NOVA em Folha | Fevereiro/Março 25'

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2025 Jornal Fevereiro/Março

N O V A e m F o l h a

Emfevereiroemarço celebramosahistórianegra Ocaminhofeitoatéaquie aquelequeaindaestápor traçar Celebramosamulher, nasuacomplexidade,nasua resistência,nasua graciosidade Nestaedição,o NeFprocuroudarespaçoe vozàquelesque testemunham,todososdias, osaltosebaixosdeuma sociedadeque,pormais progressistaquepossa parecer,aindasustenta vácuosdesegregaçãode comunidadese marginalizaçãodeseres humanosbaseadasemcor dapele,emidentidade,em proveniência,eem preconceitos

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As Tuas Propostas

Todas as edições aceitamos propostas de textos, poemas, críticas, receitas, crónicas, bitaites, artigos desportivos, notícias e destaques, reportagens, peças humorísticas,... de qualquer alun@ ou docente da FCSH, os quais são posteriormente revistos pela nossa equipa editorial

Aceitamos ainda propostas de fotografias, ilustrações, montagens,... não só para serem incluídas na nossa edição e na newsletter, mas também para se habilitarem a ser a capa desse mês!

Basta enviares a tua arte para o seguinte e-mail: novaemfolha@fcsh unl pt

Qualquer dúvida ou sugestão não hesites em contactar-nos! Ficamos à tua espera! :)

Por incompatibilidade de agenda, não foi possível publicar o texto do NEAL na edição presente No entanto, contamos com uma publicação conjunta na nossa conta de Instagram com este núcleo, futuramente, de modo a tornar público o trabalho que tem vindo a ser feito pelo mesmo.

A ado(p)ção do acordo ortográfico em vigor é uma decisão individual d@s membr@s da equipa de reda(c)ção e colaborador@s.

Após a revisão completa do material recolhido pela equipa editorial, o seu conteúdo e versão final são da responsabilidade e exprimem somente o ponto de vista d@s respectiv@s autor@s

Este jornal é impresso em papel 100% reciclado. notas

Nyajuok Girl with a Pearl Earring – Modelo: Nyajuok aka Black Barbie, Foto: Shak

Conteúdos

07 24deMarço:aMemóriadoDia NacionaldoEstudante

Diogo Mota Duarte retrata a histórica luta estudantil em Portugal, desde a resistência ao Estado Novo até às atuais reivindicaçõesporumensinodemocrático,gratuitoeacessível

07 Dissimulaçãodaxenofobianodiscurso daextrema-direitaportuguesa

CatarinaGonçalvesanalisaanarrativadaextrema-direitasobre a imigração em Portugal, a sua fundamentação na desinformação,preconceitoeestratégiasdedivisãosocialpara justificarumaagendaxenófobaeexcludente

10 Sobrememória:amensagemde“Ainda EstouAqui”

Madalena Andaluz analisa o impacto do filme Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, reforçando a sua importância na preservação da memória da ditadura militar brasileira Defende a importância da rememoração histórica na defesa da democracia

13 Contextualização:MêsdaHistória Negra

Pedro Lázaro contextualiza a origem do Mês da História Negra, desde a sua criação por Carter G Woodson, em 1926, até à sua institucionalização em 1976 A celebração visa reconhecer as contribuições dos afro-americanos na História, expandindo-se além dos EUA para outros países

Sobrememória:a mensagemde“Ainda EstouAqui”

15 Não-Lugar

Lara Guimarães (Submissão Externa) reflete sobre a experiência de crescer num “não lugar”, um “não-lugar” de exclusão e de invisibilidade enquanto pessoa negra A falta de representatividade, o racismo estrutural e as microagressões moldaram a perceção da autora e reforçam a necessidade de luta e consciência na transformação da realidade

22 RTPÁfrica:aimportânciadeumcanal

Mariana Aleixo destaca a importância da RTP África na promoção da cultura, história e representatividade das comunidades africanas Criado em 1998, o canal estabelece uma ligação entre Portugal e os PALOP, com diversos conteúdos, como notícias, documentários, programas culturais e desportivos

24 HomenagemaDavidLyncheà Estranheza

Carolina Costa presta homenagem a David Lynch, mestre do surrealismo no cinema, que transformou o banal em inquietante e mostrou que a arte se sente mais do que se explica A sua morte em 2025 deixa um legado inigualável 10 24

HomenagemaDavid LyncheàEstranheza

Fev/Mar2025

Direção Clara Figueiredo

Margarida Calado

Tália Moniz

Redação Bárbara Rafael

Bárbara Soares

Beatriz Martins

Carolina Costa

Carolina Gonçalves

Clara Figueiredo

Daria Rosa

Diogo Mota Duarte

Helena Gregório

Inês Fonseca

Revisão Clara Figueiredo

Inês Fonseca

Leonor Moreira

Margarida Calado

Sofia Fernandes

Ficha Técnica

EdiçãoGráfica Catarina Galvão

Clara Figueiredo

Madalena Grilo Teles

Matilde Brito

Natali Gonçalves

Inês Moreira

Iúri Soares

Leonor Ribeiro

Leonor Vieira

Madalena Andaluz

Madalena Grilo Teles

Manuel Gorjão

Mar Ferreira

Margarida Calado

Margarida Finisterra

Maria Beatriz Silva

Mariana Aleixo

Martin

Matilde Marques

Miguel Martins

Pedro Lázaro

Raquel Francisco

Ricardo Reis

Sofia Fernandes

Tália Moniz

Tiago Freitas

Victoria Leite

Colaboradores AEFCSH

Ana Clara Cardoso

Inês Jorge

Lara Guimarães

Laura Teodoro

Mariana Figueiredo

NECCOM

Real Tuna Académica Neolisipo

Rodrigo Figueiredo

Índice

AE em Folha

Editorial: Quarta Pessoa do Plural

24 de Março: a Memória do Dia Nacional do

Estudante

Dissimulação da xenofobia no discurso da extremadireita portuguesa

Tarifas e o Imperialismo Americano

O que se está a passar na República Democrática do Congo?

Sobre memória: a mensagem de “Ainda Estou Aqui”

Ser Menos Mulher

The woman experience: a three-part study

Prostituição é exploração

Não

Contextualização: Mês da História Negra

Não-Lugar

A raça não passa de um fragmento da epiderme

A História de Souleymane, de Boris Lojkine (2024)

Do luso-tropicalismo à descolonização da arte:

Análise da exposição Black Ancient Futures

Livros para aprenderes mais no Mês da História

Negra

Artistas da Cultura Negra

O ténis mundial e a seletividade mediática

RTP África: a importância de um canal

Um poeta e um cão

Ilhas e Aviões

Homenagem a David Lynch e à Estranheza

Capra Via Lynch

E o Óscar vai para Eurocentrismo!

Cenas

A morte de Ivan Ilitch e a aceitação do inevitável: Tudo nela é luz! - O feminino n'O Vendedor de Passados

Mãos limpas e corpo em pó

O “Elo” que nos une: Migrações e Identidades no

Projeto Social Elo-Coletivo

Agenda Cultural março

A Revolta dos Insulares: O Manifesto Atlântico

Amarração

Marias há muitas!

Divulgações

As Descobertas de Nuno Folha: Discriminação à imigração

Divulgações

The Waves

Querido Carnaval

Costela-de-adão, a Flor

Substância

Vivemos uma vez

Fotomontagem Churrasco Tomada de Posse

Passatempos

Playlist

Banda Desenhada Boss Biche Poesia

FOLHA AEEM

Lançamos, por fim, o apelo, à semelhança de outros anos, para a mobilização de todos os estudantes e direções associativas, nas ruas, ao dia 24 de Março, Dia Nacional do Estudante. Gritaremos bem alto nas ruas pelo Ensino Superior a que temos direito, o Ensino Superior de Abril...”

Findada a época de exames para alguns, para outros, o período de férias, a AEFCSH voltou a abrir portas, todos os dias a preparar, jun-

to com os estudantes, mais um semestre de luta e muitas actividades!

Ansiado desde as eleições para os órgãos socias da AEFCSH, foi anunciado o grande Churrasco AEFCSH, precedido da cerimónia de tomada de posse, no dia 20 de fevereiro, ambos no campus de Berna Após reunião com os núcleos, foi também realizada a Feira de Núcleos, aos dias 17 e 18 de fevereiro

Participámosnamanifestação“Todos juntos pela Paz” convocada pelo CPPC, CGTP, Projecto Ruído e MPPM, ao dia 18 de Janeiro e na concentraçãonoLargodeCamões,ao dia 18 de Fevereiro, pela Paz Retomámos em força no Desporto, treinandosemanalmente,tantonoVo-

leibol feminino como no Futsal masculino, e com o primeiro jogo de Futsal marcado para dia 24 de fevereiro Activamos, ainda, o Cineclub da FCSH, iniciativa que pretende, todas as terças-feiras, juntar estudantes apaixonados por Cinema, com ciclos de filmes selecionados e à promessa de conversas frutíferas.

Lançamos, por fim, o apelo, à semelhança de outros anos, para a mobilização de todos os estudantes e direções associativas, nas ruas, ao dia 24 de Março, Dia Nacional do Estudante Gritaremos bem alto nas ruas pelo Ensino Superior a que temos direito, o Ensino Superior de Abril, o Ensino Superior consagrado na Constituição da República Portuguesa, o Ensino Superior público, gratuito, democrático e de qualidade Não arredaremos pé enquanto existir um estudante que pretende ingressar no Ensino Superior e se veja forçado a deixar os seus sonhos para trás! Todos Juntos! Nas ruas!

Foto: Beatriz Estrelinha

QuartaPessoadoPlural

Fevereiro/Março TáliaMoniz

Uma nova edição do Nova Em

Folha significa mais uma reflexão pseudo-intelectual da autora que vos redige

Como devem calcular, escolherotemaparaaedição

de um jornal universitário é uma tarefa complexa, que consiste em procurar algo geral o suficiente para cobrir todos os departamentos, notícias locais e do mundo, inserindo ainda a nossa história Nesta edição, no entanto, o ponto de partida para o tema foi claro: celebrar o mês da história negra. Embora este seja um mês sobre a história norteamericana, encontramos na sociedade portuguesa um passado de opressão e marginalização desta comunidade, que, por isso, tentamos desconstruir

Se estranham a expressão Quarta Pessoa do Plural, é porque ela não existe na gramática tradicional. Mas se existisse, talvez fosse para dar nome às vozes que a sociedade insiste em ignorar: aquelas histórias que servem apenas para a celebração de um “mundo globalizado”. É evidente que se reconhece a sub-representação deste tipo de narrativas dentro do espaço mais woke de Lisboa- a esplanada da NOVA FCSH, mas, querendo admitir ou não, todos fazemos parte de uma conjuntura estrutural que nos torna tanto vítimas, como vilões Ao longo da edição, procurámos com cuidado e rigor a seleção destas histórias, de modo a não apagar vivências que não são nossas. Estas são uma compilação da nossa equipa, que embora predominantemente branca, procura celebrar a história, sendo que o conteú-

do que temos é o conteúdo que nos mandaram, e isso importa

Mas não só É essencial sublinhar outras datas entre fevereiro e março que celebram tantos problemas que a nós são tão sensíveis: o Dia da Mulher e o Dia do Estudante, de modo a relembrar que a luta não é sobre um de nós, mas de tod@s, procurando sempre um jornal interseccional a tod@s Considera-se que, enquanto jornal universitário, é necessário celebrar o trabalho que vem sendo feito ao longo dos anos, nas mais diversas áreas da sociedade, dando palco àqueles que diretamente lidam com estas questões Afinal, este é e sempre será um jornal de estudantes para estudantes Por isso, redigir uma edição focada nestas narrativas significa compreender que,

Editorial

mesmo não sendo nossas, elas merecem o momento de destaque hoje e amanhã É nossa responsabilidade refletir sobre qual é o nosso papel na desconstrução destas problemáticas, o que considero ser poder difundir conhecimento de qualidade à nossa comunidade r a a e e a , s e ,

Foto: Tália Moniz

Fonte:SmartAcademyAveiro

24deMarço:a MemóriadoDia Nacionaldo Estudante

DiogoMotaDuarte

O Dia Nacional do Estudante, 24 de março, foi estabelecido pela Assembleia da República em 1987 mas, a sua história antecede a própria democracia portuguesa e configura-se como um marco de resistência e liberdade associativa Voltemos ao ido ano de 1962, em pleno Estado Novo Um ano que, à semelhança do ciclo solar que o antecede, não dispensou fortes abalos ao regime de Salazar – as ações de resistência multiplicam-se pelo país, como o assalto ao quartel de Beja e o desvio do paquete Santa Maria, sendo recebidos com crescente repressão estatal No plano estudantil, o clima reivindicativo aquecia, num contexto de cada vez maior discussão política e associativa, que leva ao fracassado Encontro Nacional de Estudantes, reprimido pelo Estado Novo Poucos dias mais tarde, a comemoração do Dia Nacional do Estudante, a realizar-se entre 24 e 26 de março, é também proibida por um regime fragilizado e receoso do poder do movimento estudantil – o rastilho para o despoletar da Crise Académica de

1962, em Lisboa, onde milhares de estudantes se concentram na Cidade Universitária, em protesto aberto contra as determinações do então Ministro da Educação, Lopes de Almeida Como seria expectável, este vasto movimento de protestos e greves às aulas é combatido pela PIDE, levando à detenção de estudantes e, ultimamente, contendo a Crise Ainda que contida, a tampa da panela de pressão tinha sido levantada; o vapor fulguroso da contestação estudantil fora liberto, independentemente da repressão violenta que o perseguia

Sete anos mais tarde, os estudantes inauguram um novo período tumultuoso para o Estado Novo, com o despoletar da Crise Académica de 1969 Durante uma inauguração com a presença do Presidente da República, Américo Thomaz, os estudantes foram impedidos de se manifestar contra o regime fascista de Salazar Em resposta, mobilizaram-se durante meses através de greves e outras formas de protesto, mas a repressão do Estado, incluindo a polícia política, tentou silenciar o movimento Embora desmobilizadas, as crises estudantis configuraram-se como momentos de verdadeira ruptura com o Estado Novo, desempenhando um papel fulcral na consciencialização social dos excessos da ditadura Antes de qualquer sonho de golpe militar ou revolução popular, os estudantes suaram e sangrarampelademocracia

Não obstante, o Dia Nacional do Estudante não se desvaneceu no sonho democrático – muito pelo contrário Não só durante a revolução mas também depois dela, o 24 de março permaneceu enquantoumsímbolotransversaldalutaestudantil por um ensino verdadeiramente democrático, isto é,gratuitoeuniversal–àmercêdetodos Em1992, confrontadoscomadecisãocavaquistadeimpora propina como condição de acesso ao ensino superior, milhares de estudantes em todo o país saíram à rua para reivindicar a gratuidade do acesso à universidade, procurando evitar que o caminho de democratização conquistado nesta esfera da sociedade portuguesa não sofresse uma viragem de 180 graus Nesse mesmo ano, uma concentração estudantil é violentamente reprimidaàsportasdaAssembleiadaRepública

Em suma, a memória do dia 24 de março é a memória de uma incessante luta dos estudantes pelos seus direitos, bem como das adversidades que lhes foram impostas fruto desse confronto Recordar o caminho percorrido pelo 24 de março é, também, reconhecer a sua atualidade na conjuntura que vivemos, em que observamos ofensivas constantes da classe política a um ensino verdadeiramente democrático Contra o aumento das barreiras ao ensino superior e por melhores condições de estudo e habitação, também em 2025 os estudantes saem à rua para reivindicar o que é seu por direito, segundo a Constituição da República Portuguesa – a democratizaçãodaeducação

Dissimulação

daxenofobia

nodiscursoda extremadireita portuguesa

CarolinaGonçalves

A imigração ocupa uma posição central no debate político nacional, sendo uma das temáticas mais exploradas pela extremadireita Nos últimos anos, os partidos de extrema-direita têm procurado reformular a sua narrativa anti-imigração em Portugal Se anteriormente o discurso estava maioritariamente centrado em questões económicas, hoje os principais argumentos desses partidos incidem sobre a suposta insegurança, a sobrecarga nos serviços públicos e a diluição da identidade nacional

A narrativa da extrema-direita portuguesa, representada principalmente pelo partido Chega, insere-se num contexto europeu mais amplo Partidos como a Frente Nacional, em França, ou a Liga, em Itália, utilizam a imigração como bode expiatório para justificar os problemas enfrentados pela sociedade, causados, sobretudo, por décadas de políticas neoliberais de sucessivos governos

A extrema-direita mascara as reais origens estruturais dos desafios atuais, como a falta de investimento no setor público e as graves falhas no setor da habitação, com discursos de ódio xenófobos Em Portugal, o partido Chega segue esta estratégia, explorando o medo e a desinformação para disseminar a falsa narrativa de que os imigrantes são responsáveis pelo aumento dos níveis de criminalidade e têm um impacto negativo na economia No entanto, recorrendo a mecanismos de fact-checking e a estudos sociológicos, facilmente se demonstra que estas alegações não têm fundamento Estudos realizados em Portugal, nomeadamente pela socióloga Catarina Reis Oliveira, refutam a ideia de que a presença de imigrantes está associada ao aumento da criminalidade Pelo contrário, municípios como Odemira e Vila do Bispo, que apresentam duas das maiores taxas de residentes estrangeiros no país, registam níveis de criminalidade inferiores à média nacional

No plano económico, os dados contrariam igualmente a narrativa da extrema-direita Os

imigrantes foram responsáveis por um saldo positivo de 1604,2 milhões de euros na Segurança Social, quase o dobro do valor registado quatro anos antes, contribuindo assim para o crescimento económico do país

Apesar da contribuição positiva dos imigrantes para a economia portuguesa, a sua importância não se deve resumir a este fator A extrema-direita persiste numa visão redutora dos imigrantes, tratando-os apenas como uma força de trabalho necessária ao funcionamento do aparelho económico nacional Esta visão utilitarista dos imigrantes é perigosa, pois conduz frequentemente à sua exploração em função das necessidades do mercado, perpetuando a sua marginalização, desumanizando-os e tratando-os como meros recursos descartáveis e ignorando a sua dignidade e os seus direitos fundamentais

Outra das narrativas que a extrema-direita tem vindo a pôr em prática é a imposição cultural O partido Chega tem demonstrado tremendo desrespeito pela identidade cultural dos imigrantes e pelas respetivas manifestações da mesma, apelando a uma homogeneização cultural Esta ideia vai contra a integração genuína dos imigrantes na sociedade portuguesa, levando a um sentimento de alienação e perda de identidade por parte das comunidades migratórias, criando grandes clivagens na sociedade, em lugar de a tornar mais coesa

A visão da extrema-direita representa, assim, um atentado à liberdade cultural e aos direitos humanos, ao exigir que os imigrantes abdiquem das suas tradições, crenças e culturas em nome de uma assimilação forçada à cultura nacional dominante Em oposição a esta perspetiva, deveria ser incentivado o intercâmbio cultural, respeitando a diversidade e rejeitando um modelo de sociedade homogéneo e excludente A valorização da diversidade não enfraquece a identidade nacional, mas antes a enriquece, tornando o país mais inclusivo e plural

Em suma, a abordagem da extrema-direita à imigração em Portugal baseia-se em narrativas distorcidas e preconceituosas, que visam desinformar e dividir a sociedade As alegações que associam os imigrantes ao aumento da criminalidade e a problemas económicos são amplamente desmentidas por estudos e dados concretos Além disso, a tentativa de impor um modelo cultural homogéneo enfraquece a coesão social e compromete a integração dos imigrantes, ao invés de a fortalecer A estratégia da extremadireita de culpar a imigração pelos problemas da sociedade revela-se infundada e irresponsável, refletindo uma agenda movida pela xenofobia e pela intolerância

CarolinaGonçalveseIúriSoares

Tarifaseo Imperialismo Americano

IúriSoares

A palavra que melhor caracteriza o alarido que a política norte-americana está a causar no Sistema Internacional nas últimas semanas é a “tarifa”, mais concretamente a multiplicidade da aplicação destas para diferentes países como o Canadá, a China ou o México As tarifas são um imposto sobre as importações e exportações de produtos entre países visando regular o comércio exterior de forma a promover e proteger a indústria nacional, daí serem, geralmente, adotadas aquando da adoção de políticas económicas protecionistas Portugal, devido a estar condicionado pela União Europeia, encontrase limitado na sua autonomia para aplicar tais tarifas, adotando as abordagens praticadas pela Organização Internacional, que estão orientadas para o livre-comércio, ou seja, aplicando uma tendência de redução ou remoção completa destas tarifas internamente e externamente

Sendo os Estados Unidos da América o pilar do capitalismo contemporâneo e do laissez-faire, a adoção de medidas protecionistas enfatizadas por Donald Trump pode parecer contraintuitiva tendo em conta a essência neoliberal que ambos os principais partidos norte-americanos e o aparato governativo construído por estes possuem, porém é necessário uma análise material do contexto político norte-americano Tanto o Partido Democrata como o Partido Republicano são apoiados pelas diversas alas da burguesia, inclusive muitas das vezes uma mesma organização suporta financeiramente ambos os

partidos, ainda que em quantidades monetárias diferentes, de forma a garantir que propostas de lei a seu favor sejam concretizadas Este “lobbying” explica-nos a origem destas tarifas: as indústrias nacionais norte-americanas beneficiam-se com estas medidas, apoiando-as abertamente, tal como o fez, por exemplo, Leon J Topalian, CEO da Nucor, a maior produtora de aço do país

É importante salientar que a aplicação de tarifas não é uma novidade, estas já foram aplicadas na anterior administração de Trump com resultados bastante danosos: segundo o artigo “The Impact of the 2018 Tariffs on Prices and Welfare” escrito por Mary Amiti, Stephen J Redding e David E Weinstein, estas foram aplicadas em 2018 em 5 “waves” que causaram impactos negativos para os consumidores domésticos e o aumento dos preços dos bens dos setores afetados pelas tarifas que causaram custos estimados de 8.2 bilhões de dólares durante 2018 para o Estado norte-americano

As tarifas são então uma tentativa de demonstração, com resultados desastrosos para o povo norte-americano, do imperialismo dos Estados Unidos que visa provar a sua superioridade no Sistema Internacional e, simultaneamente, subjugar o resto do mundo aos seus interesses ao tentar quebrar a estabilidade económica dos seus parceiros comerciais, especialmente aqueles que não possuem meios de compensar a sua dependência económica com o Estado americano, sendo este cenário alarmante tendo em conta as ambições expansionistas da administração de Trump que quer “comprar” a Gronelândia e ocupar a faixa de Gaza, expulsando os palestinianos do seu território e ignorando os princípios do Direito Internacional

Oqueseestáa passarna República Democrática doCongo?

PerguntaseRespostas

MargaridaFinisterra

No início deste ano, o movimento rebelde M23 obteve importantes ganhos territoriais na República Democrática do Congo, intensificando a crise humanitária do país e fazendo aumentar os receios de uma guerra regional alargada

Após conquistar as cidades de Katale, Masisi, Minova e Sake, os rebeldes capturaram, a 26 de janeiro, Goma - capital da província de Kivu Norte, com 1 milhão de habitantes Apesar do anúncio, a 4 de fevereiro, de um cessar-fogo unilateral pelo M23, este continua a avançar no terreno em direção a sul O grupo tomou o controlo do aeroporto de Kavumu e, no dia 14 de fevereiro, entrou em Bukavu, a segunda maior cidade do Leste do país

Apesar dos apelos internacionais à paz e da condenação do Conselho de Segurança dos avanços do M23, ainda não foi encontrada uma solução para pôr fim à crise na RDC

O que é o M23?

MargaridaFinisterra

do pela sua integração e protegendo-os contra grupos rebeldes Hutus, tal como as Forças Democráticas para a Libertação de Ruanda (FDLR) Este grupo foi fundado, em 2000, por Hutus que fugiram do Ruanda após participarem no genocídio de 1994, que matou mais de 800 mil tutsis e hutus moderados O Ruanda, liderado desde 2000 por um presidente tutsi, afirma que a presença da FDLR no Congo representa uma ameaça à sua segurança e acusa o exército congolês de fornecer apoio à milícia

Qual é o envolvimento do Ruanda no conflito?

O Ruanda tem uma longa história de intervenção militar na RDC Já invadiu o país duas vezes (em 1996 e em 1988), afirmando necessitar de combater os Hutus responsáveis pelo genocídio de 1994

A República Democrática do Congo e diversos países como os EUA e a França acusam o Ruanda de apoiar e financiar o M23, o que é negado pelo Presidente ruandês, Paul Kagame Segundo a ONU, a Força de Defesa do Ruanda ajuda o M23 com equipamento, apoio logístico e tropas, possuindo alguns milhares dos seus homens a combater no Congo Já os oficiais ruandeses sustentam que as suas tropas estão posicionadas na fronteira para prevenir um alastramento do conflito Além das motivações securitárias, o Ruanda possui motivações económicas De facto, a RDC e vários relatórios da ONU acusam o Ruanda de utilizar o M23 para ter acesso aos recursos minerais do Congo, recebendo uma parte destes materiais valiosos e, depois, exportando-os

O M23, abreviatura de Movimento 23 de março, é um grupo militar rebelde liderado por congoleses de etnia tutsi É um dos mais de 100 grupos armados que lutam contra as forças congolesas no leste da RDC - uma zona muito rica em ouro, metais raros e outros minerais O M23 opera, sobretudo, na província do Kivu Norte, na fronteira com o Uganda e o Ruanda, e possui mais de 8 mil combatentes O nome do grupo deriva do acordo de paz de 23 de março de 2009, assinado entre o governo congolês e o grupo armado Congresso Nacional para a Defesa do Povo (CNDP) Com este acordo, o CNDP, composto maioritariamente por tutsis, transformou-se num partido político e integrou a sua fação armada no exército da RDC Já em 2012, antigos membros do CNDP, devido a um alegado incumprimento do acordo de paz, sublevaram-se e desertaram do exército, formando, de seguida, o M23

Quais são os objetivos do M23?

O movimento afirma que o seu objetivo é defender os interesses dos tutsis na RDC, lutan-

Fonte:Euronews

A ofensiva militar do M23 começou este ano?

Não, a atual insurgência militar iniciou-se há cerca de quatro anos, sendo que os combates entre o M23 e as forças congolesas remontam há mais de uma década De facto, após a sua formação, o movimento rebelde obteve, em 2012, ganhos territoriais significativos no leste da RDC, tendo mesmo conquistado a capital provincial de Goma Contudo, em 2013, os rebeldes foram derrotados por uma operação conjunta do exército da RDC e das forças da ONU Após anos de inatividade, em 2021, o grupo recomeçou os combates contra as Forças Armadas da República Democrática do Congo, desenvolvendo uma forte ofensiva no nordeste do país Desde então, houve alguns cessar-fogos pontuais e várias tentativas de conversações de paz, sendo que o M23 foi, progressivamente, aumentando o seu território

Em maio de 2024, o M23 passou a controlar a região mineira de Rubaiyat, rica em coltan (essencial para a indústria eletrónica) Desde então, segundo um relatório das Nações Unidas, o grupo arrecadou, pelo menos, 767 mil euros por mês em impostos sobre a produção e comércio de coltan e enviou, a cada 4 semanas, cerca de 120 toneladas do mineral para o Ruanda

Qual o impacto humanitário do conflito?

Segundo um balanço provisório da ONU, os combates já causaram, pelo menos, 2 900 mortos, mais de 500 mil deslocados e milhares de feridos Apesar de ainda não se conseguir medir exatamente o impacto do conflito sobre os civis, as organizações humanitárias têm alertado para a deterioração da situação do país, que possui mais de 6 milhões de deslocados No decurso dos combates, já foram relatadas inúmeras atrocidades e o grupo M23 é acusado de recrutar crianças, perpetuar execuções sumárias, violações e outros atos de violência sexual - um fenómeno sistemático no país Em janeiro, depois do grupo entrar em Goma, o caos na cidade levou à fuga em massa de uma prisão, durante a qual mais de 100 prisioneiras foram violadas e queimadas vivas pelos prisioneiros masculinos

Sobrememória: amensagemde “AindaEstou Aqui”

O filme Ainda Estou Aqui, realizado por Walter Salles, tem enchido as salas de cinema em Portugal e levado o Brasil às mais variadas revistas, plataformas e premiações internacionais Ao carregar consigo uma mensagem tão importante como atual, Fernanda Torres tem sido exemplar ao exprimir o caráter político e histórico do filme em todas as entrevistas e comunicações que tem feito: lutar pela memória da ditadura militar brasileira é fazer justiça não só à resistência e às vítimas, como à História em si O meu ponto de partida é uma das cenas finais, em que Eunice Paiva, ao levantar finalmente o certificado de óbito do marido assassinado pela ditadura, é questionada pela comunicação social se a recém-formada democracia brasileira não deveria ter outras prioridades que não a reconciliação com o passado ditatorial, ao que ela responde firmemente ‘não’ Esta é, no fundo, a mensagem que o filme e a própria Fernanda Torres têm vindo a reforçar: mais do que um ‘drama’ ou ‘trama’ histórico, Ainda Estou Aqui surge não só enquanto uma forma de rememoração de um passado ‘vizinho’ e dos seus mecanismos políticos de repressão, perseguição e secretismo, como uma homenagem às resistências trabalhista, comunista e socialista brasileiras durante os 25 anos de ditadura, encarnadas por Rubens Paiva Assim, numa clara lógica de contrariar os objetivos da ditadura militar de remeter estes temas e vozes ao esquecimento, o filme contribui

para o desenvolvimento de uma memória histórica coletiva da ditadura militar no seio da sociedade brasileira (e não só) Isto, face à emergência de forças políticas reacionárias, conservadoras e apologéticas para com este passado, configura uma imensa importância cívica e social à obra de Walter Salles – em especial por denunciar as prisões políticas, a tortura e os meios através dos quais a ditadura tentou ‘eliminar’ estas vozes resistentes Ainda Estou Aqui responde precisamente ao afirmar que a memória desse passado e destes milhares de opositores ‘ainda está aqui’

Esta rememoração ganha outra dimensão face aos tempos em que vivemos: ao ouvirmos Elon Musk numa conferência da AFD (partido da extrema-direita alemã) a apelar para que os alemães se libertem da ‘past guilt’, ou ao assistirmos à normalização do neofascismo em Itália, devemos seriamente refletir sobre a importância de lutar e contribuir para a preservação de uma memória coletiva (nacional) destes passados históricos Seja a transformação das antigas prisões fascistas portuguesas, o Forte de Peniche e o Aljube, em Museus de Resistência e Liberdade, seja através do filme, é essencial lembrarmo-nos que as nossas democracia e liberdade não são garantidas Fernanda Torres veio até lembrar-nos, numa entrevista feita à revista norte-americana Variety, que o golpe militar de 1964 não foi alheio às dinâmicas históricas da Guerra Fria, tendo sido diretamente apoiado pelos EUA, numa lógica de derrubar o democraticamente eleito presidente trabalhista João Goulart Durante os 25 de anos de ditadura, os EUA mantiveram boas relações com o regime militar antidemocrático Com esta nota termino, reforçando a necessidade de uma contínua rememoração histórica (coletiva) dos passados fascistas e ditatoriais – que assombram a política de hoje – para a qual o filme Ainda Estou Aqui veio brilhantemente contribuir

SerMenos

Mulher

Será que quem inventou a palavra “mulher" tinha um significado específico em mente? Ou abraçava a complexidade do conceito? Provavelmente a primeira, que depois evoluiu para slogans estereotipados como “Be a Lady”

É muito simples: se não obedeces ao comportamento padrão estipulado pela sociedade patriarcal, não és mulher Quer tenha sido o homem a criar a “imagem perfeita” ou a mulher a criar expectativas, o que é certo é que existe um código legislativo bastante exigente a operar na clandestinidade Estou cansada de tentar pro-

var o meu valor e de não ser aprovada pelas pessoas que me olham de lado, pensando que sou algum “extraterrestre” Na verdade, o vestido que a sociedade quer que eu use não me serve

Como assim não sou “suficientemente mulher”? Só porque a minha aparência é uma distorção da imagem perfeita da esguia e curvilínea figura? Não sou a Marilyn Monroe, sou eu própria, descobrindo o meu caminho na errónea banalidade Não me identifico com um estilo de vida em que o meu exterior seja uma prioridade Não me depilo, nem me maquilho, nem vou ao cabeleireiro duas vezes por mês para arranjar as unhas, o cabelo e/ou as sobrancelhas Aprecio demasiado o conforto para me render a saias ou a saltos altos Além disso, as jóias não me fazem sentir mais mulher, logo “diamonds are not a girl 's best friend” Ai o aspeto físico, o cúmulo dos meus pesares Ninguém se cansa de comentar que os meus definidos bíceps são maiores do que os de muitos homens, que eu devia ter o corpo de uma bailarina, não de uma halterofilista E as mulheres não combinam com certos desportos, não é? Porque a escolha foi mesmo determinada à minha sagrada nascença Ginástica e não atletismo Voleibol, em vez de futebol Divertidíssimo

O género sempre foi alvo de exclusão e discriminação, mas o mais assustador é, de facto, a dissimulação das microagressões dentro do próprio género feminino, em que o apoio mútuo se esvai tão rápido como o dinheiro na nossa carteira Por exemplo, se não és loira, não podes representar a Virgem Maria Se o és, serás para sempre considerada burra ou superficial Consequentemente, questionome acerca dos direitos das mulheres: serão mesmo para todas? Ou a lei não se aplica às de outras etnias e às prostitutas? Será que o privilégio é suficiente para o julgamento constante de quem se encontra “de fora”?

Uma verdadeira mulher é aquela que obedece ao homem, sem reclamações ou manifestações sonoras O nosso lugar é no ambiente caseiro, a cozinhar e a limpar o pó para a felicidade do homem, que é também a nossa Há só um pequeno problema: sou desarrumada e um zero à esquerda nas tarefas domésticas Peço também desculpa aqui, neste humilde texto, por desrespeitar as regras de etiqueta Perdoem-me por me sentir sempre esfomeada e comer “demais” (mesmo não sabendo confecionar alimentos, outro ultraje à minha espécie) Perdoem-me também por rir alto das piadas mais secas e por, quando a felicidade ou opiniões não solicitadas me atingem, querer gritá-las aos quatro cantos do mundo Penso que vou ter de aceitar que a delicadeza e a sensualidade não são o meu forte, e que não existe nenhum

Fonte: JustWatch
MarianaAleixo

manual capaz de mudar a minha irreverente personalidade

Já repararam que a hierarquia ainda se agrava nos momentos de comparação de preferências? Em pleno século XXI, há ainda quem defina as mulheres como os formosos seres que não abdicam do seu chá das 5, veneram o cor-de-rosa e crescem com(o) princesas, não tendo as capacidades suficientes para conquistarem certos domínios (a informática, a Ciência, etc ) E aquela brilhante ideia de que quem tem menos sensibilidade é menos mulher? Às vezes, já não sei para que lado me virar Admito que observar o sexo masculino a assustar-se com filmes de terror me dá um sabor agridoce, por duvidar se estou a ter a reação certa

Assim, dedico toda a minha indignação às mulheres que se sentem sozinhas, por acharem que estão a enveredar por um caminho que não é o seu Na realidade, a sociedade é uma confusão, por isso devemos ignorar o burburinho e satisfazer os nossos próprios desejos (sem ultrapassar a liberdade do outro, claro) Ser mulher é uma sensação visceral e pessoal, não tendo quaisquer requisitos (talvez apenas ser incompreendida)

Como defende Judith Butler: se o género é uma construção social, então é possível desconstruí-lo A difusão de novas perspectivas está nas nossas mãos Por fim, é normal uma pessoa não se enquadrar num estilo girly, pois ele não existe, é uma concepção mental Se eu quiser, o meu dia-a-dia preguiçoso e caótico é girly, dado que qualquer ser humano deve ter o direito de compor a harmonia da sua existência Logo, proponho, inspirada pelo Manifesto Ciborgue de Donna Haraway, a parcialidade do conceito polissémico de Mulher, com uma infinitude de possibilidades Fora as check-lists aesthetic do Pinterest! Viva a especificidade de inúmeros lifestyles! How to be “That girl”? Just be yourself

Thewoman experience:a three-partstudy

As International Women's Day approaches, it is important to remind ourselves that being a woman is not as easy as everyone wants to portray, but it's even more important to remind ourselves that the experience of being a womanisnotequaltoeveryone So, for this ar-

ticle, three women from three different countries and continents were interviewed so we can try and grasp a little of the women's experience globally

As an East Asian woman, anonymous states that in her home country, she doesn’t notice much sexism However, she believes that Asian women bear a lot of racism and prejudice from the rest of the world, even in the media “America and Western media smear us all the time, from our appearance to our behaviour and values”, she says When asked specifically if she feels like she’s treated differently for being a girl, she answers that maybe on the internet, because, as she states, “some men are disgusting” She also mentions a very popular video in East Asia, where some utterly sexist and racist message is displayed by a man who confidently states “fucking chinese rolls is about as easy as is buying like a cheap stake here in Brazil, very easy I would recommend”

She then asked me if many people really think they should be ashamed of liking asian girls and if people in Portugal really think that Asian girls are “cheap and easy”. When I said that I’ve personally never heard this type of comment here, in my home country, she stated: “East Asian people think Europeans think of us in this way”

As for Letícia, a brazilian woman, she believes that, unlike Portugal, women in Brazil are more able to lead an independent life She states: “Brazilian society, although still extremely patriarchal, is able to see them as their own beings and sometimes even encourage their independence We can see women in charge and they aren’t usually doubted. On the other hand, from what I have experienced and seen, they are objectified and sexualised more often” She also says that women from Brazil are usually stereotyped as hypersexual, exotic, easygoingwhen, in reality we are really diverse people, not only ethnically, but, above all, personality-wise “It is extremely hard to be reduced to a fetish”, Letícia admits

She also shares that although in Portugal she was never discriminated against or heard discriminating things directly to her face, she has felt fetishized for being Brazilian before “I’ve heard all types of allegations about Brazilian women I’ve heard that we are prostitutes; that we only come to this country in hopes of finding Portuguese men and stealing them from their wives.” When asked if she thought that woman from her country were treated differently in another countries, she responded: “Absolutely I believe our culture has everything to do with the way we are perceived and perceive others And some countries are deeply rooted in their misogynistic beliefs Also, every society has their stereotype for other communi-

ties, therefore they react to and interact with us accordingly” Letícia’s opinion about the female experience ended her interview with the most beautiful statement, where she said:

“Apart from the downsides, I wouldn’t trade it for anything. Being a woman and having other women around is such a blessing and so beautiful to experience It can be exhausting and I wish that wasn’t part of it, but still, realizing we are more than what they try to portray us to be is so freeing Once one releases oneself from the shackles of patriarchy is when they really understand that being a woman is much more than they told us, and much better ”

On the other hand, Beatriz, a woman who lived both in Switzerland and in Portugal, can clearly show us the differences between both cultures She states that, in Portugal, she feels that women are seen by some as objects, due to the lack of education given to certain boys, although she believes that not all men are like that “But, for example, a woman cannot go out alone at night, and if she does, she has to be very careful; or, for another example, women get whistled at in the streets and hear words that make them feel awkward”, she states

In Switzerland, despite being young, Beatriz admits that she always felt like women were considered inferior, even in school and workplaces When asked about stereotypes, Beatriz answered that whereas in Portugal there’s maybe this idea of a certain body type for women, in Switzerland she never really noticed that, except in terms of fashion, as if when girls didn’t wear a certain type of jeans, they were considered weird She also added that in Switzerland she had African classmates and noticed that her Swiss colleagues only had racist attitudes and behaviours towards the African girls, and not towards the boys that shared the same backgrounds with these girls Beatriz has, without a doubt, felt discriminated against for being a woman, having given examples such as PE professors in highschool who never gave girls higher grades than the boys and claimed that boys were stronger, or a teacher who only answered the boys’ questions and never the girls’ She also said that, in spite of never having worked, she feels that women earn less than men for the same jobs and that women are not being taken seriously, which she feels is unfair In her opinion, the experience in both countries ends up being the same, as women constantly suffer from vile comments She re-

calls a male arts and crafts teacher she had in Switzerland, who tried to touch girls under the excuse of helping them When he was unsuccessful with her, given that she smacked his hand, he scheduled a detention for just both of them on an off day- which she didn’t attend “I never talked about this to anyone in school, although I told my parents, but if he had done something more, I would’ve told someone However, he didn’t touch me, so I was fine”

When asked about how she felt in general about being a woman, Beatriz responded in the most truthful way possible, stating:

“Being a woman is good and complicated, it's difficult to deal with your day to day life as a woman, because you know that you have to pay attention to where you go alone, how you dress, or how you act, but I think that a woman has the right to choose her clothes, express herself and go to places by herself. The problem starts with the look of certain men and the country we live in, but when we know how to use "being a woman " to our advantage - that is, living in a way that makes us happy, this gives us strength”.

She also recalled something that happened in Switzerland, when she was just 12, that she remembers to this day: an encounter with a man in a car where he stopped the car to harass her and her friend, due to the completely normal shorts they were wearing She says that, at that age, she wasn't aware of the danger, but today she thinks about it and it’s something to completely despise

Through these shared stories and experiences, we notice that sexism and harassment are not directed to one country, one color, one place or one age and that is why feminism is still needed world wide, especially with all the restrictions to women's rights we’ve been witnessing around the world.

We need feminism because this is the “woman” experience, globally

Prostituiçãoé exploração

“Trabalhadoras do sexo”, chamam-lhes eles Hoje, é cada vez maior a disseminação do discurso da banalização da prostituição, como

se fosse “um emprego como outro qualquer”, “umaopçãodamulher”,ouainda,“umaforma de empoderamento feminino” Na realidade, este tipo de retórica não faz mais do que legitimar a exploração, opressão, violência e sexualizaçãodamulheredoseucorpo

A prostituição é um problema social que acompanha e se aprofunda com a agudização das desigualdades e da pobreza, sofrendo um aumento exponencial em períodos de maior crise, como consequência do aumento do desemprego, grandes momentos de aperto financeiro, entre outros fatores, tendo o seu foco em mulheres trabalhadorasprecáriase/oucrianças

É, naturalmente, indissociável das desigualdades entre homens e mulheres, desde logo porque não existe, nem é concebível no seu seio, uma relação de igualdade entre os dois indivíduos, pois pressupõe intrinsecamente a dominação pela compra de um e a subordinação de outrem Atua como um negócio onde é criado um mercado, engendrado e comandado pelo proxeneta de forma a garantir o aumento do seu lucro, no qual ao comprador pertence o papel central de disseminação

A mulher, enquanto elo mais frágil deste sistema de lucro organizado, encontra-se aprisionada a esta realidade, reclusa na mão do proxeneta, cujo único propósito é o aumento das suas receitas por via da exploraçãodemulheresecrianças

Posto tudo isto, ainda há quem se posicione ao lado dos proxenetas e queira trazer para cima da mesa a legalização do lenocínio, “como aconteceu na Holanda ou na Alemanha”, alegando ser uma forma de proteção da mulher E resultou tão bem, como sabemos, pois qual não é o nosso espanto quando olhamos para o concreto e verificamos que são estes países (onde o lenocínio é legal) que têm maiores taxas de tráficohumanodemulheresecrianças

Contrariamente àquilo que nos querem fazer crer, este problema não se resolve recorrendo a enquadramentos legais, mas sim com o combate de fundo às desigualdades sociais, desde logo com melhores condições de vida para os trabalhadores, com o combate às desigualdades entre homens e mulheres e comadignificaçãodamulher

A prostituição é a mais dantesca forma de violência e exploração contra a mulher, mas não diz apenas respeito às mulheres que recorrem, recorreram ou poderão vir a recorrer à prostituição, mas sim a todas as mulheres que, dia após dia, lutam pelo fim de todas as formas de discriminação, dominação eexploração

O combate à prostituição está intimamente ligado à luta pela liberdade da mulher poder decidir sobre a sua vida e o seu futuro, pela igualdade no trabalho, na família, na vida social,políticaecultural

Pelo combate à prostituição e a todas as formas de discriminação, termino este texto apelando à mobilização para a manifestação nacional de mulheres, dia 8 de Março, às 14h30, nos Restauradores, organizada pelo Movimento Democrático de Mulheres, a única organização consequente na defesa dos direitos das mulheres e que não tem enganos quanto à questão central - a prostituiçãoéexploração!

Não

LeonorMoreira

Sobre a experiência de se ser mulher na ditadura salazarista; mulher da “metrópole” enviada para as ditas colónias ultramarinas para “colonizar” e “civilizar”; mulher forçada a casar com um estranho; mulher vítima de um sistema que lhe tirou tudo; mulher sem liberdade, sem esperança, sem alento

Mas eis que, no fim, a emancipação estende-lhe a mão

"Um dia vais aprender

Com quantos paus

Se faz uma canoa",

Disse-me a voz rouca do destino

Toma um papel

Não te confundas, não sou tua

Sou água que passa, que pára E bates

Sou lágrima que seca, que cala E bates

Eu aqui, já afónica

Odeio a água que me levou a ti

O choro que me trouxe aqui

A vida que não pude sentir

O colo de onde corri

Mas não

Não sou pau, não sou canoa

Sou epifania

Que de vez em quando voa

Não sou pau, não sou canoa

Sou alegria

De mim já ninguém me rouba

MÊSDA HISTÓRIA NEGRA

FEB01 MAR01

1915

50 anos após o fim da escravatura nos Estados Unidos da América (EUA), o historiador Carter G Woodson e o ministro Jesse E Moorland co-fundaram a Association for the Study of Negro Life and History (ASNLH), cujo objetivo principal era pesquisar e promover as conquistas da comunidade afroamericana e descendentes de africanos. Atualmente, a organização é conhecida como Association for the Study of African American Life and History (ASALH)

FrederickDouglass-EstadistaeexembaixadordosEstadosUnidosnoHaiti Abraham Lincoln

1940

A partir da década de 1940, observou-se uma ascensão de um movimento sobre os direitos civis e, mais tarde, o aumento de uma “Black consciousness”, o que contribuiu para que a celebração passasse a ser mensal, ao invés de semanal

1926

Esta mesma associação denominou a segunda semana de fevereiro, de cada ano, como Negro History Week, com o intuito de reconhecer as contribuições dos afro-americanos na História dos EUA A escolha desta semana para a celebração teve por base as datas de nascimento do ativista Frederick Douglass (14 de fevereiro de 1818) e do 16º Presidente dos EUA, Abraham Lincoln (12 de fevereiro de 1809), duas figuras centrais na abolição da escravatura de pessoas negras neste país Era proposto, então, que este evento fosse celebrado em escolas e comunidades locais, através da formação de clubes e realização de palestras, por exemplo

ContextualizaçãoMêsda HistóraNegra

Assim, o evento passou a chamar-se Black History Month, em 1976, depois de o Presidente Gerald Ford considerar que seria necessário honrar os feitos negligenciados dos afroamericanos nas diversas áreas sociais e políticas, ao longo da História Desta forma, o Black History Month abarca todos os períodos da História dos EUA, honrando, não só os escravos trazidos de África desde o início do século XVII, como também a comunidade afro-americana que reside no país atualmente

PresidenteGeraldFord

Atualmente

Esta celebração não se cinge aos EUA, tendo o Reino Unido, o Canadá, a Alemanha e os Países Baixos celebrado o contributo das pessoas negras na sua história e cultura O tema das celebrações deste ano é African Americans and Labor, direcionando o foco para todas as formas de trabalho, relacionando-o com as diferentes experiências da comunidade

Nomes como Martin Luther King Jr, Thurgood Marshall, Harriet Tubman, Sojourner Truth, Marcus Garvey, Mae Jemison, Malcolm X, Rosa Parks e Barack Obama são normalmente destacados nesta celebração enquanto figuras que lutaram pela igualdade de direitos ou por serem os primeiros afroamericanos a alcançar cargos de destaque em áreas como a política, a ciência, entre outras

HarrietTubman
Martin LutherKing Jr,ThurgoodMarshall
MaeJemison

Não-Lugar

Toda a vida habitei um não lugar O não lugar tem paredes, mas não tem porta; tem telhado, mas não tem teto; tem quadros, mas não tem janelas No não lugar a luz entra através de frestas e o barulho intensifica-se nas arestas O não lugar é vago, mas sufoca, transparente por dentro mas, por fora, baço

Aos cincos anos, comecei a reconhecer esse não lugar Comecei por perceber a falta de janelas, mais tarde descobri que não tinha porta e, recentemente, percebi a ausência de teto

Nessa altura, o meu lugar tão firmemente estabelecido começava a perder firmeza A principal culpada? A minha barbie favorita, de longos cabelos loiros Lembro-me de olhar para o meu cabelo e de o desprezar, passar horas ao espelho numa tentativa fracassada de o pentear Usá-lo solto? Jamais Não o via (nem me via) nem na barbie, nem na televisão, nem nos jogos, nem nas imediações

E se, aos cinco anos, os meus cabelos constituíam a minha maior arrelia, aos onze anos a culpa da usurpação da mobília passou a ser dividida Começando pela queratina e terminando na melanina, a diferença que eu sentia permanecia Fui para uma escola nova e, sendo das poucas pessoas negras que lá havia, já seria de se esperar que a minha alienização começaria E uma dúvida sobre mim se abatia – eu não devia estar feliz pela excessiva surpresa demonstrada pela professora, quando eu mostrava que sabia a resposta do problema? Ou ainda, não me devia sentir lisonjeada, quando o meu cabelo era motivo de conversa e os meus colegas com as suas mãos sebosas tocavam nas suas mechas? Talvez devesse, mas não sentia E o não lugar continuava a perder mobília

Aos treze anos descobri que não era bonita, e encontrar culpados deixou de ser importante Dos rapazes não era a favorita, o que não me importava assim tanto, desde que a pauta se mantivesse exímia, afinal era o único poder que eu ali tinha

Aos quinze anos descobri o que era a representatividade, o que se revelou sagrado para mim, naquela idade

Aos dezoito anos, entrei na faculdade e constatei, uma vez mais, que tinha o poder da invisibilidade Novas questões começaram a ser por mim colocadas Não seriam as pessoas racializadas boas o suficiente para também ocuparem este lugar? Sou privilegiada ou apenas tolerada? O meu não lugar materializou-se numa instituição em que nunca fui vista como igual, talvez porque tudo o que quisessem era ver-me lá, mas a limpar o chão

Querido professor, será que naquela aula eu merecia aquela humilhação? Ou, professora, será que a qualidade daquele meu trabalho de meia tigela merecia tal ar de estupefação? Talvez seja só a minha tendência crónica para a reclamação, mas entre a sensação de constante subestimação e a síndrome do impostor, a certeza que eu mantinha era a de que, de facto, não era e não sou (somos) tratada como igual De micro a nano agressões, muitas são as estratégias da academia para nos apunhalar, e de transformar qualquer contestação em vitimização

Mais tarde, outra palavra se cruzou no meu caminho: interseccionalidade, que se revelou apenas como um conceito bonito, porque o feminismo ainda é sobre a mulher branca que gere uma qualquer empresa e muito pouco sobre a racializada imigrante que lhe limpa o escritório por um salário degradante

E, nesta dança em que é motor a inquietação, novas partes do não lugar, que um dia achei meu, desaparecem, cada uma delas deixando comigo uma lição: é preciso continuar a lutar, e é preciso ter consciência porque só com ela se desmantela a ilusão E quanto ao não lugar, ainda tenho esperança de o remodelar

Araçanãopassa deumfragmento daepiderme

“Aqui,éondeseencontratodaa cordanossapele Araçanão passadisto–umfragmentode epiderme.”

Por mais surpreendente que pareça, o maior órgão do corpo humano, e possivelmente o mais multifacetado, é a pele A pele amortece, regenera-se e faz-nos sentir vivos, dá-nos o tato, o prazer e o calor, e tem vindo a dividir a sociedade ao longo de séculos

O nome científico da pele é sistema cutâneo, o seu tamanho é de cerca de 2m (se não fores o LeBron James) e consiste numa camada exterior, a epiderme, composta por células mortas que são substituídas todos os meses, e uma camada interior, a derme, onde residem todos os sistemas ativos da pele, como o sangue

O jornalista Bill Bryson, no seu livro O CorpoUm guia para ocupantes (2019) relata uma palestra que presenciou na Faculdade de Medicina da Universidade de Nottingham, dirigida pelo professor e cirurgião Ben Ollivere Durante a palestra, perante uma incisão milimétrica na pele de um cadáver – uma camada praticamente translúcida – o professor comentou: “Aqui, é onde se encontra toda a cor da nossa pele. A raça não passa disto –um fragmento de epiderme”

Mais tarde, Bryson comentou esta observação com a sua colega Nina Jablonski, antropóloga e autora do conceituado livro Living Color: The Biological and Social Meaning of Skin Color, ao que esta lhe respondeu “As pessoas agem como se a cor da pele determinasse o caráter, quando não é mais do que uma reação à luz do sol Biologicamente, a raça não existe - não há nada em termos de cor de pele, feições faciais, tipo de cabelo, estrutura óssea ou qualquer outra coisa que seja uma qualidade definidora entre povos” O comentário de Nina apresenta três pontos que vale a pena analisar:

um período alargado – pelo menos 60 000 anos, mas não tem sido um processo simples De facto o que a ciência nos mostra, através de estudos genéticos evolutivos, é que a cor da pele não é mais do que uma resposta ao ambiente

Há cerca de 200 000 anos, em África, surgiram os primeiros ancestrais humanos cuja anatomia mais se assemelha à do Homem moderno, dando origem ao Homo sapiens Durante grande parte da sua existência na Terra, os seres humanos mantiveram-se no continente africano e, por isso, a cor de pele dos primeiros humanos era provavelmente escura, adaptada à intensa radiação solar das regiões equatoriais A melanina, o pigmento responsável pela cor da pele, oferece proteção contra os danos causados pelos raios ultravioleta (UV), como o cancro da pele e a degradação do ácido fólico, essencial à reprodução e ao desenvolvimento saudável do embrião

No entanto, há cerca de 80 000 anos, os humanos começaram a migrar para latitudes mais altas - devido principalmente à agricultura - onde a exposição à luz solar é mais limitada Desta forma, a pressão seletiva favoreceu a evolução de uma pele mais clara, como uma adaptação para otimizar a produção de vitamina D, essencial para a absorção de cálcio e para o bom funcionamento do sistema imunológico Efetivamente, estima-se que a pigmentação mais clara da pele só se tornou mais comum em algumas regiões europeias há cerca de 25 000 anos (um piscar de olhos na escala evolutiva)

Por outro lado, do ponto de vista da biologia e da genética, os seres humanos pertencem todos ao mesmo género Homo, à mesma espécie, Homo sapiens e subespécie Homo sapiens sapiens, não havendo subdivisões biológicas que justifiquem a categorização de “raças” Cientificamente, não existe um gene exclusivo de “pessoas brancas”, “negras” ou “asiáticas”

Contudo, no século XVIII, os cientistas europeus contribuíram para a perpetuação da ideia de "raças" e, muitas vezes, associaram características físicas a ideias de superioridade ou inferioridade racial, um conceito que sustentava sistemas de opressão, como o colonialismo e a escravidão Aliás, segundo Nina Jablonski, não existe nenhuma evidência de que os primeiros encontros entre povos com diferentes tons de pele tenham sido marcados pelo preconceito Por exemplo, embora a relação entre o Egito e a Grécia Antiga tenha sido marcada pela violência, a cor da pele não era vista como um sinal do valor humano Foi com as grandes navegações que a cor da pele começou a ser associada a uma hierarquia social Apenas no século XX, em função do avanço da genética, ficou claro que essas classificações não tinham qualquer base científica e, em 1950, a UNESCO declarou que "não há fundamento biológico ou genético para a ideia de raças humanas"

Assim, continuar a acreditar na existência de raças, seria como continuar a acreditar que o Sol gira à volta da Terra. O conceito “raça” não passa de uma implicação social enraizada em pseudociência, em séculos de colonialismo, racismo e desigualdade

1 Biologicamente, não existem raças na espécie humana;

A cor da pele é apenas um exemplo clássico daquilo a que se chama seleção naturalindivíduos com características mais vantajosas têm maior probabilidade de sobreviverem e de se reproduzirem;

2 O conceito de raça surgiu de classificações pseudocientíficas

3 Vamos, então, analisar cada um destes argumentos

A cor da pele tem vindo a mudar ao longo de

Estudos genéticos mostraram que 85% da variação genética humana ocorre dentro do mesmo grupo populacional, enquanto 15% ocorre entre diferentes populações Isto acontece porque, antes das migrações humanas, a maior parte da variação genética já existia Quando pequenos grupos migraram para novas regiões, levaram consigo apenas uma parte da diversidade genética (efeito fundador e gargalo populacional), porém sempre houve um fluxo genético contínuo entre as populações, o que impediu que se tornassem biologicamente isoladas Ou seja, da mesma forma que a variação genética dentro da mesma população é grande, devido a antigas variações herdadas; as diferenças entre populações são pequenas porque a maior parte da variação genética humana já existia antes da dispersão e continua a ser partilhada entre populações Além disso, a cor da pele ou a textura do cabelo são resultado da adaptação ao meio e envolvem poucos genes em relação ao genoma total, pelo que a maior parte da variação genética não está relacionada com características físicas

Aquele que é então o maior órgão do corpo humano, aquele que nos faz sentir vivos, em cada toque, cada arrepio, cada instante de calor, é também, paradoxalmente, o bode expiatório de uma sociedade, uma justificação para continuar a excluir, dividir e discriminar Pelo contrário, a pele devia ser reconhecida como uma evidência da incrível capacidade humana de se adaptar a diferentes ambientes

Por último, e para nos deixar realmente desconfortáveis com a nossa hipocrisia, os humanos partilham 99,9% do seu ADN; deve ser um dos únicos casos em que 0,1% consegue incomodar tanta gente

Imagem: National Geographic

AHistóriade Souleymane, deBoris Lojkine(2024)

Há poucas vezes no cinema em que sentimos que a tela nos dá uma valente chapada de realidade. Em que a realidade penetra de tal forma a “ficção” que saímos da sala e estamos ad aeternum a ver o filme a acontecer perante nós Souleymane, interpretado por Abou Sangare - que se estreia no grande ecrã - é um jovem guineense recém chegado a França, à procura de uma vida melhor Os seus pertences resumem-se à sua mochila - onde carrega uma muda de roupa e papéis que contam uma história falsa da sua necessidade de refúgio político – e a sua força de trabalho Isto porque nem a bicicleta que o vemos dirigir pelas ruas turbulentas de Paris nem a conta de trabalho da Uber lhe pertencem, são apenas alugueres que o permitem cumprir as entregas de mercadoria durante estes asfixiantes 90 minutos

Durante estes dois dias da vida de Souleymane, vão-se tornando cada vez mais óbvias e agoniantes as condições de vida do protagonista Desde o seu quotidiano de pedalar incansavelmente, durante horas a fio, de uma ponta à outra da cidade, para cumprir com as entregas de

encomendas; às disputas advindas de não ser o dono da conta que aluga para as fazer - sob a identidade do mesmo - visto que se encontra ainda ilegal; à correria que perfaz todas as noites, na tentativa de fazer o maior número de entregas até à hora de se deslocar para o outro lado da cidade, onde precisa de apanhar o autocarro que o leva a um armazém para pernoitar, juntamente com outras pessoas em situação de semabrigo. No meio desta azáfama, reúne-se com um homem que lhe preparou um falso testemunho para receber documentação de refugiado político e que, consequentemente, o admite como residente e cidadão francês Sim, tudo numa questão de 48 horas

O jovem apresenta, ao longo destes dias, sinais cada vez mais claros de desgaste e fadiga acumulada Apesar disso, tenta sempre reservar um tempo, enquanto espera em restaurantes, para tentar comunicar com a sua família, que teve de deixar para trás Estas chamadas curtas e pouco informadoras revelam a angústia de quem se despede de toda uma vida sem qualquer esperança de um bilhete de volta A saudade é sufocante e a falta de tempo para a matar também Souleymane está sempre na correria Uma pausa de 10 minutos pode-lhe custar um café que lhe dá força extra para continuar

A ausência de música de fundo, que Boris Lojkine faz com que seja sentida, obriga-nos a escutar o silêncio ensurdecedor Obriga o espectador europeu a olhar para o outro, este que está em todas as ruas que percorre, mas do qual não sabe nada O imigrante está presente e esta é a sua história Vejam e escutem o que tem a dizer

de números, datas e pessoas para tentar dar a maior credibilidade à história A agenteque já ouviu a mesma exata história dezenas de vezes nas semanas que se antecederam – pede-lhe, com grande honestidade - para parar de mentir e contar a sua O nosso protagonista, nervosíssimo, recusa-se e repete-se desesperadamente, na esperança que ela confie na sua história. O resto da entrevista deixo por contar, cabe ao leitor agora descobrir.

Souleymane é a história de um trabalhador imigrante, como tantos outros, que busca legitimar a sua presença na Europa a partir de uma necessidade imediata de abandonar o seu país de origem, como se apenas isso o tornasse digno de estar ali, de existir Como diz Sandro Mezzadra, citado no livro de Asad Haider: Mistaken Identitity: Race and Class in the age of Trump, não terá simplesmente o imigrante o “direito de escapar”? O direito a tentar uma vida mais digna, onde o seu va-

O filme culmina na entrevista claustrofóbica para a qual Souleymane se tem vindo a preparar. Entra então numa sala pequena e quadrada, de paredes brancas, onde as únicas pessoas presentes são ele e a agente de imigração. A “sua” narrativa - ensaiada por um agente de redes de tráfico humano, que exige dinheiro a imigrantes na promessa de os ajudar a obter documentação – inicia-se com Souleymane como opositor de um regime pelo qual havia sido preso e torturado Descreve, então, os pormenores desta história com uma precisão excessiva

lor não esteja regido a um estatuto de vítima ou de força de trabalho? A ver o mundo, a aprender novas línguas, a viver sem fronteiras?

O cinema atual “mainstream”, perdido numa onda de entretenimento excessivo e filmes vazios de significado, pouco abre espaço para contar histórias que merecem ser contadas O crescente aparecimento de narrativas subalternas no grande ecrã é imprescindível para analisar o mundo que nos rodeia Espero que seja o primeiro de muitos a receber todos os aplausos e ovações que merece e que toda a gente lhe possa dedicar 90 minutos do seu tempo

Cartaz “A História de Souleymane” - CineCartaz
Imagem retirada do site Público

MatildeMarques

Dolusotropicalismoà descolonização daarte

Análisedaexposição

BlackAncientFutures

“Quandonosdeslocamosaum museuouexposiçãotemporária,o queprocuramos?”

Se tivesse de propor respostas comuns para a questão supracitada, diria que a maioria encaminharia a arte para o domínio do lazer e do entretenimento, espelhando uma visão social da arte predominantemente associada a sensações como o conforto, o ócio e o relaxamento Contudo, a arte contemporânea é cada vez menos um local seguro e confortável para sociedades comodistas, apontando progressivamente para um caminho reflexivo, crítico e de questionamento histórico-cultural Em exibição no Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia (MAAT), em Lisboa, a exposição Black Ancient Futures abre as portas de um universo frequentemente esquecido e marginalizado na arte ocidental: a identidade negra, a diáspora e toda a sua relação histórica com o passado colonial

Subversiva pelo tema, diversidade criativa e capacidade reflexiva, esta exposição é-o especialmente pela geografia em que ocorre, num país ainda marcado pelo projeto colonial estado-novista e preso às amarras do lusotropicalismo; mas também numa zona da cidade de Lisboa em que a História colonial é evocada pela Praça do Império e os seus brasões, a poucos passos do Padrão dos Descobrimentos

Terá sido aqui que, em pleno regime salazarista, se desenvolveu a Exposição do Mundo Português (1940), cujos propósitos de evocação e glorificação colonial não estarão muito distanciados da contemporaneidade

Como apontado por Miguel Vale de Almeida, a democracia portuguesa não soube descolonizar-se, juntamente com a sociedade, a cultura e a arte do quarto regime do século XX A negação do peso do racismo estrutural e sistémico, herdeiro de mais de cinco séculos de violência e ocupação colonial, é prova desta presença hegemónica da teoria lusotropicalista no discurso político, social e artístico do Portugal democrático

Ademais, a defesa de uma suposta excecionalidade colonizadora portuguesa, as-

sente em valores cristãos e humanistas, na miscigenação e na aculturação dos povos, segundo uma missão civilizacional e evangelizadora, está totalmente desfasada da realidade dos factos históricos – desde logo porque «colonialismo», «ocupação» e «escravização» são palavras antónimas de «humanismo», «civilidade» e «benevolência», qualidades frequentemente atribuídas à colonização portuguesa

Não aceite nem debatida na generalidade dos setores da sociedade portuguesa, foi assim que foi sendo esquecida a brutalidade, violência e desumanidade da herança colonial, dispersa por vários séculos de tráfico de pessoas escravizadas entre a metrópole e as ex-colónias A nostalgia lusotropicalista deixou marcas visíveis no olhar português perante os fenómenos migratórios contemporâneos

como a «diáspora» negra convocada pelos onze artistas da exposição –, os movimentos antirracistas e a idealização da «lusofonia», dificultando o reconhecimento da profunda desigualdade étnico-racial que ainda grassa no país

ExposiçãoBlackAncientFutures;Imagem:MAAT

Nas últimas décadas, vários têm sido os artistas não ocidentais que, captando a atenção do público e da comunidade artística internacional, alcançam um lugar de fala perante o eurocentrismo predominante no programa cultural, expondo novas visões enquadradas nos estudos pós-modernistas e pós-coloniais É nesta corrente reflexiva, por um lado, e reivindicativa, por outro, que se inserem inúmeros nomes emergentes da arte contemporânea mundial, tais como Jota Mombaça, Nolan Oswald Dennis e April Bey, três dos nomes expostos em Black Ancient Futures

Osistemadaartecontemporânea, emseudesejode“atualizaçãoe inovação”,bemcomonoseu interessepelospaísesemergentes, escondeerecolhequestões relativasaobranqueamentodo mundodasartes,àstensões culturaisentreex-colonoseexcolonizados,temasaliásquese tornaramoeixocentraldodebate emrelaçãoàdevoluçãodeobras africanasporpartede instituiçõeseuropeiasaosseus paísesdeorigememÁfrica. (Sales,2019)

Dos curadores Camila Maissune e João Pinharanda, esta exposição funde brilhantemente diferentes utilizações técnicas e materiais de som, luz e cor, ilustradas na diversidade das obras pelas quais passam os olhos do espetador – desde esculturas de cor garrida, suspensas no ar, a instalações de vídeo afrofuturistas Destaco particularmente o trabalho de Sandra Mujinga, artista congolesa que está por detrás do conjunto escultórico And My Body Carried All of You, que impressiona pelo seu manto vermelho e convocação de elementos ancestrais; mas também a trinitário-tobagense Jeannette Ehlers, autora de We're Magic, We're Real, uma esfera giratória de cabelo «afro», cuja mensagem emancipatória é reforçada pela excentricidade dos seus tons dourados –possivelmente invocando a crise migratória e de refugiados no Mediterrâneo, uma autêntica «história trágico-marítima» às portas da Europa neocolonial

É indispensável não perder Black Ancient Futures, em exibição, no MAAT, até ao dia 17 de março Além de ser «a apresentação mais extensa de uma nova geração de artistas africanos e da diáspora em Portugal», a exposição oferece-nos uma perspetiva distinta da dominante no pensamento social, cultural e artístico português, ainda dominado pelo ceticismo lusotropicalista: novas vozes se levantam, novos rostos emergem, novos artistas produzem obras desconcertantes e abalam as nossas conceções histórico-culturais, transformando a arte contemporânea e os museus num lugar cada vez menos lúdico e confortável, passando a um espaço de confronto direto com a História

ivros

The Color Purple de Alice Walker (1982)

Um romance epístolar que narra a história de Celie, uma mulher negra no sul dos EUA no início do século XX, que enfrenta abusos e opressão Através de cartas, ela partilha as suas dores, o seu crescimento e o seu processo de libertação, encontrando força na amizadeenoamorentremulheres

Invisible Man

A história acompanha a jornada de um jovem negro pelos estados do sul dos EUA no início do século XX Ao longo do tempo, entre experiências muitas vezes contraditórias, ele descobre o mundo dos negros, o dos brancos e,sobretudo,oseupróprio de Ralph Ellison (1952)

Women, Race & Class

Do período da escravidão às injustiças contemporâneas, Angela Davis analisa a desigualdade de raça, género e classe Ao conectar os movimentos abolicionista e sufragista, revela o racismo no feminismo branco e destaca mulheres que lutaram contraaopressão de Angela Y Davis (1981)

Black Joy

Vários autores (2021)

Editado por Charlie Brinkhurst-Cuff e Timi

Sotire, o livro é uma coletânea que celebra a alegria na experiência negra britânica Com 28 autores, a obra explora temas como o amor, a música, a dança e o trabalho, convidando os leitores a refletirem sobre o quesignificaencontrarafelicidade

O Estado do Racismo em Portugal: Racismo antinegro e anticiganismo no direito e nas políticas públicas

O livro visa desvendar e analisar o racismo institucional no país, identificando práticas quotidianas que perpetuam a discriminação racial,especialmentecontranegroseciganos de Silvia Rodriguez Maeso (2021)

Um Preto Muito Português de Telma Tvon (2024)

Budjurra, um jovem negro português de origem cabo-verdiana, vive em Lisboa e trabalha num call center Ao longo do livro, questionatemascomooracismo,aidentidade eosestereótipos,revelandoainvisibilidadeda comunidade africana e enfrentando preconceitosemumacidademulticultural

A Tua Melanina

Uma jovem portuguesa, nascida no Estado Novo apaixona-se por um jovem angolano quesemudaparaoPortopelasuacarreirano futebol Juntos têm um filho metade português, metade angolano, que cresce solitário e obediente à mãe, que teme pela segurança do filho birracial numa sociedade racista de Stephanie Vasconcelos (2024)

Memórias Póstumas de Brás Cubas

Muitas vezes considerada a obra que inaugurou o realismo no Brasil, este livro cria uma nova filosofia - o humanitismo Machado de Assis explora a escravidão e as classes sociais numa época em que o esclavagismo ainda era uma realidade no Brasil, sendo o próprioautornetodeescravoslibertados de Machado de Assis (1881)

Améfrica Ladina

Esta percursora do feminismo negro no Brasil teoriza as lutas antirracista e do feminismo negro, explorando questões de racismo, da mulher negra, do indígena latino-americano, da identidade cultural dessa mesma região e outros conceitos, todos explorados através do neologismoquedánomeaotítulodaobra de Lélia Gonzáles (2023)

O que é Ser uma Escritora Negra Hoje, de Acordo Comigo

A escritora portuguesa, nascida em Angola, refletesobreascondiçõesdeserumamulher escritora e negra nos dias de hoje, e de como o privilégio que hoje tem pode, por vezes, revelar-se uma armadilha Djaimilia relembra as mulheres da sua vida, e todas as outras mulheresnegrasquevieramantesdesi de Djaimilia Pereira de Almeida (2023)

Rachel Chinouriri

Inglesa,filhadepaiszimbabuanos,distinguesepeloseupopindiealternativo muitasvezes experimental Em2024,lançouWhata DevastatingTurnOfEvents,oseuprimeiro álbumdeestúdio

WILLOW

Letrasintrospetivas,melodiasetérease váriosgénerosmusicaissãoaquiloque defineajovemartistanorte-americana

DOECHII

Arappernorte-americanaéamaisrecente vencedoradoGrammyAwarddeMelhor ArtistadeRap(2024),comoálbum«Alligator BitesNeverHeal» VenceaindaoAwardde MelhorPerformancedeRapeMelhorArtista Revelação

Milton Nascimento

Foio2ºclassificadodoFestivalInternacional daCançãode1967 com«Travessia» Apesar deterterminadoacarreiraem2022,será semprerelembradocomoumdosmaiores nomesdaartebrasileira

A r t i s t a s d a C u l t u r a N e g r a

Arlo Parks

Deorigembritânica,nigeriana,chadianae francesa Arloabordatemascomoa depressão,aansiedade,asolidãoeacura Umdosmelhoresexemplosé«BlackDog», umadassuasmúsicasmaispopulares

Djavan

Foiaprimeiraartistatransgéneroavencero GrammyLatino nacategoriade«Melhor CançãoemMúsicaPortuguesa»

Misturaosritmosdojazzcomaalegriado sambaeamelancoliadoblues O resultadoéumaobradecomposiçãoe interpretaçãoextraordinária,semparna históriadaMPB

Daniel Caesar

Steve Lacy

Comapenas26anos,éumadasvozes maisreconhecidasnaindústriamusical norte-americana Começouasuacarreira em2015,nabandadeR&Balternativo

TheInternet

Deascendênciajamaicanaebarbadiana,o canadianoéumdosnomesmais representativosdoR&Besoul contemporâneos,tendorecebidojávárias indicaçõesparaosGrammyAwards

The Muslims Valete

Umabandapunk,negraequeerque apostanosomanarquistadesde2017 Umaótimamisturaentrehumor, sensibilidadeeraivapolítica

Rapperportuguês,deorigemsantomense, queassociaohiphopàlutaereivindicação social Sãoincontáveisasletrassobreo panoramapolíticocontemporâneo,do sistemaneoliberalàresistêncianegra

Mayra Andrade

FKA Twigs ÉoqueacontecequandoasraízesdeCabo VerdeseentrelaçamcomCuba,Françae Portugal Lançourecentemente“reEncanto” o seunovodiscoaovivo baseadoemvoz, guitarraecorpo

Cantora compositoraedançarinabritânica asua obraéafusãodediversosgénerosmusicais,do R&Bàmúsicaeletrónica Éreconhecidapela autenticidadedassuasletraseestilovisual expressanassuasmúsicas performancese vídeosartísticos

Liniker

O ténis mundial e a seletividade mediática

Foi no passado dia 21 de janeiro, em Melbourne, que Maddison Keys, dos Estados Unidos da América, conquistou o seu primeiro Grand Slam, tornando-se a terceira mulher negra de sempre a ganhar uma final de singulares no Australian Open Do outro lado da rede, Aryna Sabalenka, a bielorrussa que, neste momento, ocupa o nº1 do ténis feminino, esbarra propositadamente com a sua raquete no chãocomportamento comum entre os tenistas mundiais, principalmente em finais deste calibre, transparecendo a frustração sentida ao perder o título que fora seu nos últimos dois anos Nas redes sociais, a narrativa parecia estar mais focada na agressividade de Sabalenka do que no brilhante e honesto discurso de derrota dado pela atleta na cerimónia de entrega de prémios, ou até nas belas palavras e lágrimas deixadas em campo por Keys Mais tarde, a atleta bielorrussa sentiu a necessidade de clarificar a sua reação: “I just needed to throw those negative emotions at the end just so I could give a speech, not stand there being disrespectful. I was just trying to let it go and be a good person.”

No dia seguinte, na mesma arena, disputava-se o título masculino entre os tenistas Jannik Sinner, da Itália, e Alexander Zverev, da Alemanha, números 1 e 2 do ranking mundial, respetivamente O alemão acabou por sair derrotado e, mesmo antes de iniciar o seu discurso, pôde ouvir-se a voz de uma mulher australiana, que repetiu três vezes a seguinte frase: “Australia believes Olga and Brenda!” A explicação por detrás desta frase? As alegações de violência doméstica do atleta para com duas das suas ex-companheiras: Olga Sharypova e Brenda Patea Esta última, mãe da filha do atleta, chegou a levar o caso a tribunal em 2024, num julgamento que acabou por ser encerrado precocemente por vontade de ambos, de modo a proteger a criança O atleta, apesar de não ter sido constituído culpado, concordou com a ordem imposta pelo tribunal para que pagasse 150 mil euros ao Estado Alemão e cerca de 50 mil a ONG’s Sobre a frase exclamada, poucas foram as manifestações de preocupação com o acontecimento, tendo o comportamento de Sabalenka despoletado um número muito maior de discussões e alvoroço online

A narrativa mediática pós-Australian Open

é um reflexo perfeito do favoritismo dos atletas masculinos na indústria do Ténis (e não só) sobre as atletas femininas Segundo um estudo de mercado realizado pela plataforma Ipsos em 2021*, as narrativas online sobre ténis mencionam substancialmente mais os atletas masculinos do que as atletas do sexo feminino Para além disso, enquanto o conteúdo acerca do ténis masculino se foca mais no desporto, na competição e no nível dos jogadores, o conteúdo sobre o ténis feminino é menos intenso e mais focado na vida fora do campo, passando pela idade, saúde e família das atletas, sendo o ténis apresentado apenas como uma faceta das mesmas

Nesta linha, o conteúdo sobre os homens tem 70% mais probabilidade de mencionar a proeza física dos atletas, e 40% mais probabilidade de referenciar a expressão “fazer história” Por mais dispensáveis que pareçam, as hashtags são também uma prova desta superioridade, sendo usados significativamente mais no conteúdo masculino do que no feminino

Assim, o conteúdo feminino acaba por ficar mais condicionado à vida pessoal e à aparência das jogadoras, havendo o dobro da probabilidade de se mencionar a idade de uma tenista e 30% mais probabilidade de se mencionar a sua família Não surpreende, então, o facto de ser necessário referir “ténis feminino” para os resultados derivados abordarem as atletas femininas Inclusive, ao pesquisar “Top 50 jogadores de ténis”, apenas 6 dos 50 tenistas mencionados são mulheres. No entanto, nem tudo são pontos negativos, havendo 11 vezes mais menções à cor de pele das jogadoras femininas e o triplo das menções do movimento Black Lives Matter no ténis feminino - dados que se devem ao enorme sucesso de tenistas como as irmãs Venus e Serena Williams, Naomi Osaka, Madison Keys, ou a jovem estrela Coco Gauff

O próprio conteúdo disponível sobre cada torneio é relativamente menor no que toca ao jogo feminino No gráfico abaixo, pode ver-se o número de artigos escritos, por género, sobre cada um dos Grand-Slams de 2018.

Sendo esta uma análise focada no espaço me-

Sabalenka e Keys na cerimónia de entrega de prémios do Australian Open 2025

diático, é inevitável olhar também para a historicidade que fundou o ténis feminino que temos hoje Neste momento, ambos homens e mulheres são pagos a mesma quantia em todos os quatro Grand Slams anuaisAustralian Open, Rolland-Garros, Wimbledon e US Open Este último tornou-se o primeiro grande torneio a oferecer igualdade de pagamento, em 1973, graças a uma ameaça, por Billie Jean King, de não competir até a remuneração entre homens e mulheres ser igualada Hoje, apesar dos esforços e reivindicações, tanto das atletas femininas como de atletas masculinos, as mulheres ainda recebem significativamente menos do que os homens, como se observa no gráfico seguinte:

Em2022,porexemplo,apesardeter ganhometadedosGrandSlamsetertido uma das maiores épocas recentes de qualqueratleta,masculinooufeminino,a polacaIgaSwiatekrecebeumenosdoque Carlos Alcaraz, que ganhou apenas um GrandSlamefezmenosseistorneiosquea atleta.

Háquemargumentequeadesigualdade parte do entretenimento e adesão dos espectadores aos jogos No entanto, Coco Gauff refuta esta opção, partindo da sua experiênciapessoal:“Mymatchesweremore crowdedorthesameassomeofthetop seedsonthemen'sside,soIdon'tthinkit's an attraction issue. Obviously in some tournaments,yes,butespeciallyinthe1000 events,Idon'tthinkit'snecessarilyanattraction issue” Já a espanhola Paula Badosa não consegue encontrar explicação para o problema:“Idon’tknowwhyit’snotequalright now[]Theydon’tinformusTheysaythisis whatyougetandyouhavetoplay”

Em 2023, a WTA (Women’s Tennis Association)aprovouumplanoparaigualar opagamentoemtodoocalendáriodeténis até2033.Dessemodo,todosostorneiosdos níveisde500e1000comambosossexosterão deofereceromesmopagamentoatodosos atletasaté2027Restaesperarqueametaseja cumprida,equeoténismundialabraespaço paraahistóriaqueestáconstantementeaser feitapelasatletasfemininas,emtodasaspartes domundo,emtodososdesportos

*Esteestudofocou-senoconteúdoonlnedisponvelemdiferentescanas

RTPÁfrica:aimportância deumcanal

Em fevereiro, celebra-se o Black History Month, onde se procura homenagear e recordar momentos da história africana Muitas vezes, a realidade africana é desconhecida para muitos de nós e, por vezes, quando nos confrontamos com essas realidades sentimos uma certa “estranheza”. E essa estranheza muitas vezes progride para algo pior, como o preconceito e o racismo Conhecer outras realidades e procurar obter conhecimento que nos ajude a compreender o que nos rodeia e o que nos é “estranho” é um passo para que sejamos pessoas mais empáticas e mais abertas ao outro E a RTP África, enquanto serviço público, possibilita precisamente isso Lançada a 7 de janeiro de 1998, a RTP África é um canal de televisão público português, que pertence à Rádio e Televisão de Portugal (RTP) Enquanto canal televisivo, procura estabelecer uma ligação com as comunidades portuguesas em África, nomeadamente com Angola, Moçambique, Cabo Verde, GuinéBissau e São Tomé e Príncipe Apesar de ser focada nos Países Africanos de Língua Portuguesa (PALOP), onde, para além de Portugal, existe a transmissão por cabo e satélite, hoje, devido à internet, todos os conteúdos estão disponíveis online, o que permite que qualquer pessoa em qualquer ponto do globo lhe possa aceder Com acesso a muitos conteúdos, desde a notícias, a documentários, passando por séries e filmes, a RTP África permite que nos aproximemos das comunidades africanas, conhecendo novos traços culturais que não fazem parte da cultura portuguesa. Por isso, pode não parecer, mas a existência de um canal deste tipo acaba por trazer uma enorme importân-

cia, seja cultural, linguística ou de representação das próprias comunidades africanas Para além de ajudar à compreensão de novas realidades, as próprias comunidades sentem-se representadas. Por exemplo, através de vários programas culturais. Quem os assiste pode ficar a saber mais sobre as tradições africanas, desde estilos musicais, a tipos de dança A transmissão de documentários permite que a história africana seja contada Para além das tradições culturais, conhecer a história destes países é importante para esse compreender, mas também é fundamental para que essas comunidades se sintam representadas na história

Na RTP África são ainda transmitidos eventos desportivos, nomeadamente jogos de futebol dos campeonatos nacionais O futebol sempre foi o desporto rei na maioria dos países europeus e Portugal não é exceção Contudo, esquecemo-nos que este desporto também é praticado em muitos outros países e os países africanos incluem-se nessa lista, muito por influência portuguesa A transmissão destes jogos acaba por ser importante principalmente para pessoas oriundas desses países que estejam em Portugal e que queiram continuar a acompanhar o clube da sua terra Por outro lado, nos PALOP, a transmissão de jogos da Liga Portuguesa de futebol acaba também por ser importante, porque muitas vezes há o interesse por parte destas comunidades em acompanhar clubes como o Benfica, o Sporting ou o Porto, e não existe forma de o fazer, principalmente junto das populações mais pobres que não têm como aceder de outra forma que não através de um canal público

Umpoetae

umcão

ManuelGorjão

Um poeta e um cão

Um poeta e um cão vão

Um poeta e um cão lá vão

Um poeta e um cão já lá vão

Um poeta e um cão já lá não vão

Um poeta e um cão já para lá não vão

Um poeta e um cão já para lá mais não vão

Um poeta e um cão vão ficar onde estão

IlhaseAviões

A turbulência causou queda

Do teu corpo avioneta

Longas costas desertas

Meu recipiente de emoção

Por entre ondas mistério

Enciclopédias de senão

À caça de provérbios

Quinto império formação

Da ampulheta lenta

Sopros de vento gentis

Como dedos invisíveis sol

Que deixam a pele marcada

Da ilha isolada fizeste casa

A ilha à deriva atracou amada

E o teu corpo avioneta

Tornou-se praia noite estrelada

Homenagema DavidLyncheà Estranheza

David Lynch era único Foi músico, pintor, autor, ator, mas mais amplamente reconhecido como realizador Foi muitas vezes chamado visionário, e ainda mais vezes descrito como “estranho”

E verdade seja dita, ele era estranho As suas fantasias surrealistas, materializadas em filmes, podiam bem ser fragmentos de um sonho coletivo (ou de um pesadelo) no qual escolhemos voluntariamente participar ao assisti-los E como são magníficos! Eraserhead, Blue Velvet, Mulholland Drive, Inland Empire e Twin Peaks (para citar apenas alguns) seguem uma lógica onírica, dobrando a realidade à visão de Lynch Ele distorce o familiar até o tornar perturbador e mostra-nos como a inocência e a escuridão estão muitas vezes entrelaçadas desafiando as nossas perceções do mundo à nossa volta

As cortinas vermelhas do mundo de Lynch cobriam passagens para outros mundos As suas personagens eram almas perdidas, condenadas a navegar por paisagens peculiares Os seus vilões eram aterradores, não tanto por serem monstros literais, mas porque revelavam algo perturbador na banalidade do quotidiano Ele fazia-nos sentir que Bob, de Twin Peaks, ou Frank Booth, de Blue Velvet, estavam apenas escondidos debaixo da superfície, existindo nas fendas da realidade

Para lá dos pesadelos de Lynch, existia uma beleza melancólica Encontramos poesia nas bandas sonoras que escolheu, no brilho intermitente das televisões, nos modelos de carros que atribuiu a cada personagem escolhas que nunca parecem casuais; nada o é, no seu trabalho, se olharmos com atenção Os seus filmes cheiram a tabaco, tarte de cereja, café forte; antecipam algo maior do que esperamos

A obra de David Lynch tem menos a ver com a compreensão e mais com a experiência Se considerarmos que vivemos num "estado de ab-

Aperdadeumgénio;umhomemdepoucaspalavras

surdo", como descreveu Albert Camus, percebemos conscientemente que não conseguimos dar sentido às nossas vidas E isso é aterrador As personagens de Lynch frequentemente deparam-se com "o absurdo", e nós também, quando entramos em contacto com a sua obra Os seus filmes não se explicam por si próprios, e ele tampouco tem interesse em fazê-lo Os seus filmes são os sonhos que permanecem na nossa mente pelo resto do dia, muito depois de acordarmos

Dizia-se frequentemente que “Lynch não era um homem de muitas palavras” Ele considerava que as palavras limitavam o seu trabalho: "Nada deve ser acrescentado Nada deve ser subtraído", disse numa entrevista à The Wire Durante muito tempo, acreditei que deveria ser capaz de expressar em palavras todas as emoções que sentia, todas as razões que me levaram a tomar determinada ação; ou listar tudo o que me fazia adorar um livro, um filme, uma pintura, uma música Sentia, essencialmente, que se não conseguisse traduzir fielmente os meus sentimentos via palavras, que algo em mim estava incompleto, que existia um estado de conhecimento que ainda me escapava Contudo, ao ver e ler entrevistas de David Lynch e ao deparar-me com a sua crença de que as palavras podem reduzir o significado de uma obra de arte e que nem tudo precisa de ser explicado algo mudou dentro de mim Foi libertador saber que um artista que tanto admiro sentia o mesmo que eu e que essa noção não diminuía o valor do seu trabalho, nem o desacreditava de forma alguma Pelo contrário, elevava-o Como poderia alguma vez traduzir em palavras o que sinto quando Laura Palmer grita em Twin Peaks para afastar Dale Cooper ou sempre que Dorothy Vallens canta Blue Velvet? David Lynch ensinou-me que a arte é algo que se sente, não algo que se descreve.

A estranheza de Lynch era uma ferramenta espiritual e necessária para o seu ofício É o que

o distingue de outros grandes nomes do cinema

A sua estranheza está enraizada na sua visão artística, tornando-se quase natural, como se as suas absurdidades se tornassem sensatas se parássemos de pensar demasiado. Ele cria imagens inquietantes adicionando uma sombra onde não deveria haver uma, iluminando o rosto de uma personagem e fazendo-a sorrir para o vazio, ou fazendo-a falar ao contrário A sua estranheza, por vezes, chega a ser cómica; num momento vemos um anão misterioso a dançar ao som de um tema de ‘jazz’ e a comunicar em enigmas, no seguinte somos lançados para uma conversa existencial capaz de nos arrastar para uma espiral durante dias Por trás da estranheza do seu trabalho, estava ele - David Lynch, o próprio Um realizador de renome que meditava diariamente, que adorava o Bob's Big Boy Diner, que resgatou cinco bonecos do Pica-Pau da berma da estrada, que promoveu Inland Empire e a extraordinária atuação de Laura Dern com uma vaca no meio de Hollywood, e que falava com um entusiasmo folclórico que nunca era substituído por um tom diferente, quer estivesse a falar de uma boa chávena de café ou sobre os terrores fantásticos do seu próximo filme A sua estranheza nunca pareceu uma afetação, era parte integral da sua verdadeira essência. Foi isso que tornou os seus filmes tão inconfundivelmente "lynchianos" uma forma hipnótica de contar histórias que ninguém jamais conseguirá replicar

Em janeiro de 2025, perdemos um dos artistas mais talentosos com que me deparei durante a minha vida, e um dos meus favoritos David Lynch mudou para sempre como vejo e me relaciono com a arte Não posso dizer que compreendo sempre o que quer transmitir, mas sinto-me em casa no seu mundo

Sinto-me em casa ao abraçar a estranheza dentro dele, dentro dos seus filmes, dentro da minha própria vida

CapraViaLynch

“Eparaquemnãosesenteindiferente,nuncahaveráausência maisfortequeapresençaqueumavezfoi”

“Um cineasta realmente americano”, soletra o relato da Antena 2 aquando da morte de David Lynch, que “como todos os grandes cineastas americanos, ( ) só foi amado fora da América” É certo que Lynch sempre desfrutou de uma certa ambiguidade em relação à posição que ocupava no paradigma do cinema americano, de tal modo que a sua popularidade, particularmente no século XXI, nunca foi sinónimo de financiamento os laços internacionais de David Lynch com a StudioCanal, por exemplo, manifestam uma réstia de verdade no dizer da Antena 2 Dito isto, o erro é simples David Lynch fora amado na América Infelizmente, quem o amou no seu país, quem amou o seu trabalho, não era propriamente quem dispunha do poder financeiro para “investir” nos seus filmes Lynch não era particularmente subversivo ou dissidente considerando a posição de infiltrado quando estreou Twin Peaks até considerar o que seria Mulholland Drive não tivesse degolado o projeto que, que outra coisa, conseguiu inserir-se no de atenção generalizada do pr Americano A colheita de sucesso imenso é muitas vezes convocada em relação c estranheza, como se fossem absolu dicotómicos, e não de maneira a reco seu sucesso como fruto desta mesma es naturalmente, entre outras coisas qu acima de estranho, Lynch é absolu verdadeiro e generoso (ou seja, não e da sua estranheza, mas em função da Acima de tudo, a pureza da verdade em Lynch convoca uma noção essencial: quando se fala de verdade pura, de forma algo simplista, a abstração não é um obstáculo ao entendimento Muito menos um agente desinibidor sobre as funções intuitivas de uma pessoa melhor se pode afirmar o oposto É verdade que Lynch é muitas vezes tratado em função do holismo artístico a que lhe é associado há quem descreva o realizador como além do cinema, há quem o descreva como aquém do mesmo E esta prosa resulta sempre da mescla de influências que Lynch carrega Muitos conhecem a anedota algo fabulosa sobre a origem do David Lynch cineasta, que, conta a história, pintou uma paisagem mas conseguia ouvir o vento Daí reforçou-se de imediato a prática do desenho que também é inerente ao cinema, a construção da imagem aliada ao som, organizadas entre si, no espaço-tempo E porque a pintura sempre fez parte da atmosfera que ressoa na obra de Lynch, surgiu a ideia de que o realizador pouco resgatava de influências cinematográficas, algo que, desde logo, é eviden-

filmes de Capra empregam Ou como disse Cassavetes: “Se calhar nunca houve América; se calhar era só Frank Capra”

Eraserhead(1977),deDavidLynch

temente contradito pela sua obra fílmica Por exemplo, comparações com Frank Capra, o populista americano, não são de hoje Pelo contrário, dada ao decréscimo de popularidade de Capra já desde a consagração dos autores que vagueavam pelo sistema de Hollywood as comparações já foram, justamente, mais frequentes do que hoje são Lynch, mesmo quando reduzido ao homem do pesadelo, continua a ser considerado pela sua dualidade, exatamente inserido na vertigem entre o “bem” e o “mal”, que resulta numa indefinição de ambos os códigos, por razões que, entre outras, são fruto do contágio entre os dois Da mesma forma Capra, este sim cada vez mais incompreendido e simplificado, carrega um fardo sério de duelo com um país onde representação é confundida com realidade São os seus filmes “otimistas”, “inocentes” e “idealistas”, que mais assombrados são pelo peso que sufoca o esforço, a vontade e as condições a que o sonho americano se proclamava dedicado E cai-se no buraco de ignorar a subversão sobre o populismo que os

Retomando os laços entre os dois cineastas, sublinhando também a comparação evidente que é a presença “americana” em ambas as obras, considerem-se os filmes Eraserhead e It’s a Wonderful Life um de Lynch e um de Capra, respetivamente A diferença de aragem é nítida na superfície, mas é na profundidade que se nota a semelhança entre códigos e canais, particularmente nas imagens que sobrevivem dos filmes A presença de forças divinas, ancestrais, por falta de melhores palavras; a presença cosmológica, a casa abandonada, o nome Mary, o fardo externo do protagonista que este interioriza, em Capra, e vice-versa em Lynch reconhecendo lgo contraditoriamente, que os filmes m do mesmo ponto de partida: a ade que é encenada O nervosismo de nce em Eraserhead está além do mesmo, da sua janela, no fumo no ar (na industrialização) e na precariedade que o endo ele um componente na mesma ência total de saúde material O caso em o mesmo, mas invertido O que é rado na abertura de It’s a Wonderful Life er resumida, novamente, nestas duas saúde material Escusado seja dizer que a o filme é exatamente a corrupção desta , via o magnata vilão do filme que só será o quando Jimmy Stewart é salvo pela isa que lhe tinha sido ameaçada a ausência de comunidade, evidenciada na sequência-pesadelo em que o protagonista percorre a vila da qual sempre fez parte, na companhia de um anjo que demonstra (ou encena, até) uma realidade onde o tal James Stewart, nesta altura à beira do suicídio, nunca teria existido (“a diferença que uma pessoa faz”, basicamente) Isto para dizer que, quando salientada a relação entre ambos, Capra e Lynch são grandes esclarecedores e obscurecedores um do outro uma ideia de corrente contagiosa que é evidenciada um pouco por toda história do cinema (e da arte) Este reconhecimento confirma a existência de um fluxo: Capra via Lynch, Lynch via Capra, Teri Garr via Jean Arthur, vice-versa, etc Capra teve a sua primeira morte em 1991 Tal como em janeiro com Lynch, o tempo seguiu alheio à perda dos seus ornamentistas E se os anos se vão somando, tal é a nossa sorte que, entre outros, Lynch, Capra, Garr e Arthur fizeram da sua ausência uma realidade inconcebível E para quem não se sente indiferente, nunca haverá ausência mais forte que a presença que uma vez foi. E assim será, até Borges deixar de ser lido

It'saWonderfulLife(1946)deFrankCapra

EoÓscarvai para… Eurocentrismo!

Nos últimos meses, a indústria do entretenimento viu-se diante de Emilia Pérez, uma comédia musical cuja repercussão acumula prémios na mesma medida que polémicas O enredo aborda a história de um líder fugitivo do cartel mexicano que, com a ajuda da sua advogada, Rita, se submete a uma cirurgia de redesignação sexual para escapar das autoridades e afirmar a sua identidade de género, tornando-se Emilia Pérez No elenco, destacam-se Karla Sofía Gascón no papel principal, Zoe Saldaña como advogada e Selena Gomez como esposa do traficante

Desde a sua estreia, Emilia Pérez tem sido amplamente reconhecido, vencendo o “Prémio do Júri” em Cannes e “Melhor Filme de Língua Não Inglesa” no Globo de Ouro, Critics Choice Awards e BAFTA Também recebeu treze nomeações ao Óscar, tornando-se um dos filmes mais nomeados da História No entanto, em vez de se assumir como uma produção consciente em termos de autenticidade cultural e interseccionalidade, o filme materializa-se numa abordagem superficial da representatividade, refletindo padrões eurocêntricos e coloniais no cinema.

Uma das críticas mais evidentes recai sobre o olhar estereotipado do diretor Jacques Audiard. Numa entrevista, afirmou que não pesquisou a cultura mexicana porque já “sabia o que precisava saber” A produção também foi alvo de contestação pela escassa participação de mexicanos na equipa e elenco principal A única atriz mexicana, Adriana Paz, não tem um papel de destaque Além disso, a escolha de filmar num estúdio em Paris, em vez de no México, e a decisão de usar predominantemente o inglês, em vez do espanhol, geraram grande controvérsia. Audiard chegou mesmo a declarar que "o espanhol é a língua dos países emergentes, modestos, dos pobres e dos imigrantes"

O público mexicano reagiu com descontentamento à falta de sensibilidade e contexto do filme, rejeitando-o como uma representação fiel da sua cultura. Isto le-

KarlaSofíaGascónareceberoGlobodeOurodeEmiliaPérezparaMelhorMusical/Comédia

vantou uma discussão sobre os estereótipos no cinema e o seu impacto como forma de apagamento cultural

Contudo, é necessário ir além e considerar o contexto social do México. O país enfrenta há décadas um problema grave relacionado com cartéis de droga e desaparecimentos forçados, consequência da desigualdade social e de interferências internacionais Diferente da ideia comum de que os cartéis funcionam como grupos homogéneos, a realidade mostra organizações complexas, cuja atuação vai desde a produção e exportação de droga até a sua intermediação no mercado financeiro e jurídico

Neste contexto, Emilia Pérez torna-se um desserviço cultural, ao reduzir esta realidade a um musical superficial Os impactos sociais da violência ligada ao narcotráfico, que já resultou em mais de 500 mil mortos e 100 mil desaparecidos, são tratados de forma frívola Além disso, nunca houve menção às vítimas nos discursos de premiação ou entrevistas

Outro ponto de controvérsia envolve a

representação da identidade trans Organizações LGBTQIA+ criticaram como Emilia Pérez foi retratada, sugerindo que a sua identidade de género é explorada de forma meramente estética, perpetuando estereótipos negativos sobre mulheres trans como "mentirosas" ou "mal intencionadas" As críticas intensificaram-se após o resgate de publicações antigas da atriz Karla Sofía Gascón, onde fez comentários polémicos sobre muçulmanos e a morte de George Floyd

Por fim, questiona-se se o sucesso do filme se deve ao seu valor artístico ou a uma estratégia de marketing que se apoia na branquitude e no eurocentrismo para secundarizar culturas não europeias, desviando críticas e promovendo uma narrativa progressista ilusória A receção e premiações de Emilia Pérez parecem evidenciar um padrão recorrente no cinema internacional, onde a apropriação cultural e a superficialidade são ignoradas em prol de uma aceitação global que pouco se preocupa com as comunidades que deveriam ser representadas

CENAS

BossBichePoesia

Eunãoleiocenasquenãotenhamdragões:

Nãoleiocenastécnicas

Sóleiocenasépicas

Nãoleiocenasdeeconomia

Sóleiocenasdefantasia

Nãoleiocenasdegestão

Sóleiocenasdeficção

Aliás:recentementedescobri

QueandavaatomarXanax

Emvezdapílula

Eeunãoliaosrótulos

Nemasprescrições

Porqueeunãoleiocenas Quenãotêmdragões

AmortedeIvan Ilitchea aceitaçãodo inevitável:

VictoriaLeite

Recentemente, terminei a leitura de A Morte de Ivan Ilitch, a clássica novela de Tolstói, que, devido à sua recente onda de popularização, dispensa apresentações Todos nós (acredito eu) estamos cansados do pedantismo associado a esse tipo de obra e do modo como ascende contemporaneamente através das redes sociais, em nichos como o BookTok Confesso que, por causa deste cansaço, não esperava que os temas subjetivos do livro fossem ressoar com as minhas próprias subjetividades Além disso, costumo ser um pouco cética quanto ao meu próprio apreço, como mulher e imigrante, por histórias que se concentram nas experiências de homens burgueses atormentados por angústias existenciais Mas como escapar à sensibilidade da alma diante de um tema tão universal quanto a morte? Tudo que vive, um dia morrerá Ouso dizer que não há tema sobre o qual exista maior consenso no mundo do que a morte

Acreditando ou não em outras vidas ou em pósvidas, todos reconhecemos, sem dúvida, o destino final da existência No entanto, evitamos pensar na nossa própria morte, embora, de alguma forma, nossos corpos, mentes e espíritos anseiem por refletir sobre ela Observamos, com nossos próprios olhos, os corpos ao nosso redor caminhando na direção do inevitável; alguns de nós talvez já tenham chorado a perda de vidas próximas Assim, é impossível desacreditar da morte, mas é possível simplesmente não pensar nela como algo que se aplica a nós Talvez seja esse o motivo da presença tão marcante desse tema na cultura

Em A Morte de Ivan Ilitch, acompanhamos parte da vida do homem que dá título ao livro até o momento de sua morte (quem diria!) O personagem é um homem ambicioso, movido pelo desejo de ascensão social e econômica Em meio à sua existência como pequeno burguês, ao decorar meticulosamente sua nova casa conquistada graças ao sucesso de suas empreitadas , sofre um ferimento que, lenta e dolorosamente, o conduz à sepultura O símbolo mais elevado do habitus burguês torna-se, ironicamente, o responsável por sua ruína Em seus momentos de agonia e à medida que a doença o impede de realizar suas atividades cotidianas, Ivan Ilitch devaneia sobre a morte: inicialmente, a rejeita, mas, ao se dar conta de sua inevitabilidade, aceita-a em um processo no qual também percebe a futilidade da vida e a forma repentina com que o seu fim se dá

“E, à medida que a existência corria, tornava-se mais oca, mais tola É como se eu estivesse descendo uma montanha, pensando que a galgava. Exatamente isto. Perante a opinião pública, eu subia, mas, na verdade, afundava E agora cheguei ao fim – a sepultura me espera.”

A Morte de Ivan Ilitch torna-se, assim, um retrato da vida de todos nós Ricos ou pobres, vivemos num mundo doente de todas as formas possíveis: o neofascismo está na moda, cauterizamos nossa consciência diante da forma irreversível como a natureza foi agredida, e, anestesiados, vivemos para acumular riqueza e conforto Estamos, assim, metaforicamente decorando nossas casas burguesas Escolhemos cuidadosamente cada cômodo, cortinas, móveis, luzes, porcelanas, talheres e camas Não pensamos no fim E, ao viver de modo a evitar qualquer sofrimento, ferimos nosso corpo individual e coletivo de maneira irreversível, caminhando juntos para um fim repentino Sabemos que a morte é inevitável, mas quão fútil é a morte de uma vida egoísta e sem propósito! Mas como encontrar um propósito pelo qual valha a pena viver e que faça a morte escapar da futilidade? Cada um é responsável por responder às suas próprias perguntas, mas pessoalmente acredito que é na sensibilização dos olhares e no desapegar das futilidades que reside a chave da resposta

Tudonelaéluz!

O feminino n'O Vendedor dePassados

SofiaFernandes

Ao pensar num tema sobre o qual escrever para esta edição do NEF, a única certeza que tinha era a de que o feminino tinha de tomar o lugar central, como forma de honrar o Dia Internacional da Mulher Não vou fazer uma his-

tória do dia, nem apresentar todas as razões pelas quais deve ser assinalado Vou antes falar-vos de um pequeno livro que mudou a minha vida Acredito que todos temos os nossos livros, aqueles que nos definem como leitores, que nos marcam profundamente Alguns que sabemos que vão estar na lista ainda antes de os lermos, outros que nos lembram alguém ou um local especial, e ainda os que nos caem no colo sem sabermos bem como O Vendedor de Passados foi o primeiro livro que imprimiu uma marca indelével na minha identidade e surgiu na minha vida por causa de uma apresentação de português (aquelas com tanto potencial para nos abrirem os horizontes e que tantas vezes são olhadas sem o devido valor) Com este livro começou a minha obsessão (talvez hiperfixação fosse mais bonito) com a exploração da memória e da identidade na literatura E li-o vezes sem conta focada nesses temas Mas a pensar no que tinha para dizer nesta edição lembrei-me de uma passagem em que sobre a personagem feminina principal se diz “tudo nela é luz” Decidi então pegar novamente no livro, mergulhar na mesma história e ver um mundo novo Queria descobrir até que ponto podemos tornar um livro nosso, com uma leitura completamente pessoal em que é o leitor a decidir o tema central naquele momento Seria possível ler O Vendedor de Passados no feminino?

A resposta? Sim Esta não é uma narrativa sobre mulheres, mas são elas as “colunas” que a sustentam É no feminino deste romance que fugimos ao performativo, sendo a solidez das figuras femininas a única que nunca é posta em causa numa história em que a realidade e a ficção se misturam, como tintas na paleta de um pintor que esboça a condição humana Esperança é a anciã sábia, que não tem o conhecimento formal, mas carrega literalmente às costas as novas gerações, alimentando-as com o saber da experiência Ângela Lúcia é a mulher que cativa pela sua dedicação total à procura da luz, que coleciona em forma de fotografias Carrega no seu corpo as marcas da crueldade dos homens e acaba por dar liberdade à raiva causada pela condição que lhe foi imposta Ainda assim, ela é “pura luz”, não porque é unidimensional, mas sim porque na sua complexidade escolhe olhar o céu, admirar as nuvens e cristalizar no tempo a beleza mundana que se esforça para encontrar A mulher completa: feliz e triste, enraivecida e à procura de paz, silenciada e estridente, a ocupar espaço, a exigir que a sua voz seja ouvida, a não abdicar da sua doçura porque o mundo a espezinha ou ignora, a proteger a sua força porque de certeza que vai precisar dela É essa mulher Ângela Lúcia Somos nós essa mulher E tudo nela é luz!

Fonte: George C Beresford

Mãoslimpasecorpoempó

Uma mulher branca posa com uma criança negra numa aldeia africana, as suas pequenas mãos pousam suavemente no braço dela - limpas, intocadas pelo pó que cobre o resto do seu corpo. A fotografia espalha-se e começa a especular-se: terá ela pedido à criança para lavar as mãos antes de lhe tocar? Verdade ou não, a imagem fala mais alto do que a intenção; o voluntariado deveria ser fundamental e objetivamente sobre o impacto, mas na era dos meios de comunicação social, é frequentemente sobre a imagem Porque é que tantas pessoas viajammuitas vezes através de empresas que lucram com essas viagens - para “ajudar”, ignorando as injustiças sistémicas nas suas próprias comunidades?

O verdadeiro impacto é lento, pouco glamoroso e muitas vezes invisível - nada disso contribui para uma publicação viral Em vez disso, os media recompensam a aparência de generosidade em vez de um esforço real e sustentado: o voluntário vai para casa com elogios, novos seguidores e até oportunidades de carreira; mas a criança na foto? Continua a ser um rosto sem nome, um símbolo fugaz de sofrimento, sem controlo sobre a forma como a sua imagem é utilizada Para além da foto, para além dos gostos, o que é que fica? A verdadeira mudança não vem de um breve momento de caridade, mas de esforços sustentados, conduzidos localmente, que não precisam da validação de alguém de fora O verdadeiro auxílio não tem a ver com ser visto a ajudar - tem a ver com garantir que aqueles que precisam de ser ouvidos tenham a plataforma para falar por si próprios Tudo isto revela uma verdade mais profunda: nas narrativas de ajuda ocidentais, algumas coisas devem permanecer “sujas” para realçar a pureza daqueles que vêm ajudar; mas quem decide o que é lavado e o que deve permanecer visível para que a história funcione? O voluntariado prospera com o espetáculo - se não houver uma fotografia, será que a bondade aconteceu? As pessoas, muitas vezes crianças, que estão a ser “ajudadas” tornam-se adereços, as suas lutas reduzidas a cenários estéticos para narrativas de salvação

Mas a verdadeira mudança não vem da proximidade - vem da escuta E, com demasiada frequência, aqueles que posam com as mãos estendidas vão-se embora sem nunca ouvirem as vozes que afirmam ouvir e enaltecer, mas com o pretendido impulso do ego Ajudar deve ser um compromisso, não um ato Se um ato de bondade precisa de uma audiência para ser válido, será que foi realmente bondade? Ou foi apenas mais uma forma de ser visto como bom sem o desconforto de fazer um trabalho real e difícil? É este o desequilíbrio de poder que está em causa: tratase de mudar vidas ou de criar uma imagem de compaixão? Se o objetivo fosse a solidariedade, não seriam as suas vozes ouvidas em vez de o seu silêncio ser transformado num espetáculo?

Mia Couto, um escritor moçambicano que reflete frequentemente sobre o poder, a identidade e os legados coloniais, escreveu um dia: “As ideias não nascem na cabeça das pessoas Elas existem independentemente de nós” As suas palavras recordam-nos que as histórias, as lutas e as soluções pertencem àqueles que as vivem Ajudar verdadeiramente é ouvir, apoiar e afastar-se quando necessário

O“Elo”que nosune: Migraçõese Identidades noProjeto

SocialEloColetivo

A Identidade, enquanto conceito, não representa algo fixo e imutável, ela é moldada pelas interações entre o indivíduo e o seu contexto social, cultural e coletivo No contexto das Migrações, a identidade e a sua construção sofrem novas dimensões, não só pela mudança geográfica na convivência do indivíduo, mas também pela reconfiguração das suas referências sociais, afetivas e culturais

Este espaço de encontro entre as suas raízes e a nova realidade conduz a uma negociação identitária, onde a preservação e manifestação da sua cultura é confrontada com uma sociedade de acolhimento que, muitas vezes, limita e influencia o processo de integração a uma assimilação de costumes No entanto, uma verdadeira inserção na sociedade nasce do diálogo e aprendizagem entre culturas, num processo intercultural que não reduz identidades, mas reconhece-as e beneficia das diferentes trajetórias de cada pessoa O Elo representa esta ideia de um horizonte coletivo, com base na solidariedade como elemento fundamental de uma transformação social, profundamente humana, onde todos os povos caminham para a sua emancipação, mais fortes, quando unidos pelas suas diferenças

O presente artigo procura analisar as relações entre a Identidade, Migração e Integração, através do trabalho realizado pelo projeto social Elo-Coletivo, desenvolvido com comunidades Migrantes em Vila Franca de Xira A proposta é compreender como o projeto pode contribuir para o encontro e negociação entre culturas e pessoas diferentes, através da manifestação das suas próprias identidades

O projeto: Elo-Coletivo, um Espaço de Encontro e Integração

O Elo-Coletivo é um projeto de âmbito social, sem fins lucrativos, que procura promover a integração das comunidades migrantes recém-chegadas ao concelho de Vila Franca de Xira

FotografiadeRodrigoFigueiredo

Este projeto surge no final de 2023, através da organização coletiva de um grupo local de jovens, que observaram as transformações demográficas e culturais na sua cidade, e os visíveis desafios de integração que diversas famílias e pessoas encontraram, quando chegaram ao nosso país à procura de melhores condições de vida Com o apoio da Associação Alves Redol, uma histórica associação com um enorme trabalho social junto da comunidade, foi possível dar vida a um novo espaço de Encontro, dedicado à integração e partilha, que tem sido marcado por muitos sorrisos e emoções fortes

jeto apresenta Neste momento, a grande maioria dos participantes chegam do continente asiático: Bangladesh, Nepal, Índia, Paquistão ou China Pontualmente, temos ainda pessoas vindas de outros países, como a Ucrânia, Alemanha e até América do Norte

O Elo não se revê numa ótica assistencialista, mas sim numa visão participativa e transformadora A sua atividade tem por base o ensino da língua portuguesa e o diálogo intercultural Procuramos criar espaço de aprendizagem mútua, onde o ensino é feito através de uma experiência de dimensão coletiva O domínio da língua permite a pessoas migrantes não só serem mais capazes de interagir com a sociedade de acolhimento, como também de afirmar, de forma efetiva e digna, a sua identidade e cultura Esse é o nosso propósito: que os migrantes tenham oportunidade de participar ativamente na sua nova cidade e país, mas que possam, ao mesmo tempo, afirmar a sua origem, desafiando as estruturas de exclusão social muitas vezes presentes

A diversidade de nacionalidades dos participanteséreflexodauniversalidadequeopro-

O Elo tem procurado criar um espaço inclusivo, onde os próprios alunos ajudam a definir os métodos de aprendizagem, adaptando-os às suas próprias experiências e necessidades O que começou com o ensino da língua portuguesa, transformou-se num espaço de partilha e valorização mútua, onde se aprende sobre vários países, culturas e experiências diferentes De forma participativa, promovemos atividades que aproximam migrantes e a comunidade local - desde visitas ao Mercado, Jardim Municipal ou outros pontos de referência da cidade Desenvolvemos ainda almoços interculturais, na própria Associação ou em espaços públicos, que contam com a participação de pessoas de diversas origens, tanto de portuguesas como internacionais, manifestando a riqueza da nova diversidade presente na cidade.

Entrevista Exploratória sobre Identidade - A Experiência de uma família Migrante:

Para o artigo se tornar mais representativo e para podermos conhecer melhor como a identidade se

manifesta na vida dos integrantes do projeto, realizámos uma entrevista exploratória com uma família indiana que chegou a Portugal há cerca de um ano.

A família é composta por uma Mãe (35 anos), uma filha mais nova (9 anos) e um filho mais velho (13 anos) Esta conversa foi feita de forma intimista e acolhedora, permitindo-nos mergulhar na perceção de pessoas migrantes, face aos seus principais desafios, sonhos, processos de adaptação e importância do Elo nas suas novas vidas Através dela conseguimos identificar uma tensão entre a preservação cultural e a integração social

Iniciando pela Mãe, ao refletir sobre a sua experiência em Portugal, expressou uma clara sensação de deslocamento, ao demonstrar que, enquanto sente gratidão pelo sentimento de segurança, liberdade e bem-estar, oferecido pelo seu novo país (em comparação com o anterior), confessa que, desde que chegou, sentiu-se sempre tratada como “estrangeira” no seu novo quotidiano. Acrescentou que experiencia um sentimento de inquietação e negação com a possibilidade de manifestar verdadeiramente os seus costumes Manifestou ainda que este sentimento será dificilmente desconstruído com o tempo e que dependerá sempre de como os portugueses encaram as suas diferenças no futuro

O filho mais velho, por outro lado, enfrenta outros desafios. Na escola, diz ter experienciado situações de bullying, feitas tanto por colegas como por professores, algo que afirma fazê-lo questionar-se em relação ao seu lugar e aceitação neste novo espaço

Já a filha mais nova partilha uma visão mais otimista, referindo que tem conseguido fazer amizades e adaptar-se ao ambiente escolar, embora mencione saudades da vida na Índia, da comida, da convivência com familiares e amigos, mas principalmente da “pessoa que lá conseguia ser”, demonstrando que a sua identidade poderá não estar a ser verdadeiramente expressa e aceite no seu novo país

Neste cenário, o Elo surge como um “espaço seguro”, segundo a família. A Mãe menciona como as atividades do projeto e, especialmente as aulas de português, ajudaram no processo de integração, não só pela possibilidade de poderem conviver com outros migrantes, mas também de poderem conhecer as pessoas locais de forma mais intimista e respeitadora, influenciando positivamente a imagem que têm dos portugueses

O Futuro do Elo que nos une –“sonho comum de sermos iguais”

O Elo-Coletivo foi a ideia bonita que fizemos nascer, por acreditarmos que todas as pessoas têm o direito de serem felizes no país em que escolhem viver Um projeto que nasceu pelas mãos da amizade e da cooperação e cresceu pela simples vontade de contribuir para que pessoas novas em Vila Franca de Xira possam, connosco, criar laços significativos, viver com dignidade, mas também, ter um espaço de reconciliação entre as suas raízes culturais e a sociedade de acolhimento

No Elo, aprender a falar português é só um pretexto Aprende-se tanto mais Aprendemos todos a quebrar barreiras, a comunicar com abra-

ços, a dizer "olá" em tantas línguas diferentes e a saber que o mundo pode mover-se com o coração e a reciprocidade Queremos que cada migrante se sinta capaz de afirmar a sua identidade de forma plena e justa, sem sentir que precisa de abdicar de quem é para se integrar e poder ser aceite

O Elo é o murmúrio do sonho comum de sermos iguais, celebrando as diferenças com

Agenda cultural março

Exposições.

SãoVicenteVistodeFora (exposiçãodefotografia)

MosteirodeS VicentedeFora,Lisboa Abertotodaasemana,das10h-17h Entradacombilhete-8€,4€parajovens até25anos desdefev.

27

MAC/CCB,Lisboa Terçaadomingo,das 10h-18:30h Entradacombilhetegeral7€ pararesidentesemPortugale3,5€para estudantes desdefev.

31Mulheres:UmaExposiçãode PeggyGuggenheim(coletiva)

UmaDerivaAtlântica:AsArtes doSéculoXX(coletiva) 21

MAC/CCB,Lisboa Terçaadomingo,das 10h-18:30h Entradacombilhetegeral7€ pararesidentesemPortugale3,5€para estudantes

07

UrbanLife,deBlindato

CentrodeDocumentaçãodoEdifício CentraldoMunicípio,Lisboa Diasúteis,das 9às19h Gratuito atémar

08

GaleriaUnderdogs,Lisboa Terçaasábado, 14h-19h Gratuito atémar

atémar

09

OHumorUnidoJamaisSerá Vencido:Oscartoonsda Revolução(1974-1976)

MuseuBordaloPinheiro,Lisboa Terçaa domingo,das10h-18h Entradalivre

atémar

15

Correspondênciacruzada,de AdrianaOliveiraeJoana Paraíso

BibliotecaPalácioGalveias,Lisboa Segundaa sábado das10h-19h(excetosábadoe segunda,das13h-19h) Gratuito

atémar

17

EspóliodeFernandoLemos

FundaçãoCalousteGulbenkian,Lisboa Segundaasexta,das10h-19h Entradalivre

Disco,deVivianSuter

MAAT,Lisboa Quartaasegunda,das10h-19h EntradacombilhetegeraldoMAAT-11€ 8€ paraestudantes

BlackAncientFutures (coletiva)

MAAT,Lisboa Quartaasegunda,das10h-19h EntradacombilhetegeraldoMAAT-11€,8€ paraestudantes

Rooms,deAnthonyMccall

MAAT,Lisboa Quartaasegunda,das10h-19h EntradacombilhetegeraldoMAAT-11€,8€ paraestudantes

31Mulheres:UmaExposiçãodePeggyGuggenheim (coletiva)

23

LisboaemRevolução1383-1974

MuseudeLisboa,PalácioPimenta,Lisboa Terça adomingo,das10h-18h Entradacombilhete (incluitambémosoutrosquatronúcleosdo museu)-3€bilhetenormal,1,5€para estudantes atémar

28

OhSelva...

CasadaAméricaLatina,Lisboa Segundaa sexta,das9h-18:30h Entradalivre atémar

29

VisitaoAljube!Visitaorientada mensal

março

Qu’estcequetufredonnes?,de TeresaCarvalho

Andyourfleshbecomesa poem,deTamaraAlves CasadaLiberdade-MárioCesariny,Lisboa Terçaasábado,14h-20h Gratuito P3-Planisfério,Palavra,Papel, deClaudeYersin,Benavidez BedoyaeJaymeReis GaleriaMonumental,Lisboa Terçaasábado, 15h-19:30h Entradalivre

Surrealismo:UmSaltonoVazio

SociedadeNacionaldeBelasArtes,Lisboa Segundaasexta,das12h-19h;sábado,das14h -19h Entradalivre

21

Exposição«Japão:Festase Rituais»:VisitaOrientada

MuseudoOriente,Lisboa 18h 6€

22

APosiçãoeoMovimento,de PedroCalapez

GaleriaMiguelNabinho,Lisboa Segundaa sexta,das10:30h-19h,esábado,das10:30h19h Entradalivre atémar

MuseudoAljube,Lisboa 10:30h Entradalivre, sujeitaàinscrição atémar

atémar

31

NarrativasdoEu,EntreoPúblico eoPrivado:LivrosdeArtistasde MulheresnaColeçãoda BibliotecadeArte

FundaçãoCalousteGulbenkian,Lisboa Segundaasexta das10h-19h Entradalivre

MariaBeatriz.CorpoaCorpo. BárbaraFonte

GaleriaRatton,Lisboa Segundaasexta,das10h -19:30h Entradalivre

Concertos. Cinema. Teatro.

UmJantardeFamília:FontedaImagemBOL

27- fev.

30 mar.

Teatro

UmJantardeFamília

TeatroS Luiz,Lisboa Quintaasábado,às20h 12€

TeatrodaComuna,Lisboa Quartaequintaàs19h;sextaesábadoàs21h; domingoàs16h 12,5€

março

Concerto

10

13

MulheresemConcerto,com BeatrizAlmeida,Mariana Rebelo,MartaLimaeMasha Soeiro

BOTAAnjos,Lisboa 21h-23h 11€

FontedaImagem:AgendaCulturalLisboa

FontedaImagem:JustWatch

março

Concerto

17

SegundasnaZ:Puxaram-meo Tapete,SaraChitas+Vampiro

GaleriaZédosBois,Lisboa 22h 14:30h22h Seminformaçãodepreço

março

Cinema

26

CiclodeCinemaePsicanálise «Lyncheo(In)Consciente Múltiplo»-WhatDidJackDo, deDavidLynch

BOTAAnjos,Lisboa 21-23h Entradalivre

Teatro

SegundasnaZ:Calha,Maria AbrantescomÂngeloCastroe GonçaloAlegria

GaleriaZédosBois,Lisboa 22h 14:30-22h Seminformaçãosobrepreço

março

Cinema

14

Exibiçãodofilme«Terra Estrangeira»,deWalterSalles eDanielaThomas

CinemaNimas,Lisboa 17h 8€

março

Concerto

31

SegundasnaZ:Ravenna Escaleira,DanielLevin+Masha Nikolaeva

GaleriaZédosBois,Lisboa 22h 14:30-22h Seminformaçãodepreço

FontedaImagem:IMDB

Conferências eoutros eventos.

Fonte:TDA

março

Discurso

06

dabocaaouniverso,deAndré deCampos

TeatrodoBairroAlto,Lisboa 18:30h Entradalivre(sujeitaàlotação)mediante levantamentopréviodebilhetenopróprio diaapartirdas18h

março

Conferência

março

12

Apresentaçãodolivro«Vêsea primaverajáchegou-Cartas daPrisão»,deMariaHelenae ÓscarLopes

MuseudoAljube,Lisboa 18h Entradalivre

Masterclass«Todospodemos improvisar»,comopianista JúlioResende Aulade técnicasdeimprovisaçãoe expressãomusical

FCSH,TorreB,AuditórioB2 Tambémhá modalidadeonline(Zoom) 15h-17h Gratuito,segundoinscriçãopréviaaté6de março

21

EncontroUniversidadesem Exames-«Aslutasfeministas»

MuseudoAljube,Lisboa 17h Entradalivre março

23

Fonte:TDA

10

Sessãocomacadémicoseprotagonistas desteacontecimento;projeçãode documentárioRTP 11deMarço,50AnosDepois.Da ComissãoComemorativa50 Anos25deAbril

março

Conferência

11

AntropologiadosFuturos,com JoséCarlosPintodaCostae AnaIsabelAfonso(CRIANOVAFCSH)

FCSH,TorreB,Sala2021 Tambémhá

modalidadeonline(Zoom) 14h-15:30h, Entradalivre

ClubedeLeituraLeiaMulheres -«AGlóriaeseucortejode horrores»,deFernandaTorres MuseudoAljube,Lisboa,15h Entradalivre março

MatinéBicartes-Feirade ArtistasVisuaiscomMúsicaao Vivo

Forno-EspaçoCultural,RiodeMouro (Sintra) Entradalivre 14-mar.

16 mar.

ArtesPerformativas

Simbiemáguasastronómicas,de InésSybilleVooduness

TeatrodoBairroAlto,Lisboa Sextaesábadoàs 19:30h;domingoàs17:30h 12€

Conferência

março

Conferência

20

Aljube,Comoseconstróium museuondefuncionouuma prisãodaPIDE?

ComRitaRato AlfredoCaldeira Domingos Abrantes FernandoRosaseLuísFarinha MuseudoAljube Lisboa 18h Entradalivre

28

TeatrodoBairroAlto,Lisboa 18:30h 5€ março

HummingasaPraxis,de HenriqueJ.Paris

Fonte:MEOtickets

CartãoPostaldaIlhadaMadeira

ARevoltadosInsulares:O ManifestoAtlântico

“Se Portugal é um só, que esse “um” abrace a diversidade das nossas origens, sobretudo a dos que, vindos da Madeira e dos Açores, carregam no olhar o brilho do Atlântico e a esperança de um amanhã diferente.”

O vento sopra forte nas ilhas, mas o verdadeiro furacão espera-nos no continente Somos os Ulisses modernos, lançados ao mar da burocracia, navegando entre sereias de promessas vazias e ciclopes de indiferença.

Chegámos a Lisboa – mas a terra firme nunca chega Pagamos passagens a peso de ouro para estudar num país que nos trata como turistas, cobrando-nos taxas alfandegárias sobre o próprio futuro.

Senhores e senhoras das altas torres de marfim, contemplem a ironia: Portugal, esse velho marinheiro cujos Descobrimentos enchem os livros de História, hoje fecha os portos àqueles que vêm das ilhas O vosso centralismo cheira a mofo, guardado em baús de um império que já morreu. Dizem-nos que a educação é um direito, mas no fim do mês a renda do quarto e as propinasgritamocontrário

Nós, estudantes insulares, somos os navegadores forçados a cruzar o Atlântico num bilhete que custa o futuro Exilados modernos, lançados à deriva num mar de desigualdades, onde cada onda de burocracia arrasta um pouco mais a nossa dignidade. Se a TAP é a sirene que nos promete “continuidade territorial”, a melodia amarga dos preços exorbitantes é o fado que entoamos em cada viagem, em cada regressoadiado

Nas universidades, labirintos de estatísticas e números que ninguém se dá ao trabalho de contar, os alojamentos são miragens e os apoios governamentais, promessas escritas em papel que se desfaz no vento As ajudas chegam como

garrafas lançadas ao mar – tardias, raras e, muitas vezes, vazias Enquanto o governo se embrenha na sua torre de marfim, nós enfrentamos tempestades diárias para manter acesa a chama do conhecimento.

Por detrás das portas fechadas dos gabinetes, senhores de gravata e conselheiros de barbas grisalhas declaram “coesão territorial” com a frieza de contadores de moedas em cofres trancados Falam de unidade nacional, mas esquecem que, o que nos une, é a nossa luta e o grito abafado pela maré de indiferença

Enquanto a burocracia se enrola como serpente, nós, herdeiros de um passado de descobridores, somos tratados como vestígios de um território esquecido

Nas madrugadas longas, quando o silêncio das bibliotecas é interrompido apenas pelos ecos dos nossos pensamentos inquietos, o mar transforma-se num espelho da nossa revolta

Cada quilómetro percorrido, cada viagem marcada por bilhetes dourados e registos de passagens impossíveis, intensifica a nossa indignação, transformando-a numa maré de protestos que clama por justiça

MAS É AQUI QUE A TORMENTA SE LEVANTA!

Chega de navegar sem rumo num oceano de promessas quebradas! Que as ondas de indignação varram os corredores frios do poder, que as nossas vozes se ergam como trovões contra a complacência dos que nos governam Não somos meros números para serem acomodados em estatísticas ou ratificados em

discursos vazios Somos a fúria contida de uma juventude insular, a energia que se recusa a ser engolida por um sistema obsoleto

Se a educação é um direito inalienável, então a burocracia que a transforma num privilégio deverá ruir como castelo de cartas ao primeiro vendaval de consciência Se Portugal é um só, que esse “um” abrace a diversidade das nossas origens, sobretudo a dos que, vindos da Madeira e dos Açores, carregam no olhar o brilho do Atlântico e a esperança de um amanhã diferente.

Que os gabinetes tremam ao sentir o peso da nossa revolta! Que cada passagem cara, cada propina abusiva, cada alojamento inalcançável seja transformado num estandarte inflamado, um convite à mudança Pois se aprendemos algo com o mar, é que a força das correntes não se mede pelo poder de quem as tenta controlar, mas pela persistência daqueles que ousam nadar contra a corrente

O sistema pode tentar nos silenciar, mas a nossa rebelião é como o mar: indomável, ruidosa e capaz de quebrar as rochas mais intransigentes E se a maré não ceder, que os ventos da revolução arrastem cada porta cerrada até que o grito dos estudantes das ilhas não possa mais ser ignorado Que venha a justiça, que venha a mudança – e que este clamor ecoe, explosivo, por todo o país

Lá estou eu, nós, longe de casa, com os bolsos vazios e o coração cheio de saudades

Até já, casa!

Amarração

Neste Dia dos Namorados, não te oferecerei nem chocolates nem bilhetes com corações Deixarei as flores de parte, pois em breve teremos tempo para todos os encontros românticos que a nossa vontade quiser Estas velas que uso não são para melhorar a atmosfera da sala A minha nudez não é para resultar numa noite de prazer mútuo, pelo menos por agora

Ligo-me ao meu interior facilmente, de tantas vezes que já lá fui, e trago de dentro de mim a paixão mais pura Penso em ti enquanto gordas gotas vermelhas caminham desde as minhas veias ao soalho No meio do círculo encontra-se um molho de cabelos teus, roubados da escova que tinhas na tua casa de banho Já há um tempo que perderam todo o seu cheiro, o que faz com que não me custe demolhá-los no chá de rosas Não está muito quente, tal e qual como preferes

Oiço a campainha a tocar, mas sabia que estavas perto muito antes disso Não tardarei a encontrar-te à porta, por isso não me apresso De qualquer das formas, sei que não levarás a mal A compreensão é uma das tuas melhores qualidades

Aproximo de mim o bule, deixando que o calor me cubra as mãos A ponta dos meus dedos toca na água ao pegar no coador, que traz consigo a peça de roupa que procuro Tingida pelo chá, nem parece algo que usei no dia anterior - algo que absorveu os meus sucos enquanto pensava em ti

Está na hora de me vestir Escolhi o meu vestido azul, que sei ser a tua cor predileta Em instantes, servir-te-ei uma chávena, perguntando se queres açúcar, mesmo que saiba que dirás que não Irás agradecer-me pela hospitalidade, enquanto molhas um dos meus biscoitos no líquido translúcido - Este chá é bom É de quê?

De amor

Mariashá muitas!

(Maria)BárbaraSoares

São mãos de mulher que tecem o mundo, com Cuidado fiam cada segundo das sinas entreLaçadas e repartem a inevitabilidade que, Ávida, todos aguarda

Os nomes esquecidos pela tinta do pincel que os factos pinta Os feitos negligenciados em favor dos mais “conformados”

Maria, musa da história, guarda na memória o fardo dos dias marcados por lutas ainda não acabadas

Maria do campo e da cidade, dona da verdade, tantas vezes ignorada, semeia os frutos colhidos por homens alheios que desconsideram as suas palavras por devaneios

Força que é filha, mãe, avó, irmã, corpo que assegura o amanhã Na sua vasta multiplicidade, constrói a realidade

E por cada Maria esquecida, há outra que nasce para recordar – o silêncio não deixa de falar e a história pode ser interrompida

Porque Maria não é só um nome, é um legado de princípio, meio e fim cujo peso é a dor e vitória de todas as Marias que são parte de mim

Rumoaofestival detunasmistas doBarreiro“XIII AFragata25”:A Tunaestápronta parazarpar!

Nos próximos dias 28 de fevereiro e 1 de março, às 21h, a Real Tuna Académica NeOlisipo embarca numa nova aventura musical, rumo ao Barreiro para participar no festival de tunas “A Fragata” Com as capas preparadas, os instrumentos afinados e o espírito académico em alta, prometemos levar ao público toda a nossa energia, tradição e, como não podia deixar de ser, muita música! O festival será uma oportunidade para partilhar palco com outras tunas e viver momentos inesquecíveis, deixando a marca da nossa faculdade por todos aqueles que passarem por nós Entre pandeiretas e guitarradas, estandartes e gritos académicos, estamos prontos para encantar o público com uma imagem renovada da nossa tuna e novidades nas atuações, tanto na performance como no nosso repertório!

Não percam a oportunidade de assistir à noite de serenatas dia 28 às 21h na Escola Superior de Tecnologia Do Barreiro, e dia 1 de março às 21h no auditório da associação SDUB - "Os Franceses", no Barreiro

PintofScience

Umfestivalondeaciênciaeacervejase juntamparaumadiscussão

A Pint of Science é uma associação sem fins lucrativos, cuja missão é tornar acessível a discussão sobre ciência num ambiente descontraído Para este fim, organiza o maior Festival de Ciência, que decorre no mês de maio durante três dias, em bares espalhados por Portugal continental, e em 26 outros países dos diferentes continentes

Esta ideia surgiu em inspiração no evento “Meet the Researchers” - Conhece os Investigadores - onde dois neurocientistas deram a conhecer o seu trabalho laboratorial a pessoas com doenças neurológicas Em maio de 2013, sucede a primeira edição do festival Pint Of Science em três cidades de Inglaterra.

Foi numa passagem por Inglaterra que Daniela Domingues, presidente da associação Pint of Science Por-

tugal, conheceu este projeto Daniela sabia que tinha de trazer este conceito para Portugal “Afinal, nós somos um país onde as melhores discussões acontecem com cerveja”, afirma “Ao menos com amigos!” - acrescenta Na necessidade de envolver cada vez mais a sociedade com a ciência, englobando tanto as ciências exatas como as não exatas, realizam desde 2018, com o apoio de uma equipa de voluntários, o festival Pint of Science Portugal

Este ano, a Pint of Science Portugal estará presente em 10 cidades (Almada, Aveiro, Braga, Bragança, Castelo Branco, Coimbra, Faro, Guarda, Lisboa e Porto) e decorrerá nos dias 19, 20 e 21 de maio de 2025, onde a ciência se junta à descontração de um bar.

“Um bar, um copo de cerveja na mão e uma conversa so

Foto:Tuna

As Descobertas de Nuno Folha discriminação à imigração

-Éimpressionanteasdiferentescomunidadesqueexistemem Lisboa!

NunoFolhaestánobardaFCSHalancharcomosseusamigos, AnaTesouraeRafaelRocha

-Bem-vindoàcapital,meninodaterrinha–dizAnaTesoura,em tomsarcástico

-NãoéquenãohajacomunidadesimigrantesnaCovilhã –respondeNuno–Simplesmente,nãosãotãovastasedetantas nacionalidadesdistintas

-Vejoquealguémandaaexploraracidadenosseustempos livres!–intervémRafael

-Naverdade,nãoprecisasdeirmuitolongeparatal Num trajetofaculdade-casa,éscapazdetecruzarcompessoasde doiscontinentesdiferentes,nomínimo Porém,claroqueno metro ou num centro comercial, encontrarás com maior facilidade

- E hás de reparar nas condições em que muitos deles trabalhamouvivem –indagaaamigadeNunoFolha

-Chegaaserdesumanoemmuitoscasos,sim Nãosópor aquiloqueéfeito,mastambémporaquiloqueosórgãosde comunicaçãosocialdemonstramoucertaspolíticasquesão aplicadasÉmuitotristevercomomuitasdestaspessoasvêmem buscadeumavidamelhor,àprocuradecondiçõeslaboraise económicasdignas,eesbarram,muitasvezes,comumsistema opressivo,quenãosóasexploracomotambémlhesretiraasua dignidade

-ÉolharparaoqueaconteceunoMartimMoniz,emdezembro Dezenasdepessoasencostadasàparede,sendoamaioria imigrantes,eparaquê?–questionaRafaelRochacomdeceção.

-Éopaísquetemos,meuamigo–respondeAna–Sendoque istoéapenasoqueaconteceàsclaras,imaginaaquiloquenão nosémostradoequeaconteceemoutraszonas

-NãotemqualquerfundamentoÉerradoporsimesmoteresse tipodeatitudesejacomquemfor,mastodaanarrativaquese cria em torno do imigrante não tem qualquer sentido Os trabalhosemquesãocolocadossãoaquelesqueamaioriado “cidadão comum” não quer fazer, além de trabalharem em condições péssimas e muitos deles serem claramente explorados Para não falar que qualquer ser humano pode cometerumcrime;nãoseráacor,etnia,oquequerquesejaa determiná-lo–declaraNunoFolhanumtomdeindignação -Tiraste-measpalavrasdaboca,Nuno -Odebateestámuitointeressanteepormimcontinuaríamosa falarsobreistoporhoras,masinfelizmentejáestamosatrasados paraaaula–RafaelRochamostraoecrãdoseutelemóveleo relógiomarca16:04.

Ogrupodeamigosacabadecomeroseulancherapidamentee saemdobar,massempreapartilhareadebaterassuas inquietaçõesepreocupações

TheWaves

Last year I dreamed that flowers had come to relinquish me from an unattainable dread of continuous suffocation that stands as art between walls and walls consuming breath and time grieving loss and desperation looking for a different outcome outside of this commodification

I, who fought with resolution am now stranded between land and land sea and sea that hinder me from seeing beyond what stands in front of me

You, who dreamed of bigger things, you who moved with the sound of the waves that propelled you forward, balanced your assimilation within the catacombs of your enlightenment, you stand here in front of me, blinking with your eyes closed, praying as a mantis, deepened by the dark circles under your eyes You who read poets and poetesses, whereas I read the doodlings left by the prisoners of this world, we now both reach the same conclusion: that in a world such as this, time means as much to reveal one’s identity as a source of light coming from the pointing of a finger reflecting what was coming through the door Nevertheless, we together stand as one Not out of fear of disintegration but out of desire moved by the wheel corresponding to a memory that devours the intricacies surrounding our alienation Only much later did we dive into the unbeknownst rumbling created by this earth to warn us of the dangerous ramifications giving meaning to a fragmented society – space was all that was left in these mottled fragile beings We moved inwardly, stealthily, and within limits Grabbing to life, you stood perched on the threshold separating being and not being, only to find yourself and me too far gone from substantiality We dreamed of empty moments to fill them with abstract confidentialities when, in fact, we thought them material How intrinsic was the veil enveloping our thoughts when we reached the conclusion preceding all we knew? I grew up to be ashamed of our connection and only now can I understand the force that propels me forward

Querido Carnaval

Estamos a meados de fevereiro e já te oiço por todo lado Imitemos, novamente, o tempo em que vestimos a pele de todos menos a nossa; o tempo em que nos despersonalizamos como lagartos que se despem Mas há vários anos que, por não poder ser, deixei de me despir Já não sou a castelhana das saias que rodopiam, ou a Branca de Neve com cabelos castanhos e longos Neste momento, sou somente a caneta e o papel, e não aguardo pela tua paleta de cores que me magoa os olhos; também não me interessa ir para as ruas ouvir os instrumentos e ver as danças que me lembram de um estado de espírito que não possuo A culpa não é tua, claro Podes sim culpar-me por ter crescido, ou por estar a viver a quarta-feira onde restam apenas os escombros daquilo que só voltará a acontecer daqui a um ano Gostava que voltasses a sentir o meu ritmo cardíaco pulsante e frenético, acompanhado do calor da minha pele, que sua por tudo o que é canto Infelizmente, tocas-me e estou fria como um morto Hoje, à lareira observo as espécies camufladas nos troncos, como se fizesse parte delas e devesse morrer queimada Queimo-me de ira e frustração e de seguida choro, como se o meu corpo apagasse o próprio incêndio Talvez sintas a chama que arde dentro de mim numa outra altura, e que nesse compasso de espera continues a colorir a vida das crianças, que um dia, se tornarão como eu, que vivo eternamente no dia seguinte, onde a chama virou cinza

Costela-de-adão,aFlor

InêsFonseca

A matéria que nos alberga é a mesma, mas a força que nos move é distinta A diferença reside exatamente no facto da rememoração dos limites corpóreos Homens não são constantemente lembrados de que o são; Mulheres não passam um movimento de rotação terráqueo sem se encontrarem com a dupla de palavras “sou Mulher” nos vincos dos seus cérebros. Por múltiplas formas de entoação, por outras tantas formas de expressão, elas surgem quando menos se espera Tiram o fôlego e devolvem a sensação de aperto ao corpo humano, ora por calor, ora por frio Calor quando o coração aquece pelo sucesso de outra Mulher; frio quando os dentes rangem pelo aumento de atentados ao corpo feminino globalmente Andamos com alvos na testa, até quando não queremos pisar o chão que nos segura; quando nos tentamos esconder, reduzir ao interior do nosso diafragma e fazer das costelas baloiço Desde o excerto da costela de Adão, à acusação de degustação da maçã; desde o gerar de vidas no ventre, ao erguer a voz sibilada por lágrimas para dizer “não”, quais são os limites de uma Mulher?

Não há limites O mundo pede para que estes sejam constantemente alargados, para que, com lápis e borracha, as Artistas os apaguem e redefinam sobre olhar atento dos gestores do leilão É ver quem estará disposto a dar o valor mais alto e procurar por entre os números o ponto seguro de uma existência Nunca se finda a procura É o procurar pelo lugar mais seguro do comboio à noite, é a procura por uma voz feminina do outro lado da porta do consultório, é a procura no guarda-roupa pelas peças que menos chamarão à atenção O desejo último é a invisibilidade O fechar de olhos para que ninguém nos veja não nos salva, muito menos as maiores pétalas das mais cheirosas flores Não se trata de pintar as unhas e a cara, nem de descansar o corpo numa posição fechada num banco, ou sorrir para que nos sorriam; ser Mulher é muito mais É sentir orgulho, concomitantemente intercalado com medo, no simples verbo ser. Aplausos sejam dispostos à mesa de jantar Daquela que chega a casa depois de um dia no mundo, verdadeiramente precisa-se deles

Que o palpável um dia se torne na segurança que uma Mulher sonha Que o dia 8 de março seja para sempre um marco celebrado internacionalmente, enquanto no telejornal passa o número de mutilações genitais femininas portuguesas desempenhadas nos últimos 10 anos (1290, segundo o Público), ou enquanto na rua se escutam passos acelerados de quem suspira pela vida O mundo é feito de injustiças, mas curioso que todas elas pendem para os mesmos artigos definidos “A, As”, que aguentam com os preços do que é necessário ao seu corpo, dentro de uma carteira habitada por menos que “o, os”; essas que, um dia, contaram aos ramos das suas árvores o que passaram e observaram como os ramos contaram às folhas os avisos geracionais, atuais Sempre atuais na natureza, que somente se digna a gerar flores automaticamente murchas, embora preenchidas por vontade de brotar Trata-se de um combate sempiterno contra si mesmas, recusando a etapa da aceitação Não aceitamos e não queremos esquecer as assinaturas deixadas no tempo das nossas raízes Que venham mais linhas para escrever e mais certezas do que nelas inserir, enquanto a única que possuímos é a que não nos abandona pela força que nos move: somos Mulheres

Substância

TiagoFreitas

Às vezes, é preciso que a sombra de uma árvore se estenda por inteiro sobre a terra para que o céu, que nunca se viu ao espelho da água, se revele em toda a sua vastidão O homem, que não se cansa de olhar para o outro e dizer, este sou eu, nunca soube, desde o princípio, que o outro era ele e que o que nele mais assombrava, mais aterrorizava, era a ideia de que a sua própria identidade pudesse ser um espelho torto, um reflexo distorcido daquilo que ele ainda não ousava reconhecer

Dizem que a cor da pele é o marcador das diferenças, e, no entanto, quem é capaz de dizer que cor tem a dor? A dor, essa substância misteriosa, que se insinua como uma palavra não dita, mas que escorre pelos olhos em silêncio, como uma chuva que não sabe se é primavera ou inverno, mas que, de qualquer modo, atinge a terra e faz com que as sementes do sofrimento floresçam, porque a dor também tem o seu tempo para crescer e se expandir, e os homens, esses que acreditam que sabem tudo, não sabem que a dor, com a sua cor escura, é de todos

Então, eis que se ergue o muro, o mesmo muro que se ergueu desde o princípio, quando o primeiro olhar se transformou em julgamento Um muro que não é feito de pedras, mas de palavras Uma palavra aqui, outra ali, e tudo se torna um castelo, e tudo se torna uma prisão O negro, com a sua pele escura, é a pedra angular dessa construção Não há muros que possam aprisionar o grito abafado de um homem que não se rende ao silêncio, porque, no fundo, o silêncio é a prisão mais cruel de todas, e o negro, esse ser que é mais do que um corpo, é também a voz que ecoa para além do limite da carne, para além das fronteiras da cor

Como é que alguém pode ser aprisionado por algo que deveria ser apenas uma variação natural da pele, mas que o olhar alheio transforma em sentença? Como se a identidade fosse um bilhete de viagem escolhido por outros, um destino traçado antes mesmo do primeiro passo Mas eis que o mundo, como quem já conhece as respostas antes das perguntas, desenha fronteiras onde não deveria haver, faz da cor um critério mais poderoso do que o próprio sangue, e o sangue, esse que corre em todas as veias, torna-se um espectador impotente de um drama que nunca deveria ter sido escrito

E, no entanto, o negro não é só negro, é também um ser que respira, que sente, que ama e que, acima de tudo, luta, como todos os outros, pela sua humanidade Quem ousaria negar-lhe a humanidade, quem, senão o medo, teria a audácia de ignorar o que é mais evidente? Pois a humanidade é um manto que cobre todos, e quem mais se não o negro poderia erguer essa capa, como se fosse um estandarte que desafia a cegueira de quem olha sem ver, de quem toca sem sentir? A cor é um detalhe irrelevante no grande espetáculo da vida, e é por isso que o racismo, esse veneno que mata aos poucos, é um absurdo que ninguém deveria tolerar

Mas o homem, que sempre procura um pretexto para se afastar de outro homem, constrói então um abismo, e no fundo desse abismo, onde o negro é colocado como se fosse uma criatura de outra estirpe, lá está a mentira, a mentira que diz que há homens de primeira e homens de segunda E a mentira, como todas as mentiras, tem pernas curtas, mas é impressionante como ela se estende no espaço e no tempo, fazendo com que todos acreditem nela por um instante, e, no entanto, o tempo, esse ser imparcial, vai ensinando que as cores da pele não importam, que o valor de uma vida não se mede pela sua cor, mas pela sua capacidade de ser, de existir, de amar

No fim, o negro, como todos os outros, será apenas uma pessoa E quando alguém se atrever a dizer que ele é menos, a cor da sua pele será, talvez, a última coisa em que se pensará, porque a verdade, como toda a verdade, é uma grande luz que ofusca qualquer sombra

Vivemosumavez

Martin.

Rematei e criei rede (não tenho

Capacidade para criar) Fui colonizado

Pelo sistema de ensino americano - mata-me

Com o teu amor, leva-me deste quintal (Belo) vazio

Esqueci-me de agradecer à obstetra

Pelas algemas São suaves, nem reparo

Nelas Uso-as de bom grado e dão-me sorte

Já vi isto noutra vida,

Sou uma barata esmagada pelo

Passado, à espera do futuro - pára

De cravar esse pé Não vou ter

Asas Morri com 20 cêntimos no Bolso direito, e a minha coleira

Personalizada no bolso esquerdo Somos todos

O Sísifo depois do pequeno-almoço Estamos em

Coma até morrermos O meu Pai relaxou-se no sofá - perdi

Outra vez O ventre não devia ser o apogeu

Da existência: um dia ela vai-se embora, e os Homens não choram:

Refugiam-se em metáforas

Se Deus nos ama, porque

É que nos mata (usa o sangue

Para legitimar o fato e a gravata)

Dos treze para a frente não sei

Precisar o que foi (ou não) teatro – talvez

Seja o mundo Conscientes desesperados

Agarram-se a pó, inconscientes desesperados

São histéricos O barulho tem melhor acústica

Em dor Fazem-se rinoplastias para Defumar a solidão psíquica, marcam-se Pontos pela atenção

Saudades do que não podemos voltar a viver, Que dor pelo que a “circunstância”

Não nos vai deixar fazer Chama-lhe tecnologia, Eu dou-te os parabéns pelo lucro Somos cães a Caminho do abate, abanamos a cauda

Alheios ao que nos vai acontecer (já está)

Ofereceste-me (o meu) silêncio Ninguém ouve

Alguém Trocaram-nos o cordão umbilical

Por tampões de ouvidos e coração

Também tenho culpa Fazia das minhas tripas

Bagagem de mão por reconhecimento Os domingos

São o assassinato do entretenimento – sagrados. Sou de Plasticina Não escapei, acabamos sempre por ser Apanhados Somos uns porcos abençoados Deus

Comanda os filhos, até os que tentam ser bastardos

Pára de tratar o teu amor como esmola Tira os olhos

Do chão As pedras da calçada não te vão cair em cima

Deixem-me ser otimista. Vou de inseto

A bactéria - vou encostá-los à Parede e queimar-lhes a coroa Tenho

De ser discreto, eles estão a ler isto, Já o sabiam antes de estar escrito.

Perdi-me

Não vou ter asas. Já não Existem seres voadores, os céus

Estão reservados Já não vejo o meu Vizinho há meses (desde Coimbra)

Quero um aperto de mão com

A penicilina Estrangula-me com Amor, por favor Não há mais nada

Churrasco Tomada de Posse

Bifanas bem boas!
Fotos: Mariana Figueiredo e Laura Teodoro

PARAPASSARES OTEMPO...

Horizontal

3 Primeira mulher afro-americana a receber o Prémio Nobel da Literatura

6 Minou toda a gente no churrasco da FCSH

7 Chegou na hora do almoço e abanou com tudo

8 Nome da mascote da tuna que foi roubada no churrasco

Vertical

1 Onde podes comprar as roupas roubadas de um deputado da AR

2 Rapper que ganhou um Grammy por uma diss track

4 Núcleo que reúne e defende os direitos dos estudantes africanos da nossa faculdade (e não só).

5. "Hello, very nice to meet you. I'd like to know about ... operation." (Emilia Pérez)

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Passa pela playlist “Black Excellence”, ondeasmúsicasexploramváriasquestões eidentidadesdiversas!

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