Ano XIII | Nº 161 | Janeiro de 2019
REVISTA DA ARQUIDIOCESE DE VITÓRIA – ES
Deus escolhe, a Igreja organiza, o Reino acontece! Posse de Dom Dario Campos, ofm na Arquidiocese de Vitória
EDITORIAL
RITOS E SINAIS DA POSSE DO ARCEBISPO A Igreja Católica é rica em sinais que, envolvidos pela simbologia dos ritos, se tornam a expressão da presença de Deus que caminha com seu povo. A Arquidiocese de Vitória acolhe o novo Arcebispo que toma posse em cerimônia carregada de sinais e também protocolos: apresentação e leitura da Bula que nomeia o Arcebispo, entrega do Báculo, acolhimento dos padres, vestes próprias e, muitas vezes, vemos e não entendemos. Nesta edição tudo sobre os significados dos sinais de Deus na posse e na missão do Arcebispo. Boa leitura!
Maria da Luz Fernandes Editora
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Publicação da Arquidiocese de Vitória / ES • ISSN 2317-4102
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O sacramento da ordem e seus graus
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BISPOS E ARCEBISPOS DA ARQUIDIOCESE DE VITÓRIA
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LITURGIA EM SINAL PASTOREIO
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ARCEBISPO: MINISTRO DA UNIDADE
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O LUGAR DO BISPO EMÉRITO
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Flashes do cotidiano
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Pensar
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Aconteceu
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A unidade: um dom para a Igreja
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Os múnus de santificar, ensinar e governar o povo de Deus
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O sentido da autoridade episcopal
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POSSE O discurso de posse de Dom Dario Campos, ofm
NOMEAÇÃO A carta de nomeação de Dom Dario
INSÍGNIAS O anel, a cruz peitoral, a mitra e o báculo
EPÍSKOPOS O exercício da autoridade episcopal
VESTES LITÚRGICAS Os paramentos de um bispo
Arcebispo Metropolitano: Dom Dario Campos • Arcebispo Emérito: Dom Luiz Mancilha Vilela • Editora: Maria da Luz Fernandes / 3098–ES • Repórter: Andressa Mian / 0987–ES • Conselho Editorial: Alessandro Gomes, Edebrande Cavalieri, Vander Silva, Milena Cabral • Colaboradores: Pe. Andherson Franklin, Arlindo Vilaschi, Dauri Batisti, Giovanna Valfré, Fr. José Moacyr Cadenassi • Revisão de Texto: Yolanda Therezinha Bruzamolin • Publicidade e Propaganda: vlorenzetto@redercres.com.br – (27) 3198-0850 • Fale com a Revista Vitória: mitra.noticias@aves.org.br • Diagramação e Arte de Capa: Paulo Arrivabene • Foto da capa: André Fachetti • Impressão: Gráfica e Editora GSA – (27) 3232-1266
HOMILIA DA POSSE DE DOM DARIO EM VITÓRIA Caros irmãos e irmãs! Paz e Bem!
G
ostaria de saudar, com grande alegria, a Dom Luiz, que é tão amado por essa arquidiocese, a quem somos imensamente gratos pelos 15 anos de sua vida, dedicados a essa parcela do povo de Deus. Muito obrigado, Dom Luiz! Deus o abençoe! Sua missão foi cumprida e concluída com êxito! Saúdo também os demais bispos que vieram celebrar conosco. Dirijo a minha palavra de saudação aos padres que vieram de Leopoldina, aos meus irmãos da Diocese de Cachoeiro de Itapemirim, a quem agradeço de todo o coração por tudo o que vivemos, enquanto trilhamos juntos os caminhos do Senhor em nossa sempre amada diocese. Aos demais padres que estão aqui de outras dioceses, meu muito obrigado pela presença.
Particularmente, gostaria de saudar aos padres da Arquidiocese de Vitória, os diocesanos, bem como os religiosos, confirmando, diante do Senhor, o que já disse em carta enviada a todos, sobre o meu sincero compromisso de caminharmos juntos como irmãos, na condução do rebanho a mim confiado, o povo da Arquidiocese de Vitória.
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Saúdo também a todos os diáconos, seminaristas e vocacionados, bem como todos os religiosos e religiosas presentes nesta celebração. Acolho com grande alegria a todos vocês, leigos e leigas aqui presentes, aqueles que vieram de fora e os da nossa Arquidiocese, chamados a ser Sal da Terra e Luz do Mundo. Na vivência da experiência tão bonita que esta Igreja particular possui com o protagonismo de vocês, queridos leigos e leigas, à frente das Comunidades Eclesiais de Base, Pastorais Sociais, Equipes de Serviços e Movimentos Eclesiais.
Dirijo uma palavra de saudação a todas as autoridades políticas, civis e militares que hoje celebram conosco esse momento importante de nossa caminhada eclesial. Pois, o diálogo permanente entre a Igreja, o poder público e a sociedade civil organizada é fundamental para o bem do povo, como nos recorda a Campanha da Fraternidade deste ano sobre Fraternidade e Políticas Públicas.
Por fim, aos que nos acompanham pelos meios de comunicação, dirijo a minha palavra de saudação e as minhas orações, especialmente aos que nos ouvem pela Rede Católica de Rádios. É com simplicidade e serena alegria que hoje, seguindo o pedido do Papa Francisco, assumo uma nova missão como Arcebispo da Arquidiocese de Vitória. Como filho menor que sou,
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consciente de minhas fraquezas e limites, coloco-me diante da Imagem de Nossa Senhora da Vitória, consagrando a Ela o início desta nova caminhada, pedindo que ela me ajude a caminhar, como ensinou ao seu filho Jesus, segurando-O pelas mãos, desde quando Ele deu os primeiros passos, até à sua entrega derradeira da cruz.
No Lema de meu Ministério Episcopal: “Em Tuas Mãos”, eu encontrei o sentido mais profundo para dizer o meu sim ao pedido do Papa Francisco e assumir a missão de governar, ou melhor dizendo, na nossa linguagem eclesial, pastorear a Arquidiocese. Hoje, mais uma vez, eu dirijo ao Senhor da Messe e ao Grande Pastor do Rebanho o meu olhar, o meu coração e todas as minhas forças, a fim de que Ele confirme, em nosso meio, a obra de Suas Mãos. Com humildade, eu reconheço o tamanho da missão e os seus grandes desafios que precisam ser enfrentados, e sei que
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não posso enfrentá-los sozinho, por isso, conto com vocês e peço as orações de todos vocês por mim.
Na Liturgia de hoje, ouvimos que o Senhor nos convoca para produzirmos frutos de um amor profundo, verdadeiro e concreto, dirigido a Ele, que nos chamou à vida, e aos irmãos e irmãs, principalmente, aos mais pobres entre nós. Sendo assim, gostaria de partilhar três pontos que podem nos iluminar nessa celebração. O Primeiro diz respeito ao Amor de Cristo que se doa na cruz, espaço de formação de verdadeiros discípulos missionários. O segundo se encontra na força vitoriosa do amor fraterno. E o terceiro, por sua vez, está no chamado do Senhor a produzirmos frutos capazes de transformarem o mundo. O primeiro ponto se encontra na Leitura de São João, pois o autor da Carta afirma que por meio da morte de Cristo na cruz, todos fomos salvos. Na cruz está refletido o infini-
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to amor de Cristo, manifestado por Sua entrega gratuita e total, capaz de iluminar toda a humanidade. Tonando-se a fonte que sustenta a vida e a missão de todos os cristãos, fortalecendo também a vida e a missão da Comunidade Eclesial de Base, na vivência dos valores do Evangelho. Tal vigor que nasce da cruz de Cristo é capaz de convidar e dirigir os passos dos homens e mulheres, levando-os a uma vida de plena comunhão com Deus e com os irmãos e irmãs, principalmente com os que mais sofrem. Por isso, a experiência do Amor de Cristo, que se identifica com os crucificados do mundo, é condição necessária para todos os que se comprometem na construção do Reino de Deus, um Reino de Justiça de Paz e de Fraternidade. O Segundo ponto está unido ao primeiro, pois diz respeito ao amor fraterno, que nasce e se sustenta na experiência da intimidade e comunhão com o Senhor. O autor da Carta de
João afirma que o amor ao próximo vence a morte e direciona o discípulo missionário no caminho da vida plena. Nas Palavras de Jesus, nos Evangelhos, o amor ao próximo possui a mesma força e intensidade do amor a Deus, o que significa que um não pode se realizar sem o outro. Não é possível Amar a Deus e negligenciar o Amor aos irmãos e irmãs, pois, a verdade do primeiro está na vivência do segundo. Para nós cristãos, o Amor não se confunde com um sentimento abstrato ou egoísta, mas, revela-se como uma escolha, uma atitude de vida. O caminho a ser trilhado por aqueles que desejam seguir Cristo como seus discípulos missionários, enviados a anunciar a Boa Nova do Evangelho aos pequenos e pobres, aos sofredores e excluídos. Nisto está o critério para saber se vivemos na verdade da Fé, pois vive a verdade, somente aquele que ama aos preferidos do Senhor, de forma concreta, ou seja, os pequenos e pobres dessa terra.
O terceiro ponto se encontra no Evangelho, na Palavra de Jesus direcionada a Natanael, que une os dois pontos apresentados anteriormente. Jesus ao pousar o seu olhar sobre Natanael afirma que ele era um israelita no qual não havia falsidade. Tal afirmação provoca a surpresa de Natanael que, por sua vez, questiona a Jesus para saber de onde Ele o conhecia. O Senhor, responde dizendo que já o tinha visto, sentado debaixo da figueira, uma Palavra que faz com que Natanael reconheça Jesus como sendo o Filho de Deus. Devemos procurar o sentido mais profundo da Palavra de Jesus dirigida a Natanael, algo que pode nos iluminar na direção do que o Senhor deseja de todos nós e, sobretudo, para a Sua Igreja, em especial para a Arquidiocese de Vitória. A figueira é um símbolo muito importante para Israel. Por várias vezes, o Senhor compara o povo eleito a uma figueira, por Ele cuidada e protegida. Há ainda um outro ele-
mento, relacionado à figueira, que está intimamente unido ao primeiro e ao segundo ponto, que é o vínculo entre o amor de Cristo e o amor fraterno. De fato, a figueira, antes de se encher de folhas e se tornar uma árvore frondosa, produz os frutos, manifestando o tempo de sua maior fecundidade. Por isso, ao dirigir-se a Natanael, Jesus encontra um judeu sem falsidades, alguém que produzia verdadeiros frutos de uma vida de intimidade com o Senhor, marcada também pela vivência do amor para com os irmãos e irmãs. Sendo assim, a figueira torna-se para todos nós um sinal vocacional, um símbolo do chamado divino feito a cada um, produzirmos frutos verdadeiros, sendo cristãos autênticos e missionários, como nos exorta o Papa Francisco, indo às periferias geográficas e existenciais. Todos nós, que pelo amor de Cristo fomos salvos por sua Cruz redentora, somos chamados a viver o amor fraterno, o
que nada mais é do que uma vida cheia dos frutos da graça divina. Como a figueira, somos chamados a produzir frutos de uma vida plena, marcada pelo verdadeiro amor, sem a falsidade das aparências, mas, na verdade e radicalidade do Amor de Cristo, que se revela nos mais vulneráveis da sociedade.
Meus irmãos e irmãs, tendo escutado a Palavras de Deus, deixemo-nos iluminar por Ela e firmemos com o Senhor, nós o clero, os religiosos, os leigos e as leigas, o compromisso de vivência da Fé na Vida, marcada pelo Amor Compassivo de Cristo. De modo que o caminho que hoje iniciamos nessa liturgia, seja trilhado na Comunhão e na Participação, na Unidade e no Compromisso de todas as forças vivas de nossa Arquidiocese com a construção do Reino de Deus. Que o amor criativo de Cristo seja a força que mova e oriente todas as nossas Comunidades Eclesiais de Base, nossas Pastorais, Ministérios e Movi-
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mentos, no seu testemunho e missão. Que continuemos a trilhar o caminho proposto pelo Papa Francisco, como uma Igreja em Saída, pobre e para os pobres, que se dirige às periferias, a todos os que ainda são expropriados de seus direitos e excluídos de condições dignas de vida.
Que o amor concreto e comprometido, fortalecido e amadurecido na experiência de sentirmo-nos amados pelo Senhor, esteja presente em tudo o que dissermos e realizarmos. De modo que nos empenhemos na construção da Casa Comum, uma sociedade mais justa, fraterna e solidária, sem as marcas da violência e do descaso com a vida.
Que a violência seja combatida com Políticas Públicas inclusivas e de qualidade, capazes de recompor os laços do tecido social, tão dilacerado por escolhas equivocadas e propostas contrárias aos direitos e conquistas adquiridos nas últimas décadas. Todavia, sabemos que para que tudo isso aconteça, é necessário perseverança, reflexão e diálogo. O bem comum deve ser fruto de uma construção coletiva, nas quais todas as forças, conhecimentos e experiências, sejam somados e compartilhados. Todos somos responsáveis por transformar o mundo em um lugar melhor para todos.
Enfim, hoje, às vésperas da Solenidade da Epifania, deixemo-nos conduzir pela Estrela do Amor de Cristo, que aqueceu, iluminou e guiou os passos dos magos até ao encontro com o Senhor. Façamos juntos o mesmo caminho, sem medos e receios, crescendo e multiplicando as experiências concretas de Amor, único meio capaz de transformar o mundo inteiro. O Senhor conta conosco irmãos e irmãs, pois foi Ele mesmo que nos escolheu, nos chamou e enviou a levar a todos, por meio de nossa voz, presença e atitudes, a verdade inegociável de Seu Amor. Que seja o Amor de Cristo o grande sinal desse tempo novo de graça que juntos iniciamos. Sigamos a Estrela, até encontrá-Lo nas periferias, em meio aos pobres, onde Ele quis se manifestar ao mundo. Louvado Seja Nosso Senhor Jesus Cristo, para sempre seja louvado!
Dom Dario Campos, ofm Arcebispo Metropolitano de Vitória
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FLASHES DO COTIDIANO
CHEGADAS E PARTIDAS Estava eu com a Revista Vitória, edição de dezembro, na mão, e a capa já me chamou muita atenção: “Para Dom Dario, com carinho! Dom Luiz”. O que é isto? Dom Luiz não é mais o nosso Arcebispo? Já tem outro?
Como a tendência das dúvidas era aumentar resolvi correr até a minha avó que é uma especialista informal para assuntos gerais da Igreja. Pelo menos a nossa família a enxerga assim... - Como assim vó? Dom Luiz pode ir embora assim sem mais nem menos?
- Não é ir embora, Júlio. Você não acabou de ler a entrevista dele na revista? Aos 75 anos os bispos são convidados a colocarem o cargo à disposição. - Mas Dom Luiz fez tanta coisa, vai ser legal sem ele? - Você também teve o mesmo sentimento quando foi com Dom Silvestre, lembra? É um sentimento bonito, de gratidão. - Dom Dario parece ser legal. Será que vai gostar daqui, vó? - Tenho certeza que sim e que todos irão recebê-lo com muito carinho. Eu já gostei do lema episcopal dele: “Nas Tuas Mãos”. Inspirador e de muita fé. Fui para casa pensando na conversa que tive com a minha avó. Muita gente boa já contribuiu com esta história de 60 anos da Arquidiocese de Vitória e muita gente ainda vai passar por aqui. Quando vejo um seminarista imagino onde esta trajetória vai dar. Será que eles se inspiram em exemplos como Dom Luiz, Dom Silvestre e agora Dom Dario? A entrega, dedicação e fé deles devem ser exemplos para todos nós e de tudo isto fica a certeza de que a trajetória de Dom Dario aqui com a gente vai ser linda.
Tem dois abraços que gostaria de dar. Um em Dom Luiz, em agradecimento e já adiantando uma saudade com o desejo que a vida de emérito lhe seja plena e feliz. E o outro no Dom Dario para lhe desejar uma excelente experiência na condução da Igreja de Vitória. Siga bem Dom Luiz, seja bem-vindo Dom Dario.
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CARTA DE NOMEAÇÃO Francisco, bispo, servo dos servos de Deus Ao venerável irmão Dario Campos, O.F.M., até agora bispo de Cachoeiro de Itapemirim, transferido para a Igreja Metropolitana de Vitória do Espírito Santo, saúde e benção apostólica. Ungido e enviado pelo Espírito Santo, Jesus Cristo começou a evangelizar os pobres e a pregar o tempo de graça do Senhor (cf. Lc 4, 18-19). Esta tarefa precisamente ele deu aos Apóstolos e aos sucessores deles. Nós, no entanto, constituídos no cargo de Pedro, no presente exercemos o cuidado de todo o rebanho do Senhor e empenhamo-nos em prover-lhe com Pastores idôneos. Depois que o Venerável irmão Luís Mancilha Vilela, SS.CC., abdicou de seu cargo, como a arquidiocese de Vitória do Espírito Santo foi oferecida pelo seu legítimo Preposto, nós nos apressamos em colocar-lhe à frente um novo Bispo para que ela não sofra nenhum dano. Tu, porém, Venerável irmão, que até agora estivesse à frente da Igreja de Cachoeiro de Itapemirim e aí exerceste prudentemente os mistérios episcopais, dotado que és com virtudes humanas e sacerdotais, nos parece apto, pessoa a quem possamos confiar esta grave tarefa. Aceito, portanto, o parecer da Congregação para os Bispos, em razão de nosso poder apostólico, desligado do vínculo da Sé acima, Nós te constituímos Arcebispo metropolitano de VITÓRIA DO ESPÍRITO SANTO, dados os direitos e obrigações que se referem ao mesmo cargo segundo o direito canônico. De maneira conveniente comunicarás ao clero e ao povo esta tua eleição e destinação, para que te reconheçam como legítimo Pastor, te recebam com toda boa obra e especialmente te ajudem com sua oração no teu empenho apostólico a ser realizado. Finalmente, te aconselhamos, Venerável Irmão, a que, confiando inteiramente em Deus, com o auxílio da Virgem Maria Mãe de Deus, intercedas junto a Deus pelas ovelhas a ti confiadas e as exorte a seguirem com confiança e fidelidade o divino Mestre e a carregarem o suave julgo dos seus mandamentos, porque ele é misericordioso e restaura com sua graça todos os que trabalham e que estão sobrecarregados (cf. Mt 11, 28-30). Na vida, como também no labor pastoral, segue diligentemente o exemplo de São Francisco de Assis – que de modo verdadeiramente especial foi solícito com a criação de Deus e com os pobres mais abandonados (Laudati Si 10). Dado em Roma junto de São Pedro, no dia sete do mês de novembro do ano do Senhor de dois mil e dezoito e sexto de nosso Pontificado. Papa Francisco
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BISPOS E ARCEBISPOS
DA ARQUIDIOCESE DE VITÓRIA Criada em 15 de novembro de 1895, a Diocese do Espírito Santo caminhou, nesses 123 anos, tendo à frente pastores que se empenharam em conduzir seus fiéis segundo os ensinamentos de amor o próximo e temor ao Criador.
Muitos foram as dificuldades enfrentadas pelos bispos e arcebispos do Espírito Santo, mas, o que se percebe ao contar a história do pastoreio de cada um é a preocupação sempre
presente de se levar o Evangelho a cada pessoa, nos mais remotos locais, seja pessoalmente ou com o auxílio de padres, missionários ou leigos. Essa retrospectiva de vidas nos mostra que o trabalho comunitário, embora laborioso, contou sempre com devoção espiritual.
1897 - 1901
DOM JOÃO BATISTA CORRÊA NERY Ficou conhecido não apenas pela sua ação sacerdotal, mas também pela sua obra como historiador, devido à riqueza de detalhes em sua Carta de despedida da Diocese do Espírito Santo. Foi convidado a ser sócio do IHGB – Instituto Histórico Geográfico Brasileiro em 1911. Escreveu tudo que viu em suas visitas pastorais, escritos conservados até hoje, que representam a 1ª pesquisa a relatar a realidade da nova diocese. Em sua trajetória episcopal ficou conhecido por sua fé e defesa do povo.
1902 - 1916
DOM FERNANDO DE SOUSA MONTEIRO Nos quatorze anos de episcopado, percorreu todos os recantos da Diocese fazendo Visitas Pastorais, a cavalo ou no vaporzinho costeiro. Ele era visto como um indivíduo humilde e silencioso. Fundou o Colégio Diocesano para meninos e o Colégio Sagrada Família, em Cachoeiro do Itapemirim. Inaugurou o Asilo Coração de Jesus, a Associação das Senhoras de Caridade e as Conferências Vicentinas, voltadas para a assistência aos pobres em Vitória. Recebeu, na Diocese do Espírito Santo, os padres de São Carlos e os Lazaristas. Dom Fernando era irmão de Jerônimo de Sousa Monteiro, governador do Espírito Santo de 1908 a 1912. 14
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1918 - 1933
DOM BENEDITO PAULO ALVES DE SOUZA Um grande orador sacro, literato, admirador e apaixonado por todas as artes. Durante 15 anos concretizou muitas obras de vulto: demoliu a antiga matriz, em 1918, e iniciou a construção da nova Catedral de Vitória. Participou da fundação da Academia Espírito-Santense de Letras. Incentivou as Conferências Vicentinas e a vinda dos missionários redentoristas. Fundou o Orfanato Cristo Rei e a Congregação Diocesana das Irmãs de Jesus na Eucaristia. Viajou muito de barco e a cavalo pelo Espírito Santo fazendo Visitas Pastorais.
1933 - 1951
DOM LUIZ SCORTEGAGNA Foi impressionante o seu esforço para a reconstrução da Catedral de Vitória, demolida em 1918. Teve o conforto de vê-la decorada com seus belos vitrais, e o piso completo. Promoveu semanas eucarísticas, páscoas dos homens e o grandioso Congresso Eucarístico, de 1945, pelo cinquentenário da criação da Diocese. Dedicou-se à obra das Vocações Sacerdotais. Introduziu, na diocese, os padres pavonianos, que se instalaram no bairro de Santo Antônio e trabalhou pela fundação do Colégio Salesiano, na Capital. Humilde e piedoso, pela manhã estava na Catedral, para auxiliar os padres na assistência espiritual aos fiéis.
1952 - 1957
DOM JOSÉ JOAQUIM GONÇALVES Foi escolhido para ser Bispo auxiliar de Dom Luiz Scortegagna, porém, não chegou a tomar posse, pois, diante do falecimento deste, a Santa Sé o nomeou Bispo Titular. Permaneceu cinco anos e dois meses à frente da Diocese do Espírito Santo. Fundou o Mensageiro do Espírito Santo, jornal oficial da Diocese, e adquiriu a importante fazenda São José de Itaquarí, no município de Viana. Preparou a Arquidiocese para ser elevada a Arquidiocese.
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1957 - 1984
DOM JOÃO BATISTA DA MOTA E ALBUQUERQUE Foi o bispo da transição da Diocese do Espírito Santo para a Arquidiocese de Vitória. Foi nomeado bispo da então Diocese em 15/07/1957, e, em fevereiro de 1958, tomou posse como arcebispo. Sonhava com um novo modo de ser Igreja e tinha grande sensibilidade para as questões sociais, para tal organizou a Arquidiocese em Ceb’s - Comunidades Eclesiais de Base. Preocupou-se com as causas dos operários e a pastoral urbana, apoiou as cooperativas agrícolas e defendeu os direitos humanos. Para estar mais próximo ao povo adquiriu a Rádio Capixaba, em 1960, que foi forçado a vender durante o período da Ditadura Militar. Foi um grande incentivador e inovador da Festa de Nossa Senhora da Penha. A partir de 1958 a Romaria dos Homens, procissão noturna da Catedral de Vitória ao Convento da Penha, se consolidou como um dos principais momentos da Arquidiocese.
1984 - 2004
DOM SILVESTRE LUIZ SCANDIAN Seu pastoreio foi marcado pela simplicidade e pelo compromisso com a Justiça e com o povo mais simples. Ouviu os fiéis e consultou os conselhos para realizar a GRAVA – Grande Avaliação da Igreja de Vitória. Engajou-se na causa dos Direitos Humanos, na construção da paz e luta contra o crime organizado, que havia se instaurado em algumas Instituições e no Sistema Judiciário. Juntamente com outras lideranças e com o apoio da Comissão Justiça e Paz foi voz e presença importante, em várias ações, para que o Espírito Santo virasse essa página sombria.
2004 - 2018
DOM LUIZ MANCILHA VILELA Nos primeiros anos de seu pastoreio na Arquidiocese de Vitória, Dom Luiz Mancilha empenhou-se com a formação dos seminaristas e do clero e na ressignificação do conceito de Ceb’s. Para incentiva e motivar as comunidades e paróquias priorizou visitas pastorais sempre que lhe foi possível. Criou novas paróquias para que os fiéis tenham acesso ao serviços religiosos e construiu um Centro de Estudos para ampliar as possibilidades de formação. Buscou em cada ação incentivar, animar e motivar os fiéis e o clero para que a Igreja de Vitória fosse cada vez mais uma Igreja acolhedora, de comunhão e de esperança. Uma Igreja em saída. 16
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A UNIDADE: UM DOM PARA A IGREJA Como se relacionam entre si e com a Igreja no mundo as arquidioceses e dioceses sufragâneas e, especificamente, a Província Eclesiástica do Espírito Santo, foi o assunto da entrevista com padre Kelder José Brandão, pároco da paróquia Santa Tereza de Calcutá e professor de História da Igreja. Como e por que se cria uma Arquidiocese? As dioceses surgem quando a Igreja percebe que há uma necessidade de melhor organização pastoral para atender as necessidades espirituais do povo de Deus. Então, constantemente são feitos levantamentos e relatórios que são apreciados pelos bispos e pela Sé Apostólica sobre a viabilidade e necessidade de criação desses espaços territoriais que possam vir ao encontro das necessidades do povo de Deus. Qual é a relação que se estabelece da Arquidiocese com as dioceses dela criadas?
A diocese mãe fica sempre como uma referência, embora as dioceses criadas sejam autônomas em sua administração, no seu governo. Comumente, quando se desmembra uma diocese mãe, que se torna uma Arquidiocese, o arcebispo fica sendo referência como metropolita, ou seja, aquela pessoa que vai fazer uma mediação entre a Sé Apostólica e aquela região que a gente chama de Pro-
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víncia Eclesiástica. Agora, aqui no Brasil se adotou um caminho muito interessante pós-Vaticano II, com a criação dos regionais e também dos sub-regionais da CNBB, pois nem sempre o metropolita é o coordenador da região (regional ou sub-regional). Por exemplo, na província Eclesiástica do Espirito Santo, que faz parte do Sub-regional Leste 2, o coordenador é Dom Joaquim Wladimir Lopes Dias, bispo de Colatina. Houve um acordo de fazer um rodízio entre os bispos do estado nesta coordenação. É uma ideia muito interessante porque a alternância da coordenação faz com que haja um olhar diferente, propostas de trabalho diferentes e isto é muito saudável para a dinâmica pastoral da Igreja. O senhor falou que a figura do arcebispo se torna uma referência, mas hierarquicamente os bispos das dioceses estão submissos ao arcebispo? Não, absolutamente. Tem essa referência como metropolita, mas cada diocese é autônoma no seu governo, então cada
bispo tem um forma própria de governar. O que existe pós Concílio Vaticano II, é um princípio norteador da Igreja universal para que os bispos trabalhem em comunhão. Por isso, se criam as províncias, regionais e sub-regionais, para que haja uma maior interação, maior dinamismo, mas cada bispo é autônomo. Por exemplo, isso fica muito claro com relação a CNBB, não só a CNBB mas todas as conferências episcopais, com o papel muito importante de articular a unidade entre os bispos dos países. Mas não tem a prerrogativa de legislar para as dioceses, e cada bispo pode adotar ou não aquilo que a CNBB orienta. Comumente se adota, mas nem sempre. Exemplo disso ocorreu nas eleições 2018, quando o candidato da esquerda se reuniu com o secretário-executivo da CNBB. Dois dias depois o candidato da direita chamou CNBB de banda podre da Igreja e na mesma semana se encontrou com um bispo que se posicionou diferente da CNBB. Então isso mostra que os bispos são autônomos nas suas decisões pastorais e políticas. E isso não é ruim?
Não. Não é ruim, porque isso se preza a prerrogativa do governo próprio de cada diocese arti-
cular, e também o princípio da unidade. Quando se trabalha a partir do princípio da unidade, isso se torna um dom para Igreja, porque não existe uma imposição, mas existe uma comunhão de pensamentos, de ideias e de encaminhamentos. Na Igreja não se deve impor nada, a gente deve fazer por adesão e por comunhão de espírito, de afinidade de princípios, porque é isso que deve nortear o povo de Deus.
Agora, a relação dos bispos é direta com o Papa e aí sim existe um princípio de obediência, inclusive um voto próprio que cada bispo faz na sua ordenação de obedecer e defender o Santo Padre. E o Papa sim, a Santa Sé tem autoridade para chamar atenção e inclusive destituir a função do bispo ou arcebispo. O bispo também tem essa mesma prerrogativa em relação aos padres?
Sim. Nós padres somos diretamente vinculados aos bispos, então, cabe ao bispo dizer se podemos ser padres ou não, e eles podem nos suspender sim. Claro que tem todos os casos prescritos no Código de Direito Canônico, mas nós somos hierarquicamente submetidos à autoridade do bispo, tanto em termos canônicos legais, quan-
to em termos de princípios também espirituais.
Um padre que não está em comunhão com seu bispo não pode ficar na diocese. Em nossa ordenação fazemos um voto de respeito e de obediência. Além da relação dos bispos, as pastorais e organismos das (arqui) dioceses devem trabalhar em conjunto? Sim, o que vale para a hierarquia em termos de princípio e de unidade, deve também chegar até as bases. O princípio é que desde a gênese da comunidade, exista essa comunhão pré estabelecida, isso para as pastorais, para os movimentos... Da mesma forma que o Papa deve unir a Igreja Universal - essa é a função primordial do Papa – e o bispo tem que manter a unidade da igreja local ou da diocese ou da arquidiocese, o padre é o garantidor da unidade paroquial. Isso deve também se reproduzir no trabalho das Comunidades Eclesiais de Base (Cebs), que no caso daqui é a nossa estrutura, e também das pastorais e movimentos. No Espirito Santo a gente preza muito por isso. A Ceb é o lugar onde todas as pastorais e movimentos devem exercer a comunhão. Então, se o padre que não está em comunhão com o bispo não pode estar na
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diocese, o agente de pastoral, o coordenador de movimento que não está em comunhão com o padre, não deveria estar atuando na paróquia, pois isso vai desconstruindo todo trabalho que é proposto em determinada região. Então é claro que as pastorais e movimentos devem estar sim em comunhão com o padre, e todos nós devemos estar em comunhão com o bispo, e todos os bispos devem estar em comunhão com o Papa. E em sua opinião isso tem funcionado na prática?
A gente não está vendo isso funcionar muito hoje não, porque o Papa está falando uma coisa, padres e bispos estão fazendo outras completamente diferentes. É uma conjuntura muito complexa e muito adversa ao princípio da unidade. Por isso que a gente tem que falar muito de unidade nesses tempos, a gente precisa resgatar isso para que o Corpo de Cristo não fique esfacelado com as nossas divisões, por vícios, por caprichos, por ideologias, ou por preconceitos, ou por tantas outras influências nefastas que fazem com que a gente peque contra a unidade da Igreja. Mas o dom primordial do es-
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pírito da Igreja é a unidade e a hierarquia tem o dever sagrado e a obrigação de garantir esta unidade, mesmo que a gente tenha que cortar na carne.
Como trabalhar a diversidade e a pluralidade que existe na Igreja? A hierarquia tem que manter a unidade, tem que saber trabalhar com o diverso e criar condições, inclusive legislando para que a unidade seja garantida. Isso é muito diferente da uniformidade, que é imposta unilateralmente e determinada por uma pessoa ou por uma instituição. Agora a unidade não, ela é fruto de uma consciência de que juntos, podemos fazer mais. Paulo é muito preciso na Carta aos Coríntios quando usa do corpo para falar do princípio da unidade que é um princípio fundante da fé cristã e da vida em comunidade. Existem as arquidioceses, as províncias eclesiásticas e os regionais. Como essas instâncias se relacionam?
A província eclesiástica e o regional são a mesma coisa. O regional é o agrupamento de províncias eclesiásticas ou de sub-regionais. Nós chamamos
aqui de sub-regional. Nós pertencemos ao Regional Leste 2, que inclui Minas Gerais e Espirito Santo, algo em torno de 30 dioceses. As Províncias Eclesiásticas formam o regional e as dioceses formam a província eclesiástica, e é essa relação que se tem. A CNBB orienta que haja o princípio da unidade territorial através da província eclesiástica e nós no Espírito Santo trabalhamos assim, sendo um dos poucos no Brasil a fazer isso. Então, nosso sub-regional se reúne periodicamente a cada três meses, nós temos uma formação permanente do clero, nos encontramos anualmente para um momento de aprofundamento e de confraternização de troca de ideias, temos também muitas atividades que são comuns nas quatro dioceses aqui do Espirito Santo. Então existe uma comunhão e participação muito grande. As CEBs também funcionam como um fluxo de ligação em todas as dioceses porque elas estabelecem a identidade da igreja do Espirito Santo e isso facilita muito esse trabalho de integração e de comunhão.
Andressa Mian Jornalista
ARCEBISPO: MINISTRO DA UNIDADE
A
posse canônica de Dom Dario Campos, ofm, como quarto arcebispo metropolitano da Arquidiocese de Vitória do Espírito Santo, sucedendo a Dom Luiz Mancilha Vilela, sscc, oferece-nos a oportunidade de refletir sobre a missão que lhe é confiada pelo Papa Francisco à frente desta Igreja Particular.
O bispo é um sucessor dos apóstolos que, pelo sacramento da ordenação episcopal e pela comunhão com o papa e os demais membros do colégio dos bispos, participa da solicitude por toda a Igreja. Colocado à frente de uma Igreja Particular, da qual é seu legítimo pastor e princípio visível da unidade, o bispo não é representante do papa e sim vigário e representante de Cristo (cf. LG 27). Entretanto, seu ministério deve ser exercido sob a autoridade do sumo pontífice. Com Pedro e sob Pedro, e em comunhão com os demais irmãos no episcopado, o bispo diocesano exerce sua missão de pastorear o Rebanho do Senhor. Todos os bispos devem exercer seu ministério em plena comunhão com o papa, entretanto, o arcebispo tem com o sumo pontífice um vínculo todo especial, simbolizado pelo
pálio que é um ornato litúrgico usado pelo papa e pelos metropolitas. O pálio, colocado sobre a casula, é usado pelo arcebispo em sua arquidiocese e nas dioceses sufragâneas, isto é, aquelas que, com a sede metropolitana, formam uma Província Eclesiástica. Em nosso caso, esta coincide com o Estado do Espírito Santo e é constituída pela Arquidiocese de Vitória e as dioceses de Cachoeiro de Itapemirim, São Mateus e Colatina.
Cada ano, por ocasião da festa de Santa Inês (21 de janeiro), o papa benze os cordeiros dos quais será tirada a lã para a confecção dos pálios que, depois de abençoados pelo papa, são colocados numa urna de prata e depositados sobre o túmulo do Príncipe dos Apóstolos. Na solenidade litúrgica de São Pedro e São Paulo (29 de junho), os novos arcebispos devem ir a Roma para concelebrar a missa com o papa e receber de suas mãos o pálio arquiepiscopal.
O bispo é um sucessor dos apóstolos que, pelo sacramento da ordenação episcopal e pela comunhão com o papa e os demais membros do colégio dos bispos, participa da solicitude por toda a Igreja.
Posteriormente, um representante do papa impõe o pálio ao novo arcebispo, em sua sede metropolitana, com a presença dos bispos das dioceses que integram a Província Eclesiástica. Pelo fato de ser confeccionado com lã de cordeiros e co-
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locado sobre os ombros, o pálio recorda ao arcebispo a figura do Bom Pastor de quem ele deve imitar as virtudes. Em sua diocese, cada bispo exerce, em nome de Cristo, o poder ordinário, próprio e imediato (cf. LG 27). Entretanto, “permanecendo firme o poder de instituição divina que o bispo tem na sua Igreja Particular, a consciência de fazer parte de um corpo indivisível levou os bispos, ao longo da história da Igreja, a utilizar instrumentos, órgãos ou meios de comunicação que manifestam a comunhão e a solicitude por todas as Igrejas, perpetuando, assim, a vida do Colégio dos Apóstolos (...).
Portanto, o bispo exerce o ministério que lhe foi confiado não só quando desempenha na diocese as funções que lhe são próprias, mas também quando coopera com os seus irmãos de episcopado nos diversos organismos episcopais supra diocesanos. Entre estes, incluem-se a Província Eclesiástica (presidida pelo arcebispo metropolitano) e a Conferência Episcopal. Estas assembleias dos bispos expressam a dimensão colegial do seu ministério e têm como fim principal a ajuda recíproca para o exercício da função episcopal e a harmonização das iniciativas de cada pastor, para o 22
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bem de cada diocese e de toda a comunidade cristã do território. Graças a elas, as Igrejas Particulares estreitam os laços de comunhão com toda a Igreja através dos bispos, seus legítimos representantes” (Cf. Diretório para o Ministério Pastoral dos Bispos Apostolorum Successores, n. 22).
Nas dioceses sufragâneas, cabe ao metropolita manter vigilância para que a fé católica e a disciplina eclesiástica sejam devidamente conservadas, bem como intervir em situações especiais conforme as determinações do Direito Canônico (cf. Cân. 436). O mesmo documento recorda que “ao arcebispo metropolitano cabe uma especial responsabilidade pela unidade da Igreja em relação às dioceses sufragâneas e aos seus pastores (...). Porém, a função do metropolita não se limita aos aspectos disciplinares, mas alarga-se, como consequência natural do mandato da caridade, à atenção discreta e fraterna para com as necessidades de natureza humana e espiritual dos pastores sufragâneos, dos quais pode considerar-se irmão mais velho. Um papel efetivo do metropolita, previsto pelo Código de Direito Canônico, é favorecer uma maior coordenação pastoral e uma colegialidade mais incisi-
va em nível local entre os bispos sufragâneos. Além disso, juntamente com os bispos da Província Eclesiástica, o arcebispo metropolitano deve encaminhar iniciativas comuns para responder adequadamente às necessidades das dioceses da Província. Entre outras iniciativas, os bispos da mesma Província Eclesiástica poderão promover em conjunto os cursos de formação permanente do clero e os encontros pastorais para a programação de orientações comuns sobre temas que interessam ao mesmo território”, em vista da pastoral orgânica, assumida verdadeiramente em conjunto e em sintonia com a Conferência Nacional dos Bispos (Cf. n. 23). Sem dúvida, pode-se dizer que o serviço à comunhão eclesial caracteriza a função do arcebispo metropolitano, como ministro da unidade. Ele visibiliza esta comunhão entre as Igrejas Particulares de sua Província Eclesiástica e expressa a obediência e a fidelidade de toda a Província ao Sucessor de Pedro. Aliás, comunhão e unidade são os sinais distintivos dos verdadeiros seguidores de Jesus (cf. Jo 13,35).
Dom Geraldo Lyrio Rocha Arcebispo Emérito de Mariana
AS INSÍGNIAS EPISCOPAIS:
ANEL, CRUZ PEITORAL, MITRA E BÁCULO Sendo o Bispo o sucessor dos Apóstolos, é natural que tenha símbolos que, de alguma forma, traduzam materialmente a realidade sobrenatural de sua condição. Trataremos aqui das quatro insígnias que atualmente identificam o Bispo: o anel, a cruz peitoral, a mitra e o báculo.
O ANEL EPISCOPAL Em todos os tempos e em praticamente todos os povos, o anel personificou o símbolo de autoridade, de dignidade e de preeminência: ele é para a mão o que é a coroa para a cabeça. De igual modo, o anel episcopal contém estas características, uma vez que ele reflete a eminente autoridade, a dignidade e a preeminência do prelado que o porta. Ademais, também é ele um símbolo da aliança espiritual que une o Bispo com sua Igreja; com efeito, ele o leva na mão direita (no dedo anular) pois é com esta que abençoa suas ovelhas. Como penhor de lealdade e como símbolo de seu desponsório com a Santa Igreja - de sua fidelidade à Esposa de Cristo - utiliza um anel. Dentre os Bispos há um que se sobrepassa, por sua missão e comunicação com o Espírito Santo: o Bispo de Roma, o Papa. A tão excelente prelado cabe um anel todo especial: o chamado “anel do Pescador”, que, por sua vez, também representa a Missão do Sumo Pontífice, ou seja, missão de ser pescador de homens, e salvá-los da morte, com a rede do Evangelho.
A CRUZ PEITORAL Pendendo de seus ombros, tal cruz está constantemente diante do Prelado, o que serve para lembrá-lo a todo instante, de Cristo Senhor Nosso, que morreu por ele no Calvário; e a fé que ele professa com seu próprio sangue. Sobre a história do uso da Cruz peitoral, sabe-se que já para os primeiros cristãos, era costume portar algum objeto sagrado que servia para evocar a lembrança de Nosso Senhor Jesus Cristo. A partir do século XIII, como dissemos, o uso da Cruz Peitoral passou a ser sinal distintivo próprio aos Bispos.
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A MITRA Sendo a mitra, antigamente, como uma coroa, constata-se que ela se transformou, até tomar a forma característica de hoje. Tais mudanças devem-se a vários fatores de ordem prática, como, por exemplo, o contato imediato do metal gélido com a cabeça, o que causava grandes inconvenientes - sobretudo no inverno europeu. Leve-se em conta também que quem a portava era geralmente um venerável prelado, a quem os anos pesavam. Enfim, o peso, a estética e a maneabilidade (julgue-se pela quantidade de vezes que o Bispo deve tirar, ou colocar a mitra em cerimônias) acabaram por burilar a antiga mitra, até obtermos sua forma atual. Recorde-se que seus dois lados, os quais se encontram no cume, desenhando uma ponta, simbolizando juntos a sabedoria que deve ter o Bispo, acerca de cada um dos dois Testamentos. Outro fator importante é sua cor: branca. A cor alva significa a castidade do prelado, ele a porta sobre a cabeça, pois é nela que se encontram os cinco sentidos, pelos quais o brilho da pureza pode ser tão facilmente maculado. “O Bispo abençoa, com a cabeça recoberta com a mitra; ele executa então uma função toda divina. Deus abençoa por seu ministério; mas, quando ele reza, ele a retira: é então o homem que se humilha diante de Deus. O mesmo acontece quando ele incensa, pois o incensamento, significa as orações dos santos, oferecidas a Deus pelo pontífice”. (DURAND)
O BÁCULO Símbolo do ofício de Bom Pastor, que guarda e acompanha com solicitude o rebanho que lhe foi confiado pelo Espírito Santo, o Báculo foi usado desde os primeiros séculos do cristianismo. “[Sabe-se que] muito antigamente, os fiéis vinham aos ofícios com seus cajados, pois que os rituais dos primeiros séculos os recomendavam de depositá-lo durante o Evangelho. Ele servia para que os fiéis se apoiassem durante as longas cerimônias, às quais assistia-se de pé. No âmbito pastoral, o emprego do báculo se origina na necessidade que tinham os Bispos - geralmente anciãos - de se apoiarem em um bastão durante as viagens apostólicas e as cerimônias litúrgicas; mais tarde, a Igreja acrescentou ao báculo a ideia da autoridade episcopal. Cumpre ressaltar ainda que, sob o prisma simbólico, o báculo é como que o cajado que usam os pastores, visto que se serve dele aquele que tem a obrigação de assistir e dirigir o rebanho e guardá-lo em aprisco seguro, contra as investidas dos lobos. Este bastão é, do mesmo modo, insígnia da jurisdição do Bispo, assim sendo, o Prelado não o pode usar fora de sua própria diocese (não é território sob sua responsabilidade, portanto, não está em meio a suas ovelhas), e nem mesmo nas Missas dos defuntos, pois que a Igreja Militante não tem jurisdição sobre a Igreja Padecente. FONTE: trechos do site www.arautos.org
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LITURGIA EM SINAL PASTOREIO Os ministérios ordenados da Igreja têm a sua centralidade no mistério pascal celebrado na liturgia. Todas as etapas da vida ministerial são iniciadas através da ação litúrgica, em sinal de legitimidade canônica e também participação dos fiéis, no exercício da comunhão eclesial.
A acolhida de um novo bispo ou arcebispo, também chamada de “tomada de posse da (arqui)diocese”, marca o início do seu pastoreio, e é celebrada na igreja catedral em união com todos os presbíteros e os fiéis que formam a Igreja local, além de outras possíveis participações de autoridades civis, religiosas (a nível ecumênico e inter-religioso) e demais representações.
O princípio do serviço pastoral - acolhida e posse, acontece durante uma liturgia eucarística. Sejam considerados a liturgia do dia, o tem-
po litúrgico e as prescrições que estão contidas no livro “Cerimonial dos Bispos (Cerimonial da Igreja)”. Este livro contém as grandes linhas da liturgia episcopal e suas funções. O Cerimonial é composto de oito partes. A Parte VII refere-se às “Datas mais importantes na vida do bispo”. Considerando a posse do novo arcebispo da Arquidiocese de Vitória, Dom Frei Dario Campos, OFM, é oportuno mencionar os Capítulos III e IV, respetivamente: a “Tomada de posse da Diocese” e a “Recepção do Bispo na sua Igreja Catedral”.
EIS OS ELEMENTOS DA REFERIDA CELEBRAÇÃO:
A.
Recepção do (arce) bispo à porta da igreja catedral por um membro (primeira dignidade) do cabido (corporação dos cônegos da catedral) ou pelo cura da catedral. Quem o recebe apresenta-lhe o Crucifixo a beijar e a seguir o aspersório da água benta, com o qual o (arce) bispo asperge a si mesmo e aos presentes. Nestes gestos iniciais, o sentido de a Igreja particular acolher o seu novo pas-
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tor, o qual, pelos símbolos da cruz e da água, vem em nome do Senhor e sinaliza a sua contínua missão de comunicar o Mistério Pascal de Cristo à comunidade de fé;
B.
Na sequência, ele é conduzido à capela do Santíssimo Sacramento, que adora, de joelhos, por alguns momentos: neste gesto, a sua união e intimidade com o Cristo, cabeça da Igreja;
C.
Em seguida, vai à sacristia, onde ele, os presbíteros concelebrantes, os diáconos e outros ministros se paramentam para a liturgia, que será celebrada segundo o rito estacional, ou seja, presidida pelo bispo com a presença do seu presbitério, sublinhando o sentido teológico de uma comunidade eclesial em união com o seu pastor, em tom itinerante de Igreja peregrina;
D.
Entoando-se o canto de entrada, na chegada ao altar, todos os concelebrantes e o (arce)bispo fazem reverência, e este, após, dirige-se à cátedra (cadeira episcopal). Terminado o canto, saúda o povo, senta-se e recebe a mitra. Nestes gestos, o reconhecimento da centralidade de Cristo (altar) e a função de pastoreio (cátedra). Sobre a mitra: A mitra é semelhante a uma tiara ou touca; no livro do Êxodo aparece como referências das vestes sacerdotais (cf. Ex 29,9; 39,28-31). No Império Romano era usada por algumas pessoas distintas, em sinal de honra e nobreza; depois passou para o uso eclesiástico, sendo primeiramente reservada ao papa e, a partir dos séculos X-XI foi concedida aos bispos e abades. Alguns momentos em que é usada: em partes da liturgia eucarística (entrada, quando se assenta, durante a homilia, nas saudações, quando abençoa a assembleia) e em outras celebrações sacramentais, além das procissões;
E.
Um dos diáconos ou um dos presbíteros concelebrantes apresenta as “Letras Apostólicas” (bula papal relativa à nomeação do (arce)bispo) ao Colégio dos Consultores na presença do Chanceler da Cúria, que exara (executa, dá andamento) a respectiva ata. Neste gesto, a legitimidade da nomeação de
um pastor para a (arqui)diocese pelo Papa, o Sumo Pontífice, aquele que preside na caridade a Igreja de Jesus Cristo, segundo a tradição petrina (de Pedro), na cidade de Roma. Em seguida faz-se a leitura no ambão (mesa da Palavra) e, no fim, todos aclamam: “Graças a Deus!”;
F.
Depois, se o bispo tiver direito ao pálio, este lhe é imposto. O pálio é uma insígnia colocada à volta do pescoço, por todos os arcebispos, nas celebrações solenes. É uma tira de lã branca, com seis cruzes pretas, usada sobre os ombros, deixando duas faixas pendentes sobre o peito e uma sobre as costas. A Igreja assimilou esse costume do Império Romano, que era uma honraria dada pelo Imperador a quem ele desejasse; no contexto eclesial, é uma honraria ao papa e aos arcebispos e, a estes, é sinal de autoridade em seu território pastoral e também unidade. No cerimonial dos bispos este rito de imposição do pálio está incluído na ordenação episcopal (cf. CB 1149-1155);
G.
Na sequência, de acordo com o costume, um membro (primeira dignidade) do cabido, ou o cura da catedral, dirige uma saudação ao (arce)bispo. Após, o cabido, o clero e alguns fiéis e, se oportuno, uma autoridade civil presente, manifestam ao (arce)bispo obediência e respeito;
H.
Para concluir essa primeira parte da celebração, omitindo-se o ato penitencial, o (arce)bispo depõe a mitra, levanta-se e canta-se o Hino de Louvor – “Glória a Deus nas alturas”;
I.
Segue a Liturgia da Palavra e, após o Evangelho, na homilia, o (arce)bispo profere suas primeiras palavras à Igreja reunida. E a liturgia eucarística prossegue como de costume. A partir desta liturgia, o nome do (arce)bispo deve ser proferido na oração eucarística das celebrações em território (arqui)diocesano.
J.
Ainda, a recordação das outras insígnias trazidas pelo (arce)bispo: o báculo (bastão ou cajado, tal e qual aquele que o pastor de ovelhas utiliza para conduzir o seu rebanho; simbolicamente, indica “apoio”, pela sua função de ajudar o povo de Deus a caminhar, e “autoridade” em nome de Cristo); a cruz peitoral (sinal da identidade cristã pelo Mistério Pascal de Cristo); o anel (união, pertença e fidelidade à Igreja, compromisso pastoral). Seja fecundo e frutuoso o ministério de Dom Frei Dario Campos junto ao povo de Deus, na Arquidiocese de Vitória, em sinal de vida plena para todos!
Fr. José Moacyr Cadenassi
Franciscano capuchinho, letrista, cantor, consultor de liturgia, apresentador de rádio e agente de ecumenismo e diálogo inter-religioso
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O SACRAMENTO DA ORDEM E SEUS GRAUS
O sacramento da Ordem compõe-se de três graus, que são insubstituíveis para a estrutura da Igreja. O episcopado, o presbiterado e o diaconado. Destes, os dois primeiros participam do sacerdócio ministerial de Cristo. Assim, os presbíteros e os epíscopos são sacerdotes (cf. CIC n. 1554).
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O primeiro grau do Sacramento da Ordem é o episcopado. Trata-se do grau mais importante, grau primordial, do qual procedem os outros dois: “Entre os vários ministérios que desde os primeiros tempos são exercitados na Igreja, segundo o testemunho da Tradição, ocupa o primeiro lugar o ofício daqueles que, constituídos no episcopado, pela sucessão que remota às origens, possuem a herança da raiz apostólica” (CIC, n. 1555).
O bispo, na sua Igreja particular, isto é, na sua diocese, é o verdadeiro vigário (representante) de Cristo e sucessor dos apóstolos; ele tem a plenitude do Sacramento da Ordem. Na Igreja ele exerce em potencialidade o pastoreio de Cristo como sacerdote. Ele é o primeiro presidente da Eucaristia e dos demais sacramentos, é ele quem disciplina a prática sacramental de sua Igreja. Envia os presbíteros como seus colaboradores. Como profeta, é o bispo o primeiro responsável pela pregação do Evangelho e pela conservação da integridade da fé católica e apostólica. Constitui-se no primeiro evangelizador. Por isso, na igreja mãe da diocese está a cadeira, a cátedra do bispo, que indica que ele é mestre do Evangelho. Da cátedra vem o nome “catedral” – a Igreja na qual está a cadeira episcopal. Como ministro do Cristo, o bispo é o guia principal da Igreja local, a autoridade maior. Em nome de Cristo ele dirige e apascenta o rebanho e nada deve ser feito contra a sua vontade. Cabe a ele discernir e coordenar os diversos ministérios e as diversas atividades diocesanas. Por tudo isso, o episcopado é o primeiro grau da Ordem, a fonte de todos os outros graus!
Não há distinção de grau entre o bispo e o Arcebispo. Ambos têm a mesma função, estando no mesmo patamar hierárquico da Igreja.
O segundo grau da Ordem é o presbiterado. Os presbíteros são também denominados “padres”, que significa “pai”. Então tanto faz a denominação presbítero ou padre, posto que se equivalem. Eles são ordenados pelo bispo para auxiliá-lo no pastoreio da diocese ou arquidiocese. Participam das funções sacerdotal, profética e real do bispo, sempre em comunhão com ele e na dependência dele e em comunhão com os outros presbíteros. Assim, a Igreja diocesana é cuidada pelo bispo com seu presbitério. Nunca o bispo sozinho; nunca os presbíteros sem o bispo. Em geral os presbíteros exercem suas funções na paróquia, mas podem trabalhar em outras atividades da Igreja, de acordo com o parecer do bispo.
Inspirada na Escritura Sagrada, o Concílio Vaticano II entendeu que o encargo dos presbíteros é o ministério da Palavra, dos Sacramentos e da Pastoral.
O Padre ensina a Palavra de Deus ao seu corpo de fiéis, convidando-os à conversão e à santidade (Cf. PO nº 4). Os presbíteros, conforme a PO nº 6, são consagrados por Deus, para que sejam, na celebração sagrada, ministros d’Aquele que na Liturgia exerce perenemente o seu ofício sacerdotal a nosso favor. Eles introduzem os homens no Povo de Deus pelo Batismo; pela Penitência, reconciliam os pecadores com Deus e com a Igreja; pela Unção dos Enfermos, aliviam os doentes; e, sobretudo, com a celebração da missa, oferecem sacramentalmente o Sacrifício de Cristo. Os padres também são chamados a rezarem por todo Povo de Deus, por meio da Liturgia das Horas. Há um rito especial na Ordenação Presbiteral, são a imposição das mãos do bispo e a oração de consagração. Nesta oração, o celebrante pede ao Pai, em nome de Cristo, que constitua o ordenando um presbítero, renovando no coração dele a efusão do Espírito de Santidade, para que possa ser cooperador da Ordem episcopal; exercer o ministério da Palavra; tornar-se um dispensador dos sacramentos (Batismo, Eucaristia, Reconciliação e Unção dos Enfermos); e, consagrar-se a oração pelos cristãos e por todos os homens. Não há diferenciação de grau, pelo sacramento da Or-
dem, entre padre, cônego ou monsenhor. Os títulos de cônego e monsenhor são honoríficos, distinguem um merecimento de honra. Não indicam a posse de nenhum cargo ou posição na Igreja.
O terceiro grau é o diaconado, sinônimo de “servidor”. Os diáconos são auxiliares do bispo e, por determinação deste, auxiliam aos presbíteros. Neste terceiro grau há um ponto importante a esclarecer, os diáconos não têm a função sacerdotal; por isso mesmo não podem presidir à Eucaristia, nem administrar a Confirmação ou a Penitência, nem a Unção dos Enfermos. O diaconato é um ministério mais voltado para o serviço da pregação e da caridade fraterna.
É no Livro dos Atos dos Apóstolos que aparece a narrativa dos motivos da instituição do ministério dos diáconos. A passagem de At 6,1-7, nos conta que os doze apóstolos escolheram sete homens de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria para se dedicarem a administração e ao serviço da caridade enquanto eles se dedicariam a oração e a pregação da Palavra. Apesar de não figurar a palavra “diácono” neste relato, aparece o nome dos sete primeiros (Estevão, Filipe, Prócoro, Nicanor, Timão, Pármenas e Nicolau) e, mais tarde, o texto os apresen-
ta pregando a Palavra e batizando (At 6,8-14; 8,5-13). Deve se notar, ainda, a imposição das mãos, acompanhada da oração, realizada pelos Apóstolos sobre os sete escolhidos para o serviço (At 6,6).
O rito essencial da ordenação diaconal é a imposição das mãos e a oração realizada pelo bispo. Esta oração pede a Deus Pai que consagre o ordenando como diácono e que envie sobre ele os dons do Espírito Santo para que ele possa exercer com fidelidade o ministério de serviço. Nela se apresenta o que se espera de um diácono: amor sincero, solicitude para com os pobres e os enfermos, autoridade discreta, simplicidade de coração e uma vida segundo o Espírito Santo. Os diáconos transitórios são aqueles que recebem o primeiro grau da ordem em função de receberem o segundo: o presbiterado. Neste caso, apenas os homens solteiros e dispostos a viverem o celibato podem ser aceitos. Possuem a mesma dignidade e funções dos diáconos permanentes, mas se preparam para exercer uma futura função sacerdotal.
Pe. Robson Prati Neves de Oliveira Pároco e Reitor do Santuário Bom Pastor em Campo Grande
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OS MÚNUS DE SANTIFICAR, ENSINAR E GOVERNAR O POVO DE DEUS
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o dia 05, Dom Dario Campos ofm, assumiu como nosso novo Arcebispo metropolitano; isto é: arcebispo da Arquidiocese, sede de uma Província Eclesiástica, a qual é formada por várias dioceses, no nosso caso, a Arquidiocese de Vitória do Espírito Santo com as dioceses de São Mateus, Colatina e Cachoeiro de Itapemirim. Tem todos os poderes do bispo em sua própria arquidiocese e poderes de supervisão e jurisdição limitada sobre as demais dioceses que compõem a província (chamadas sufragâneas). Com a sagração episcopal, o bispo recebe o múnus de santificar; que se realiza rezando pela parte do povo de Deus a ele confiada em sua diocese, presidindo os sacramentos e promovendo o crescimento na fé de todos com o exemplo de sua vida. Tal missão ele compartilha com os párocos ao confiar/ delegar a eles o cuidado de uma paróquia. Recebe ainda as tarefas de ensinar; como bom mestre e guardião da sã doutrina católica, para que a mesma seja vivida/ praticada e, com atenção de pai, afastar os possíveis erros que possam surgir e ameaçar a boa vivência da fé, também partilhado com os párocos e de de governar: o bispo tem autoridade para dirigir, organizar, legislar
e administrar o que se fizer necessário, visando sempre a utilidade dos fiéis e o bem da Igreja. Todas essas funções ele pode confiar a realização das mesmas e assim atuar por meio daqueles a quem ele delegar.
Segundo o Papa Francisco, “O bispo é aquele que supervisiona, que controla, é a sentinela”, “que sabe guardar para defender o rebanho dos lobos que se aproximam.” “A vida do bispo está envolvida com a vida do rebanho”. Mas o bispo faz algo a mais – prosseguiu Francisco. Assim como o pastor, vigia. “Uma bela palavra para descrever a vocação do bispo”. (O bispo e a sua missão: homilia da missa matutina na Casa Santa Marta. Vatican News | Maio 04, 2018 canone 375.) Todas as funções do bispo podem ser delegadas por ele, exceto o que é vetado pelo código, ou seja, capacidade de ordenar, incardinar e excardinar.
Acolhamos pois de coração aberto, como verdadeiro sucessor dos Apóstolos, nosso Arcebispo Dom Dario Campos ofm, que com muita disposição vem se colocar a serviço da nossa Arquidiocese tendo como exemplo o próprio Senhor que esteve no nosso meio como aquele que serve e não como aquele que é servido (cf Lc22,27).
Pe. Teodósio César de Aquino Pároco da Paróquia São Camilo de Lellis
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epísk O EXERCÍCIO DA AUTORIDADE EPISCOPAL E A FIDELIDADE À DOUTRINA
A palavra bispo é a tradução do grego epískopos, que significa supervisor, guardião, aquele que está acima para cuidar dos lhe que são confiados. No Novo Testamento, esta palavra aparece em At 20,28; Fl 1,1; 1Tm 3,2; Tt 1,7 e 1Pd 2,25. Parece que o nome apóstolo, depois dos Doze, ficou restrito apenas a Matias, Paulo e Barnabé. Os sucessores dos apóstolos passaram a ser chamados epíscopos ou bispos.
Jesus Cristo, na última ceia, ao instituir o sacerdócio da Nova Aliança, ensinou aos apóstolos que este encargo deve ser entendido como ministério, palavra que significa serviço. Nosso Senhor foi enfático: “Se eu, vosso mestre e Senhor, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros” (Jo 13,14). Logo, o bispo, como sucessor dos apóstolos, deve ser visto não como um “príncipe da Igreja”, mas como um servidor. Ele é chamado a servir a Deus
e aos fiéis de sua Igreja particular, exercendo, de maneira suprema, o sacerdócio (santificação do povo), a profecia (ensino) e o pastoreio (governo).
Assim São Paulo exorta os bispos Timóteo e Tito à fidelidade àquela fé que dele mesmo aprenderam: “Vigia a ti mesmo e a doutrina” (1Tm 4,16); “permanece firme naquilo que aprendeste” (2Tm 3,14), “porque é preciso que, sendo ecônomo das coisas de Deus, o epíscopo seja irrepreensível, [...] de
tal modo fiel na exposição da palavra que seja capaz de ensinar a sã doutrina como também de refutar os que a contradizem” (Tt 1,7-9). Ou seja, a própria legitimidade do episcopado depende de sua fidelidade à doutrina católica. O bispo é, não o dono daquilo que ensina, mas sim seu escravo. Se um bispo deixa de defender e promover a fé e a disciplina comuns da Igreja, ele perde sua autoridade, e pode até mesmo ser deposto de seu ofício pelo Papa.
kopos O Concílio Vaticano II, no decreto Christus Dominus, ensina que os bispos são “verdadeiros e autênticos mestres, pontífices e pastores” (CD 2), mas sempre “em união com a sua Cabeça, o Romano Pontífice, e nunca sem ele” (CD 4). O Código de Direito Canônico estabelece: “O bispo diocesano é obrigado a propor e explicar aos fiéis as verdades que se devem crer e aplicar aos costumes. [...] Defenda com firmeza a integridade e unidade da fé” (cân. 386). “O bispo é obrigado a promover a disciplina comum a toda a Igreja, e, por isso, urgir a observância de todas as leis eclesiásticas. Vigie para que não se introduzam abusos na disciplina eclesiástica, principalmente no ministério da palavra, na
celebração dos sacramentos e sacramentais, no culto de Deus e dos Santos e na administração dos bens” (cân. 392). É nisto que consiste, portanto, a dignidade do episcopado.
No Cânon Romano, rezamos “por nosso bispo N., e por todos os que guardam a fé que receberam dos apóstolos”, pois o bispo deve ser o critério da catolicidade e da unidade de uma Igreja particular. É o episcopado, pela sucessão apostólica, que garante que tal comunidade está em plena comunhão com a Igreja fundada por Cristo. O Papa preside a Igreja universal por ser o bispo local de Roma, onde São Pedro foi martirizado. Ora, o Papa não é um “superbispo”. De nada adianta dizer que se está em comunhão com o Papa se não se estiver em comunhão com o bispo diocesano, pois o vínculo da catolicida-
de está, não numa devoção pelo Papa, mas na unidade guardada pelo colégio episcopal, presidido pelo Papa. O que garante a validade dos sacramentos e a verdade da doutrina é a unidade com o bispo diocesano, que, por sua comunhão com os outros bispos e o Papa, torna presente a Igreja Católica. Por isso S. Inácio de Antioquia († 110) insiste: “nada façais sem o bispo”; “sem ele, não se pode falar de Igreja”; “sede submissos ao bispo como ao mandamento”; “quem faz algo às ocultas do bispo, serve ao diabo”. Toda essa autoridade do bispo, porém, depende de sua fidelidade ao depósito da fé, do qual ele deve ser o primeiro guardião.
Pe. Juliano Ribeiro Almeida Presbítero diocesano do clero de Cachoeiro de Itapemirim
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O LUGAR DO BISPO EMÉRITO
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ma dúvida reina na sociedade sobre bispo emérito. Quem é? O emérito é bispo? E tem sua razão de ser. Há quem pense que o bispo deixou o seu ministério ordenado. O emérito é aquele que deixou a função de pastorear sua diocese. Continua, porém bispo e pode administrar todos os sacramentos, atendendo as orientações da Igreja. Aos setenta e cinco anos de idade ou por motivos de doença ou outra causa grave, tornando-se menos capacitado para cumprir o seu ofício, o bispo é solicitado a apresentar a renúncia do ofício ao Sumo Pontífice, de acordo com o cânon 401,§1. Aceito esse pedido pelo Sumo Pontífice, imediatamente se torna bispo emérito. Pode acontecer que seja nomeado bispo administrador daquela diocese, até a posse do sucessor. Nesse caso, o título de bispo emérito fica para depois da posse do sucessor.
A respeito da sua residência, ele é livre para escolhê-la. Raramente reside com o seu sucessor. Pode acontecer, com o convite insistente deste. Mas não é aconselhável. Corre o risco de interferir na administração do outro. É muito comum habitar na área geográfica da diocese.
Quando o bispo é de origem de um instituto religioso, os irmãos o acolhem muito gentilmente na comunidade. De qualquer maneira, o emérito há de ter muita cautela e prudência. E respectivamente, o bispo atual com muito respeito se relaciona com o seu antecessor. Isso é normal e lei máxima do amor Sobre a manutenção do bispo emérito, o cânon 402,§2 estabelece: “A conferência dos Bispos deve cuidar que se assegure o digno sustento do Bispo renunciante, tendo-se em conta a obrigação primária que incumbe à diocese, a qual ele serviu”. Mesmo que o bispo emérito tenha provindo de um instituto religioso, essa incumbência é da diocese (Can. 707, §2).
Com relação à questão de sua inserção nas atividades pastorais da diocese, depende muito da atitude do emérito. Com a precariedade dos sacerdotes de qualquer diocese, o emérito pode prestar uma ótima cooperação ao povo de Deus. Logicamente, o bispo diocesano agradece muito. Há eméritos que assumem até função de vigário ou administrador paroquial. Na questão jurídica do bispo emérito, Dom Lelis Lara, ca-
nonista e de feliz memória, era de opinião de fazer uma revisão na legislação canonista, pois o bispo emérito não pertence mais ao clero que pastoreou. Se veio de um instituto religioso, mesmo que venha residir numa de suas casas, não goza de voz ativa e nem passiva. Não pertence oficialmente à CNBB. É apenas convidado para suas assembleias e com voz passiva. A meu ver, a Igreja é muito sábia ao pedir ao bispo que apresente sua renúncia ao sumo Pontífice aos setenta e cinco anos de idade ou em situações especiais que dificultem o exercício de seu ofício na diocese. É claro que há bispos que nessa idade se apresentam muito sadios ou com muita energia para o trabalho. Essa rotatividade de funções na Igreja Particular é saudável, e ainda, não é só na diocese que pode trabalhar. Há muito campo de missão.
Concluo, deixando o meu testemunho pessoal. Sou emérito da diocese de Itabira, em Coronel Fabriciano, há quase seis anos. Sou feliz, a sirvo com normalidade exercendo o meu ministério ordenado. Louvado seja Deus!
Dom Odilon Guimarães Moreira Bispo emérito de Itabira, Coronel Fabriciano
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OS PARAMENTOS DE UM BISPO Os paramentos, isto é, as vestes litúrgicas de um bispo são basicamente as mesmas de um sacerdote comum, acrescidas das chamadas “insígnias episcopais”, ou seja, aqueles distintivos que identificam o bispo como sumo sacerdote da Igreja e o diferencia de um simples sacerdote, presbítero ou como chamamos popularmente “padre”. Antes do Vaticano II não era tão simples assim. O bispo usava a estola – tira de tecido da cor litúrgica, que passa pelo pescoço e prende sobre o peito – com as pontas paralelas, como as usadas por qualquer sacerdote hoje, mas o padre a usava em forma de cruz sobre o peito. O bispo a usava pendente, porque logo em seguida endossava a cruz peitoral. Em todo caso, vejamos como o “Cerimonial dos Bispos” prevê as vestes clericais e os paramentos. As vestes clericais são aquelas usadas no quotidiano do bispo, para além do uso litúrgico, a batina com botões e friso violáceo, usada ou não com a peregrineta; a cruz peitoral em corrente de metal; o solidéu e o barrete na cor correspondente. Já em ocasiões mais solenes, em eventos civis, por exemplo, o bispo pode endossar sobre a batina, a ca-
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pa magna de cor violácea para bispos e vermelha para cardeais. Já em ocasiões litúrgicas, quando ele não celebra, usa-se a chamada veste coral (porque toma lugar no “coro” do presbitério) que implica na batina de cor violácea para bispos e vermelha para cardeais, com roquete (espécie de sobrepeliz) e a mozeta (que como a peregrineta, cobre os ombros, mas é fechada por botões). Sobre esta, a cruz peitoral com cordão em fios verdes dourados; na cabeça o solidéu e o barrete (que varia a cor e a forma, de acordo com a dignidade do prelado). É possível usar também, neste último caso, a capa magna sobre o roquete sem a mozeta. Alguns bispos que possuem votos em alguma ordem ou congregação religiosa, conservam o uso de seu hábito, acrescido da cruz peitoral e solidéu.
Os paramentos são as vestes apropriadas para a liturgia e são usadas sobre o hábito ou a veste clerical.
O bispo, então, apenas com a batina, seja ela preta ou violácea, envolve o pescoço com o amito para tapar o hábito. Após, endossa a alva ou a túnica branca, que nos recorda a graça do batismo quando fomos revestidos da vida nova em Cristo. Em seguida põe a estola - com as pontas pendentes perpendicularmente.-, a cruz peitoral no pescoço, e para ajustar a túnica e a estola ao corpo, envolve a cintura com o cíngulo. Antes de pôr a casula, que é a veste sacerdotal própria para a Missa, o bispo pode, em ocasiões solenes, vestir também a dalmática (veste própria do diácono), pois ele possui a plenitude do Sacramento da Ordem, e em determinados momentos, o bispo precisará depor a casula. Por isso a necessidade da dalmática, para executar certos ritos como, por exemplo, a unção do altar na consagração de uma igreja, ou para o rito do lava-pés na Quinta-feira Santa. Mas em muitos outros momentos é previsto seu uso, especialmente nas ordenações.
Acrescenta-se aos paramentos litúrgicos, insígnias de uso igualmente litúrgico, como o anel (pois o bispo desposa a diocese, como Cristo desposa sua Igreja, e tem dever de fidelidade para com ela); o báculo, a insígnia mais característica do bispo; e sobre a cabeça, o solidéu (pequeno gorro que cobre apenas parte da cabeça e significa “só para Deus”); e a mitra, chapéu pontiagudo, sinal do múnus de ensinar do bispo, com suas duas tiras pendentes às costas, chamadas de infolas, que simbolizam o Antigo e o Novo Testamentos. No caso do Arcebispo Metropolitano, a cada festa dos Apóstolos Pedro e Paulo, o Papa abençoa o pálio, que será concedido aos Metropolitas. Trata-se de uma tira de lã com cinco cruzes pretas usadas sobre os ombros e com pendentes nas costas e sobre o peito. O pálio dos Metropolitas representa sua solicitude, como a do Bom Pastor, de socorrer suas ovelhas e carrega-las em seus ombros. As cinco cruzes lembram as cinco chagas de Cristo. Há o costume de traspassar três dessas cruzes com alfinetes (na frente, nas costas e no ombro esquerdo sobre o qual o Senhor carregou a cruz) que lembram os “cravos” que traspassaram o Senhor Jesus, em sua Paixão e morte na cruz. Mais do que pompa, as vestes dos ministros da Igreja, expressam sua missar e recordam que não agem em nome próprio, mas do Senhor. Se falassem e agissem em nome próprio, poderiam se vestir como quisessem, de acordo com seu gosto e personalidade, mas como agem em nome de Cristo e da Igreja, precisam se despir de si e revestir-se do Senhor. Ao endossar uma dalmática, o bispo recorda a todo clero, que uma vez ordenado diácono se é di-
Mais do que pompa, as vestes dos ministros da Igreja, expressam sua missar e recordam que não agem em nome próprio, mas do Senhor.
ácono para sempre, ainda que exerça diferentes e altas funções da hierarquia da Igreja, o faz como um servidor, na mística do lava-pés. Ao receber e usar o pálio arquiepiscopal, por mandato do Santo Padre o Papa, o Arcebispo Metropolitano expressa a essência do seu ministério: resgatar e carregar nos ombros a ovelha tresmalhada, e sua solicitude em acudir aos irmãos das dioceses dentro da Província Eclesiástica sob a sua jurisdição. As cruzes e os cravos lembram que o episcopado não é honra, mas antes, uma cruz que se dispõe a carregar com o Senhor.
Pe.Renato Paganini Pároco na Paróquia Ressurreição e Chanceler da Arquidiocese de Vitória
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PENSAR
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O SENTIDO DA AUTORIDADE EPISCOPAL
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evolução da autoridade do bispo na história da Igreja abrange várias experiências eclesiais, de acordo com o ambiente em que o cristianismo dos tempos antigos foi penetrando. Geralmente, nos ambientes pastorais de hoje, guarda-se a definição consagrada pelo Concílio Vaticano II, contida na Lumen Gentiun, que descreve as várias ordens como bispos, presbíteros e diáconos, também conhecidas como Ordens Maiores. As Ordens Menores para Santo Inácio eram sub diáconos, acólitos e leitores. Esta organização tem origem no século II, foi se impondo a toda a Igreja e pode ser encontrada nas Cartas de Santo Inácio de Antioquia, afirmando que o ministério deveria ser organizado tendo um bispo, um presbitério e alguns diáconos que executam as tarefas designadas pelo bispo. Esta organização, que parece simples, contém diversos elementos que nos ajudam a entender melhor o sentido do episcopado. Temos a tendência de comparar esta autoridade com as autoridades exercidas na sociedade civil e política. E
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aqui reside um grande equívoco, pois a Igreja não é uma instituição equivalente às demais da sociedade. A Igreja sempre se constitui como uma instituição humana, semelhante às demais instituições sociais e políticas e, por isso, sujeita ao erro, ao pecado, e também como Mistério de Salvação, que não comporta o pecado. Por isso sempre costumamos dizer que a Igreja é humana e divina.
Ao tomarmos o Novo Testamento, onde o termo epískopos aparece quase sempre indicando diversas pessoas, quase nem se distinguindo dos presbíteros, ali encontramos um primeiro sentido para este ministério. São pessoas responsáveis ou dirigentes de comunidades cristãs. Porém, Paulo apresenta outras autoridades fundamentais na Igreja, que seriam os apóstolos, os profetas e os mestres. Santo Inácio de Antioquia considerava os presbíteros os sucessores dos apóstolos. E por isso, sempre recomendava aos cristãos das comunidades que fizessem tudo com o bispo e com os presbíteros. A autoridade episcopal não está dissociada da ordem do presbitério. Isso
é muito significativo, pois demonstra que o poder do bispo não pode ser de mando autoritário como se fosse um ditador.
São Jerônimo apresentava a figura do bispo, não tanto como depositário de poder, mas expressão da unidade. Em conjunto com o presbitério, o bispo representa sempre o caminho de toda comunidade cristã em direção à unidade. Trata-se de uma liderança individual, a presidência de uma comunidade, contudo o sentido desta função remete sempre ao tema da unidade que muitas vezes aparece nos escritos do Novo Testamento, especialmente em São João. Em termos práticos, é anticristão termos alguma diocese dividida em suas Ordens Maiores. Quando bispo e presbitério ou parte dele caminham em sentidos diferentes, é hora de parar e refletir profundamente sobre como está sendo efetivada a unidade requerida por Jesus. Santo Irineu e São Clemente de Alexandria reforçavam o sentido da sucessão apostólica na pessoa do bispo. E esta sucessão não é uma escolha sem critério ou indicação rápi-
da, mas feita com critérios bem claros. Sucessoras são aquelas pessoas ensinadas pelos Apóstolos de maneira direta ou indireta e fiéis a este ensinamento. O sentido da autoridade episcopal reside na autenticidade do ensinamento. O que um bispo nos diz é como se fosse dito por um dos apóstolos. Então, a escolha de um bispo para a condução de uma comunidade deveria basear-se nesta direção. O poder do bispo não é um poder de mando e nem de capacidade administrativa como muitas vezes aparece nas dioceses, mas na força e fidelidade ao ensinamento apostólico. Santo Irineu acrescenta ainda, mais um critério; que sejam homens provados. O lugar do bispo não é para ser preenchido por pessoas inexperientes na vida eclesial ou carreiristas como o Papa Francisco admoesta na Igreja atual. É muito interessante e significativo que na Igreja do século III já estava sedimentado o costume de uma ordenação episcopal precedida pela escolha feita pela assembleia do povo cristão tendo os presbíteros maior influência; a ordenação
se dá com outros bispos impondo as mãos sobre o candidato escolhido garantindo assim a legitimidade da eleição. O candidato escolhido deveria aceitar sem questionamentos e servir de elo entre a Igreja local e a Igreja Universal. Santo Agostinho acrescenta outro sentido muito significativo: que o bispo escolhido seja antes de tudo um cristão. Ou seja, deve ser uma pessoa de profunda espiritualidade e fé cristã.
Em síntese, podemos afirmar com segurança que ao longo da história o sentido do episcopado abrange o carisma do bispo em ser um guia em vista da unidade, um elo de ligação entre a Igreja particular e a Igreja Universal, tem sempre a presidência para a edificação da Igreja (daí a presidência da Eucaristia), possui dimensões profética, sacerdotal e pastoral e, sempre o sentido desta função se reforça como um ministério colegial, tanto entre os bispos com o Papa, como entre o Bispo e o presbitério da Igreja Particular.
Edebrande Cavalieri Doutor em ciência da religião
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ACONTECEU
50 ANOS DE VIDA SACERDOTAL DE DOM LUIZ
No dia 21 de dezembro, Dom Luiz Mancilha Vilela agradeceu pelos 50 anos de padre a serviço de Deus na Igreja em uma Celebração Eucarística presidida por ele na Catedral de Vitória. No final da Missa, ao ler um texto de sua autoria utilizando simbolicamente a imagem de um jardineiro, Dom Luiz expressou seus sentimentos em relação à celebração da data e também em relação ao fato de estar na reta final de seu governo como Arcebispo à frente da Arquidiocese de Vitória. Ele afirmou que viveu seu sacerdócio cuidando dos fiéis como o jardineiro cuida do jardim: aperfeiçoando as técnicas para preparar a terra, escolher as sementes,
entender as mudanças climáticas, as estações do ano para que as flores em suas diversidades cresçam e se desenvolvam. Concelebraram a Eucaristia Dom José Geraldo e Dom Odilon Guimarães, que também celebraram 50 anos de sacerdócio, Dom Mário Marquez, Dom Joaquim Wladimir Lopes Dias e Dom Rubens Sevilha que foram bispos auxiliares de Dom Luiz nesta Arquidiocese, Dom Paulo Dal’Bó bispo de São Mateus, Dom Geraldo Lyrio Rocha e Dom Aldo Gerna e Dom Décio Zandonade, bispos eméritos, os padres da Arquidiocese de Vitória e padres das dioceses da Província Eclesiástica do Espírito Santo.
AÇÃO SOCIAL NO NATAL PARA TODOS
Famílias carentes do bairro São Pedro V, em Vitória, foram atendidas durante a ação social Arquidiocesana da Campanha Natal Para Todos, realizada na área externa da Matriz São Pedro durante a manhã do dia 16 de dezembro (domingo).
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A ação teve início no sábado (15) com a visita missionária a mais de 250 famílias e terminou com o evento do domingo, que começou às 8 horas janeiro 2019
com um momento de ação de graças conduzido pelo Padre Roberto Natal. Após o agradecimento foi oferecido um café da manhã partilhado, e em seguida começaram os atendimentos das pastorais sociais, os atendimentos jurídicos, a recreação para as crianças e o varal solidário. A ação foi encerrada com a distribuição de 250 cestas básicas para as famílias cadastradas.
Também no dia 16 de dezembro cerca de 270 famílias necessitadas cadastradas pelas pastorais sociais da Catedral foram acolhidas na Praça da Catedral de Vitória para celebrar o Natal. Teve música natalina, brincadeiras, almoço, distribuição de brinquedos, cestas básicas, roupas e sapatos, atendimento da pastoral da saúde e banho solidário. Outras ações similares aconteceram em várias paróquias da Arquidiocese.
ACONTECEU
SHOW DE IMAGENS NA CATEDRAL
Pela primeira vez as paredes da Catedral de Vitória serviram de “tela” para receber um espetáculo de imagens e de sons conhecido como projeção mapeada, o Mapping. A apresentação ocorreu em duas noites, durante a programação natalina da Catedral, nos dias 17 a 25 de dezembro e emocionaram o público.
ESTUDO DA CAMPANHA DA FRATERNIDADE
Para aprofundar o conhecimento sobre o tema “Fraternidade e Políticas Públicas” e o lema “Serás libertado pelo direito e pela justiça” (Is 1,27) da Campanha da Fraternidade, foi promovido um estudo no dia 08 de dezembro, no Centro de Treinamento Dom João Batista.
O encontro contou com a assessoria de João José Barbosa Sana (licenciado em Filosofia, Pedagogia e História, mestre em Educação e professor Tutor no Curso de Aperfeiçoamento Educação, Pobreza e Desigualdade Social da UFES) e de Cláudio Mendonça (Mestre em Políticas Públicas e Desenvolvimento).
FESTA DA PENHA 2019
O tema e a identidade visual da Festa da Penha 2019 foram apresentados no dia 27 de novembro de 2018 no Convento da Penha pelo Pe. Renato Criste, coordenador de pastoral da Arquidiocese e membro da Comissão da Festa. Como tema, a Festa da Penha 2019 te-
rá “Eis aqui a serva do Senhor”, a resposta de Nossa Senhora ao anúncio do anjo, que é a primeira alegria de Nossa Senhora e como identidade visual, um vitral que tem no centro Nossa Senhora e o Menino Jesus, realçando que Maria apresenta Jesus, a luz do mundo.
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