Ano XII | Nยบ 155
REVISTA DA ARQUIDIOCESE DE VITร RIA - ES
| Julho de 2018
EDITORIAL
HOMENAGEM AOS QUE FICARAM FORA DO ÁLBUM DA COPA DO MUNDO Julho começa com a expectativa da reta final da Copa do Mundo. Muitas brincadeiras foram feitas com os jogadores e com as seleções. Por ocasião da saída da Alemanha, na primeira fase, vi uma dessas 'brincadeiras' que me chamou a atenção: “Bem feito para a Alemanha! Fica investindo em educação, saúde e segurança e esquece do futebol! Aí dá nisso”. Qualquer comentário seria como diz o ditado: “chover no molhado”. Mas esta edição também entrou no ritmo da copa e encontrou um lado que pouco ou nada foi assunto na mídia: por onde não circula o álbum de figurinhas da copa? Leia na reportagem. Trazemos outros assuntos como racismo e relativismo na Igreja, descarte de pilhas e baterias, campanha do dízimo, entrevista com Pepenha, catequese, Bíblia, Liturgia, as lições do Papa, o olhar de Arlindo Vilaschi sobre a greve dos caminhoneiros, o pensamento de pe. Dauri sobre a colonização das pessoas e muito mais. Nossa torcida é para que eventos como a Copa do Mundo cheguem a todas as classes sociais.
Boa leitura! Maria da Luz Fernandes Editora
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IDEIAS 16 Corpos Colonizados
VIVER
BEM E AGORA? O
REPORTAGEM 05
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QUE VESTIR ?
Fora do Álbum da Copa
10 FAZER BEM 13 ATUALIDADE 19 ESPIRITUALIDADE 20 SUGESTÕES 23 ARQUIVO E MEMÓRIA 24 DIÁLOGOS 27 CATEQUESE 28 CAMINHOS DA BÍBLIA 31 LIÇÕES DE FRANCISCO 32 PENSAR
33 ENTREVISTA Com ‘‘Pepenha’’
37 MUNDO LITÚRGICO Liturgia para a vida do mundo
41 ASPAS Os ricos não deveriam usar o SUS
43 ECONOMIA Equívoco central
44 PAUTA LIVRE O destino das pilhas e baterias usadas
45 PERGUNTE A QUEM SABE Respostas para dúvidas cotidianas
46 ACONTECE Fique por dentro do que esta rolando
Arcebispo Metropolitano: Dom Luiz Mancilha Vilela – Repórter: Andressa Mian / 0987-ES – Conselho Editorial: Alessandro Gomes, Edebrande Cavalieri, Vander Silva, Lara Roberts – Colaboradores: Pe. Andherson Franklin, Arlindo Vilaschi, Dauri Batisti, Giovanna Valfré, Fr. José Moacyr Cadenassi- Revisão de texto: Yolanda Therezinha Bruzamolin – Publicidade e Propaganda: vlorenzetto@redercres.com.br – (27) 3198-0850 Fale com a revista vitória: mitra.noticias@aves.org.br – Projeto Gráfico e Editoração: Blend Criativo - Designer: Gustavo Belo Impressão: Gráfica e Editora GSA – (27)3232-1266.
REPORTAGEM
FORA DO ÁLBUM DA COPA “
como se eu tivesse uma pipa que não voasse e olhasse para o céu e visse uma outra pipa voando bem longe de mim, que eu não conseguisse pegar”. Foi assim que um menino do bairro Vila Nova de Colares, na Serra, explicou ao Pe. José Carlos, pároco da Paróquia São José de Calazans, com ele se sentia em relação ao álbum de figurinhas da Copa do Mundo na Rússia 2018, algo que ele sabe que existe, que ele tem vontade de ter, mas que está distante de sua realidade.
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Tem muitos craques no álbum que eu já assisti na televisão. Acho que não vou completar o álbum, pois são muitas figurinhas e elas são caras, mas é muito legal colecionar
A analogia do menino foi feita durante uma dinâmica proposta pelo Pe. José Carlos com as crianças que frequentam o Centro Social São José de Calazans e revela que a realidade desta criança é igual a de tantas outras cuja renda familiar, muitas vezes não chega a um salário mínimo. O esforço das famílias inseridas neste contexto, é tentar manter ao menos o básico dentro de casa, ou seja, a alimentação. Sendo assim, é praticamente impossível proporcionar aos filhos o objeto de desejo do momento de toda criança, pois colecionar as figurinhas e completar o álbum da Copa do Mundo na Rússia, que tem 682 cromos, fica em torno de R$ 1.938,00. O cálculo, baseado no método estatístico Monte Carlo, foi feito considerando a compra de todas as figurinhas do álbum (a R$ 0,40 cada) e a média das figurinhas repetidas que também seriam compradas. O cálculo não leva em conta a troca de cromos. Desempregada e contanto apenas com o salário do marido para manter as despesas da família que mora no bairro Vale Encantado, em Vila Velha, Mariane da Silva teve que dizer aos três filhos, 6, 8 e 11 anos, que não tem como comprar o álbum. “O salário dele é de R$1.500,00 e eu sempre falo para vitória | 05
os meninos que quando der, ou quando o valor dos pacotinhos diminuir, a gente compra. Eles pedem, falam que alguns coleguinhas têm, enfim, são crianças, mas acabam entendendo nossa explicação. Eu fico chateada e acho que as figurinhas deveriam ser mais baratas, acessíveis a todos, pois qual é o menino que não gosta de futebol? Muita criança fica de fora”, lamentou. A opinião de Mariane é a mesma da empresária Verônica Rodrigues, que avalia o valor da coleção absurda e incompatível com a realidade social de muitas crianças. 06 | vitória
Proprietária de uma empresa no bairro Feu Rosa, na Serra, Verônica explica que convive com realidades opostas. “Temos um bom padrão de vida e meu filho estuda em escola particular. Na escola os meninos só falam desse álbum, é uma febre. Mas na catequese, em nossa paróquia, tem criança que nunca viu. Não deixo meu filho levar o álbum para a catequese, porque acho dolorido para os que não têm condições. Estaríamos colocando no coração dessas crianças o desejo por algo que sabemos que para elas é inacessível”, observou.
Na comunidade de Jaburu, em Vitória, a realidade das crianças não é diferente, segundo o líder comunitário Cosme Santos de Jesus. No bairro, sequer existe banca de revista e o assunto copa do mundo tem repercutido pouco na região. “A falta de perspectiva, a situação social e a desesperança em que as pessoas se encontram refletem em tudo, inclusive no esporte. Em outros anos de copa, a gente via o pessoal orgulhoso em vestir a camisa verde amarela, em mostrar que é brasileiro, mas este ano as pessoas falam pouco. As crianças se ani-
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maram um pouco e até ajudaram a pintar o beco do Centro comunitário e o muro do Cajun, mas as famílias que têm um pouquinho de dinheiro estão preocupadas mesmo é em colocar o arroz e o feijão dentro de casa”, disse. O álbum de figurinhas da copa não é novidade entre a garotada, como explica o treinador de futebol Cosme Eduardo, que dá aulas para crianças de todas as classes sociais. Ele lembra que as edições antigas tinham um valor acessível a todos e ainda ofereciam brindes para quem as completasse. “Agora o álbum é caro e os meninos mais humildes ficam de fora, pois sabem que mesmo que consigam ter o álbum não chegarão a completá-lo. Era algo que deveria contribuir como um estímulo para o esporte para as crianças de periferia, mas acaba ocorrendo o contrário. Para eles é frustrante”, afirma. Na avaliação do secretário de relacionamento institucional da Associação de Moradores de Cariacica, Dauri Correia da Silva, o desestímulo no caso das cri-
anças carentes reflete em outros aspectos da vida delas. “Outro dia me deparei com dois meninos conversando e um dizia que tinha o álbum e estava comprando as figurinhas. O outro, bem mais humilde, afirmava que não tinha, pois, os pais não tinham condições. O olhar desse menino transmitia um sentimento de inferioridade. Era como se ele tivesse assimilado que ele não tinha direito de ter certas coisas. Isso é muito dolorido. Como explicar para as crianças, que vivemos em um mundo capitalista e que alguns podem e muitos não podem. Até para um pai, explicar isso a um filho é muito difícil. Aí vem sempre a desculpa de quando tivermos dinheiro, eu compro. Mas esse dia nunca chega. O álbum na verdade é só um exemplo das inúmeras coisas que são negadas a estas crianças”, comentou. Mas se existem muitos “nãos”, sempre tem alguém para dizer “sim” e, com um gesto bacana, lembra a todos que 'olhar para o outro' é importante e faz diferença.
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O professor e ex-jogador profissional de futebol Matheus Luchi Bernardes se comoveu com o fato de algumas crianças carentes, que ele treina em uma escolinha de futebol, não terem condições de adquirir o álbum e as figurinhas. Matheus comprou alguns álbuns e pacotinhos de figurinhas e presenteou os meninos durante um campeonato disputado fora de Vitória. “Eu queria que eles se sentissem incluídos, assim como as outras crianças que, por terem condições estavam com o álbum. Quando eu entreguei o álbum para esses meninos, foi automático. Tanto os que haviam recebido o presente como as outras crianças que já tinham o álbum começaram a pular de alegria e a gritar: Vamos trocar! Eu sei 08 | vitória
o quanto é importante estimular a partilha, a amizade e a percepção de enxergar o outro. Fiquei muito feliz com a reação dos meninos”, comemorou. O estudante Adriel Fernandes Nascimento, 12 anos, foi um dos meninos que ganhou o álbum doado por Matheus. O menino, que mora em Viana, treina duas vezes por semana no campo da Curva da Jurema e acompanhado do pai, o caldeiro Carlos César Nascimento, revela um brilho no olhar ao falar do presente. “Tem muitos craques no álbum que eu já assisti na televisão. Acho que não vou completar o álbum, pois são muitas figurinhas e elas são caras, mas é muito legal colecionar”, afirma. Adriel tem razão, colecionar é contagiante, tanto que o envolvi-
mento não é somente das crianças. Adultos, adolescentes, jovens e idosos vão para as praças e shoppings da Grande Vitória trocar figurinhas. A administradora Mariângela Serrão, 62 anos, comprou o álbum e afirma que o interesse vem desde a época em que o filho era pequeno e o estimulava a colecionar as figurinhas. “É divertido, mas também desenvolve raciocínio e colabora para o conhecimento. Agora que ele é adulto, venho eu interagir com as pessoas, conhecer gente nova e estimular minha mente”, comentou. O estímulo para a Advogada Josânia Pretto é ver os três filhos de 9, 14 e 17 anos interagindo e se ajudando. “Aqui em casa é um álbum para os três e vejo que eles se unem para tentar completá-lo”, conta.
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Para a administradora Elaine Butter, além da interação das duas filhas e do envolvimento de toda a família, o álbum da Copa a levou a uma reflexão. “Moramos em uma região onde convivem pessoas de vários níveis sociais. Eu vejo minhas filhas muito alegres com a coleção, e vibro com a felicidade delas, é claro. Mas, por outro lado, muitas crianças da vizinhança não têm essa alegria. Parece algo tão simples, mas a oportunidade de olharmos o entorno e percebermos que existem outras realidades, acontecem o tempo todo nas pequenas coisas do dia. O álbum, por incrível que pareça, fez-me refletir sobre isto”, afirma. Para o Pe. Adriano Francisco Souza, pároco da Paróquia Santo Antônio de Pádua, em Soteco, Vila Velha, refletir sobre essas realidades é oportuno e louvável, mas para ele, também é possível direcioná-la para outra vertente; o fato de darmos valor para o que realmente tem importância na vida.
“O álbum é um modismo, vai passar e é necessário que os pais conscientizem seus filhos com relação a isto. Alguns aqui na paróquia vieram conversar comigo, expondo que deixaram de comprar o pão para comprar figurinhas, pois não queriam ver seus filhos ainda mais rebeldes. A orientação que dou é que é necessário mostrar para as crianças o que é prioridade na vida; a garantia do direito à saúde, educação, alimentação e segurança para todos. Precisamos ter acima de tudo, discernimento”, concluiu.
Andressa Mian Jornalista
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FAZER BEM
Motivo de decepção, torna-se orgulho Em clima de copa do mundo, a lembrança do inédito placar de 7x1 na copa de 2014, sempre vem à mente. Iniciativa louvável da administração do estádio Mineirão e o consulado da Alemanha no Brasil, irá converter em dinheiro, partes da rede que serão vendidas e entradas no museu em que a trave será exposta. Toda renda arrecadada, com as vendas e entradas, será revertida em doações para instituições de caridade.
Redes sociais influenciando para o bem Diminuir a poluição provocada pelos plásticos tem sido preocupação de algumas celebridades. Por ocasião do dia mundial do meio ambiente, celebrado em 5 de junho, a modelo Gisele Bündchen lançou uma campanha que pretende convencer as pessoas a substituírem plásticos por reutilizáveis. A campanha pede que as pessoas marquem alguém que amam, um amigo e uma empresa com a hashtag #AcabeComApoluiçãoPlástica.
Fim dos canudinhos de plástico no Rio de Janeiro Os canudos de plásticos estão prestes a sair do circuito da Cidade Maravilhosa. A Câmara Municipal da cidade aprovou um projeto de lei que proíbe a distribuição de canudos plásticos em estabelecimentos alimentícios. A capital pode se tornar a primeira cidade a banir os canudinhos em quiosques, bares e restaurantes. Como opção o projeto determina o uso de canudos feitos de materiais biodegradáveis.
Atitudes diferentes para situações semelhantes Um cliente, em um restaurante na Carolina do Sul, EUA, estava incomodado com um pedinte no local e chamou a polícia. Ao atender a ocorrência, o policial sem fazer alarde, pagou uma refeição para o pedinte. O ato foi filmado por uma das atendentes do restaurante e comoveu muitas pessoas. Um caso parecido ocorreu mês passado em um shopping em Salvador, Bahia. A diferença foi o comportamento do segurança, que tentou impedir uma criança carente de comer na praça de alimentação. A atitude do segurança provocou reação do rapaz que pagara a comida e das pessoas presentes. O caso foi resolvido com a chegada do gerente que permitiu a permanência da criança. 10 | vitória
FAZER BEM
Além do socorro sensibilidade e atenção Carinho e sensibilidade também podem fazer parte do trabalho. Um bombeiro norte-americano fez um trabalho diferencial ao atender uma ocorrência. Ao ver que crianças estavam envolvidas no acidente e que o trabalho estava sob controle, foi acalmar uma das crianças que estava muito nervosa. As imagens viralizaram na web.
Cadeiras de rodas para cães com deficiência Qualidade de vida para os animaizinhos de quatro patas. Um servidor público de Goiânia, Goiás, constrói e doa cadeiras de rodas para animais com deficiência. As cadeirinhas são feitas com tubos de PVC e rodinhas de borracha. Depois de custear sozinho várias cadeiras, hoje André Gondim recebe ajuda de voluntários. A onda de solidariedade se espalhou.
Mudas fazem água voltar em nascente seca Depois de 3 anos de doações de mudas, moradores da região do Lago Norte, Distrito Federal, voltam a ver a água minar de uma nascente que estava completamente seca na região. Com esse resultado os moradores continuam fazendo doações de mudas e reflorestando a região.
Faculdade a 1 dólar por dia Uma empresa norte americana está ajudando funcionários a conseguirem o tão sonhado diploma universitário. A empresa fechou parcerias com universidades e subsidia o custo com mensalidades, livros e taxas, onde o funcionário tem o custo de apenas $1 por dia. Uma das vantagens, é que os funcionários que deixarem de trabalhar para a empresa não serão penalizados, poderão continuar estudando com os mesmos benefícios.
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EXISTE RACISMO NA IGREJA? COMO ELE SE MANIFESTA? Meus irmãos, não tenteis conciliar a fé em Nosso Senhor Jesus Cristo glorioso com a acepção de pessoas. (Tg 2,1).
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onsiderado do ponto de vista técnico, o racismo é definido como um substantivo masculino que se resume em um conjunto de teorias e crenças que estabelecem uma hierarquia entre as raças, entre as etnias. Do ponto de vista prático um desserviço às relações sociais, muitas vezes hereditário ou contagioso que como o vírus de uma gripe passa-se despercebido, às vezes camuflados de brincadeiras, jargões ou piadas justificadas com argumentos tipo: “eu tenho vários amigos negros”, “a irmã da minha bisavó era casada com negro”. Isso para dar um exemplo dos negros. O mesmo se faz com índios, asiáticos e qualquer outra raça ou etnia que se difere do prestador do desserviço. Embora haja uma eterna negativa da existência de racismo, camuflada sobre a ideologia da “democracia racial”, casos são frequentes no dia a dia. Não muito raro estamos envoltos com notícias de práticas discriminatórias referentes à cor ou raça de alguém e em muitos casos praticados por pessoas tidas como esclarecidas. A externalização do preconceito racial acaba estando em caminho bem estreito com a condição econômica, social e intelectual de quem sofre o preconceito. Certamente, em uma relação face a face, é muito mais fácil diminuir o outro, por sua cor ou raça, quando esse se apresenta em condição econômica, intelectual ou profissional “menor”. Isso porque não se trata simplesmente da não aceitação da cor do outro, é também uma luta de poder, um se impor sobre outro puramente por acreditar que sua raça ocupa um lugar superior.
Há outra face do racismo poderíamos chamar de um “racismo reverso”, quando o próprio sujeito se convence da inferioridade de sua raça em relação a outras. Deixa-se de frequentar determinados lugares, fazer determinadas coisas por convencimento de que não é lugar ou condição para alguém da sua raça ocupar.
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Dessa forma, o racismo tem uma via de mão dupla que está impregnada no imaginário ou no inconsciente dos sujeitos que, embora muitas vezes não verbalizem tal compreensão, externalizam pela forma de olhar, abordar ou se comportar em determinados ambientes. Em artigo publicado na revista Carta Capital em novembro de 2017, a jornalista e doutora em Ciências da Comunicação e colaboradora do Conselho Mundial de Igrejas, Magali do Nascimento Cunha, defende a desconstrução do conceito de raça para definir diferenças regionais ou cor da pele de alguém. Segundo Magali, a noção de raça, construída para justificar a desigualdade e a exploração da África e da Ásia pelos europeus, foi demolida com o desenvolvimento do Projeto do Geno-
ma Humano nos EUA no fim do século XX. Os resultados mostraram que as diferenças genéticas entre negros e brancos não existem. Nesse sentido, o conceito de raça pode ser aplicado a animais não racionais, mas não aos humanos. Entre homens e mulheres, só há uma raça, a humana. A mesma intuição inspirou os padres conciliares durante o Vaticano II, quando na "Gaudium et spes" ressaltaram que a igualdade fundamental entre todos os homens deve ser cada vez mais reconhecida, uma vez que, dotados de alma racional e criados à imagem de Deus, todos têm a mesma natureza e origem; todos remidos por Cristo têm a mesma vocação e destino divino.
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O racismo na Igreja existe, velado por trás de brincadeiras, olhares ou expressões verbais e faciais que dizem e machucam muito mais do que se pode imaginar. A compreensão dos padres conciliares é que os homens não são todos iguais quanto à capacidade física e forças intelectuais e morais, variadas e diferentes em cada um. Mas deve superar-se e eliminarse, como contrária à vontade de Deus, qualquer forma social ou cultural de discriminação, quanto aos direitos fundamentais da pessoa, por razão do sexo, raça, cor, condição social, língua ou religião. Passados quase 55 anos do Concilio, ainda há muito que fazer no intuito de consolidar tal compreensão. Embora em muito superado, o racismo ainda se manifesta de forma velada em todos os ambien14 | vitória
ATUALIDADE
tes, inclusive dentro dos meios eclesiais. Negar que haja racismo na Igreja seria o mesmo que afirmar que a Igreja não é formada por homens e mulheres, embora tenha sua origem na vontade divina. O que ocorre é que o ambiente eclesial acaba por forçar práticas, olhares e comportamentos velados que poderiam se revelar ainda mais escandalosos dado o ambiente onde estão. Na história não foram poucos homens e mulheres impedidos de acesso à vida sacerdotal e religiosa por sua cor ou raça. Não raro, notam-se olhares de estranheza na assembleia, quando o padre que adentra a igreja é negro. Porque a estranheza em um país de maioria negra? A “sutileza” do racismo, disfarçado de brincadeiras ou piadas, está presente em todos os lugares, em
todas as rodas, inclusive nas rodas eclesiais. Ele ocupa o imaginário que se for por brincadeira não tem problema. O racismo na Igreja existe, velado por atrás de brincadeiras, olhares ou expressões verbais e faciais que dizem e machucam muito mais do que se pode imaginar.
Adelson Soares da Silva Padre, capelão Militar da Marinha do Brasil, pós-graduado em Doutrina Social da Igreja e especialista em Cultura e Meios de Comunicação.
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IDEIAS
CORPOS COLONIZADOS
U
ma luta por nossos corpos está estabelecida. Sim, eles são os novos territórios a serem colonizados. Nessa luta de um lado estamos nós, esse arranjo de energias, histórias, experiências, percepções, pensamentos, afetos, sensações que nos definem e nos nomeiam como sujeitos, supostos governadores da própria vida. Do outro estão os poderes que tomam nossas forças, disposições, desenvolturas, capacidades, habilidades e criatividades e que se assenhoram cada vez mais de nossas existências. Nessa luta se saem vencedoras as forças que comercializam tudo. Perdemos. Somos colônias. Perdemos (mesmo que sejamos colônias extremamente valorizadas). Já se foi o tempo em que colônias eram apenas aqueles territórios ao sul do Equador a serviço das potências do norte. Agora colonizam os nossos corpos. Não nos enganemos. E ao sermos assim disputados como colônias, sem que nos demos conta, somos alienados do prazer e do desfrute da própria vida. A vida em si é bem-estar e felicidade, mesmo e apesar de sua brevidade e de seus limites. A posse da própria vida seria o substrato, a razão, a causa primeira da alegria, bem-estar e felicidade. Mas somos impedidos de acessar da vida o que a vida é: vibração, satisfação, posse de si mesma. Para isso - entre outras estratégias (é bom que estejamos atentos) - nos tiram o presente, nos impedem de viver o presente, nos sobrecarregam de futuros que quase nunca chegam, ou nos fazem voltar ao passado como se nele estivessem as causas e entendimentos de tudo o que somos e vivemos. Prometendo um futuro maravilhoso nos cegam para as possíveis maravilhas do agora. Colocando no passado as chaves enigmáticas de quem somos nos enganam ao nos fazer brincar de detetives para que descubramos as
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IDEIAS
origens dos traumas nas nossas relações edipianas psicologizando nossos problemas e desviando-nos do seu enfrentamento. Engodo. Embromação. Manter-nos colônias. Mas como colônia o corpo não é dispensado de assumir sua depauperação, o ônus de sua exploração. Não nos dispensam, nem nos aliviam de nossas aflições. Antes, delas também se aproveitam, transformando-as em demandas de novos consumos. Medo, assombro, desencanto, estupor, paranóia, dependências compõem a atmosfera, o chão, o meio onde nossas vidas colonizadas são arremessadas. Lá abundam seus produtos à venda, caras receitas de felicidade (ostentação), mágicas substâncias e fórmulas solucionadoras dos mais variados problemas. Ilusões, ilusões e ilusões. Vendidas, distribuídas nos mais variados e atraentes envoltórios.
A pergunta que se pode levantar diante de tal constatação é: onde poderemos referenciar nossas vidas, onde jogar nossa âncora de modo a obter um mínimo de condições e entendimentos para que nos levantemos contra esse processo de colonização de nossas corpos/vidas? Como obter instrumentos que nos favoreçam nessa luta para reconquistarmos nosso corpo como espaço e condição para sermos quem estamos destinados a ser, humanos e desfrutadores da forças e belezas da própria vida? Se são poucas as estratégias seguras nessa luta de libertação um substrato precisa estar sempre presente nas mentes e corações, e precisa ser afirmado a cada momento, em cada situação, fazendo de meras atividades cotidianas verdadeiros acontecimentos jubilosos: a ligação (ou religação) autêntica, genuína, vibrante com a vida.
Dauri Batisti Padre, psicólogo e Mestre em Psicologia Institucional
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ANTE R O RA U T
LE I
ESPIRITUALIDADE
ESPIRITUALIDADE, MÍSTICA E MISSÃO: COMO CONCILIAR ORAÇÃO E VIDA. sempre angustiante pensar essa temática na vida diária e na correria que a cerca. Para nós, cristãos, não é fácil conciliar espiritualidade e vida! Em momentos diversos somos tentados a nos deixar levar pela correria, isso faz com que relaxemos na dimensão espiritual, afetando assim diretamente o nosso cotidiano. Somos chamados a pautar nossa vida tendo como alicerce a espiritualidade cristã: fé, esperança e caridade, vividos com gestos concretos e atitudes de quem fez um verdadeiro encontro com Jesus. Encontro que possibilita abstrairmos seus ensinamentos, que dão sentido à nossa vida, levando-nos ao equilíbrio necessário. Equilíbrio é a palavra que pode servir de base para uma espiritualidade onde fé e vida se encontrem e se complementem. Saber parar! Tirar tempo para o encontro com Deus e consigo! Sentir-se! Tarefa difícil, mas necessária, porque dela depende o nosso bem estar. Esse equilíbrio deve ser buscado todos os dias e deve se tornar um aprendizado na vida de todos nós, uma escola onde o Mestre nos eduque na vivência da espiritualidade, da mística e da missão como caminho que revelem o verdadeiro sentido da vida de quem valoriza e cuida, pois é precioso o nosso tempo e a nossa vida aos olhos de Deus!
É
O QUE É ?
A leitura orante da Bíblia, ou LECTIO DIVINA, é um alimento necessário para sustentar nossa vida espiritual. É uma oração que pode ser feita de foma individual ou em grupo. É a meditação da Palavra de Deus que transforma as pessoas. Siga o passo a passo e mergulhe na oração com a palavra de Deus:
1
2 LER A SAGRADA ESCRITURA Leia um texto da Bíblia vagarosamente, quantas vezes forem necessárias, procurando entender o que está escrito. Tente descobrir: o ambiente – os personagens – os diálogos – as situações – as atitudes. Olhe para cada coisa e imagine como teria acontecido. Depois procure saber qual a mensagem desse texto.
‘‘Felizes os que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática.’’ (Lc 11, 28)
ORAÇÃO Invoque o Espírito Santo abrindo o coração para que você possa acolher bem a Palavra de Deus;
CONFRONTAR A VIDA COM A PALAVRA DE DEUS
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MEDITAR
Diante da Palavra de Deus, que você percebeu no texto, procure descobrir como ela ilumina sua vida. A Palavra de Deus indica onde devemos chegar.
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A meditação da Palavra de Deus provoca a oração pessoal. É hora de dialogar com Deus. Ele apontou o caminho, você olhou para sua vida e, agora, é o momento de conversar com Ele. Pedir, agradecer, louvar ou simplesmente contemplar.
CONTEMPLAR Deixe seu coração silenciar diante de Deus. O silêncio já é oração. Deixe a Palavra de Deus penetrar seu coração. Permita que a Palavra de Deus transforme a sua vida e faça um propósito como discípulo(a) praticante da Palavra de Deus.
CONCLUIR
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Conclua com uma breve oração de discípulo(a) orante.
Pe. João Marcelo dos Santos Pároco da paróquia Santíssimo Sacramento Paraju
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SUGESTÕES
DE BIKE É MAIS DIVERTIDO
A
ndar de bicicleta pelas ruas de Vitória aos domingos e feriados é uma ótima oportunidade para aliar a diversão e o exercício físico ao prazer de apreciar as belas paisagens da cidade. Em família, o passeio fica muito mais agradável e animado, e as “novidades” que não são vistas na correria do dia a dia, quando nos deslocamos de ônibus ou de carro, vão surgindo a cada pedalada. Ao todo, Vitória possui 47 quilômetros de ciclovias e ciclofaixas, e um passeio bem agradável pode ter início no Tancredão e seguir pela orla. Logo no início, o Porto de Vitória é o que mais chama atenção com os navios de um lado e mais à frente o Penedo. A paisagem é um convite para uma primeira parada e com um pouco de paciência é possível ver alguns peixes “pulando” nas águas da baía de Vitória. Seguindo surge a Praça Getúlio Vargas e um parquinho chama a atenção dos pequenos. As árvores da praça e seus cipós são uma atração a mais de brincadeira. Para 20 | vitória
SUGESTÕES
quem já estiver com sede, no canteiro central da Avenida Marechal Mascarenhas de Moraes, em frente a praça, tem um vendedor de água de coco. Rumo à Terceira Ponte tem a Praça do Papa com toda sua amplidão. Pertinho da entrada do Projeto Tamar, outro parquinho para as crianças, que a esta altura já estão com vontade de um picolé. Depois é só seguir próximo à orla e descobrir alguns pontos legais para tirar fotos e apreciar a natureza. A ponte está logo à frente e a ciclovia passa por debaixo dela. Mais umas pedaladas e outra parada para apreciar a vista novamente. Desta vez em um dos píeres localizados atrás do Shopping Vitória, mas é necessário ir empurrando as bicicletas até à ponta. Com sorte dá para ver tartarugas marinhas passeando por ali.
Quem tiver fôlego e quiser seguir em frente com a garotada vai passar pela Curva da Jurema, Praça da Ciência, Praça Dos Namorados, Ponte de Camburi e seguir por toda a orla da Praia de Camburi. Na aveni da Dante Michelini, além da ciclovia, há espaço para os ciclistas nas pistas próximas ao calçadão, que ficam fechadas para quem quiser aproveitar o passeio até o finalzinho da praia.
Andressa Mian Jornalista
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ARQUIVO E MEMÓRIA
Um dos primeiros materiais de conscientização sobre o dízimo feitos pela Arquidiocese de Vitória (1998)
Desde 1992 a Arquidiocese de Vitória organiza a Pastoral do Dízimo e realiza a Campanha Arquidiocesana do Dízimo. “A pastoral do dízimo é um sinal profético de partilha num mundo injusto”, essa frase de Dom Luiz Mancilha Vilela, nosso Arcebispo, motiva os animadores do dízimo em nossas comunidades e paróquias e revela a importância do seu trabalho e atuação em nossa Arquidiocese.
Giovanna Valfré Coordenação do Cedoc
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DIÁLOGOS
TUDO É RELATIVO? É uma pergunta que surge diante de muitas pessoas de bem neste tempo de mudança de época ou época de mudanças. Tenho observado que se confunde, muitas vezes, uma atitude de respeito por parte das autoridades da Igreja, que não tem sido bem compreendida. Por causa disso, parece a muitos fiéis cristãos que o Código de Direito Canônico, o Direito particular da Arquidiocese ou de uma Diocese perderam o valor. Surge assim uma espécie de vale tudo na Igreja. Corremos o risco de um verdadeiro mergulho no relativismo. Parece que vale tudo. E assim
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acha-se que a consciência é que determina a regra da vida na sociedade e na Igreja. Esclareçamos: a consciência bem formada é que deve orientar nossas escolhas, comportamentos e ações. A consciência mal formada coloca-nos como donos da verdade, sendo que a verdade nos ultrapassa. E esta verdade, a Igreja tem a missão de proclamá-la. Isto é grave, muito grave. Precisamos esclarecer este engano que se vai avolumando entre nós. Explico-me: quando o Papa Francisco diz que respeita o homossexual ou outras diversida-
des afins, ele o faz muito bem, porque todo o ser humano tem direito ao respeito como ser humano e às suas opções. Respeitar o próximo é um dever de todos nós! Porém, outra coisa é se ele aprova as opções e atitudes das pessoas em questão. Respeito faz parte do diálogo como também faz parte não aprovar, não aceitar os argumentos e atitudes de meu ou nosso interlocutor. Ora, na vida litúrgica da Igreja como no seu ensinamento bíblico e moral, existem as normas e orientações que devem ser observadas por todos os fiéis clérigos e leigos. As rubricas estão sujeitas a mudanças, porém, o ensinamento moral com fundamentação bíblica e teológica exposta pelo
DIÁLOGOS
Magistério da Igreja, clérigos e leigos somos obrigados a acolher, a obedecer porque é de cunho Divino e não meramente eclesiástico. O que for meramente eclesiástico está sujeito a mudanças, não por um simples clérigo ou leigo, mas pela Santa Sé ou pelo Bispo Diocesano.
Na vida da Igreja não vale tudo. Não há lugar para o relativismo. A Igreja acolhe os filhos e filhas que estão vivendo de uma maneira irregular. Respeita-os, mas isto não significa que concorda e aprova suas escolhas. Não os exclui, porém, estes filhos e estas filhas devem ser coerentes com as escolhas que fizeram, escolhas que contradizem e ferem o ensinamento do Magistério da Igreja. Estas escolhas introduzem limites na Comunhão Sacramental Eclesial, no Mistério Divino que nos introduz no mistério de comunhão na Trindade Santa. Neste contexto não se concebe qualquer ruptura por parte da pessoa. Não se trata de exclusão por parte da Igreja, mas a Igreja chora como Mãe aflita de coração e mãos abertas para abraçar todas estas filhas e filhos no Coração do Pai Misericordioso, desejosa da conversão humilde e obediente. Uma Mãe impotente, mas que não perde a esperança e tem no coração a certeza de que o Pai é surpreendente no Seu Amor Divino Humano. Portanto, longe de nós o relativismo! Sempre conosco o respeito a todos os seres humanos, no diálogo constante sem jamais ceder à Verdade! Quem busca a Verdade tem a bênção de Deus!
Dom Luiz Mancilha Vilela, ss.cc. Arcebispo Metropolitano de Vitória
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CATEQUESE
N
este número da Revista Vitória continuamos a Editoria “Catequese” que pretende manter-se viva e significativa por muito tempo no contexto desta publicação. Muitos hão de pensar que estaremos reproduzindo o que está descrito no Catecismo da Igreja Católica. Não! Ele também é fonte de inspiração, mas não queremos nos ater simplesmente neste documento. Ele é apenas uma das fontes da catequese. Outros hão de pensar que estamos elaborando aulas para a pastoral catequética. Pode até servir para esta finalidade, mas não é nossa intenção seguir este caminho. Por estarmos muito influenciados pela ideia de escola, muitas vezes, conduzimos nossos catequizandos como alunos, semelhante a uma sala de aula. Isso tem empobrecido o significado profundo da catequese na história da Igreja. Não é curso para se alcançar determinado objetivo como a recepção de um sacramento e conquistar um diploma. O caminho que queremos seguir
O CAMINHO DA CATEQUESE se refere à continuidade do anúncio de Jesus Cristo a fim de aprofundar e amadurecer a fé dos que aderem a Ele em vista de sua inserção na comunidade cristã.
Educar na fé é a tarefa fundamental dos pastores da Igreja. Portanto, trata-se de uma educação da fé que deverá conduzir a um novo momento da vida cristã, a ação pastoral com os fiéis já iniciados na fé numa espécie de formação continuada. Portanto, a catequese tem início
com o Anúncio de Jesus Cristo e se prolonga para a vida toda. Ela não se destina apenas para crianças, adolescentes e jovens. A ação pastoral está intimamente unida à catequese. Um agente de pastoral que se acha sem necessidade de catequese é um desastre na comunidade cristã. Seu trabalho carece totalmente do ardor missionário. Esta pessoa se basta por si mesma. Educar na fé é a tarefa fundamental dos pastores da Igreja: Bispos e Padres. O Papa Francisco profere toda quarta-feira na Audiência Geral na Praça São Pedro os ciclos de catequese. O exemplo vem de cima. A educação na fé implica em aprender e em viver o Anúncio de Jesus Cristo. Portanto, ela se destina a todas as pessoas em todas as idades.
Edebrande Calalieri Doutor em Ciência da Religião
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CAMINHOS DA BÍBLIA
"TRAZEMOS ESSE TESOURO EM VASOS DE BARRO" (2COR 4,6) - PRIMEIRA PARTE O seguinte artigo, devido à sua extensão será dividido em duas partes, a primeira apresentada agora no mês de Julho e a segunda na edição de Agosto. Na sua primeira parte apresentaremos a reflexão do texto de Paulo aos Coríntios e na segunda as implicações na vivência dos cristãos, chamados ao caminho do discipulado missionário.
A
Segunda Leitura aos Coríntios no capítulo 4,6-11, traz a afirmação do apóstolo Paulo sobre a fragilidade da vida do cristão e o valor do tesouro a ele oferecido, isto é, o próprio Cristo. A imagem dos vasos de barro é peculiar e muito particular, pois, acentua e coloca em relevo alguns aspectos importantes da vida de cada cristão, chamado a ser discípulo de Cristo.
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Nós somos a argila e tu és nosso oleiro, todos nós somos obra das tuas mãos. (Is 64,7)
De fato, o grande contraste entre o vaso de barro e o tesouro nele depositado é o primeiro aspecto a ser observado, pois, revela a diferença
entre os dois, acentuando assim o valor do tesouro em relação ao vaso. Nesse sentido, o acento recai sobre a reflexão do apóstolo sobre a fraqueza humana e a força da graça de Deus, que no homem opera sempre, em favor do Reino de Deus. Segundo o apóstolo, a fragilidade humana é o vaso no qual Deus, por meio de seu desejo de salvação, depositou o tesouro que é o próprio Cristo, de modo que, o homem, animado pela graça divina, possa levar esse inestimável tesouro a todos. Desse modo, a imagem tornase clara, visto que reflete a relação entre a fragilidade humana, indicada pelos vasos de barro e a imensidão de Cristo, o Seu Evangelho, Sua presença, apresentada como o grande tesouro na vida de cada cristão. Um outro elemento importante, que pode ajudar na compreensão da imagem apresentada por Paulo, encontra-se no livro do profeta Isaías, quando ele afirma: "nós somos a argila e tu és nosso oleiro, to-
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‘‘ dos nós somos obra das tuas mãos" (Is 64,7). A oração do profeta se eleva diante do Senhor, a fim que não se esqueça de que "matéria" são feitos todos os seus filhos e filhas, ressaltando a fragilidade humana diante da imensa bondade divina. Junto a isso, o profeta também clama ao Senhor, de modo que continue trabalhando na obra de suas mãos, a fim de levar à plenitude o que em seu povo iniciara. Pois, sendo o desejo de Deus de tornar o seu povo, um sinal de salvação para todos os demais povos, isso somente seria possível, se na argila de seus corações a graça divina tralhasse continuamente. A imagem é manifestação clara do desejo
de Deus de trabalhar em seu povo, de modo que seja capaz de receber a graça divina e ser dela um portador, assim como indica também o profeta Jeremias (Jr 18,1-11). Desse modo, quando o apóstolo Paulo ressalta a diferença existente entre os vasos de barro e o tesouro neles depositado, quer indicar a força da graça de Deus que atua na vida daqueles que acolhem a Luz de Cristo. De fato, o que une os vasos de barro e os fazem capazes de trazerem em si tamanho tesouro é a potencia da graça de Deus, assim como afirma o apóstolo na Carta aos Coríntios. Esse poder extraordinário provém de Deus, e é o que garante que cada cristão, apesar de sua fragilidade, seja portador da Luz de Cristo, do esplendor de sua glória. Desse modo, os discípulos de Cristo, como vasos de barro, isto é, em sua fragilidade humana, são portadores de uma imensa graça, carregam em si mesmos o maior de todos os tesouros, ou seja, o próprio Senhor. Assim como é frágil o vaso de barro, como facilmente pode se quebrar e se perder, do mesmo modo são frágeis os cristãos, chamados a ser discípulos missionários de Cristo. Todavia, apesar de tamanha fragilidade e, por vezes inconstância, Deus, em sua imensa bondade e amor, deseja contar com tais vasos de barro, isto é, deposita no coração de cada cristão, a Luz de Cristo Ressuscitado.
Pe. Andherson Franklin Professor de Sagrada Escritura no IFTAV e Doutor em Sagrada Escritura
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LIÇÕES DE FRANCISCO
A ESCOLHA E O LEGADO DO BISPO
E
m uma Celebração Eucarística na capela da Casa Santa Marta em maio deste ano, o papa Francisco tomando como referência o texto de Atos dos Apóstolos (At 20) em que Paulo se despede da comunidade de Éfeso e se dirige para Jerusalém “sem saber o que aí me acontecerá”, faz uma reflexão séria a respeito do ministério episcopal. Segundo o Papa, “é uma passagem forte, que chega ao coração, é também um trecho que nos mostra o caminho de cada bispo no momento da despedida”. Na história da Igreja a escolha dos sucessores dos Apóstolos seguia critérios que diferem muito do que estamos acostumados a ver no mundo moderno. Com o advento de muitas Igrejas Pentecostais que também nomeiam seus ministros de bispos com comunidades que tem mais aparência de empresas que comunidades eclesiais, corre-se o risco de afastamento dos critérios adotados nos inícios da Igreja Cristã. Para ser bispo, o critério para a escolha é que fosse pessoa ensinada pelos Apóstolos, que teve contato direto com algum Apóstolo. Isso garantia maior grau de autenticidade a sua pregação. É preciso ter sido ensinado por alguém que recebeu a doutrina dos Apóstolos e manteve-se fiel a esse ensinamento. Quando morreram os apóstolos, este mesmo critério deveria continuar na linha direta do ensino da doutrina. Outro critério era que os escolhidos fossem “mansos, sinceros e provados”. Não há lugar para ministros raivosos, intolerantes, violentos. Esta era a preocupação fundamental da Igreja dos primeiros tempos e, por isso, era preciso muito cuidado na escolha dos sucessores. Trata-se de garantir e
manter viva a doutrina na luta contra todo tipo de distorção, preservar a linha apostólica, a memória viva representada por aqueles que conheceram os Apóstolos e foram postos à frente das Igrejas por eles. A sucessão significa sempre a entrega e a recepção oficial da doutrina dos Apóstolos. Não se trata de uma carreira. Esta é a grande tentação que pode acometer os ministros eclesiásticos. A trilha seguida é indicada pelo Espírito e não pelo mundo. Um bispo não deve ser escolhido, por exemplo, em função de sua capacidade administrativa. Ao despedir-se de uma comunidade ou diocese só tem como herança a deixar a graça de Deus, a coragem apostólica, a revelação de Cristo e a salvação. E como Paulo, ao despedir-se o bispo não leva nada para si, nem prata e nem ouro ou vestes. Conclui o Papa: a experiência do bispo é aquela de alguém que sabe discernir o Espírito, que sabe identificar quando é Deus que fala e que sabe defender-se quando fala o espírito do mundo. Não sabe o caminho que virá pela frente. O bispo vai avante sempre, mas segundo o Espírito Santo e não segundo os critérios do mundo. “A missão do bispo é cuidar do rebanho, não fazer carreira eclesiástica”.
Edebrande Calalieri Doutor em Ciência da Religião
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Foto: Exinho Fotografias
PENSAR
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ENTREVISTA
BOMBEIRA, ATLETA, PENHA, MARIA, PEPENHA.
Quando você foi para os bombeiros e deixou a natação, a manchete dos jornais era: Pepenha troca maiô pela farda. Podemos dizer agora que você quer trocar a farda pelo jaleco? Pepenha - Eu acho que a vida é uma constante transformação e eu vou trocando e dentro disso me transformando, mas não deixo meus princípios.
Qual a sua expectativa com a medicina? Pepenha - Outra característica que eu tenho é de me dedicar muito ao que eu faço, me entregar, me envolver. Quando eu era nadadora sempre me envolvi muito e tentei dar o meu máximo. No bombeiro também e, na medicina é a mesma coisa eu me envolvo muito e me dedico muito. Não que eu vou ser a melhor médica do mundo, mas eu vou dar o meu melhor.
O que não mudou das crenças, valores e princípios? Pepenha - Eu me identifiquei muito com o bombeiro porque eu sempre gostei de ajudar as pessoas, então juntei a capacidade física que consegui na natação para desenvolver o bombeiro. O bombeiro me despertou ainda mais para querer ser médica e poder ajudar mais as pessoas. Mas os princípios, as crenças, os valores, esses são os mesmos.
Quando nasceu a vontade de ser médica? Pepenha - Quando eu tinha 4 anos as pessoas me perguntavam o que queria ser e eu falava que queria ser médica legista, mas virei bombeiro ou contrário das crianças que querem ser bombeiro e viram médicos, então eu entrei na faculdade querendo isso, mas o leque é muito grande e você vai se apaixonando por tudo. Gosta de trocas, de mudanças? A medicina é muito visada, salário no atendimento Pepenha - Não é que eu gosto, eu me adapto bem a público é baixo, as pessoas reclamam de mau atenditransformações. Eu sou uma pessoa maleável, adaptável mento por parte de alguns médicos, há falta de espeàs situações, eu sei que a vida precisa de transformações. cialistas em algumas áreas. vitória | 33
ENTREVISTA
A constatação de uma carência poderia te ajudá-la a decidir? Pepenha - Infelizmente não. Eu queria que fosse assim para ajudar, por exemplo a pediatria está precisando muito de profissionais, mas eu quero trabalhar com alguma coisa que eu me identifique. Nas atividades que você desempenhou, desempenha e na medicina tem muita frustração também: perder um campeonato, não conseguir resgatar alguém que está em perigo, não conseguir salvar uma vida. Como você lida com a frustração? Pepenha - Aí a natação já me ajudou desde o início porque eu fui uma criança bem cuidadinha em casa e não tive tantas frustrações. Quando eu saí de casa começaram as frustações de ver o mundo real. No início parecia que a natação era perder ou ganhar, eu pensava, vou treinar mais e vou ganhar mais. Parecia que só dependia de mim. Mas quando eu fui para o bombeiro as frustrações aumentaram, a situação piorou e é bom que vai aumentando devagarinho para a gente ir amadurecendo e entendendo. Nos bombeiro além das tragédias que a gente entra sabendo que vai ver, mas que faz sofrer porque às vezes é criança, é gestante, além disso, o meu convívio mudou porque não eram pessoas da minha família, não eram pessoas 34 | vitória
da natação que viviam mais ou menos o mesmo perfil que eu, os meus objetivos, as mesmas intenções, eram pessoas completamente diferentes, com idades completamente diferentes, de realidades completamente diferentes e eu tive que conviver com pessoas de todos os tipos. Passei a ver gente amiga que trabalhava no mesmo batalhão que eu, pulando de ponte, pessoas próximas, pais de amigos que morreram, e tive que conviver com frustrações e com a realidade de outras pessoas, pessoas normais (não aquelas que a gente vê na TV), pessoas como a gente que estão ali trabalhando e com problemas psicológicos, nessa hora eu recorri à natação. Eu procuro fazer atividade física que é o meu descanso, encontro pessoas que estudam, tra-
balham, igual a todo o mundo, mas tiram aquele tempo para se divertir, desestressar. O exercício físico é um descanso? Pepenha - A natação para mim é como se fosse uma meditação, eu entro para nadar ou saio para dar uma corridinha, como se estivesse meditando, é mais para a minha cabeça que para atividade, claro que acaba sendo bom para o cardiorrespiratório, mas é mais para a minha cabeça, senão eu não aguento. Tem quase um ano que eu fui transferida para trabalhar no CEODES, Secretaria de Segurança Pública. Então eu fico de 7 da manhã às 7 da noite vendo doença na escola, no hospital. Saio do hospital e vou para o Ceodes e vejo tragédia das 7 da noite às 7 da manhã e assim eu fico, trabalho dois dias e folgo 4 nessa escala de doença / tragédia. Da natação você trouxe alguma coisa que te ajudou nos bombeiros. O que vai levar dos bombeiros para a medicina? Pepenha - Eu acho que amadureci muito com as coisas que eu vivi. Aprendi a me dedicar porque as minhas frustrações estão relacionadas à vida de outras pessoas e, se falhar, pelo menos eu dei o meu máximo. Eu também sou muito religiosa, sei que tudo tem um propósito, sempre coloco tudo nas mãos
ENTREVISTA
de Deus, a minha vida, os meus planos. Faço o meu melhor e confio. Então para descansar eu nado que é a minha meditação ativa e vivo a minha fé na minha religião.
Sua mãe me contou sobre sua fé. Disse que de criança você puxava o terço na catedral, como é hoje? Pepenha - Minha mãe é muito religiosa e eu acho muito importante desenvolver o que eu chamo de vidas: cuidar da saúde, fazer um lazer, ter uma espiritualidade, isso ajuda a desenvolver. No meu caso sou católica, identifico-me muito com a religião, gosto do ritual, de chegar num lugar e procurar a Igreja, encontrar o padre, gosto dos ritos da Igreja, do silêncio, das leituras, a gente interpreta conforme o momento, quando eu estava na natação interpretava de um jeito, no meu relacionamento de outro
jeito. Tentar fazer o certo dentro da Igreja é mais fácil, mas fora é mais difícil. Então, eu estou lá nos bombeiros, lá na faculdade, mas eu volto para a Igreja para ver se estou indo bem, se é por aí. Se eu escuto as leituras e vejo que estou fazendo diferente, então eu sei que está errado, aí é um momento de reflexão. Você carrega tudo de bom que vai aprendendo? Pepenha - Não parei para pensar nisso, mas é um aprendizado, a gente vai amadurecendo e vai percebendo a maneira melhor, a mais fácil, mas são aprendizados. Eu não gosto de falar que é bom ou ruim. O que eu carrego não sei se é bom, mas são aprendizados e eu vejo se é o melhor para mim e para as pessoas que estão ao meu redor, é melhor para conviver. Para mim conviver é um desafio. Como nasceu o apelido Pepenha? Pepenha - Pepenha é o nome artístico. Quem criou foi a minha professora de piano, ela me colocou esse apelidinho e quando eu fui para a natação já era Pepenha. Confortável para você? Pepenha - Sim, é. Do jeito que Maria é, do jeito que Maria da Penha é. Eu gosto de Maria acho forte, Maria da Penha, Pepenha, tanto faz.
A gente procurou você porque julho é o mês do bombeiro. Qual a mensagem para a sua categoria? Pepenha - Hoje eu estou um pouco distante quase nem me sinto muito bombeiro atendendo o telefone. Eu fiquei 7 anos na prontidão, fui motorista do caminhão durante 3 anos e eu vivia muito mais. Atender o telefone é importante, mas às vezes acho que eu contribuía muito mais na prontidão. Eu faço o meu melhor e é esse o recado que eu deixo para que eles não percam esse amor ao próximo, essa vontade de ajudar. Ainda que a gente tenha dificuldades administrativas e diferenças salariais, a gente sofre com diferentes aumentos de postos dentro da organização, ainda que a gente tenha um regime fechado que é um militarismo, já entramos sabendo que éramos subordinados à secretaria de segurança pública que por sua vez é subordinada ao governo do estado. Já sabiamos que estávamos sujeitos a aumentos diferenciados ou a não ter aumento, mas isso não pode deixar que a vontade de ajudar o próximo se perca, nosso objetivo principal, nosso juramento em ajudar o próximo até com o risco da própria vida, não pode se perder.
Maria da Luz Fernandes Jornalista
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MUNDO LITÚRGICO
LITURGIA PARA A VIDA DO MUNDO
A
liturgia, em sua originalidade, como ressonância do Mistério Pascal de Cristo, conjuga e atesta a inseparável relação de fé e vida. A Páscoa nova é o perene memorial da vida plena e abundante para todos, na perspectiva do Reino de Deus, comunicado e consumado segundo o Evangelho. A vivência litúrgica das comunidades cristãs direciona e legitima a missão cotidiana de transformar o mundo terreno e transitório em experiência antecipada da Jerusalém celeste, a cidade dos eleitos: “Eis a tenda de Deus com os homens. Ele habitará com eles; eles serão o seu povo, e ele, Deus-com-eles, será o seu Deus. Ele enxugará toda lágrima dos seus olhos, pois nunca mais haverá morte, nem luto, nem clamor, e nem dor haverá mais. Sim! As coisas antigas se foram!” (Ap 21,3-4). Celebrar a liturgia, a qual é centrada na Palavra de Deus, é integrar-se conscientemente na história da salvação e experimentar os efeitos da graça do Ressuscitado, com expansão através do exercício cotidiano de além-fronteiras, no sentido de ultrapassar as resistências e objeções das determinações humanas diante do plano salvífico. Os conteúdos celebrativos, incorporados de forma memorial, interativa e progressiva, possibilitam a experiência consciente e frutuosa da plenificação pessoal e comunitária, no ensejo de dinamizá-la, em
transposição, para os diversificados setores da vida, na perspectiva da comunhão cósmica. Não se trata de os cristãos serem dominadores da existência e do plano temporal, mas de serem promotores da vida plena para todos, no exercício da liberdade e solidariedade fraternas. A vida cristã é o tom do desejo e da esperança de um mundo reconciliado: da criatura reconciliada com Deus, consigo mesma, com o semelhante e com toda a criação. As circunstâncias e os contextos históricos formam o terreno propício e ávido para o desenvolvimento e expansão do Reino de Deus, o qual é comparado, pelo Evangelho, ao grão de mostarda e seus ciclos de desenvolvimento: “Embora seja a menor de todas as sementes, quando cresce é a maior das hortaliças e torna-se árvore, a tal ponto que as aves do céu se abrigam nos seus ramos” (Mt 13,32). Cada cristão, enquanto membro do corpo de Cristo e portador do mistério do Reino, torna-se o lugar da expansão, da acolhida, do aconchego e da comunhão. A liturgia revela a continuidade da história da salvação enquanto ação de Deus desde a primeira criação até o tempo presente, mas proclama, pela ressurreição de Cristo, a ruptura com os projetos humanos que não correspondem à obra divina da caridade e da reconciliação, enquanto promoção da vida para todos. A beleza do mistério celebrado terá mais e mais visibilidade, com o devido reconhecimento e adoração, à medida em que a transfiguração humana for valorizada e promovida a partir dos gestos generosos e solidários para com o semelhante, a começar dos empobrecidos e marginalizados.
Fr. José Moacyr Cadenassi OFMCap
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VIVER BEM
E AGORA? O QUE VESTIR?
O
samba de Noel Rosa já fazia a pergunta que até hoje muita gente faz: Com que roupa eu vou? Nossas vestimentas podem representar nossa cultura, nossa identidade e costumes. Em muitas ocasiões ficamos em dúvida sobre qual a roupa mais adequada para aquele momento, pois existem certas convenções como casamen-
tos, cerimônias religiosas, profissões ou jantares especiais que praticamente exigem certos tipos de trajes, independente se nos deixam confortáveis ou não. Eu por exemplo quando vou a um casamento e visto um terno não me sinto confortável. É uma sensação de que estou fantasiado. Tudo é meio estranho, o sapato, a gravata a calça social... tudo muito diferen-
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VIVER BEM
te do jeans e tênis que uso diariamente. Mas mesmo quando não nos defrontamos com estas situações que nos exigem roupas específicas existe certa referência do que é nos vestirmos bem. Esta referência é ditada pela moda. Moda é a tendência de consumo da atualidade. A moda é composta de diversos estilos. Ela acompanha o vestuário e o tempo, num contexto político, social, sociológico. Existem pessoas que preferem não seguir o que chamam de ditadura da moda que muitas vezes, por ser efêmera, torna nossas roupas descartáveis e nos força a um consumo exagerado para acompanhá-la continuamente. Estas pessoas querem fazer prevalecer a própria identidade e expressá-la também no modo de se vestirem. A isto chamamos de estilo. Estilo é algo pessoal, é uma marca registrada de cada pessoa, é a forma como você se apresenta para o mundo. Ter estilo é respeitar sua identidade. A pessoa que tem um estilo próprio pode até se vestir com roupas da moda, mas desde que estejam em harmonia com sua personalidade. Afinal, o que é importante? O correto é você vestir o que lhe faz sentir-se bem. Afinal, a moda nunca esteve tão livre e democrática. Não há mais regras rígidas de vestimentas. Ser original e ter estilo próprio, individualizado é o que está sendo mais valorizado. Seja dentro ou fora de moda, o que importa é a sua identidade e não o que querem impor para você, mas se você julga importante seguir modas e tendências, então volto ao começo do parágrafo, o importante é você se sentir bem com o que está vestindo. Então, para muitos a sua roupa fala sobre você, mas na verdade ela está aí para lhe deixar confortável quan-
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O correto é você vestir o que lhe faz sentir-se bem. Afinal, a moda nunca esteve tão livre e democrática. Não há mais regras rígidas de vestimentas. do você assim o quiser, mais apresentável quando lhe for interessante e lhe ser representativa quando for necessário. Portanto quando abrir seu armário saiba que o que está ali são apenas roupas e você é quem melhor se representa. Portanto vista o seu melhor sorriso, o seu mais belo olhar e desfile com a sua personalidade.
Vander Silva Professor e jornalista
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ASPAS
A
entrevista do médico Drauzio Varella concedida à BBC Brasil em Londres, em maio último, mostra-se significativa ao demonstrar a importância do Sistema Único de Saúde (SUS) como uma verdadeira conquista da sociedade brasileira e uma referência mundial. Há que se considerar que a sua assertiva sobre se as pessoas ricas deveriam se utilizar do SUS é breve dentro de um contexto mais amplo que ele pontua, e carece de uma discussão mais aprofundada. Até porque, no meio acadêmico, há quem faça essa defesa e há quem a questione, o que propõe um necessário debate. A questão se os ricos devem ou não se utilizar do SUS nos remete a algumas questões cruciais. A saúde brasileira possui um sistema público e dispõe, ainda, de uma ampla rede privada operada por planos de saúde, diferentemente de países mais desenvolvidos. A extrema desigualdade social no país possibilita que pequena parte da população opte pelo sistema privado, mantendo a condição de ser contemplada também pelo serviço público. Ocorre que os planos privados não oferecem atendimento pleno, possuem coberturas parciais, criam empecilhos burocráticos e operacionais à sua clientela que frequentemente é empurrada para o SUS, notadamente por meio da judicialização que obriga o Estado a bancar os serviços, em geral mais caros, em que o setor privado se omite. O SUS, entretanto, é universal, de acordo com a Constituição e no meu entender deve continuar a ser. Não há como delimitar, por exemplo, que o combate a vetores só seja feito em uma parte da cidade e não em outra ocupada por ricos. Como também não é possível que em restaurantes frequentados por camadas D e C haja a atuação da vigilância sanitária e não aconteça em restaurantes
“OS RICOS NÃO DEVERIAM USAR O SUS” Dr. Drauzio Varella
das classes A e B por exemplo. Ou que a ANVISA (Agencia nacional de Vigilância sanitária) só atue na fiscalização de medicamentos vendidos nas farmácias populares. Ou que em caso de acidente em uma rodovia, o SAMU (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) só socorra os pobres. Por que o SUS é um sistema integrado. Quanto aos atendimentos médicos hospitalares e os medicamentos de alto custo, que acredito tenha sido a tônica do referido médico, há um dispositivo legal para que aqueles que tenham cobertura com planos de saúde privado, que estes devolvam o dinheiro como ressarcimento ao SUS. No entanto, a aplicação da lei é muito falha e a sua fiscalização carece de melhor cumprimento. Ou seja, há que se compreender que o SUS é um patrimônio de TODOS. E estas são questões que a sociedade brasileira precisa compreender e propor um debate mais aprofundado, de modo que tenhamos um sistema de saúde que atenda integralmente ao país, sem as distorções que se evidenciam e que comprometem essa importante conquista da saúde no Brasil.
Ethel Maciel Epidemiologista e pesquisadora de Pós Graduação em Saúde Coletivada da Ufes
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ECONOMIA POLÍTICA
EQUÍVOCO CENTRAL
A
forma e o conteúdo como a paralisação dos caminhoneiros, em maio passado, foram noticiadas e analisadas pela mídia de mercado, deixou muito a desejar. Muitas vezes porque buscou camuflar a opção preferencial pelos desígnios da financeirização mundializada. Outras porque construiu condições para que passasse desapercebido que no Brasil, exploração de recursos naturais deixou de ser fonte de financiamento do bem comum em saúde e educação e gastos nesses serviços fundamentais e passaram a ser desviados para financiar a ‘solução’ encontrada para o fim da greve.
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Lamentável que o governo a partir do golpe de 2016 tenha adotado uma postura de descaso para com ações estratégicas por parte das estatais, com destaque para a Petrobras. Pouca atenção foi dada ao fato do equívoco de política econômica central para que fossem criadas as condições econômicas e políticas para o movimento grevista. Em bem argumentado artigo publicado no jornal Valor de 11 de junho de 2018, o professor David Kupfer da UFRJ, aponta a necessidade de se discutir o erro que realmente importa; qual seja as políticas de produção e preços praticadas pela Petrobras, especialmente a partir de julho do ano passado. Trocados em miúdos: acompanhamento automático dos preços
internos dos derivados com os internacionais e significativa redução do refino doméstico em favor da importação de derivados do petróleo. Segundo Kupfer: “Essas políticas armaram uma bomba relógio, pronta para explodir se e quando os preços no mercado internacional de petróleo e derivados revertessem a trajetória benigna para os importadores que vinha predominando até então. E foi exatamente isso que passou a ocorrer, e com grande intensidade, a partir de meados de 2017. A pá de cal veio com a rápida valorização do dólar de março de 2018 para cá. Tudo isso, sem que qualquer revisão da política fosse introduzida pela empresa ou pelo governo, ou ainda pelas instâncias reguladoras do setor”. Esse engessamento de política econômica deriva do exagerado apego que seus condutores têm à soberania do interesse do mercado financeiro. Mercado financeiro que deseja afastar qualquer possibilidade de autonomia de estatais como a Petrobras de agir estrategicamente em benefício da maioria da população. Lamentável que o governo a partir do golpe de 2016 tenha adotado uma postura de descaso para com ações estratégicas por parte das estatais, com destaque para a Petrobras. Impressiona a quase inexistente discussão na mídia e na academia de mercado sobre o descaso do governo e do legislativo ilegítimos de desenhar e operacionalizar políticas econômicas que partam do potencial da Petrobras de contribuir para com o desenvolvimento do País. Descaso que tanto custa ao crescimento econômico e à coesão social no Brasil.
Arlindo Villaschi Professor de Economia arlindo@villaschi.pro.br
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PAUTA LIVRE
O DESTINO DE PILHAS E BATERIAS DESCARTADAS NO MEIO AMBIENTE É O CORPO HUMANO A cada dia que passa aumenta o consumo de pilhas e baterias (celular, computador, som, controle remoto, brinquedos). De alguma forma todos ouvimos que é necessário descartá-las corretamente para evitar prejuízos à saúde e ao meio ambiente. Mas parece que essa informação não chega ou não altera o comportamento humano. O que precisamos, então entender para mudar de atitude? As pilhas e baterias enquanto estão em funcionamento não oferecem qualquer perigo. O problema está no conteúdo delas e, por isso, quando estouram, são amassadas ou sofrem alterações nas cápsulas que as envolvem provocam o vazamento do líquido que é de metais pesados e tóxicos prejudicais ao ambiente.
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O descarte desses objetos deveria ser feito em aterro sanitário, o único preparado para evitar a contaminação do solo. Infelizmente na maioria dos casos as pilhas e baterias são descartadas junto com o lixo comum ou em aterro e acabam trazendo consequências indesejadas sobre as quais não existem dados estatísticos. O líquido tóxico das baterias e pilhas não é biodegradável e ao ser jogado em locais não preparados para recebê-lo, penetra no solo e atinge o lençol freático contaminando a água. Esses metais voltam à superfície pelas nascentes indo para os rios e pela evaporação indo para as nuvens, retornando pela chuva e consequentemente para o corpo humano pela água contaminada que bebemos. Quando ingerimos metais pesados eles não são eliminados pelo organismo e ao longo do tempo podem provocar doenças. Será que as estações de tratamento de água eliminam esses metais? Não sabemos ao certo, mas podemos contribuir para que eles não cheguem lá. Se evitarmos descartar esses metais no solo evitamos também a contaminação da água. (Texto construído com informações de Marco Bravo, ambientalista)
ENTÃO O QUE FAZER? 1. Separe pilhas e baterias em desuso e acumule em lugar segura para que não sofram alterações; 2. Procure uma empresa que faça coleta desses materiais (agência de banco, supermercado, lojas de eletrônicos, etc.); 3. Caso não encontre nas proximidades de sua residência ou emprego, procure a Secretaria de Meio Ambiente do Estado ou da Prefeitura e exija que postos de coleta sejam colocados nessas regiões. Perguntamos à Seama/Iema, Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Recursos Hídricos: 1. Existe lei estadual que regulamente a coleta e reciclagem de pilhas e baterias? - A legislação federal da Política Nacional de Resíduos Sólidos é que regulamenta, atualmente, a logística reversa. 2. Existem postos de coleta no Estado do Espírito Samnto? - Os próprios empreendimentos que fazem a venda dos produtos devem ser considerados pontos de coleta.
PERGUNTE A QUEM SABE
POR QUE FAZER O SINAL DA CRUZ ANTES DA PROCLAMAÇÃO DO EVANGELHO? O costume de fazer o Sinal da Cruz antes da proclamação do Evangelho não é mero ritualismo. Pelo contrário, é um gesto carregado de profundo significado sobre a fé: evoca a participação e o envolvimento, por inteiro, do fiel cristão que celebra o Mistério Pascal de Cristo na liturgia. A Palavra de Deus deve formar o homem interior e discernir suas ações, sua conduta, sua vida e seus projetos. A Palavra anunciada com os lábios deve penetrar o pensamento. Por isso, faz-se o Sinal da Cruz na fronte e na boca. Assim como todo o nosso corpo, a boca deve ser instrumento de anúncio da Boa Notícia do Reino. O Sinal da Cruz sobre o coração – sede simbólica dos sentimentos, dos desejos mais nobres como o amor, a ternura, a compaixão e a misericórdia – predispõe o fiel a acolher, no seu íntimo, o próprio Jesus que anuncia: “Eis que estou à porta e bato: se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearemos, eu com ele e ele comigo” (Ap 3, 20). A Palavra de Deus sonda o coração humano e tem o poder de purificá-lo dos maus sentimentos; fazendo crescer e desabrochar o homem redimido por Cristo pelo poder da Cruz Salvadora. Pe Jorge Campos Ramos Reitor do Seminário Nossa Senhora da Penha e vigário geral.
QUAL A FORMA CORRETA DE RECEBER A COMUNHÃO, NA BOCA OU NA MÃO? A orientação da Igreja é de que quem decide é o fiel cristão. Se o fiel for receber na boca deve abri-la e estender a língua para facilitar a entrega do ministro. Se for receber nas mãos, faça delas uma mesa colocando uma sobre a outra mantendo-as abertas e comungue na frente do ministro. A Eucaristia é um sacramento, isto é, um sinal sensível que significa e realiza o encontro de Deus com o fiel cristão e que tem como consequência que o fiel também seja eucarístico. Dom Luiz Mancilha Vilela Arcebispo Metropolitano de Vitória.
ONDE IR QUANDO PRECISAMOS DE UM SERVIÇO DE SAÚDE? A Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) esclarece que a porta de entrada para qualquer serviço público de saúde é a Unidade Básica de Saúde. Lá, o paciente é atendido, avaliado e, se necessário, encaminhado para especialista. Nos casos com indicação de consulta e/ou exames de especialidades não ofertadas pelo município, os pacientes são encaminhados para atendimento na rede estadual via Sistema de Regulação. Os agendamentos seguem critérios médicos e são realizados pela Central de Marcação de Consultas e Exames. Nos casos de urgência e emergência, ou seja, com risco de morte, como por exemplo, infarto, AVC, queimaduras graves, afogamentos, entre outros, o paciente deve acionar o SAMU pelo telefone 192 ou ir até o pronto-socorro. Assessoria de Comunicação da Sesa/ES
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ACONTECE
ENCONTRO REÚNE SEMINARISTAS, DIÁCONOS E NOVOS PADRES Seminaristas do 4º ano de Teologia, diáconos transitórios e presbíteros com até 1 ano de ordenação participam neste mês de julho do 2º Encontro para Seminaristas, realizado pela Comissão de Liturgia do Regional Leste 2 (Minas Gerais e Espírito Santo) da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. O encontro acontece no Centro de Treinamento Dom João Batista e terá a assessoria do cura da Catedral da Sé de São Paulo, Pe. Luiz Eduardo Baronto. O tema para reflexão é “A homilia e sua função mistagógica na Liturgia”.
ROMARIA ARQUIDIOCESANA Caravanas de fiéis de diversas paróquias da Arquidiocese de Vitória seguem para Aparecida do Norte e participam da Romaria Arquidiocesana entre os dias 27, 28 e 29 de julho. No dia 28, o Arcebispo Dom Luiz Mancilha Vilela preside, às 18 horas, uma missa na Basílica Nossa Senhora Aparecida. A Romaria está dentro das comemorações do Jubileu de 60 anos da Arquidiocese.
ENCONTRO NACIONAL DE EDITORES DE FOLHETOS LITÚRGICOS Editores de folhetos e subsídios litúrgicos de todo o Brasil estarão reunidos em Vitória entre os dias 10 e 12 de julho para um encontro nacional. A missão é pensar na promoção e realização do próximo Sínodo dos Bispos, que tem como tema "Os jovens, a fé e o discernimento vocacional" O grupo também vai refletir sobre temas relacionados ao Ano Nacional do Laicato, a Iniciação à Vida Cristã e o Projeto das Celebrações Dominicais da Palavra de Deus. O evento será realizado no Centro de Formação Martina Toloni, em Vila Velha.
ENCONTRÃO DE LITURGIA E MÚSICA A Comissão de Liturgia Arquidiocesana promove no dia 21 de julho o Encontrão de liturgia e música com o tema “Cantando o Tempo Pascal com destaque para o Tríduo Pascal”. A assessoria é do mestre em Teologia e membro da Rede Celebra de animação litúrgica, Eurivaldo Silva Ferreira. O evento será realizado no Auditório da Faculdade Novo Milênio, Praia de Itaparica, em Vila Velha, e as inscrições devem ser encaminhadas para o e-mail mitra.folhetocaminhada@aves.org.br até dia 10 de julho.