes alimentados pelas fake news. Não rara vezes se observa pessoas, de relevância no espaço religioso e social, espalhando inverdades por interesses escusos e partidários. No entanto, os estudos científicos feitos há dez anos nem foram tão pessimistas quanto as reais condições que a humanidade tem enfrentando. A pegada destrutiva foi além dos relatórios científicos e já está apresentando os resultados ocasionados pelas opções de vida que a humanidade tem escolhido. “A ecologia humana implica também algo de muito profundo que é indispensável para se poder criar um ambiente mais dignificante: a relação necessária da vida do ser humano com a lei moral inscrita na sua própria natureza. Bento XVI dizia que existia uma ‘ecologia do homem’, porque ‘também o homem possui uma natureza, que deve respeitar e não pode manipular como lhe apetece” (Laudato Si’ n. 155). Mais que um novo estilo de vida, isolado das conjunturas sociais, é preciso optar por uma nova forma de ser e de governar o país. A terra irá passar por um desiquilíbrio ainda maior caso não se reveja as escolhas de produção, habitação e consumo. Não se trata de perder a qualidade de vida, antes trata-se de estabelecer uma nova relação e entender que não há qualidade de vida que pressuponha o fim da biodiversidade em seis ou sete gerações. “A ecologia humana é inseparável da noção de bem comum, princípio este que desempenha um papel central e unificador na ética social. É “o conjunto das condições de vida social que permitem, tanto aos grupos como

cada membro, alcançar plena e facilmente a própria perfeição” (Laudato Si’ n. 156)

Um outro mundo é possível, um novo estilo de vida é possível e condiz com o nosso carisma franciscano. Deixemos que esse tempo favorável seja propagador de uma nova forma de vida e vida em abundância. Vamos diminuir o consumo desmedido de água, separar o lixo e todas as pequenas ações como mantra para alavancarmos outras ações que irão impactar no meio ambiente, como pensar um planeta mais justo e com menos desigualdade social, com o fortalecimento da agricultura familiar, com a diminuição dos agrotóxicos, com a preservação das matas e mananciais e com o respeito à biodiversidade. Não se trata apenas de um ano, mas de uma opção que possibilitará ou não o equilíbrio da terra. Esta opção implica tirar as consequências do destino comum dos bens da terra, mas – como procurei mostrar na exortação apostólica Evangelii Gaudium – exige acima de tudo contemplar a imensa dignidade dos pobres à luz das mais profundas convicções de fé. Basta observar a realidade para compreender que, hoje, esta opção é exigência ética fundamental para a efetiva realização do bem comum (Laudato Si’, n. 158).

Frei Marx Rodrigues dos Reis

Referências Carta Encíclica Laudato Si’ (24 de Maio de 2015). Marengo, José A. Mudanças climáticas globais e seus efeitos sobre a biodiversidade: caracterização do clima atual e definição das alterações climáticas para o território brasileiro ao longo do século XXI. Brasília: MMA, 2006. PBMC, 2016: Mudanças Climáticas e Cidades. Relatório Especial do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas [Ribeiro, S.K., Santos, A.S. (Eds.)]. PBMC, COPPE – UFRJ. Rio de Janeiro – RJ, 2016.


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Aniversário da Laudato Si’ é celebrado no Kimbo São Francisco de Angola m isolamento social devido à pandemia do coronavírus, a Fundação Imaculada Mãe de Deus de Angola (FIMDA) participou da Semana Laudato Si’, que se encerrou no domingo (24 de maio), aniversário dos 5 anos da Encíclica Laudato Si’ do Papa Francisco. O encerramento da Semana Ecológica teve lugar no Kimbo São Francisco de Assis, no bairro de Palanca, na

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capital Luanda, com a celebração da Santa Missa, que teve início por volta das 10h40, presidida por Pe. Celestino Epalanga, SJ, diretor geral da Comissão Episcopal de Justiça, Paz e Migrações da Conferência Episcopal de Angola e São Tomé (CEAST) e concelebrada por Frei João Alberto Bunga, secretário da Fundação e mestre nesta Fraternidade. Também fizeram parte desta celebração quatro membros da

mesma Comissão e os Frades Menores do Palanca. No fim da celebração, fez-se, em volta de uma árvore, a Oração Comum para o quinto aniversário da Laudato Si‘ seguida da oração final. O celebrante lembrou aos presentes que a proposta do Papa Francisco sobre o cuidado da criação não deve ser simplesmente teórico mas prático, pois a natureza e todas as criaturas carecem dos cuidados de todos pelo bem-estar da vida na Terra. A Semana, que foi celebrada em todo o mundo, teve como tema “Tudo está interligado”. Durante a semana, as reflexões foram feitas exclusivamente pela internet, conduzidas por Frei João Bunga e Frei André Gurzynski. Além da Comissão da CEAST, a atividade teve apoio da Rádio Eclésia, emissora católica de Angola, da Ordem dos Frades Menores, da Fundação e da Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil.

Frei Eduardo José Cavita Camunha COMUNICAÇÕES

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“Escolhas Felizes”é o tema de aniversário de 63 anos da FAE Há mais de seis décadas, a FAE Centro Universitário, pertencente ao centenário Grupo Educacional Bom Jesus, atua no segmento Ensino Superior. No dia 29 de maio, centenas de pessoas celebraram o aniversário da Instituição ao participarem da live sobre “Felicidade” – tema muito bem-vindo no atual momento. Para conduzir a palestra “Escolhas Felizes”, a FAE convidou Luiz Gaziri, ex-aluno e especialista reconhecido internacionalmente pelas suas pesquisas sobre felicidade. Durante o evento, Gaziri apresentou dados científicos sobre esse estado de consciência e ressaltou a importância de saber fazer boas escolhas para o cultivo da felicidade. “Nossa realidade é construída a partir daquilo a que nos expomos, às nossas atitudes. Por exemplo: se, ao chegar ao final do dia, preferirmos assistir a um vídeo com situações negativas em vez de fazer um jantar delicioso para a família, de confraternizar com nossos pais ou filhos, isso vai

determinar o crescimento ou não da nossa felicidade”, explica. De acordo como o reitor da FAE e diretor-geral do Grupo Educacional Bom Jesus, Jorge Apóstolos Siarcos, felicidade também é um dos critérios da Instituição. “Nós acreditamos que a formação educacional deve ser completa, ou seja, unir o máximo de qualidade acadêmica ao desenvolvimento conjunto de virtudes e de valores humanos. Afinal, se nossos

Bom Jesus Social: Máscara Solidária Pensando nas pessoas do grupo de risco e mais vulneráveis, o Colégio Bom Jesus São José, de São Bento do Sul (SC), realizou a campanha “Máscara Solidária”. A comunidade escolar participou ativamente, confeccionando máscaras, as quais foram doadas aos pacientes de hemodiálise na Clínica Rim e Vida. Até o momento, foram entregues mais de 400 unidades para a representante da clínica, enfermeira Juliana Lenzi, que agradeceu a todos os participantes desse gesto de solidariedade. O Bom Jesus lembra que as doações de máscaras podem ser encaminhadas diretamente à Clínica Rim e Vida: Avenida São Bento, n.º 1707 - Bairro Rio Negro – São Bento do Sul.

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alunos e ex-alunos estiverem felizes consigo mesmos, seja em razão de suas conquistas individuais ou coletivas, terão condição de espalhar essa felicidade e entusiasmo aos seus colegas de sala de aula, de profissão e, principalmente, dentro dos seus lares”, conclui. Para quem não conseguiu acompanhar a live ou deseja rever o conteúdo, basta acessar o canal da FAE no Youtube.


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Missa do Dia das Mães já está disponível no Youtube No dia 10 de maio, o Grupo Educacional Bom Jesus comemorou uma data muito especial: o Dia das Mães. Para celebrar e homenagear todas as mamães, foi realizada uma missa on-line. Com o tema “No coração da mãe habitam a fé, o amor e a esperança”,

a celebração foi presidida pelos frades João Mannes e Mário José Knapik, respectivamente presidente e vice-presidente do Grupo Bom Jesus. O conteúdo continua disponível no canal www.youtube.com/ grupobomjesus.

Drive thru solidário

FAE promove Campanha do Agasalho 2020

Colégio Bom Jesus arrecada alimentos e produtos de higiene para famílias em situação de vulnerabilidade Mais do que nunca, este é um momento de colocarmos em prática as virtudes espalhadas por São Francisco de Assis e que nos fazem verdadeiramente humanos como a empatia, a solidariedade e o amor. Por isso, o Colégio Bom Jesus convidou as famílias da Instituição, bem como toda a comunidade, para uma grande ação solidária de arrecadação de alimentos e materiais de higiene a serem doados a famílias em situação de vulnerabilidade social. A iniciativa “Doar de coração: juntos pela solidariedade!” funciona em formato de drive-thru, na Unidade Bom Jesus Lourdes (Curitiba), que recebe, higieniza e repassa as doações arrecadadas com todo o cuidado e protocolos de segurança recomendados.

Com a proximidade do inverno, as baixas temperaturas ameaçam a integridade física das pessoas carentes de recursos, principalmente em regiões onde o frio costuma ser rigoroso. Para ajudar quem mais precisa, a Pastoral Universitária da FAE Centro Universitário convocou a comunidade local para participar da Campanha do Agasalho 2020. Neste ano, devido ao isolamento social causado pela Covid-19, as arrecadações de roupas e de outras peças de vestuário adequadas para proteger do frio serão feitas diretamente nas instituições beneficiadas: Hospital do Rocio; Igreja Bom Jesus dos Perdões; Asilo São José e Casa de acolhimento.

Juliano Zemuner COMUNICAÇÕES

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Luta contra a fome fortalece ação franciscana no Rio de Janeiro enda Franciscana alimenta a população de rua e desempregados no centro da capital fluminense, em meio ao aumento dos impactos da pandemia do novo coronavírus. O Serviço Franciscano de Solidariedade (Sefras), em parceria com o Convento Santo Antônio e a Paróquia São Bonifácio de Língua Alemã, deu início, no dia 4 de junho, aos trabalhos da Tenda Franciscana do Largo da Carioca para alimentar a população de rua e desempregada no centro da cidade do Rio de Janeiro. Aos pés do

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centenário Convento, o local torna-se símbolo da ação social franciscana em todo o Estado fluminense. “Neste momento de pandemia, temos lutado contra três grandes males nas ruas e em comunidades brasileiras: a fome, pois milhares de pessoas não têm o que comer com o isolamento; a febre, com o avanço implacável da Covid-19 nos grupos vulneráveis; e o frio dos mais empobrecidos e desvalidos com a aproximação do inverno”, disse o diretor-presidente do Sefras, Frei José Francisco de C. dos Santos. No primeiro dia foram distribuídas

200 refeições produzidas na cozinha do Convento, que abriu suas portas para esta ação. Um número que tende a se multiplicar nos dias decorrentes, com o aumento da demanda e da solidariedade da população, a partir da doação de alimentos e voluntarismo para a produção e entrega das marmitas. Basta ver que no dia seguinte (5/6), já foram provisionadas 400 quentinhas. “Se uma grande caminhada começa com um pequeno passo, esse primeiro dia de ação na Tenda Franciscana do Rio de Janeiro certamente marcará o início de uma bonita história de amor, compaixão e solidariedade”, afirmou o Frei Diego Melo, vice-presidente do Sefras e responsável pela Tenda. Segundo ele, essa missão não apenas saciará a fome de quem não tem o que comer, como também de quem sente o desejo de se doar e fazer acontecer: “Afinal, como nos lembra a oração atribuída a São Francisco, é dando que se recebe”. A visão do Frei Diego encontra respaldo na atitude dos cariocas. Tão logo as refeições foram servidas, dezenas de doações começaram a chegar ao Convento e à Paróquia, os dois pontos de coleta de doações


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para a iniciativa, que funcionará todos os dias e não tem data para ser encerrada.

Campanha para todos

A Tenda Franciscana no Rio de Janeiro faz parte de uma grande ação franciscana de enfrentamento à pandemia do novo coronavírus, idealizada pelo Sefras. Iniciada em março em São Paulo e nas cidades fluminenses de Petrópolis, Tanguá e Duque de Caxias, ela já distribuiu, até o dia 5 de junho, mais de 130 toneladas de alimentos, entre cestas básicas (12 mil) e marmitas (170 mil), além de milhares de

cobertores, kits de higiene e itens de proteção individual. Para fortalecer ainda mais esta ação, foi lançada, em conjunto com a Tenda, a campanha “Vida para Todos”, em defesa daqueles que estão em maior vulnerabilidade social: pessoas em situação de rua, comunidades imigrantes, idosos sozinhos e crianças e suas famílias empobrecidas. Além dos valores franciscanos, a campanha também joga luz sobre a necessidade de ir além dos números de contágio e mortes, para enxergar cada vida que é impactada pela pandemia. “Precisamos olhar para cada

uma dessas histórias, pois o fim do isolamento não significa, para elas, o fim da fome, da exclusão e da desigualdade”, lembra o Frei José Francisco. O clamor pela vida é também uma responsabilidade do Sefras. Todos os colaboradores e voluntários das ações de campo são monitorados e testados em massa para a Covid-19. Já os participantes dos projetos são testados tão logo apresentem algum dos sintomas. Em caso positivo, todos são encaminhados para o sistema de saúde.

Rodrigo Zavala Pelo Sefras

Novo serviço emergencial no Glicério Em parceria com a Prefeitura Municipal de São Paulo, o Serviço Franciscano de Solidariedade (Sefras) inaugurou, no dia 3 de abril de 2020, um serviço emergencial com a mis-

são de acolher, cuidar e defender a população em situação de rua. Localizado no bairro do Glicério, próximo ao centro da cidade, o serviço oferece alimentação, espaço de convivência e

atendimento social para 250 participantes que frequentam diariamente o serviço. Contando com espaço amplo, para evitar aglomerações e seguindo todas as exigências estabelecidas pelos órgãos de vigilância sanitária, como medição da temperatura dos participantes, higienização correta das mãos e o uso do álcool em gel, o serviço tem atuado com muita responsabilidade e qualidade nesse período de pandemia. Para a coordenadora do serviço, Adriana Brito, “é um espaço onde as pessoas podem ter uma refeição feita com bastante cuidado, carinho e com amor. É um prazer ver as pessoas se alimentando com qualidade em tempos que a comida se tornou escassa”.


//evangelização

Na pandemia, os comunicadores devem ser portadores da esperança mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial das Comunicações Sociais, celebrado no dia 24 de maio, foi o tema trabalhado no 2º encontro da Formação Permanente da Frente de Evangelização da Comunicação. Participaram da reunião, através de videoconferência, os colaboradores da Fundação Frei Rogério, de Curitibanos (SC); Rede Celinauta, de Pato Branco (PR); Editora Vozes, de Petrópolis (RJ); Universidade São Francisco, de Bragança Paulista (SP), Sefras e Sede Provincial, de São Paulo (SP).

dencial, mesmo tendo sido divulgada em janeiro, antes da crise causada pelo coronavírus. “Embora tenha sido escrita antes da pandemia, ela providencialmente diz muito para nós sobre a situação que vivemos, pois somos chamados a reconhecer no meio do mal o dinamismo do bem e dar espaço a ele”, afirmou Frei Gustavo. O coordenador da Frente de Evangelização, Frei Neuri Francisco Reinisch, falou da importância de uma comunicação mais positiva, sem perder a credibi-

história, que pode ser contada de forma diferente graças a nossa ação”, declarou Frei Neuri. Segundo Frei Volney Berkenbrock, da Editora Vozes, através de sua mensagem, o Papa faz um desafio dialógico, alertando para a necessidade de consensos mínimos para criar na sociedade narrativas em comum – que hoje não existem na sociedade e na Igreja. O frade apontou ainda a dialética erística, de Arthur Schopenhauer e o pensamento de Stewart Hall como

O grupo contou com a assessoria de Frei Gustavo Medella, Vigário Provincial. No início, ele partilhou que a pandemia do coronavírus traz uma sensação de cansaço diante da realidade que se apresenta com perdas humanas, aumento da desigualdade, além do desencontro de informações. Neste ano, o Papa Francisco fala a respeito da importância da narração de histórias como forma de manter a memória pessoal e histórica. “Na confusão das vozes e mensagens que nos rodeiam, temos necessidade de uma narração humana, que nos fale de nós mesmos e da beleza que nos habita”, explica o Pontífice. O assessor chamou a atenção para o fato da mensagem ser muito provi-

lidade daquilo que é veiculado através dos meios de comunicação. Segundo o frade, diante da tensão emocional que se instala com a crise, os comunicadores são desafiados a ser portadores da esperança. O frade recordou ainda que o rádio surgiu como um veículo de “contação de histórias” e que neste cenário de isolamento, é um grande veículo que informa e aproxima as pessoas. Para ele, o papel de comunicador é fundamental no atual cenário. “O que transmitimos e como transmitimos, seja nos meios tradicionais, como rádio e TV, deve ajudar a comunidade a tomar consciência sobre suas atitudes, como a importância do uso de máscaras e o distanciamento social. De certa forma, somos responsáveis dentro desta

meios para se chegar à chamada era da pós-verdade. “Abrindo qualquer meio de comunicação vemos várias narrativas que não resistem a qualquer análise. Por que achamos que são boas? Qual é a base delas? Elas se baseiam numa narrativa confortável. E não é este tipo de narrativa que cria base sólida para a verdade”, explicou Frei Volney. Para encerrar, Frei Gustavo destacou a “Celebração do Abraço e da Esperança”, que tem sido realizada no canal da TVFranciscanos desde o início de maio. A iniciativa é uma forma de celebrar a memória das vítimas fatais da Covid-19, dando de alguma forma amparo espiritual aos familiares das vítimas.

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Érika Augusto


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Rádios Coroado e Movimento: 65 anos em Curitibanos ma das precursoras da comunicação no município de Curitibanos, região serrana de Santa Catarina, completou 65 anos de história no dia 3 de junho. Foi em 1955, na rua Hercílio Luz, que nascia a Rádio Coroado AM, na época 1.450 Khz e que em 1985 passou para 1.140, freqüência que operou até junho de 2017, quando acompanhando a tecnologia migrou para o FM e passou a ser sintonizada em 106.1. No ano de 2006 inaugurou a sua sede atual, na Rua Vidal Ramos, no centro. A estrutura moderna está disposta em um prédio com mais de 700 metros quadrados. A Coroado porém não ficou sozinha, e também em um 3 de junho, no entanto em 1990, portanto há 30 anos, ganhou a sua coirmã, que iniciou também com o nome de Coroado, no entanto em FM, com a freqüência de 90,3. Assim operou

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até 1993, quando teve aumento de potencia, passou para 98.9 e ganhou a identidade de Rádio 98. Anos depois de Movimento FM. As duas emissoras pertencem à Fundação Frei Rogério, integrante da Província Franciscana da Imaculada Conceição. Frei Roberto Carlos Nunes é o atual diretor presidente da Fundação que é mantenedora das emissoras. Atualmente, as emissoras atingem 90 municípios do Planalto, Serra Catarinense, bem como o Norte Gaúcho, até o Sul do Paraná, somando uma população de 868 mil habitantes. A programação transmite informação, entretenimento, músicas, conteúdos de evangelização, destacam valores ético-morais e também promoção à vida. Além do mais, tivemos êxito na venda de produtos, divulgação de promoções sociais e culturais. Segundo Frei Neuri Francisco Reinisch, atual gestor das rádios, após

tantas décadas de existências, as emissoras continuam cumprindo um papel fundamental junto à sociedade, especialmente diante do atual momento. Assim como diz o slogan da Rádio Coroado: “Quem nasce para servir já nasce grande”, que possamos continuar servindo a nossa comunidade com a grandeza que ela merece. Queremos agradecer aqui, primeiramente, aos ouvintes de Curitibanos e região que são a razão de nosso fazer rádio, ao Conselho Curador (Definitório) que confiou na Diretoria Executiva a condução das atividades, ao Conselho Fiscal que acompanha a gestão, e de modo muito especial, aos nossos colaboradores atuais e anteriores, pelo maravilhoso serviço que prestam. PARABÉNS RÁDIO COROADO! PARABÉNS RÁDIO MOVIMENTO! COMUNICAÇÕES

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//evangelização Missão no Marrocos

Fraternidade Franciscana de Rabat Paz e Bem, queridos confrades! ostaria de partilhar com vocês nossa presença na missão em Marrocos, em particular a Fraternidade de Rabat, onde resido. Esta fraternidade se constituiu como sede da Custódia dependente do Ministro Geral a partir de 2010, quando deixou de ser Federação Franciscana de Marrocos. Atualmente somos dois frades na Fraternidade, Frei Manuel Corullón, atual custódio e eu. Até dezembro de 2019 éramos três na Fraternidade. Porém, por questão de saúde, um frei regressou à sua província, no México.

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Nossas atividades

Sede da Custodia: trabalhos na administração e economia. Lugar de culto: missa diária em francês na capela da Fraternidade e aos domingos, duas missas, uma em espanhol e a outra em inglês, na igreja. Pastorais: celebração de missas em duas capelanias de religiosas; pastoral carcerária (brasileiros em diversos presídios), coral de estudantes de Guiné-Equatorial, filipinos e de língua portuguesa e grupo de jovens estudantes. Outras: assistência às Clarissas de Casablanca; assistência material a imigrantes subsaarianos e marroquinos; acolhida a grupo de jovens, acompanhados por freis que vêm fazer experiência em alguma atividade social no país durante o verão.

Confinamento

Desde o dia 17 de março, quando apareceu o primeiro caso por contágio pelo novo coronavírus, o governo tomou a decisão de confinar o país, abrangendo: as fronteiras aéreas, marítimas, podendo circular

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pelas vias terrestres com autorização governamental; fechamento das estruturas educativas e religiosas; todo tipo de comércio, excluindo os de necessidades básicas, etc. Para reforçar o confinamento, desde o dia 24 de abril, está proibido circular das 19 às 5 horas. Com esta medida de confinamento, podemos dizer que há poucos casos de contágios e de morte no país. O governo garantiu uma ajuda econômica aos que deixaram de trabalhar. Marrocos é considerado o país pioneiro na prevenção do contágio.

Como estamos vivendo esta situação

Saímos o mínimo possível e quando necessário: farmácia e supermer-

cado. Uma vez por semana visito três brasileiros, saídos da prisão durante o confinamento, que aguardam a abertura da fronteira aérea. Eles estão alojados numa casa de encontros da Diocese em Rabat, a pedido do embaixador do Brasil ao bispo local. As missas são celebradas na capela interna com a presença das irmãs franciscanas, nossas vizinhas. Estamos dando alimentos aos imigrantes subsaarianos que vêm à nossa porta pedindo ajuda, porque a Caritas, neste período de confinamento, teve que encerrar as atividades. O fim do confinamento se deu no dia 20 de maio. Que Maria nos acompanhe hoje e sempre!

Frei Jorge Lazaro


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Frente da Educação realiza “meet on-line” sobre o tema “O protagonismo dos leigos na Evangelização Franciscana” oi em meio à reunião do Conselho de Evangelização da Província, ocorrida em 20 e 21 de agosto de 2019 que Frei César Külkamp (Provincial) propôs o tema “O protagonismo dos Leigos na Evangelização Franciscana”1 a ser contemplado nos Encontros da Frente da Educação em 2020. Ao ler em primeira mão as Diretrizes que dizem respeito à Frente da Educação, páginas 39 a 44 do Plano de Evangelização 2016-2021 da Província, percebi que lá a palavra ‘Leigo’ ocorre apenas duas vezes. Numa

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delas, assim consta: “oferecer educação de qualidade aos profissionais leigos, nossos parceiros na missão evangelizadora, promovendo palestras, retiros, encontros de formação.” (cf. p. 42). No dicionário, o termo Leigo tem as seguintes conotações: aquele(a) que não recebeu ordens sacras; aquele(a) que revela desconhecimento, inexperiência ou pouca familiaridade com determinado assunto, profissão etc. Originalmente, o termo Leigo (do grego laikós e do latim laicus) estava associado ao

serviçal dos conventos religiosos. Eis porque a ideia de Leigo, do ponto de vista do uso na sua origem, não deixa de abrir espaço, a nós do século XXI, para acepções um tanto pejorativas2, tais como: ‘plebe’, ‘povo iletrado’, ‘multidão’, ‘agregado social’, ‘secular’, ‘sem noção’, entre outras. Durante a Idade Média, o termo Leigo denotava tanto o povo iletrado e ‘sem acesso’ direto à Bíblia, como os destituídos da compreensão do latim, língua oficial da Igreja Católica. A partir da Modernidade, o termo COMUNICAÇÕES

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//evangelização Leigo começou a ganhar abrangência e a ser usado em praticamente todas as áreas e profissões. Para Jean-Paul Delahaye3, a “[...] palavra, formada a partir do étimo grego laos – ou seja, o povo enquanto distinto dos clérigos –, aparece, na França, em meados de 1860.”. A partir do Concílio Vaticano II, a Igreja passou a se empenhar em prol da superação tanto de conotações pejorativas em relação ao termo Leigo como da erradicação da distância entre Leigos e Clero. Mais do que isso, nos Documentos da Igreja há o anseio de que os Leigos participem e colaborem, munidos de genuína inspiração cristã, na realização da missão da Igreja, ou seja, de toda a ação evangelizadora. Missão esta que pressupõe disposição para servir, dialogar, anunciar, amar, fazer o bem e celebrar a comunhão no mesmo propósito divino confiado por Jesus Cristo aos discípulos. Isto porque, os Leigos “[...] são filhos e filhas de Deus pelo batismo. São membros constituídos, integrados, inseridos no povo de Deus. São embaixadores de Cristo. São portadores da cidadania própria do povo de Deus. Não são cristãos de segunda categoria. São igreja, não só pertencem à igreja. São luz, sal, fermento no meio do mundo por sua índole secular; ou seja, vivem no século, no meio do mundo e, nas condições temporais, tais como a família, o trabalho, as responsabilidades, as funções e estruturas da sociedade.”4. Não tendo sido possível o encontro presencial nos dias 20 e 21 de março, devido à ampliação dos casos de infecção do coronavírus no Brasil, em 5 de junho último os Frades que compõem a Frente da Educação participaram de um meet on-line sobre o tema “O protagonismo dos Leigos na evangelização franciscana”, com a seguinte programação: 14h - Acolhida do coordenador da Frente da Educação). 14h05 - Mensagens e Motivações de Frei César Külkamp (Ministro

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Provincial) e de Frei Gustavo Wayand Medella (Vice-Provincial e Secretariado para a Evangelização). 14h35 – Abordagem do tema com a assessoria de Frei Sandro Roberto da Costa. 15h05 - Palavra livre para comentários dos Frades participantes. 15h30 – Agradecimentos e encerramento. Na mensagem de abertura, o Provincial Frei César privilegiou a importância de nós, Frades, aprendermos a lidar com discernimento com o atual momento de isolamento, sem perder de vista que dependemos – mais do que nunca – uns dos outros. Dependência esta que nos convida a perceber que tudo está interligado e, por isso, a necessidade de nos dispor para o amor, a partilha, a qualificação da vida fraterna para fazermos frente ao individualismo, ao egoísmo, à intolerância, à violência nas suas diversas manifestações em âmbito social. Em relação ao tema já mencionado do meet on-line, Frei César realçou alguns pressupostos nem sempre devidamente considerados em nossos trabalhos no contexto da educação: evangelizar na educação com a finalidade de tornar o Reino de Deus presente no mundo (Exortação Apostólica Evangelii Gaudium do Papa Francisco 24/11/2013). evangelizar na educação em Fraternidade e como Fraternidade, com a força do nosso carisma, enquanto peritos, testemunhas e artífices de um projeto de comunhão. (Plano de Evangelização da Província 20162021). evangelizar na educação isentos do risco de Frades apegados a funções por demais personalistas (Plano de Evangelização da Província 20162021). evangelizar na educação em Fraternidade a partir de um Projeto de Vida e Missão, com espírito de pro-

ximidade e comunhão, trabalhando em redes e somando forças (Plano de Evangelização da Província 2016-2021). evangelizar na educação em comunhão e de modo partilhado com os Leigos (Plano de Evangelização da Província 2016-2021), não os entendendo e/ou os tratando como cristãos de ‘segunda categoria’ (Documento n. 105 – CNBB). evangelizar na educação de maneira compartilhada e com o protagonismo dos Leigos, isentos de clericalismos (Documentos da Ordem). evangelizar na educação cientes de que o nosso claustro é o mundo (São Francisco). evangelizar na educação buscando romper com organogramas de gestão um tanto piramidais (‘quem manda’, ‘quem define’ isso ou aquilo etc.), naturalizando a participação de todos e todas (Frades e Leigos) em vista da missão a ser realizada (Plano de Evangelização da Província 2016-2021). evangelizar na educação imbuídos da consciência de Província, viabilizando passos significativos para o desenvolvimento do protagonismo dos Leigos, permitindo erros e aprendizagens (Plano de Evangelização da Província 2016-2021). O Vice-Provincial e Secretário para a Evangelização Frei Gustavo privilegiou três aspectos na sua mensagem: 1. a força, a presença leiga é uma necessidade fundamental, dado a nossa missão evangelizadora na educação (o desafio de ajudar os Leigos a também se deixarem mover pela mesma inspiração evangélica que também nos têm mobilizado historicamente; avançar na escolha de estratégias e meios para o protagonismo deles em vista de uma evangelização partilhada, fonte de comunhão e de fraternidade). 2. o modo de ser, interagir e de


evangelização// servir de São Francisco segundo o Evangelho a perpassar as expertises técnicas dos Leigos no âmbito da gestão, do pedagógico, do setor de comunicação, do jurídico, da Pastoral, do Social etc. 3. a compreensão do ato de evangelizar como um estímulo para o desenvolvimento integral do ser humano, a promoção humana e até mesmo o alcance da competência profissional. O assessor Frei Sandro Roberto ateve-se à novidade de São Francisco em relação ao tema proposto para o meet on-line. Novidade, principalmente, a convergir para: a compreensão de pessoa humana (antropologia) e de mundo (cosmologia) do Santo de Assis a trazer as marcas da sadia laicidade que supera dualismos (tipo sagrado X profano). as marcas da bela integração entre os frades menores e os seculares, também chamado ao Seguimento de Jesus e, portanto, à santidade. a evangelização com marcas de Encarnação e kenosis (esvaziamento) à luz da novidade absoluta do Evangelho – em que o modo de estar e de agir já é parte do anúncio, assim como da evangelização partilhada com os leigos. a vida segundo o Santo Evangelho no período medieval não mais entre os muros de uma fortaleza espiritual, mas potencializada numa presença no coração do mundo, na atenção às necessidades dos mais pobres. a conformidade a Cristo também possível na itinerância (bem diferente da fixidez monástica), a exemplo de Cristo que foi “pobre e hóspede” (Rnb IX, 5) “e nasceu por nós no caminho” (OP V, 13). a imitação de Cristo passa a ser um esforço radical de identificação e de discipulado. a compreensão e vivência da vida

à luz do Evangelho e da Sequela Christi. o momento fundante essencial do encontro de Francisco com a passagem do Evangelho relativo ao envio dos Apóstolos para a Missão. a consulta ao Evangelho quando chegam os dois primeiros companheiros: Bernardo e Pedro (?) na Igreja de S. Nicolau (um comerciante e um perito em leis): “se queres ser perfeito, vai e vende tudo o que possuis...” (Mt 19,21); “nada leveis pelo caminho...” (cf. Lc 9,3); “quem quiser vir após mim, renuncie a si mesmo...” (Mt 16,24). a prerrogativa dos pobres e dos leprosos no processo de conversão. a convicção sobre a inspiração evangélica à vocação recebida (“Ninguém me mostrou....”). a originalidade e a novidade de “... viver a forma do Santo Evangelho”. a constituição de uma Ordem sem distinções entre os irmãos menores, entre ‘clérigos’ e ‘leigos’. o mandato da pregação concedido a todos os membro da Fraternidade. a empatia com o mundo alinhada à “substância da vida” que na Fraternidade a todos é proposto testemunhar. o legado de uma mística laical centrada no mistério da Encarnação e fonte de um otimismo antropológico e cosmológico, a ponto de a “Festa das Festas” para Francisco vir a ser o Natal, não a Ascensão. a Criação passa a ser o caminho (e não obstáculo), para se adentrar no Mistério. No momento da palavra livre para comentários dos Frades participantes, ficou ainda mais evidente que o protagonismo dos Leigos na evangelização franciscana na educação nasce e há de se consolidar à medida que – a cada instante – nos deixarmos inspirar por cada um dos dezessete aspectos inerentes à referida “novidade de São Francisco”. Frei César realçou a importância e

a necessidade de darmos continuidade na reflexão sobre a relação entre Frades e Leigos no contexto da educação, principalmente a partir de duas questões: como estamos enquanto Fraternidade na educação, no Colégio e/ou na Universidade, onde estamos falhando e onde estamos acertando, onde estamos desafinando enquanto equipe de Frades na articulação das atividades junto aos Leigos?... Como é que os Leigos (nossos colaboradores) participam e atuam a partir dessa nossa proposta?... Frei Gustavo reiterou o quanto é válido aproveitarmos iniciativas como essa (a do meet on-line da Frente da Educação) com a finalidade de avançarmos na busca do protagonismo dos leigos na evangelização franciscana. Aproveito para agradecer a todos pela participação neste meet on-line. Participação esta que favoreceu para estreitarmos laços fraternos uns com os outros e nos unirmos mais ainda no propósito de evangelizar na educação com a força do nosso carisma em Fraternidade e como Fraternidade, em comunhão e de modo partilhado com os Leigos a partir de um Projeto de Vida e Missão. Ficou agendado para o próximo dia 3 de julho das 14h às 16h outro meet on-line dos Frades da Frente da Educação. Fraternalmente,

Frei Claudino Gilz Coordenador da Frente da Educação

1 - T ema este já contemplado e discutido durante a reunião do SIFEM-CFMB, ocorrido em Salvador em 15 de maio de 2018. 2-C f. KAZUMA, Cesar. Leigos e Leigas – força e esperança da igreja no mundo. 2.ª ed. São Paulo: Paulus, 2009. 3-Z ANTEN, Agnés Van (coord.). Dicionário de Educação. Vários tradutores. Petrópolis: Vozes, 2011, p. 534. 4- B RANDES, Orlando. Laicato – vocação e missão. São Paulo: Paulus, 2018, p. 45-46. COMUNICAÇÕES

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//evangelização Artigo

“A economia de Francisco” etimologia da palavra grega “oikonomía” (oikos = casa, nomos = norma/regra) significa a “administração de uma casa e/ou de um patrimônio”. Para Francisco, o grande patrimônio é Cristo e a casa são os “irmãos que o Senhor me deu” (Test 14). A revista “Comunicações” de abril/2020, das pp. 198 – 202, traz o artigo de Frei Luiz Carlos Suzin com o sugestivo título “Ao invés de ter coisas ou dinheiro, ter irmãos”. O articulista mostra um confronto entre o pai Pedro Bernardone e seu filho Francisco. Não é conflito bélico, mas de postura de vida. De um lado, está a criação das Comunas, cuja base é a “classe comerciante”. Esta, com suas idas e vindas, rompe as divisas territoriais feudalísticas e substitui o sistema comercial da troca de bens pela moeda (dinheiro). Inicia-se, assim, um novo tipo de relacionamento social. Para o povo, porém, a “situação continua a mesma, a de `minoris´. No feudalismo, trabalha-se a terra e, nas Comunas, parte dos trabalhadores da gleba foi para as oficinas como assalariados” (p. 119). Do outro lado está Francisco de Assis. Ele se propõe viver o seguimento radical de Cristo que “sendo rico se fez pobre para nos enriquecer com sua pobreza” (2Cor 8,9). No episódio do total despojamento, na praça de Assis (1Cel 15), começa a viver do trabalho de suas mãos e de esmolas. Diz o articulista que “trabalho e esmola são duas palavras-chave” (p. 200). Através delas, desenvolve um “modus vivendi”, expresso nos capítulos 4 a 6 da Rb, 7 a 9 da Rnb e Testamento nº 5. Francisco parte do princípio que todos devem trabalhar e ter um “ofício e, se não o tiver, que o aprendam”. Poder trabalhar é uma graça e exemplo para a

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sociedade. Ter uma profissão honesta, sem visar salário e, muito menos, “receber dinheiro de qualquer espécie” – é um imenso desafio. Maior é o desafio de “aceitar, apenas, o necessário para si e para os outros”, de “estar contente com isso”, de subordinar o trabalho ao “espírito de oração e devoção ao qual devem servir todas as coisas temporais” e tê-lo como uma arma que “afugenta o ócio, inimigo da alma”. Quando o trabalho não supre as necessidades, recorra-se, então, “à mesa do Senhor”, isto é, pedir “esmolas com confiança”. Disto não “devemos nos envergonhar” porque ela é “uma herança e um direito adquirido em favor dos pobres que Cristo nos conquistou. (...) Ele mesmo vivia de esmolas, mais a bem-aventurada Virgem e os apóstolos”. Porém, para assistir os frades doentes e os leprosos, “os ministros e, somente, eles, através de amigos espirituais, podem aceitar dinheiro”. É o “evangelho da fraternidade” e da verdadeira economia de Francisco, pois a “riqueza que dá real segurança não é a propriedade nem o dinheiro, mas as pessoas, os irmãos”, diz o articulista (p. 198). Mutatis mutandis, Cristo viveu este “modus vivendi”. Seu patrimônio é o

“Pai e seu Reino”, sua casa é o povo, especialmente, os apóstolos. “Meu alimento é fazer a vontade do Pai” (Jo 4,34). Para conhecê-la melhor, retirava-se de noite, sozinho, na montanha para rezar. Era seu “costume” (Lc 12,39). Trabalhava com as próprias mãos, pois era conhecido como “filho do carpinteiro” (Mt 13,55). Ensinava que “meu Pai vem trabalhando até agora e eu também trabalho” (Jo 5,17). Trabalhar não só pelo “alimento que perece, mas por aquele que dura eternamente” (Jo 6,27), pois o “operário merece seu salário” (Lc 10,7). Na vida pública, viveu com aquilo que é próprio da itinerância. Não tendo moradia fixa, hospedava-se nas casas de Mateus (Mt 9,10), de Pedro ( (Mc 1,29), de Zaqueu (Lc 19,5), de Marta/ Maria/Lázaro (Lc 10,38-39). Quando os samaritanos negaram hospedagem, não os recriminou e ralhou os apóstolos que queriam destruí-los com raios (Lc 9,51-56). Viveu como pobre, desde o nascimento numa gruta até a sepultura, doada por José de Arimatéia (Mt 27,57.60). Seu ensino sobre o dinheiro é um constante alerta, pois é “iníquo” (Lc 16,9), pode nos levar à avareza (Lc 12,15), à luxúria que não nos deixa ver os “lázaros da vida” (Lc 16,20-31) e, até, de tê-lo como `deus´: “Não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6,24). Sem dinheiro ninguém vive! Mas, administrá-lo bem é adentrar-se no espírito da “economia de Francisco”. Jesus vai além ao dizer que quem administra bem o dinheiro, o terá para ter uma vida digna e, também, para fazer a caridade: “Granjeai amigos com o dinheiro iníquo para que, quando este faltar, vos recebam nas mansões eternas” (Lc 16,9; Mt 25,31-46).

Frei Luiz Iakovacz


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Pró-Vocações e Missões Franciscanas: Os números da generosidade

Primeiro Retiro dos Benfeitores foi realizado em Agudos, no ano de 1999 m 34 anos de existência, o Pró-Vocações e Missões Franciscanas (PVF) construiu uma teia de solidariedade, partilha e história. Hoje, essa família franciscana soma 10.199 benfeitores franciscanos em todo o Brasil, sendo 9.300 no território da Província Franciscana da Imaculada Conceição. Essa trajetória de 34 anos começou com a generosidade do povo carioca que frequentava especialmente o Convento Santo Antônio (na época os frades também atendiam a Igreja Nossa Senhora da Paz em Ipanema) e com a iniciativa de Frei Floriano Surinam e da terceira franciscana D. Mara Arieta. O próprio frade desenhava cartões, na maioria com motivos franciscanos, para serem vendidos após as missas no Convento. O dinheiro

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arrecadado visava ajudar a montar os enxovais dos jovens que ingressavam no Seminário da Província e não tinham condições financeiras. Nesse levantamento, feito pela equipe que trabalha no PVF, São Paulo é o estado com mais benfeitores: 2.604 pessoas. A sede do PVF em São Paulo e a estruturação deste serviço, a partir de 1986 na sede provincial, deu essa proximidade com os benfeitores, tanto que só na Capital são 1.197 padrinhos e madrinhas dos seminaristas. O Rio de Janeiro, onde nasceu este projeto, soma 2.204 benfeitores. Já Santa Catarina, o Estado que tem mais presenças dos frades em toda a Província, 2.460 se juntaram a esta missão. O Estado do Paraná tem 1.082 pessoas contribuindo para este trabalho formativo da vida religiosa franciscana e o Espírito Santo, onde os frades

estão presentes em apenas três lugares, soma um total de 950 benfeitores. Segundo frei Alexandre Rohling, que coordena as campanhas para buscar novos benfeitores (as) na Província, esses números mostram o tamanho da generosidade franciscana. Outras formas de o benfeitor chegar até o PVF são através do “Boletim do PVF”, da internet, da Folhinha do Sagrado Coração de Jesus, editada pela Editora Vozes, e também pelas campanhas promovidas pela Província, como a do Mês Missionário em outubro, quando as doações são revertidas para a Missão de Angola, e a que está em andamento de forma virtual: “A Missão não pode parar”. Segundo Frei Robson Scudela, para estreitar os laços com essa família franciscana, há os Encontros Regionais, o Retiro anual, “Um dia com Maria e Frei Galvão”, o Boletim do PVF, as mídias sociais e os cartões celebrativos de aniversário e de São Francisco e Natal. “Não cansamos de externar nossa gratidão pela atenção que recebemos por abraçarem este projeto”, diz Frei Robson. Em tempo: O primeiro Retiro do PVF levou para o Seminário de Agudos um grupo de 55 benfeitores, para conhecerem um pouco mais a espiritualidade de São Francisco e Santa Clara e ver uma casa de formação da Província. COMUNICAÇÕES

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Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil NOTÍCIAS DA REUNIÃO DO DEFINITÓRIO PROVINCIAL São Paulo, 17 de junho de 2020

o dia 17 de Junho de 2020, por videoconferência, aconteceu a reunião do Definitório Provincial com a presença de todos os seus membros. Iniciou-se às 9 horas com as boas vindas dadas pelo Ministro Provincial, Frei César Külkamp, recordando também a pessoa de Frei Rui Depiné, falecido no dia 12 de junho e que permanece como uma bela inspiração de vida franciscana para todos nós e para tantos que passaram por sua vida, especialmente nos 40 anos em que serviu com a generosidade que lhe era própria na Capelania do Hospital São Roque, em Piraquara, PR. Frei César também recordou os trabalhos de solidariedade feitos em nome da Província e também algumas situações mais difíceis em

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algumas presenças nossas por conta da pandemia atual do novo coronavírus. Pediu a Frei Gustavo Medella que moderasse a reunião e este iniciou com uma oração do Papa Francisco à Imaculada Conceição de Maria. A maioria dos assuntos discutidos e decisões tomadas segue neste boletim.

1. Profissão Solene – aprovações Depois de apreciarem os relatórios e pareceres diversos, o Ministro Provincial e os Definidores, aprovaram que emitam a Profissão Solene na Ordem: 1. Frei Augusto Luiz Gabriel - 2º ano de Teologia (6º Ano de Profissão Temporária), residente na Fra-


definitório provincial// ternidade do Sagrado Coração de Jesus, de Petrópolis; 2. Frei David Belineli - 2º ano de Teologia (6º Ano de Profissão Temporária), residente na Fraternidade do Sagrado Coração de Jesus, de Petrópolis; 3. Frei Heberti Senra Inácio - 2º ano de Teologia (6º Ano de Profissão Temporária), residente na Fraternidade do Sagrado Coração de Jesus, de Petrópolis; 4. Leandro Ferreira Silva - 2º ano de Teologia (6º Ano de Profissão Temporária), residente na Fraternidade do Sagrado Coração de Jesus, de Petrópolis; 5. M arcos Schwengber - 3º ano de Teologia (7º Ano de Profissão Temporária), residente na Fraternidade do Sagrado Coração de Jesus, de Petrópolis; 6. Frei Tiago Gomes Elias - 2º ano de Teologia (5º Ano de Profissão Temporária), residente na Fraternidade do Sagrado Coração de Jesus, de Petrópolis.

2. 3ª Prioridade Provincial – Animação Vocacional Conforme relatado pelo Conselho de Formação e Estudos, o Definitório também manifestou preocupação com o acompanhamento vocacional nestes tempos de pandemia. O SAV tem orientado aos animadores locais a buscarem formas criativas de promoção e acompanhamento vocacional. Uma iniciativa a ser concretizada nos próximos dias é o envio de oração vocacional a ser feita nas celebrações presenciais ou transmitidas, juntamente com o convite vocacional, às famílias e aos jovens. Preocupa ao Definitório o baixo número de formandos nas etapas formativas. É importante que se faça uma reflexão ampla a partir da 3a prioridade do Plano de Evangelização: “Revigorar a Animação Vocacional”. As fraternidades e os frades devem priorizar a criatividade neste trabalho, assumindo-o efetivamente no Projeto Fraterno de Vida e Missão.

3. Encontros virtuais com os guardiães Foi proposta a realização de reuniões por videoconferência dos definidores com os guardiães do seu regional, contando com a presença do Ministro e Vigário Provinciais. Nestes encontros, além da partilha das casas, pode-se buscar indicações importantes para a vida provincial. Os encontros virtuais serão marcados nas próximas semanas.

4. Egressos O Definitório tomou conhecimento dos pedidos pessoais e dos relatos dos formadores, para deixar a Ordem

ou etapa formativa, dos seguintes irmãos: 1. G abriel Ferreira Salinas - Professo Temporário da etapa da Filosofia - Saiu no dia 14/05/2020; 2. Éverton Junior Goschel Broilo - Professo Temporário da etapa da Filosofia - Saiu no dia 11/06/2020. 3. Pedro Henrique Barbosa Pinheiro - Postulante Saiu no dia 15/05/2020.

5. Conselho de Evangelização O Conselho de Evangelização fez uma reunião por videoconferência no dia 15 de junho. O Secretário para a Evangelização, Frei Gustavo Medella, relatou o primeiro encontro entre os frades da Frente da Educação, no dia 05 de junho. Com a impossibilidade dos encontros presenciais previstos para os frades de cada Frente, a Frente das Paróquias, Santuários e Centros de Acolhimento tem a proposta de realizar um encontro formativo sobre a realidade atual também por videoconferência. A data deve ser comunicada em breve pelo coordenador. O mesmo será proposto à Frente da Comunicação.

6. Transferências 1. Frei Gregório Martins – Transferido da Fraternidade São Boaventura, de Rondinha, para Fraternidade São Francisco de Assis, de Bragança Paulista. 2. Frei Edvaldo Batista Soares - Transferido da Fraternidade São José, no Seminário Frei Galvão, de Guaratinguetá, para a Fraternidade São Francisco de Assis, de São Paulo, como atendente conventual. 3. Frei Roberto Ishara - Transferido da Fraternidade Nossa Senhora da Boa Viagem, da Rocinha, para a Fraternidade São José, no Seminário Frei Galvão, de Guaratinguetá, como atendente conventual. 4. Frei Valdemiro Wastchuk - Transferido da Fraternidade da Porciúncula, de Viana, para a Fraternidade São Damião, de Malange, como vigário paroquial das paróquias do Katepa e de Kangandala e para auxiliar no cuidado do terreno no Bairro Zela. 5. Frei João Baptista Canjenjenga – Transferido da Fraternidade São Francisco de Assis, em Luanda, para a Fraternidade da Porciúncula, de Viana, como Pároco e continuando os serviços de ecônomo da FIMDA e nos projetos sociais. 6. Frei José Morais Cambolo – Transferido da Fraternidade da Porciúncula, de Viana, para a Fraternidade São Francisco de Assis, em Luanda, como Guardião, ecônomo da fraternidade e responsável pelo Kimbo São Francisco. COMUNICAÇÕES

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//definitório provincial 7. Nomeações 1. Frei Afonso Katchekele Quissongo – Membro da Equipe de Formação do Seminário Monte Alverne, de Malange. 2. Frei Antônio Michels – Vice-secretário para a Evangelização da Província, em substituição a Frei Valdecir Schwambach, impossibilitado por razões de estudo. 3. Frei João Alberto Bunga – Deixa o serviço no Kimbo São Francisco e assume a assistência às Clarissas do Mosteiro Sagrado Coração de Jesus. 4. Frei José Antônio Cruz Duarte –Foi nomeado assistente espiritual da congregação das Irmãs Paroquiais de São Francisco. 5. Frei Mário Luís Tagliari - Foi nomeado Mestre de Frei Lucas de Moura Justino Souza. 6. Frei João Francisco da Silva - Foi nomeado Mestre de Frei João Manuel Zechinatto. ( Nestas duas últimas nomeações, o Definitório indicou que os guardiães das Fraternidades onde os dois frades estão morando, cumprirão esta função, uma vez que há provisoriedade na permanência deles nas respectivas fraternidades e oportunamente continuarão o Ano Missionário na FIMDA).

8. Visitador Geral Em ofício do Ministro Geral, de 1º de junho, Frei Gustavo W. Medella foi nomeado Visitador Geral para a Província Franciscana do Santíssimo Nome de Jesus, em Goiás e Tocantins.

9. Decreto do Ministro Geral de acréscimo de três províncias à CFMB O Ministro Geral, em decreto de 13 de maio, depois de receber o consentimento do Definitório Geral, no dia 11 de maio, e depois da avaliar a carta de pedido das três províncias da antiga Conferência do Cone Sul e a carta favorável dos Ministros da CFMB, suprimiu aquela Conferência e anexou as Províncias Franciscanas de Nossa Senhora da Assunção (Argentina e Paraguai), de São Francisco Solano (Argentina) e da Santíssima Trindade (Chile) à Conferência dos Ministros Provinciais do Brasil - CFMB. Esta conta, agora, com 12 entidades e recebeu o encargo de atualizar os seus estatutos. A tarefa também é a de readequar as formas de animação e articulação de seus ministros e serviços.

10. Decreto de Dispensa do Mandato 49 Devido às dificuldades causadas pela pandemia do

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Covid 19, o Definitório Geral, em sessão de 18 de maio de 2020, dispensou o “Mandato 49”, do Capítulo Geral de 2009, que excluía a possibilidade de celebração dos capítulos provinciais ou custodiais nos seis meses anteriores ou posteriores à celebração do Capítulo Geral da Ordem. Isto significa que o nosso Capítulo Provincial 2021 terá maior flexibilidade para a escolha de data.

11. FIMDA Em carta de 18 de maio, Frei Valmir Ramos, Definidor Geral, comunica o cancelamento da visita que seria feita à FIMDA por ele e Frei Nicodéme Kibuzehose, Definidor Geral pela África, por conta da situação de pandemia. A visita seria de 02 a 09 de julho, com participação na prevista Assembleia da FIMDA. O Definitório demonstrou gratidão aos frades da FIMDA que, mesmo num clima de incertezas e de necessário isolamento social, bem mais rígido que no Brasil, tem levado adiante e com criatividade os serviços da evangelização e da formação. Um agradecimento especial se deve aos membros do Conselho da FIMDA pela boa comunicação com o Ministro Provincial e o Definitório.

12. Agenda 2020 – acréscimos e alterações 1. A Assembleia Celebrativa pelos 30 anos da FIMDA, prevista para 29 de junho a 05 de julho, será reagendada conforme possibilidades de maior participação dos frades de Angola e de fora. Uma possibilidade mais provável é no início de 2021. 2. 18 de Julho – Ordenação presbiteral de Frei José Morais Cambolo.

13. Encerramento Ao final da sessão, depois da oração e bênção final, Frei César agradeceu aos membros do Definitório pela boa disposição para as discussões durante o dia. Falou que a pandemia evidenciou algumas particularidades da vida da Província e dos frades. Questões de ordem espiritual, vocacional, psíquica e econômica estiveram presentes. Todos vamos precisar responder com serenidade, solidariedade e fraternidade aos desafios apresentados. Embora se sinta a necessidade de encontros presenciais, os virtuais têm auxiliado com êxito nos trabalhos do Definitório.

Frei Jeâ Paulo Andrade, OFM Secretário Provincial


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Mexicano é o novo reitor da Pontifícia Universidade Antonianum

A Congregação para os Institutos de Estudos Católicos nomeou o frade mexicano Agustín Hernández Vidales como reitor da Pontifícia Universidade Antonianum (PUA) de Roma. O anúncio foi feito no dia 28 de maio. A nomeação foi precedida pela indicação de nomes feita pelo Senado Acadêmico ao Definitório Geral da Ordem dos Frades Menores e ao Ministro Geral da Ordem Franciscana e Grão-Chanceler

da Pontifícia Universidade Antonianum, Frei Michael Perry. Eles, por sua vez, escolheram uma lista tríplice que foi apresentada à Congregação para os Institutos. Frei Agustín já era vice-reitor da Universidade, quando acompanhou a irmã franciscana, Irmã Mary Melone, S.F.A., na reitoria da Pontifícia Universidade Antonianum (PUA) nos triênios 2014-2017 e 2017-2020. Professor de Filosofia, Agustín Hernández nasceu em Corupo, México, em 14 de junho de 1970, e obteve doutorado em Filosofia pela Pontifícia Universidade Antonianum, com uma tese sobre “A felicidade humana em Filebo e Platão, uma indicação para o divino”. “Ele é professor da Universidade há alguns anos e administrou até o dia de hoje a Universidade na qualidade de Vice-Reitor. Portanto, agora

como reitor, não terá surpresa porque já conhece bem o trabalho, o ambiente, as pessoas e os desafios”, acredita Frei Estêvão Ottenbreit, guardião da Fraternidade do Antonianum. Para o novo reitor, “a razão de nossa missão, que deve estar sempre ligada à evangelização”. Segundo ele, conhecimento e evangelização andam juntos. Exemplifica: “Como os missionários poderiam evangelizar se não tivessem conhecimento da língua local? Para isso, posso citar um exemplo próximo a nós, na China distante: aqui encontramos o Frei Alberto Allegra, um franciscano que traduziu a Bíblia para o chinês na década de 1950 do nosso século. São números que atestam o quanto a Ordem Franciscana continua hoje, em nossos dias, em sua missão de estudo da Palavra, da Teologia”, disse à Revista “São Francesco”.

O racismo sistêmico deve acabar: declaração das seis Províncias dos EUA em processo de união Nestes momentos em que o vírus da Covid-19 atacou de maneira desproporcional a população negra, testemunhamos o assassinato de George Floyd e os protestos, em alguns casos violentos, que ocorreram posteriormente em nossas cidades. Nossos corações estão com todos afetados. E ainda, seguindo os passos de São Francisco de Assis, condenamos a violência e desejamos paz, nos solidarizamos com nossos irmãos e irmãs afro-americanos indignados que exigem o fim da violência mortal do racismo. Não podemos permanecer indiferentes quando a

David Gaa, O.F.M. Ministro Provincial da Província Franciscana de Santa Bárbara

James Gannon, O.F.M. Ministro Provincial da Província Franciscana da Assunção da Santíssima Virgem Maria

Kevin Mullen, O.F.M.

Ministro Provincial da Província Franciscana do Santo Nome

dignidade dada por Deus é violada. Como pessoas de fé, não apenas condenamos o racismo sistêmico que levou a esses eventos, mas também reiteramos nossa dedicação em pôr fim à injustiça racial em nossas províncias, em nossa Igreja e em nossa nação, criando esse espaço onde um dia florescerá a amada Comunidade de Dr. Martin Luther King.

Thomas Nairn, O.F.M. Ministro Provincial da Província Franciscana do Sagrado Coração

Jack Clark Robinson, O.F.M. Ministro Provincial da Província Franciscana de Nossa Senhora de Guadalupe

Mark Soehner, O.F.M.

Ministro Provincial da Província Franciscana de São João Batista COMUNICAÇÕES

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//falecimentos

Frei Rui Guido Depiné 08.10.1942

+ 12.06.2020

breve celebração de despedida junto à Fraternidade São Francisco, em Bragança Paulista. Às 14 horas, seu corpo foi trasladado para o Cemitério do Santíssimo Sacramento, em São Paulo onde, às 16 horas, foi sepultado.

O frade menor

Dados pessoais, formação e atividades: 8.10.1942 – Nascimento (77 anos) 0 19.12.1964 – Vestição 20.12.1965 – Profissão Simples (54 anos de Vida Religiosa) 14.11.1969 – Profissão Solene 18.07.1971 – Ordenação (47 anos de Sacerdócio) 06.12.1971 – Duque de Caxias, RJ – Vigário Paroquial 03.03.1975 – Concórdia, SC – Vigário Paroquial 12.12.1978 – Colônia São Roque, Piraquara, PR - Capelão

viveu em Piraquara, Frei Rui se destacou por uma dedicação integral aos pobres e aos doentes. Com simplicidade e amor, vivia totalmente em função de atender a quem lhe procurava. Qualquer presente que ganhava, do valor que fosse, na próxima esquina já estava nas mãos de alguém que estivesse necessitando. Nada reteve aleceu na madrugada do para si. Teve relação próxima e familiar dia 12 de junho, por volta com as Irmãs da Congregação das da 01h15, na Fraternidade Franciscanas de São José, que sempre Franciscana São Francisco de Assis, em estiveram juntas a Frei Rui. Bragança Paulista, SP, Frei Rui Guido Na convivência com os confrades, Depiné. Frei Rui, que por mais de 40 mostrava-se sempre cordial e otimista, anos dedicou-se de corpo e alma à buscando dar destaque às belezas missão junto aos hansenianos, seus fada vida franciscana mesmo diante de miliares e pessoas carentes na Colônia possíveis dificuldades e desafios. AfeiSão Roque, em Piraquara, na Região Metropolitana de Curitiba, PR, estava to às coisas simples, gostava muito do desde o fim de 2018 em Bragança contato com a natureza e também se Paulista para tratamento de saúde. dedicava a compor e recitar poesias. Embora sua situação fosse bastante Em comunicado enviado aos frades da frágil desde que chegou àquela FraProvíncia logo que soube do faleciternidade – já acometido pelo Mal de mento do confrade, o Ministro ProvinAlzheimer e Parkinson –, sua partida cial, Frei César Külkamp, escreveu: “A este nosso irmão, tão sensível rápida e repentina foi recebida aos pobres e aos doentes, com surpresa pelo guardião, dediquemos a sensibilidade de Frei Carlos José Körber, pelos O Caminho do Pão nossas preces”. Frei Rui, agora demais confrades e profissioFelizes! já participante da Eucaristia nais dedicados ao cuidado dos F elizes aqueles que preparam a terra. definitiva junto a Deus, parte frades enfermos. De acordo F elizes os que lavram o chão. no dia compreendido entre a com Frei Carlos, desde ontem F elizes os que semeiam a semente. Solenidade do Corpo e Sangue (11 de junho), Frei Rui apresenF elizes os que cuidam da plantação. de Cristo e a Festa de Santo tou um quadro de desidratação F elizes os que produzem o trigo. Antônio. Certamente já foi ree arritmia cardíaca. Recebeu F elizes os que semeiam as espigas. oxigênio e veio a falecer no cebido na glória por aquele em F elizes os que transportam a colheita. início da madrugada deste dia quem muitas vezes se inspirou F elizes os que moem o grão. 12 por conta de uma parada para partilhar o pão com os F elizes aqueles que o transformam em cardiorrespiratória. pobres. alimento. Às 13h30 foi realizada uma RIP M uito mais felizes aqueles que repartem seu pão. 386 COMUNICAÇÕES JUNHO DE 2020 Frei Rui Guido Depiné, OFM

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Nascido em Rodeio, SC, filho de Giusepe Depinè e Lídia B. Depinè, foi o 2º filho de uma família com 11 irmãos, sendo quatro homens e sete mulheres. Seus pais eram agricultores e viviam do que produziam. Segundo o próprio Frei Rui, em sua ficha autobiográfica, “o pai, nas horas vagas, era também alfaiate. Foi também juiz de paz por quase trinta anos”. Quanto à religiosidade familiar, Frei Rui descrevia os pais como “muito religiosos” e pertencentes à Ordem Franciscana Secular e ao Apostolado da Oração. Eram assíduos frequentadores das celebrações litúrgicas, tanto aos domingos quanto nos dias de semana. Sobre a rotina de orações em família, escreveu: “Em casa se rezava de manhã, de dia e de noite. Mesmo fracassando a lavoura de vez em quando, não diminuía o relacionamento com Deus e a fé parecia ainda maior”. Em sua vida de frade menor, e de modo especial nos 40 anos em que


Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil

agenda2020 As alterações e acréscimos estão destacados em laranja.

JULHO

08

Reunião dos coordenadores dos regionais

18

Ordenação presbiteral de Frei José Cambolo

AGOSTO

03 a 07

Retiro Bíblico - Seminário Santo Antônio - Agudos (SP)

24 a 28

Retiro no Eremitério Frei Egídio

SETEMBRO

01 a 03

Reunião do Definitório Provincial

14 a 16

Regional de Curitiba (Rondinha)

14 a 19

Retiro no Eremitério Frei Egídio

21 a 24

Retiro no Convento São Francisco - SP

OUTUBRO

11

50 anos da Paróquia Santo Antônio Sorocaba, SP

15 a 18

Congresso de Evangelização da CFMB (São Paulo)

31 a 01

Alverne – Concórdia (SC)

NOVEMBRO

3a5

Regional Leste Vale Catarinense

4a6

Regional de São Paulo

16 a 18

Reunião do Definitório Provincial

23 a 25

Regional do Contestado

2021 MAIO

01 a 29

Capítulo Geral da Ordem (Manila – Filipinas)

“Coragem e esperança. Somos pessoas de fé!”, diz o Papa ao povo brasileiro ais um telefonema do Papa Francisco para o Brasil. Desta vez foi o arcebispo de Aparecida (SP), Dom Orlando Brandes que recebeu uma ligação do Papa Francisco no dia 10 de junho. Segundo informações do próprio Dom Orlando numa entrevista à TV Aparecida, o Santo Padre “manifestou a sua solidariedade e carinho ao povo brasileiro”, em especial nesse momento difícil de pandemia da Covid-19. Segundo Dom Orlando, durante o telefonema, o Papa disse que reza por todos os brasileiros e que acompanha as notícias do Brasil em oração. Ele pediu que transmitisse ao povo brasileiro suas orações e recomendou que todos os brasileiros se coloquem no colo de Nossa Senhora Aparecida”. Durante a entrevista dom Orlando, disse que Francisco lembrou sua visita a Aparecida nos anos de 2007 e 2013, por ocasião da V Conferência de Apareci-

M

da, ainda como arcebispo de Buenos Aires, e depois, como Papa, durante a JMJ no Rio de Janeiro. De acordo com o arcebispo, Francisco falou ainda da imagem de Nossa Senhora Aparecida que foi entronizada nos Jardins Vaticanos em setembro de 2016. “Ele disse: a imagem de Nossa Senhora Aparecida está bem pertinho de mim. E relembrou: eu me lembro que peguei Nossa Senhora no meu colo, a Madonnina, que quer dizer, mãezinha. Recomendo a todos vocês estarem no colo da Mãezinha Aparecida”, destacou o arcebispo. Dom Orlando disse que o Papa pediu para dar uma bênção ao povo brasileiro em seu nome. Concluindo o telefonema, Francisco deixou uma mensagem aos brasileiros: “Coragem e esperança. Somos pessoas de fé!”, disse. Esta foi a terceira ligação do Papa Francisco para o Brasil durante a pandemia do coronavírus. O Santo Padre já havia telefonado para o ar-

cebispo de Manaus, Dom Leonardo Steiner, e também para o arcebispo de São Paulo, cardeal Odilo Pedro Scherer, para manifestar sua solidariedade.

Silvonei José Vatican News


Frei José Ariovaldo da Silva, OFM – Junho de 2020 Santo Antônio, São João, São Pedro e São Paulo, do céu por todos nós intercedei na luta desta vida em meio às trevas da injustiça, ódio, armas, ignorância, agressão, escravidão, morte, eliminação, aniquilação... E que aumente a nossa fé na guia divina da redenção que resgata a linda alegria de viver na paz como ela é. Meu glorioso Santo Antônio, do povo insigne pregador, junto ao Rei que é puro amor, em tudo nosso intercessor: Pelo amor de Deus, eu te rogo, com fé te peço, por favor, intercede a Deus, nosso Senhor, por nossos povos necessitados, todos que vivem dura provação, e pelos sonhos dos namorados... Que tenham todos na mesa o pão, que brilhe a justiça dos enricados em favor dos pobres deste chão.

Meu corajoso São João, batista de nosso Senhor e profeta do Salvador: Neste mês, no teu natal, dia de festejos, muita alegria, do fundo do meu coração, te faço esta humilde oração: Pede a Deus por todos nós, povo em busca de salvação. Seguir Jesus, caminho certo anunciado em tua profecia, traz para nós a descoberto ser ele o verdadeiro Guia. Em nome da justiça de Deus, avisa o reinado de Herodes, que pare de hoje perseguir, matar tantos inocentes, tantos humanos excluir da terra, teto, saúde, do direito de viver... Queremos Redenção!

São Pedro, nosso pescador, homem de fé no Salvador, e, nesta fé, fundaste a Igreja, barca da qual tenho a alegria de ser também navegador! No dia feliz da tua festa, te faço um ardente pedido escrito aqui na minha testa: Junto com Paulo, o doutor do Evangelho ao povo sofrido, no céu, plenamente confiante, hoje, junto a Jesus, nosso Senhor, não permitas que a barca afunde e que também não afoguemos no caos do mar bravio, no terror. Cuida, sobretudo, dos pobres, índios, negros, quilombolas, LGBTs, sem terra, sem teto, trabalhadores sem emprego, pelo amor de Deus, por favor! Amém, meu glorioso Santo Antônio! Amém, meu corajoso São João! Amém, meu São Pedro pescador e meu São Paulo evangelizador!


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