h - Suplemento do Hoje Macau #30

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PARTE INTEGRANTE DO HOJE MACAU Nº 2521. NÃO PODE SER VENDIDO SEPARADAMENTE

ARTES, LETRAS E IDEIAS

h JOSÉ VICENTE JORGE

UMA ILUSTRE VIDA


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Fotobiografia de José Jorge Vicente lançada hoje

AS FOTOGRAFIAS DE UMA ERA LIA COELHO

lia.coelho@hojemacau.com.mo

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AIS de 300 páginas compõem a fotobiografia do macaense José Vicente Jorge, de Pedro Barreiros e Graça Jorge, que é hoje lançada no Albergue. O lançamento do livro marca o início da colecção MacauFotoBios, iniciativa do também filho da terra, Carlos Marreiros. “José Vicente Jorge, Macaense Ilustre” é o primeiro, mas segundo os autores, “pode ser um primeiro passo para aprofundar a história da comunidade. Há ainda muito por contar sobre “os indo-portugueses”, que ainda hoje se perguntam quem são. “O que é ser macaense é uma pergunta que fazemos muitas vezes. Somos, porque nascemos de um cruzamento e somos, porque absorvemos a terra”, afirma Pedro Barreiros. Por ascendência ou por estado de alma, para ser macaense é preciso sentir e viver Macau, assim diz Graça Jorge. A viver fora do território, ambos vêm a sua comunidade a ser cada vez mais defendida, apesar de acharem que ainda há muito por estudar. “Em tempos anteriores o que se divulgava era a cultura portuguesa, agora a macaense está mais presente”, refere Pedro Barreiros. Há quem o faça e bem. O Hoje Macau esteve à conversa com os netos, para saber que foi o homem e “o avô”, como a ele se referem com um brilho de orgulho nos olhos. Os textos estão escritos em três línguas: chinês, português e inglês. Quem foi o homem José Vicente Jorge? P.B.: José Vicente Jorge era um macaense, filho de uma família antiga de Macau. Tinha uma grande cultura sobre a história e a filosofia da China. Foi fortemente influenciado pelo seu pai, nomeadamente a nível político e mais tarde pelo professor Pedro Nolasco da Silva. E foi um grande unificador entre duas culturas. E “o avô”? G. J.: Eu não tenho muitas lembranças,

porque tinha quatro anos quando ele foi para Portugal. Lembro-me de estar na casa grande e dos carinhos, que ele me fazia. P.B.: A minha maior recordação são as primeiras férias de verão em Portugal. Fomos para São Martinho do Porto, mas o avô quis ir comer pão-de-ló a Alfeizerão. Alugou uns burros, cortou as calças para fazer uns calções e lá fomos nós. Parecia uma procissão. Podemos dizer que marcou uma época em termos de ponte entre comunidades?

Os descendentes

O livro foi escrito pelos netos, Graça Pacheco Jorge e Pedro Barreiros. Tem exactamente 364 páginas, com várias ilustrações, tiradas do espólio familiar. Ela dedica o seu trabalho à gastronomia local e ao estudo da identidade macaense, nomeadamente da sua família – em Macau desde do século XVII. Pedro Barreiros, macaense de alma, é médico e também dedica algum do seu tempo à pintura.

P.B.: Sim, foi um marco importante na história de Macau. Ele era o assessor e a ponte entre cultural e politico entre a China e Portugal. Naquela altura representava um alto cargo – ser intérprete junto do Governo. E onde se situava Portugal na vida de José Vicente Jorge? P.B.: Bem, falava português muito bem e tinha muita curiosidade sobre a cultura portuguesa. Mas, sempre viveu aqui e formou-se aqui. O seu grande conhecimento era de Macau e de arte chinesa. E para entender Macau é

preciso entender a China. O que se conta este livro? P.B.: Algumas partes da vida de José Vicente Jorge. Tem um texto introdutório e depois os temas são desenvolvidos em capítulos. Estão escritos em três línguas. A maioria são fotografias de acervo pessoal. Há duas que foram tiradas por Carlos Cabral, um fotógrafo amador, também macaense. Falta ainda muito por contar sobre a história dos macaenses. Um deles é “o avô”. Este pode ser um primeiro passo um maior estudo da comunidade? P.B: Sim. Estas iniciativas são sempre importantes para a nossa cultura. Como se tem tratado os macaenses? P.B.: Creio que hoje em dia a comunidade está a ser bem defendida. Noutros tempos o interesse era em divulgar a cultura portuguesa, agora não. Temos macaenses a afirmar o que somos e a proteger a nossa identidade. E são eles que divulgam o que somos. E o que é o macaense? P.B.: É uma pergunta que fazemos


sempre. Quem somos? Somos descendentes dos indo-portugueses. Dos homens que vieram com Vasco da Gama e aqui fizeram vida, casaram e tiveram filhos. Mas há também o macaense, que o é porque absorveu a terra. A Portugal chega Macau? P.B.: Não. Continuava a haver um grande desconhecimento de Macau. Apesar de se tentar promover, não há melhorias. Macau tem que se viver e sentir. P.B.: Sim, sem dúvida. Muitas das pessoas agora vêm a Macau, porque pensam que isto é Las Vegas do Extremo Oriente. E isso não é o território. Quem cá vem um dia, não faz ideia, apesar de acharem que sim. Como vêm Macau de longe? G. J.: Grande. A ideia que o avô nos transmitia era que em Macau era sempre melhor. Era sempre uma coisa muito boa. P.B.: Lembro-me que ao Rossio, chamava-lhe Macau das Pombinhas. Por causa dele, Macau era tudo. E continua a ser? G.J.: Nalgumas coisas sim. A mim, o que mais me faz falta são os legumes frescos. Em Portugal, tenho que inventar formas de substituir alguns ingredientes. Como foi a curta estadia em Lisboa de José Vicente Jorge? G.J.: Ele foi contrariado. Não gostou. Depois de uma vida aqui, foi para Portugal em 1946, porque os filhos o convenceram que seria o melhor, por causa da guerra do Pacífico. E apesar de ter uma casa grande, dizia “aqui vivo numa prateleira”. Viveu muito isolado lá. Até eu morria se me tirassem do meu ambiente natural. Ele sempre viver em Macau. Tudo o que sabia foi a partir daqui. Vontade de regressar à terra? G.J.: Sim. É onde nos sentimos felizes. Mas, temos lá a nossa vida e trabalho. E lá consigo divulgar a cozinha macaense, que é uma das características mais vincadas da comunidade. Para já não é possível. Nesta altura era preciso um homem como José Vicente Jorge? P.B.: Não sei como estão representados os intérpretes de hoje. Mas é preciso ter alguém que saiba divulgar a cultura chinesa e que a conheça. Para se entender Macau, é essencial perceber os chineses. Sem isso, não se sabe o que se está a viver aqui. O que gostariam de ver em estudo sobre os macaenses? G.J.: Como refere Teresa Sena na nota introdutória do livro, este livro situa-se em Macau e China no tempo de José Vicente Jorge. Isto pode ser o mote para um estudo sobre a época da família Jorge. P.B.: O papel da maçonaria, também nessa altura. Ou, por exemplo, algo que se esquece – o papel político que “o avô” desempenhou. Também seria interessante estudar Carlos Cabral. Há ainda muito por fazer.

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UM MACAENSE ILUSTRE Notas sobre a vida de José Vicente Jorge PEDRO BARREIROS E GRAÇA PACHECO JORGE

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OSÉ Vicente Jorge nasceu em Macau na Freguesia de São Lourenço, a 27 de Dezembro de 1872. Foi baptizado no dia 29 de Dezembro, na Igreja paroquial de São Lourenço pelo vigário da mesma, padre Francisco Xavier Castela. A família

Jorge encontra-se em Macau seguramente desde 1700. O seu avô paterno, José Vicente Caetano Jorge, nasceu na freguesia de São Lourenço em 17 de Março de 1803 e faleceu provavelmente a 31 de Março de 1857. Estudou ciência náutica, após o que enveredou por uma bem sucedida carreira de negociante e exportador em

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navios próprios, granjeando uma sólida fortuna. Esteve também ligado ao negócio da emigração de trabalhadores chineses, pelo que foi criticado, tal como outros empresários envolvidos neste negócio, por Eça de Queirós. Foi almodacém da câmara em 1831,vereador entre 1837 e 1838, procurador do concelho em 1840 e 1845, e provedor da Santa Casa da Misericórdia. Casou pela 1ª vez com Ana Rita Inocência Lopes de quem enviuvou em 1849. Casou pela 2ª vez, com Emília Antónia Xavier, provavelmente, na igreja de Santo António. Um dos filhos desta ligação foi Câncio José Jorge, nascido em 4 de Dezembro de 1849. Formado como Interprete-tradutor, Câncio Jorge, foi administrador do Concelho de Macau, vereador, vice-presidente e presidente do Leal Senado e secretário do Instituto Humanitário Firmino da Costa. Em 27 de Outubro de 1883 foi nomeado cônsul interino de Portugal no Sião e nos estabelecimentos britânicos dos estreitos de Singapura, Malaca e suas dependências. Era pessoa influente nas comunidades portuguesa e chinesa de Macau na segunda metade do séc. XIX, tendo sido um dos sócios fundadores do Clube União em 1879 e eleito seu secretário em 1899, integrando em 1898 a Comissão Comemorativa do IV Centenário da Descoberta do Caminho Marítimo para a Índia. Câncio José Jorge faleceu em São Lourenço em 22 Dezembro de 1900. À semelhança de outras figuras que vieram a destacar-se nos meios intelectuais de Macau na viragem do séc. XIX para o séc. XX, José Vicente Jorge estudou sempre em Macau. O seu ambiente familiar era decerto de grande envolvimento cultural. Seu pai, jurista e homem influente na governação de Macau e nas suas relações exteriores, muito deve ter influenciado o seu desenvolvimento intelectual e marcado as suas preferências culturais. Tal como se usava na altura, aprendeu as primeiras letras em casa, falando desde o berço o português e o cantonense. O Liceu de Macau só foi inaugurado em 1894, altura em que José Jorge já tinha vinte e dois anos, estava à beira do casamento e era intérprete tradutor. Na sua geração e antes da fundação do Liceu, havia em Macau as seguintes escolas mais importantes: Escola Central do Sexo Masculino, Escola Particular D. Maria Outeiro da Silva, Escola do Príncipe Real D. Carlos e o Seminário Diocesano. Foi neste último estabelecimento de ensino, por ele anteriormente frequentado, que seu pai o matriculou. O ensino era rigoroso com essa equipa docente e, dos 326 alunos que se matricularam no ano seguinte, apenas quatro obtiveram a aprovação final. Durante o período de formação de José Vicente Jorge, figura como professor de chinês (dialecto de Pequim) Pedro Nolasco da Silva, que sobre ele veio a exercer grande influência no desenvolver da sua maturidade profissional.


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Em 21 de Novembro de 1895, data do seu casamento com Matilde Pacheco, e segundo consta do respectivo assento, José Vicente Jorge era já intérprete-sinólogo da Repartição do Expediente Sínico. Após ter terminado os estudos secundários, fez a sua formação na Escola de Intérpretes daquela repartição. Ainda aluno passou a integrar, em 12 de Março de 1890 o quadro da mesma Repartição e dedicou a essa actividade a primeira parte da sua vida profissional. Para além das línguas chinesa e portuguesa, a escola de intérpretes exigia curricularmente o conhecimento do inglês e do francês e de uma formação bastante diferenciada em História, Literatura, Filosofia e Arte Chinesa nas suas diversas expressões. Dedicou-se a fundo, desde cedo, ao estudo da história das relações diplomáticas entre Portugal e a China, nomeadamente através de Macau, tornando-se posteriormente destacado elemento dentro deste relacionamento. O ser tradutor-intérprete é uma missão que ultrapassa a ideia que a maior parte do público tem sobre a complexidade da mesma. O tradutor tem que ser um profundo conhecedor de ambas as línguas, não só da sua vernaculidade como das cargas emotivas dos diversos vocábulos e expressões. O tradutor tem de compreender e assimilar o pensamento e o estado de alma que acompanha o mesmo numa das línguas para o poder transpor com fidelidade e em grau semelhante de emoção para a segunda língua. Tem de haver, no entanto, numa boa tradução, uma não excessiva originalidade, isto é, o tradutor não se deve deixar afastar do peso de cada palavra escrita e sentida por quem a escreveu na primeira língua quando a transpõe para a segunda. O excesso de originalidade iria levar a uma obra nova e não à pretendida tradução. Se às dificuldades reflectidas acima sobre a missão do tradutor intérprete, acrescentarmos as provenientes das funções de assessoria às diversas representações em Cantão, Xangai e Pequim que os antecessores, contemporâneos, e sucessores de José Vicente Jorge, com a exigência de profundo conhecimento dos costumes e leis chinesas, a que eram interpelados como verdadeiros peritos nessas matérias, poderemos então perceber a complexidade e a exigência de formação que aquela função impõe. Desde 1890 e para o resto da vida em Macau, José Jorge é pois tradutor e intérprete da Repartição do Expediente Sínico, assinando numerosas traduções de chinês para português e de português para chinês, figurando o seu nome em muitos documentos oficiais e na imprensa local. Vai dando, entretanto, a sua colaboração em outros campos da actividade cultural, social e intelectual de Macau. Em 1898, secretaria a comissão executiva dos festejos do quarto centenário do Descobrimento do Caminho Marítimo para a Índia. Em 1903, O Patriota noticia a sua nomeação para reger a cadeira de língua sínica no Instituto Comercial, anexo ao Liceu de Macau, por proposta do conselho escolar do mesmo.

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Em 1907, publica o primeiro volume da obra San-Tok-Pun – Novo Methodo de Leitura, tradução com anotações suas para o ensino da língua chinesa. O projecto inicial era de oito volumes, mas só foram editados dois, datando o último de 1908. Cerca de 15 de Junho de 1908 é destacado como intérprete para a Legação de Portugal em Pequim, partindo para a sua longínqua missão logo em 20 de Junho. A família, composta pela sua mulher, mãe e os seis filhos do casal nascidos até à altura juntar-se-lhe-á em Novembro do mesmo ano. Uma vez instalado em Pequim, contacta com grandes conhecedores da cultura e da arte chinesas que, considerados por ele como os seus verdadeiros mestres, contribuem para a consolidação da sua já bem desenvolvida formação e lhe transmitem o saber necessário para a realização dos seus futuros trabalhos e acompanha de perto o movimento reformador republicano que se forma em Pequim. Em 16 de Maio de 1909, o Vida Nova noticia, a pág. 3: [...] É-nos em extremo agradavel dar aos nossos leitores a noticia de que o nosso amigo o Sr. José Vicente Jorge, digno sub chefe da Repartição do Expediente Sinico de Macau, hoje addido á legação de Portugal em Pekim, como secretario chinez, foi galardoado com a rara e apreciavel mercê honorifica do Dragão Duplo, nº 1 da 3ª classe. Esta distincção é tanto mais de apreciar quanto é certo que insignias d´esta classe só são concedidas aos primeiros secretarios das legações. As nossas sinceras felicitações.[...] Chegado a Macau após umas curtas férias e, embora continuando a ser classificado como 2º intérprete de 1ª classe e subchefe da Repartição Técnica do Expediente Sínico, passa a exercer interinamente, desde 26 de Junho de 1911, as funções de chefe com a simultaneidade inerente ao cargo da Chefia da Procuratura do Expediente Sínico. Exerce essas chefias até 1920, com múltiplas deslocações a Cantão em missões especiais, como delegado do governador de Macau. É nomeado várias vezes para o Conse-

lho da Província de Macau como aconteceu em 1913/1914, integra a Comissão Directora do Colégio de Santa Rosa de Lima no ano lectivo 1913/1914, preside regularmente ao júri dos exames dos alunos do Expediente Sínico e retoma, no finais de 1911, a regência interina da cadeira de Língua Sínica no Instituto Comercial, por nomeação do Leal Senado. Já deste período é a sua tradução das Leituras Chinesas, Kuok Man Kau Fo Shü, livro destinado ao ensino de chinês em Macau, livro esse que sido mandado adoptar pelo Ministério da Instrução Pública da Nova República Chinesa. Esta obra é a primeira que faz em colaboração com o seu colega e amigo Camilo Pessanha. Situa-se ainda neste período uma tradução que ofereceu à Repartição do Expediente Sínico, com 177 páginas dactilografadas e inúmeras anotações do tradutor: A Sociedade dos Três ou A Sociedade Céu e Terra, O Lótus Branco e outras Sociedades Secretas. Esta obra, de imenso interesse para o conhecimento da história e dos costumes chineses, foi traduzida do livro publicado em Hong Kong em 1900, da autoria de William Stanton, The Triad Society or Heaven and Earth Association. Em 1919, é nomeado vogal da Comissão de Assistência Judiciária. Alguns meses após a sua aposentação do Expediente Sínico, será nomeado em Novembro de 1920 na qualidade de so-

licitador, 2º Juiz substituto do Tribunal Privativo dos Chinas para o ano judicial de 1920-1921 e, simultaneamente, vogal representante da comunidade chinesa ao Conselho Legislativo. Voltará a exercer as funções de 2º Juiz substituto pelo menos em 1921, 1923 e 1926. Nessa altura, Agosto de 1920, inicia com entusiasmo a segunda fase da sua vida. No dia 27 daquele mês, é nomeado para reger provisoriamente as cadeiras do 3º grupo do Liceu Central de Macau. Toma posse em 6 de Novembro do mesmo ano e a provisoriedade dura até 1931, sendo regente da cadeira de inglês. No Boletim Oficial de 19 de Junho de 1920, são publicados os estatutos do Instituto de Macau. Fundado pelos Drs. Humberto de Avelar e Tello de Azevedo Gomes, era uma instituição que reunia os homens mais cultos e estudiosos de Macau de então, embora pudesse haver grandes diferenças entre eles. Para além dos fundadores na fotografia aqui apresentada e divulgada por Danilo Barreiros no seu livro, O Testamento de Camillo Pessanha (Lisboa, Bertrand Editora, 1961), distinguem-se Camilo Pessanha, D. José da Costa Nunes e Manuel da Silva Mendes. A vida do Instituto foi no entanto curta e a sua obra limitou-se a algumas conferências no Grémio Militar. A 5 de Maio de 1931, termina a sua actividade docente no Liceu de Macau.


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A partir de então dedica-se a uma outra actividade que tinha iniciado oficialmente quando foi registado o seu compromisso de honra como solicitador da comarca de Macau. Para além de toda a bagagem jurídica herdada do convívio com o pai, Câncio Jorge, e com o sogro, Albino António Pacheco, ambos advogados provisionários e ambos magistrados, ele próprio tivera uma vida ligada ao Direito e às leis portuguesas, internacionais e chinesas. O reconhecimento do Governo Português também lhe chega por essa época ao ser agraciado em 1926 com o grau de Comendador da Ordem Militar de Cristo. Na pequena introdução que faz ao seu livro Notas sobre a Arte Chinesa (Macau: Tipografia Mercantil, 1940 – 1ª ed.; Macau: Instituto Cultural de Macau, 19952ª ed.) e explicando o livro ilustrado exclusivamente com peças da sua colecção de “cerca de 10.000 peças, representando os principais ramos de arte chinesa – cerâmica, bronze, jade, pintura, caligrafia, escultura, gravura, esmalte, laca, bordado e mobília” José Vicente Jorge esclarece: “Não é um tratado sobre cerâmica chinesa o que apresento, pois a tanto não me abalançava. São simples apontamentos, tirados de vários livros, de conversas tidas com alguns coleccionadores chineses.”. Esta enorme colecção, comprada ao longo de toda a vida, estava exposta na altura em que o livro foi feito num casarão, na Rua da Penha nº 20, que José Jorge tinha adquirido em 1919 e que albergava, para além da sua grande família, as cerca de 10.000 peças de arte que refere na introdução ao livro. Sobre o seu fim, pode-se ler o que José Diogo Seco Ribeiro escreveu no seu artigo “A Colecção de Arte Chinesa do Poeta Camilo Pessanha”: “Infelizmente, grande parte desta colecção é vendida, para a América, tendo-se perdido o seu rasto.” Muito provavelmente esta venda efectuou-se depois do fim da Segunda Guerra Mundial (período bastante difícil para Ma-

cau), e imediatamente antes de José Vicente Jorge se retirar para Lisboa onde virá a falecer em 1948. O que restava da colecção foi dividido pelos seus dez filhos. O conjunto de moradias que tinham como acesso um logradouro com a entrada no nº 20 da Rua da Penha, foi vendido em Maio de 1948, seis meses antes da morte de José Jorge. Despido das suas talhas, dos seus bronzes, das suas tapeçarias e cerâmicas, a sua propriedade foi inscrita a 15 daquele mês e ano a favor da Missão do Padroado Português no Extremo Oriente, representado por D. João de Deus Ramalho. O palacete, por tanta gente visitado como Museu, transformou-se em convento e nele foi instalado o “Noviciado de Notre Dame des Anges”; Monsenhor Manuel Teixeira refere que em 1961 viviam ainda no vetusto casarão duas religiosas canadianas e quatro professas chinesas (!). Em 1966-1967, com a ameaça da Revolução Cultural e sua possível extensão a Macau, os noviciados foram evacuados para a Formosa e a casa ficou deserta e em degradação irreversível. Três anos mais tarde, em Outubro de 1970, é alienado pelo Padroado e, a partir de então, a área que ocupava é revendida em lotes parciais conhecendo demolições e construções sucessivas até ao seu completo desaparecimento em 1973. Camilo de Almeida Pessanha, um dos nomes maiores da poesia portuguesa nasceu em Coimbra cinco anos antes de José Vicente Jorge, a sete de Setembro de 1867. Com 27 anos de idade chega a Macau em 10 de Abril de 1894 para integrar o grupo fundador do recém criado liceu de Macau: Na altura da inauguração do Liceu José Jorge tinha vinte e dois anos e era intérprete tradutor no seu início de carreira. Veio a ser colega de Pessanha como docente do liceu muitos anos mais tarde, em Setembro de 1921. Mas os interesses comuns fizeram com que os dois se cruzassem várias vezes nas suas vidas em Macau e entre os dois nascesse uma sólida amizade baseada em muita admiração

e respeito que foram desenvolvendo um pelo outro. Embora o conhecimento entre os dois seja certamente anterior, foi em 1911 que se começaram a encontrar com maior frequência, cimentando mais fortemente as suas ideias, actividades comuns e a amizade. São nomeados conjuntamente para o conselho da província de Macau e figuram regularmente nos júris dos exames dos alunos do Expediente sínico. Como já referi atrás o livro Kuoc Man Cau Fo Su foi publicado em 1915 numa edição de trezentos exemplares custeada pelo Governo da Província, com a co-autoria na tradução: José Jorge e Camilo Pessanha. No mesmo ano de 1914, a 13 de Setembro, o Progresso inicia a publicação das “Elegias Chinesas”, traduzidas por Camilo Pessanha. Em 1915, a Imprensa Nacional edita em Macau um “Catálogo da Colecção de Arte Chinesa oferecido ao Museu de Arte Nacional por Camillo Pessanha”. O exemplar reproduzido foi o que pertenceu a José Vicente Jorge e contem uma dedicatória pela mão do poeta: “A seu bom amigo e mestre José Vicente Jorge, testemunho da muita consideração e agradecimento pelos seus favores.” Macau, Julho 29, 915 Camillo Pessanha Segundo deixou escrito o seu genro Danilo Barreiros, em Abril de 1945, José Jorge manifestou a intenção de doar a um museu de Portugal a sua colecção ou pelo menos as peças mais valiosas da mesma, a exemplo do que fizera o seu amigo Camilo Pessanha; a casa com o seu recheio seriam doadas a Macau, para funcionarem como um museu. Como o seu filho Américo seria o primeiro a embarcar para Lisboa seria ele o portador da imensa colecção e negociador da mesma. Esta decisão não foi aceite por todos os filhos o que levou o coleccionador a escrever em 28 de Abril de 1945 uma carta em que determina o destino da sua colecção.

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Ainda segundo Danilo Barreiros, durante a ocupação japonesa de Hong Kong, os bancos emissores puseram a circular milhares de notas – as novas notas de Hong-Kong que desvalorizaram logo na sua emissão cerca de 80%, pois constava que perderiam totalmente o seu valor no fim da guerra se a vitória fosse dos aliados. Isto aconteceu, mas as notas não desvalorizaram, o que fez algumas fortunas a quem as tinha comprado. José Jorge não foi bafejado por essa sorte pois comprava apenas dinheiro chinês perdendo assim grande parte do seu capital. A guerra terminou em 15 de Agosto de 1945. Os macaenses estavam cansados de tudo o que tinham passado e resolveram partir. Os destinos foram vários: Américas, Austrália, África e, claro está, Portugal. Da família Jorge o primeiro já tinha partido em 1935. No princípio de 1946, seguiram no navio “Quanza” o patriarca, com sua filha Amália, o neto João Vasco, a nora Dádá e o neto Zeca. Chegaram a Lisboa em Março de 1946 e instalaram-se num andar na Avenida Praia da Vitória, 3 – 1º Dto. Lisboa, que tinha sido alugada pelo filho Américo. José Jorge, em Lisboa entristecia, passeava a ver as obras da Praça do Areeiro, descurava a sua diabetes na Pastelaria Anabela na Almirante Reis, rodeado dos seus netos e cúmplices de nada dizer em casa dos bolos que ia comendo. À noite conversava com as inúmeras visitas que iam cumprimentá-lo, entre os quais o seu amigo e retratista Fausto Sampaio. Uma vez por semana, jogava “bridge” . No verão de 1947, passou férias com alguns dos filhos e netos em São Martinho do Porto e na Quinta do Covêlo em Famalicão. A tristeza, a diabetes, a saudade de Macau fizeram com que subitamente o seu coração parasse em 22 de Novembro de 1948, quando sentado no seu sofá lia o “Diário de Notícias” ao lado do seu neto que aqui o recorda, Pedro Manuel. Foi sepultado num jazigo mandado construir em sua homenagem por seus filhos, no Cemitério dos Prazeres em Lisboa.


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Província de Sichuan NA MEGA-CIDADE

António Graça de Abreu CHONGQING (leia-se Chunjing, ou Chunking)) é a maior metrópole da China. Um dos quatro municípios centrais (os outros são Pequim, Tianjin e Xangai), assume-se como um imenso espaço urbano com dez milhões de habitantes, que aumentam para quarenta milhões de pessoas na grande Chongqing com uma área de 82.400 quilómetros quadrados, quase o tamanho de Portugal. O coração da cidade espraia-se, subindo e descendo pelos montes, pelos espaços amplos que rodeiam a península na embocadura dos rios Jialing e Yangtsé. Os chineses costumam denominá-la “cidade de montanha” por causa de tantos altos e baixos, bem diferente da esmagadora maioria das urbes chinesas que nasceram e se desenvolveram em terrenos chãos e planos. Por isso, em Chongqing, com tanta subida e descida, quase não há bicicletas, nem músculos para pedalar monte acima, monte abaixo e são os carros, os transportes públicos, um metro suspenso tipo monocarril e as pernas de cada um a caminhar que desempenham um papel fundamental para a carne, o sangue e a alma das gentes circular pela cidade. É um dos grandes pólos industriais da China, um quarto de toda a produção industrial da província de Sichuan (que rodeia Chongqing e tem o tamanho da França!) tem aqui origem e a produtividade do enorme burgo começa a pedir meças a Xangai, também na qualidade e preço dos incontáveis bens que fabrica, de ferramentas a têxteis, de automóveis a navios. A cidade foi aberta ao comércio estrangeiro em 1890 mas, porque situada entre montanhas, bem no interior da China então de difícil acessibilidade por rios e por terra -- só se chegava através de complicadíssimos caminhos --, permaneceu durante muitos anos quase isolada do mundo. Já era assim na dinastia Tang (618-907) quando o grande poeta Li Bai por aqui andou e escreveu, por volta do ano 740, um dos seus mais famosos poemas intitulado Difíceis os Caminhos para Sichuan onde diz: “Mais difíceis as rotas para Sichuan do que subir ao céu”. Mas não se esqueceu de acrescentar que, depois das montanhas, “Quantos prazeres na cidade de Brocado!...” Este burgo de seda lavrada era, é Chengdu, a capital da província de Sichuan. Em 1937, quando o Japão invadiu a China e conquistou Nanquim, então a capital da república chinesa, o governo nacionalista liderado por Chiang Kai-shek viu-se obrigado a fugir para o interior do país e escolheu exactamente Chongqing para se instalar, situação que se manteve até 1945 quando da derrota do Japão na II Guerra Mundial. Entretanto os nipónicos procederam a selváticos bombardeamentos aéreos que destruíram grande parte do

centro de Chongqing e provocaram milhares e milhares de mortos. Existem filmagens ao vivo desse tremendo despejar de bombas sobre o casario da cidade mártir. Os aviões nipónicos aproveitavam as noites de luar, saíam de Hankou, hoje parte da tripla cidade de Wuhan na província de Hubei, e sobrevoavam durante 800 quilómetros o rio Yangtsé que lá em baixo faiscava com a luz da lua. Quando os pilotos viam um outro grande rio, o Jialing, a desaguar no Yangtsé largavam toneladas e toneladas de bombas sobre Chongqing, a península encravada entre os dois rios. O nome Chongqing 重庆 significa “comemorar de novo ou dupla celebração” e foi adoptado na dinastia Song, no século XII, como um topónimo de bom augúrio para os habitantes do então pequeno burgo, mas da velha cidade não resta hoje grande coisa. No entanto, na margem direita do rio Jialing encontramos bem conservado o bairro de Ciqikou, com casas térreas ou de um piso construídas nas dinastias Ming e Qing (1368 a 1911). Aí vale a pena o mergulho arejado no passado. Neste Verão de 2011, em Ciqikou, encontrei na casa de um rico comerciante do século XIX, hoje transformada em museu, algo

que nunca tinha visto na China nem em qualquer outro recanto do mundo, uma exposição de cintos de castidade, de vários tamanhos e feitios que o homem de negócios dono da habitação colocava no ventre das suas concubinas quando tinha de partir em viagem e as deixava entregues à primeira, à segunda esposa e a dois ou três eunucos. Hoje Chongqing é sobretudo um painel imenso de arranha-céus, mil e quinhentos arranha-céus construídos nos últimos vinte e cinco anos, edifícios altos de arquitectura mais para o feio do que para o agradável. São imensas colmeias destinadas a escritórios e sobretudo a albergar uma população que não pára de crescer graças ao afluxo permanente de gente vinda do campo que procura trabalho melhor remunerado e uma vida aparentemente mais digna nas cidades. O mesmo acontece em todas as grandes urbes chinesas e não nos podemos esquecer que o país ainda tem 60% da sua população a viver no campo, muitas vezes em economias de pura subsistência. Chongqing é uma das “três fornalhas” da China, as outras duas são Wuhan e Nanquim. São todas cidades situadas nas

Regressei a Chongqing em 2011. O que impressiona da cidade, a febre de cons este povo, a transformaçã semelhante a muitos outro metrópoles da China. margens do rio Yangtsé onde em Julho e Agosto, no pino do Verão, as temperaturas atingem os 40 graus, com humidade de quase cem por cento. Na Primavera de 1983, na boa companhia da Yu Ping, com um tempo quase perfeito, cheguei a Chongqing após a cansativa viagem nocturna de comboio, em banco duro, desde Chengdu, capital de Sichuan. Subimos desde a estação em busca de alojamento, à procura de paz e sossego. No alto, aí um quilómetro adiante havia um singular e originalíssimo hotel, o Renmin Binguan. Era um dos ex-libris da cidade construído em 1954, um enorme edifício com uma cúpula imitando os telhados


DE CHONGQING

重庆 PUB

m 1995 e em Agosto de a é o crescimento esfuziante strução que atingiu ão de um burgo outrora os numa das maiores

sobrepostos do Templo do Céu, um auditório com capacidade para 4.000 pessoas e as alas, onde funcionava o hotel propriamente dito, inspiradas na arquitectura do Palácio Imperial, em Pequim. Depois de muito discutir o preço do quarto e conseguir pagar apenas 10 yuan por noite -- na época uma pechincha --, acabei por ficar cinco dias em Chongqing e partir satisfeito à descoberta da cidade. Até deu para ir ver os pandas ao jardim zoológico que, de resto, são originários desta província de Sichuan e têm o seu habitat natural uns trezentos quilómetros a noroeste deste lugar. Regressei a Chongqing em 1995 e em Agosto de 2011. O que impressiona é o

crescimento esfuziante da cidade, a febre de construção que atingiu este povo, a transformação de um burgo outrora semelhante a muitos outros numa das maiores metrópoles da China. Mas é em Chongqing, no cais fluvial ainda no rio Jialing, um pouco antes do local onde as suas águas verdes provenientes da montanha se misturam com as águas amarelas e barrentas do rio Yangtsé, que se embarca nos pequenos, confortáveis e funcionais navios de cruzeiros que descem o grande rio, o terceiro maior do mundo. Vamos de viagem desde Chongqing, e serão 650 quilómetros durante três dias pelas Três Gargantas, ao encontro de algumas das mais espantosas paisagens da China, de templos e cidades de fantasmas, de afluentes que rasgam as montanhas de pedra por onde, a modo que pasmados, iremos subir em pequenas sampanas a remos. Depois, antes de novas aventuras, teremos à nossa espera uma polémica barragem, a das Três Gargantas, a maior alguma vez construída pelos homens.

Fotos António Graça de Abreu

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D E P R O F U N D I S

COGUMELOS E EXPERIÊNCIAS MÍSTICAS

UM ATALHO PARA DEUS Rogério Tuma

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IENTISTAS DA JOHNS HOPKINS UNIVERSITY UTILIZAM, PELA PRIMEIRA VEZ, MÉTODOS CIENTÍFICOS RIGOROSOS PARA AVALIAR ALUCINOGÉNIOS E COMPROVAM QUE O CHAMADO “COGUMELO SAGRADO” CONSEGUE EVOCAR EXPERIÊNCIAS MÍSTICAS E ESPIRITUAIS IDÊNTICAS ÀQUELAS ESPONTÂNEAS DESCRITAS POR PESSOAS EM TRANSE RELIGIOSO POR SÉCULOS. A psilocibina é um alcalóide encontrado no cogumelo psilocibe, existente no México e no Sudoeste americano, e é semelhante aos alcalóides encontrados em quase 200 plantas espalhadas pelo mundo. Estes alcalóides actuam nos receptores cerebrais do neurotransmissor serotonina (envolvido nos sonhos, no humor e em outras funções afectivas). Neles encaixam-se o LSD, a mescalina e várias outras substâncias. Há milénios que esse grupo de alucinogénios é utilizado em rituais religiosos. No Brasil, a seita mais conhecida que pratica esses rituais é o Santo Daime.

HIPPIES E EXAGEROS

Durante o movimento hippie, nos anos 60, o cogumelo foi muitas vezes tomado de forma exagerada, o que inibiu seus estudos até recentemente. Agora, com as novas técnicas, o controle das pesquisas é maior e os resultados positivos e negativos são, portanto, mais confiáveis. No estudo da Johns Hopkins, 36 voluntários foram divididos em três grupos e foram avisados de que poderiam receber um alucinogénio ou outras medicações que poderiam alterar a consciência. Um grupo de 15 voluntários recebeu oralmente a psilocibina na dose de 30 mg/70 kg. Um segundo grupo de 15 recebeu metilfenidato (estimulante cerebral utilizado para síndrome do défice de atenção) como placebo positivo, isto é, uma medicação que simula os efeitos colaterais, mas que não provoca alucinações. E um terceiro grupo de seis voluntários recebeu metilfenidato duas vezes, sem saber, achando que receberam drogas diferentes nas duas ocasiões. Com isso os pesquisadores controlaram os efeitos da sugestão e da expectativa.

Para avaliar as possíveis alucinações e experiências foram aplicadas diversas escalas predefinidas que caracterizam estados de consciência, humor, misticismo, transcendência espiritual e várias outras alterações psíquicas. Entre os indivíduos que receberam o alucinogénio, 60% descreveram sintomas que preencheram os critérios definidos para uma “experiência espiritual e mística completa” nas primeiras oito horas de avaliação, e um terço deles a descreveu como “a experiência espiritual mais importante de sua vida” e mais de dois terços descreveram a experiência como uma das cinco mais marcantes, comparável com a morte do pai ou o nascimento do primeiro filho.

DOIS MESES DEPOIS...

Dois meses depois, 79% dos indivíduos ainda se referiam a uma grande ou moderada mudança positiva no seu bem-estar e na sua satisfação com a vida. A grande maioria também mencionou que seu humor, suas atitudes e comportamento melhoraram significativamente, e esse dado foi confirmado com parentes e colegas de trabalho. O líder do estudo, publicado na revista americana Psychopharmacology de 11 de Julho, dr. Roland Griffiths, afirma que a mensagem não é a de que se pode reproduzir experiências místicas artificialmente, mas que elas modificam positivamente a vida dos voluntários por pelo menos alguns meses, indicando um uso terapêutico valioso. Griffiths também alerta para os efeitos colaterais, pois mesmo nas condições bem controladas do estudo, um terço dos voluntários apresentou medo considerável e ansiedade. Alguns apresentaram sintomas passageiros de paranóia. A utilização sem controle da droga pode levar a sintomas negativos com frequência ainda maior.

EXPERIÊNCIA SIM, MAS...

Apesar de no estudo em questão a droga não ter causado dependência ou sinais de intolerância, Griffiths alerta também que ela não é um instrumento de uso contínuo para melhorar a vida ou ser um caminho mais curto para Deus. “Há uma enorme diferença entre ter uma experiência espiritual e ter uma vida espiritual”, diz.

Entre os indivíduos que receberam o alucinogénio, 60% descreveram sintomas que preencheram os critérios definidos para uma “experiência espiritual e mística completa” nas primeiras oito horas de avaliação, e um terço deles a descreveu como “a experiência espiritual mais importante de sua vida” O estudo foi considerado um marco da ciência por Charles Schuster, diretor do Instituto Americano sobre Abuso de Drogas (Nida), pois reintegra à análise da consciência e percepção sensorial um grupo de substâncias de grande valor que foi abominado por quase 40 anos. Os autores afirmam não existir interesse em explicar a religiosidade das pessoas. Segundo Lawrence Kraus, em artigo na revista New Scientist de julho, utilizar a ciência para negar a religião é um desserviço, pois coloca uma contra a outra e vice-versa. Também para o padre belga Georges Lemaitre, que foi o primeiro cientista a demonstrar que a Teoria da Relatividade de Einstein previa o Big-Bang: “É um erro utilizar a ciência para explicar a existência de Deus ou para torná-lo irrelevante, pois a tese serviria apenas ao propósito de satisfazer a convicção religiosa do postulante”.


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T E R C E I R O O U V I D O

música chinesa

Sun Wei

A MÚSICA DO SINO E DO TAMBOR (SÉCULO 16 A.C. - ANO 221 A.C.)

Esta época durou cerca de 1.300 anos e inclui as dinastias Shang (século 16 a.C. - século 11 a.C.), Zhou do Oeste (século 11 a.C. - o ano de 770 a.C.), Zhou do Leste (770 a.C. - 221 a.C., inclusive o período da Primavera e do Outono, e os Reinos Rivais), e terminou até o Reino Qin unir a China em 221 a.C.. Pode-se também dividir esta época em dois períodos: o primeiro é a Dinastia Shang, e o segundo começou na Dinastia Zhou do Oeste. Os dois períodos têm alguma coisa em comum, é que o sino e o tambor eram os instrumentos musicais principais; mas há também diferenças óbvias entre eles. A área da Dinastia Shang era muito maior que a da Dinastia Xia, mas o centro ficava na área da província de Henan de hoje, igual à da Dinastia Xia. Por isso, Shang herdou directamente a música de Xia e desenvolveu-a muito. Uma feição distinta de Shang é que a sociedade respeitava espíritos e deuses. Fala-se que isso derivava de convenções de Xia, mas na Dinastia Shang havia muito mais bruxaria que na Xia, e por isso, os historiadores chamam Shang de “a cultura da bruxaria”. A tradição antiga era que todas as atividades de bruxaria tinham de ser acompanhadas por danças e cantos, “sem Yue (a música e a dança), não há cerimónia”. Mesmo até o fim da Dinastia Han do Oeste (Século II), em áreas muito pobres, as cerimónias oferecidas ao Deus da Terra eram acompanhadas por cantos e batidas em vasos; e na Dinastia Shang eram acompanhadas por grandes performances. Quando as pessoas de Shang conversavam com os deuses e os espíritos, contavam tudo de forma séria. As performances eram modos importantes de comunicação entre o mundo dos espíritos e o mundo humano. Bruxos e bruxas profissionais apareceram nesta épocasendo apoiados pelos donos de escravos e serviam especialmente em cerimónias e sacrifícios. Foram as primeiras pessoas que tornaram a música numa profissão. Uma das performances que sobreviveram em livros antigos chama-se Sang Lin. Sang Lin era um grande sacrifício feito pelo estado, que teve muita importância até o século V a.C.. A música e a dança utilizadas em Sang Lin herdaram o nome da cerimónia. No livro de Zhuang Zi, escreve-se que a dança de Sang Lin era vigorosa, ágil e graciosa, e a música de Sang Lin era muito forte. Na escrita Jia Gu Wen, que é a escrita antiga de 4.000 anos atrás, esculpida em ossos e cascos de tartarugas, registaram-se também danças e músicas antigas. Mas porque a escrita é muito básica, é muito difícil saber mais detalhes. Por exemplo, Yu: da escrita Jia Gu

Wen, dá para saber que Yu era a música e a dança para pedir a chuva ao céu, e era uma performance enorme. Mas isso é tudo que se pode saber hoje. O bom desenvolvimento da música da Dinastia Shang pode-se ver também nos instrumentos musicais dessa época. Os instrumentos musicais de Xia encontrados até hoje não mudaram muito comparando com os da época mais primitiva, embora fossem aperfeiçoados. E os instrumentos musicais de Shang já têm formas belas e sons convincentes. Dois instrumentos musicais, que eram importantes na Dinastia Shang e tiveram muita influência na história toda, são o sino e o Qing. O sino de Shang não tem a mesma forma de hoje: consiste em duas placas curvas, e o seu corte transversal tem a forma oval. Essa forma oferece a possibilidade de tocar dois tons de alturas diferentes no mesmo sino. É bem possível que este tipo de sino tivesse sido inventado na Dinastia Shang porque ainda não foi encontrado em ruínas mais antigas. O sino de Shang normalmente era uma combinação de três unidades. Segundo testes feitos, um grupo de três sinos de Shang pode ter até cinco tons. O Qing é feito de pedra, com um furo no topo. Pendura-se o Qing para tocar. Qing já foi encontrado em ruínas da Idade de Pedra Polida mais antiga, onde era normalmente um só e não era bem feito. Na escrita Jia Gu Wen há também o caracter de Qing, que é um Qing pendurado, e ao seu lado, um ouvido ou uma mão pegando um pau. Na Dinastia Shang, os Qing eram muito bem feitos e delicados. Em 1950, encontrou-se um Qing de pedra em Henan, do tamanho 84 x 42 x 2,5 cm, feito de mármore branco. Num dos seus lados, foi esculpido um tigre. O tigre parece muito elegante, e a sua forma combina bem com a forma do Qing, mesmo do ponto de visto moderno, sendo uma autíntica obra de arte. Este Qing é também “solteiro”, que é chamado de Te Qing. Te Qing era utilizado para fortificar e estabilizar o ritmo da música. Na Dinastia Shang, ainda não tinham aparecido muitos Qing em grupos. O tambor de Shang é também bem característico. Existem hoje dois tambores de Shang, ambos são de bronze, simulações de tambores de madeira. Um deles foi desenterrado em 1977 na província de Hubei, e o outro sobreviveu sendo passado de geração em geração. Os dois são bem mostram a cara do tambor de Shang. Na escrita Jia Gu Wen há mais caracteres representando instrumentos musicais de bambu. Mas porque o bambu é susceptível ao ambiente, não resitiram ao passar do tempo e hoje nenhum sobreviveu.

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À S U P E R F Í C I E

CARTA ABERTA AO SR. PRIMEIRO MINISTRO Myriam Zaluar Exmo Senhor Primeiro Ministro Começo por me apresentar, uma vez que estou certa que nunca ouviu falar de mim. Chamo-me Myriam. Myriam Zaluar é o meu nome “de guerra”. Basílio é o apelido pelo qual me conhecem os meus amigos mais antigos e também os que, não sendo amigos, se lembram de mim em anos mais recuados. Nasci em França, porque o meu pai teve de deixar o seu país aos 20 e poucos anos. Fê-lo porque se recusou a combater numa guerra contra a qual se erguia. Fê-lo porque se recusou a continuar num país onde não havia liberdade de dizer, de fazer, de pensar, de crescer. Estou feliz por o meu pai ter emigrado, porque se não o tivesse feito, eu não estaria aqui. Nasci em França, porque a minha mãe teve de deixar o seu país aos 19 anos. Fê-lo porque não tinha hipóteses de estudar e desenvolver o seu potencial no país onde nasceu. Foi para França estudar e trabalhar e estou feliz por tê-lo feito, pois se assim não fosse eu não estaria aqui. Estou feliz por os meus pais terem emigrado, caso contrário nunca se teriam conhecido e eu não estaria aqui. Não tenho porém a ingenuidade de pensar que foi fácil para eles sair do país onde nasceram. Durante anos o meu pai não pôde entrar no seu país, pois se o fizesse seria preso. A minha mãe não pôde despedir-se de pessoas que amava porque viveu sempre longe delas. Mais tarde, o 25 de Abril abriu as portas ao regresso do meu pai e viemos todos para o país que era o dele e que passou a ser o nosso. Viemos para viver, sonhar e crescer. Cresci. Na escola, distingui-me dos demais. Fui rebelde e nem sempre uma menina exemplar mas entrei na faculdade com 17 anos e com a melhor média daquele ano: 17,6. Naquela altura, só havia três cursos em Portugal onde era mais difícil entrar do que no meu. Não quero com isto dizer que era uma super-estudante, longe disso. Baldei-me a algumas aulas, deixei cadeiras para trás, saí, curti, namorei, vivi intensamente, mas mesmo assim licenciei-me com 23 anos. Durante a licenciatura dei explicações, fiz traduções, escrevi textos para rádio, coleccionei estágios, desperdicei algumas oportunidades, aproveitei outras, aprendi muito, esqueci-me de muito do que tinha aprendido. Cresci. Conquistei o meu primeiro emprego sozinha. Trabalhei. Ganhei a vida. Despedi-me. Conquistei outro emprego, mais uma vez sem ajudas. Trabalhei mais. Saí de casa dos meus pais. Paguei o meu primeiro carro, a minha primeira viagem, a minha primeira renda. Fiquei efectiva. Tornei-me personna non grata no meu local de trabalho. “És provavelmente aquela que melhor escreve e que mais produz aqui dentro.” – disseram-me

– “Mas tenho de te mandar embora porque te ris demasiado alto na redacção”. Fiquei. Aos 27 anos conheci a prateleira. Tive o meu primeiro filho. Aos 28 anos conheci o desemprego. “Não há-de ser nada, pensei. Sou jovem, tenho um bom curriculo, arranjarei trabalho num instante”. Não arranjei. Aos 29 anos conheci a precariedade. Desde então nunca deixei de trabalhar mas nunca mais conheci outra coisa que não fosse a precariedade. Aos 37 anos, idade com que o senhor se licenciou, tinha eu dois filhos, 15 anos de licenciatura, 15 de carteira profissional de jornalista e carreira ‘congelada’. Tinha também 18 anos de experiência profissional como jornalista, tradutora e professora, vários cursos, um CAP caducado, domínio total de três línguas, duas das quais como “nativa”. Tinha como ordenado ‘fixo’ 485 euros x 7 meses por ano. Tinha iniciado um mestrado que tive depois de suspender pois foi preciso escolher entre trabalhar para pagar as contas ou para completar o curso. O meu dia, senhor

como ordenado fixo 405 euros X 7 meses por ano. Sim, leu bem, senhor primeiro-ministro. A universidade na qual lecciono há 16 anos conseguiu mais uma vez reduzir-me o ordenado. Todo o trabalho que arranjo é extra e a recibos verdes. Não sou independente, senhor primeiro ministro. Sempre que tenho extras tenho de contar com apoios familiares para que os meus filhos não fiquem sozinhos em casa. Tenho uma dívida de mais de cinco anos à Segurança Social que, por sua vez, deveria ter fornecido um dossier ao Tribunal de Família e Menores há mais de três a fim que os meus filhos possam receber a pensão de alimentos a que têm direito pois sou mãe solteira. Até hoje, não o fez. Tenho a dizer-lhe o seguinte, senhor primeiro-ministro: nunca fui administradora de coisa nenhuma e o salário mais elevado que auferi até hoje não chegava aos mil euros. Isto foi ainda no tempo dos escudos, na altura em que eu enchia o depósito do meu renault clio com cinco contos e ia jantar fora e

Quero apenas dizer-lhe o seguinte, senhor primeiro-ministro: aos 42 anos já dei muito mais a este país do que o senhor. Já trabalhei mais, esforcei-me mais, lutei mais e não tenho qualquer dúvida de que sofri muito mais. Ganhei, claro, infinitamente menos. primeiro ministro, só tinha 24 horas… Cresci mais. Aos 38 anos conheci o mobbying. Conheci as insónias noites a fio. Conheci o medo do amanhã. Conheci, pela vigésima vez, a passagem de bestial a besta. Conheci o desespero. Conheci – felizmente! – também outras pessoas que partilhavam comigo a revolta. Percebi que não estava só. Percebi que a culpa não era minha. Cresci. Conheci-me melhor. Percebi que tinha valor. Senhor primeiro-ministro, vou poupá-lo a mais pormenores sobre a minha vida. Tenho a dizer-lhe o seguinte: faço hoje 42 anos. Sou doutoranda e investigadora da Universidade do Minho. Os meus pais, que deviam estar a reformar-se, depois de uma vida dedicada à investigação, ao ensino, ao crescimento deste país e das suas filhas e netos, os meus pais, que deviam estar a comprar uma casinha na praia para conhecerem algum descanso e descontracção, continuam a trabalhar e estão a assegurar aos meus filhos aquilo que eu não posso. Material escolar. Roupa. Sapatos. Dinheiro de bolso. Lazeres. Actividades extra-escolares. Quanto a mim, tenho actualmente

acampar todos os fins-de-semana. Talvez isso fosse viver acima das minhas possibilidades. Talvez as duas viagens que fiz a Cabo-Verde e ao Brasil e que paguei com o dinheiro que ganhei com o meu trabalho tivessem sido luxos. Talvez o carro de 12 anos que conduzo e que me custou 2 mil euros a pronto pagamento seja um excesso, mas sabe, senhor primeiro-ministro, por mais que faça e refaça as contas, e por mais que a gasolina teime em aumentar, continua a sair-me mais em conta andar neste carro do que de transportes públicos. Talvez a casa que comprei e que devo ao banco tenha sido uma inconsciência mas na altura saía mais barato do que arrendar uma, sabe, senhor primeiro-ministro. Mesmo assim nunca me passou pela cabeça emigrar… Mas hoje, senhor primeiro-ministro, hoje passa. Hoje faço 42 anos e tenho a dizer-lhe o seguinte, senhor primeiro-ministro: Tenho mais habilitações literárias que o senhor. Tenho mais experiência profissional que o senhor. Escrevo e falo português melhor do que o senhor. Falo inglês melhor que o senhor.

Francês então nem se fala. Não falo alemão mas duvido que o senhor fale e também não vejo, sinceramente, a utilidade de saber tal língua. Em compensação falo castelhano melhor do que o senhor. Mas como o senhor é o primeiro-ministro e dá tão bons conselhos aos seus governados, quero pedir-lhe um conselho, apesar de não ter votado em si. Agora que penso emigrar, que me aconselha a fazer em relação aos meus dois filhos, que nasceram em Portugal e têm cá todas as suas referências? Devo arrancá-los do seu país, separá-los da família, dos amigos, de tudo aquilo que conhecem e amam? E, já agora, que lhes devo dizer? Que devo responder ao meu filho de 14 anos quando me pergunta que caminho seguir nos estudos? Que vale a pena seguir os seus interesses e aptidões, como os meus pais me disseram a mim? Ou que mais vale enveredar já por outra via (já agora diga-me qual, senhor primeiro-ministro) para que não se torne também ele um excedentário no seu próprio país? Ou, ainda, que venha comigo para Angola ou para o Brasil por que ali será com certeza muito mais valorizado e feliz do que no seu país, um país que deveria dar-lhe as melhores condições para crescer pois ele é um dos seus melhores – e cada vez mais raros – valores: um ser humano em formação. Bom, esta carta que, estou praticamente certa, o senhor não irá ler já vai longa. Quero apenas dizer-lhe o seguinte, senhor primeiro-ministro: aos 42 anos já dei muito mais a este país do que o senhor. Já trabalhei mais, esforcei-me mais, lutei mais e não tenho qualquer dúvida de que sofri muito mais. Ganhei, claro, infinitamente menos. Para ser mais exacta o meu IRS do ano passado foi de 4 mil euros. Sim, leu bem, senhor primeiro-ministro. No ano passado ganhei 4 mil euros. Deve ser das minhas baixas qualificações. Da minha preguiça. Da minha incapacidade. Do meu excedentarismo. Portanto, é o seguinte, senhor primeiro-ministro: emigre você, senhor primeiro-ministro. E leve consigo os seus ministros. O da mota. O da fala lenta. O que veio do estrangeiro. E o resto da maralha. Leve-os, senhor primeiro-ministro, para longe. Olhe, leve-os para o Deserto do Sahara. Pode ser que os outros dois aprendam alguma coisa sobre acordos de pesca. Com o mais elevado desprezo e desconsideração, desejo-lhe, ainda assim, feliz natal OU feliz ano novo à sua escolha, senhor primeiro-ministro e como eu sou aqui sem dúvida o elo mais fraco, adeus.

19/12/2011


30 12 2011

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L E T R A S S Í N I C A S

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WEN ZI 文子

A COMPREENSÃO DOS MISTÉRIOS

É a Via do universo voltar para trás quando atinge um extremo.

CAPÍTULO 174, PARTE II Quando a escrita foi inventada, foi empregue para gerir os afazeres; os pobres de espírito podiam-na usar de modo a não se esquecerem das coisas e os sábios podiam usá-la para registar eventos. Quando se tornou degenerada, produziu traiçoeiras falsidades capazes de libertar os culpados e matar os inocentes. Quando os parques fora inventados, foi para mausoléus e altares; alguns cavaleiros e escudeiros foram escolhidos como guardas e guias. Quando se tornaram degenerados, tomaram o tempo do povo com [jogos de] perseguição e caça, assim exaurindo as energias do povo. Quando os dirigentes são sábios, sabem guiar e julgar com justeza; os homens sábios e bons ocupam seus cargos, os homens capazes e habilidosos trabalham. A riqueza é distribuída no sentido descen-

dente e todo povo está ciente das suas bênçãos. Quando degeneram, as cliques e facções promovem os seus títeres, trocando o interesse público pelo privado. Com os de fora e os de dentro usurpando-se uns aos outros, as posições de poder são ocupadas pelos ardilosos e traiçoeiros, enquanto que os bons e sábios permanecem escondidos. É a Via do universo voltar para trás quando atinge um extremo; o aumento conduz à diminuição. Por isso, os sábios mudam as estruturas para remediar a deterioração; quando algo chega ao fim, fazem mais. São bons quando harmoniosos e falham quando são autoritários. Segundo a Via dos sábios, é impossível existir sem cultivar a cortesia, a justiça e a consciência. Sem consciência, o povo não pode ser governado; sem conhecer a cortesia e a justiça, as leis não o podem corrigir. É possível executar o que não

seja filial, mas não forçar o povo a ser filial. É possível punir os ladrões, mas não é possível forçar o povo à honestidade. Quando os reis-sábios lideram, mostram ao povo o que é bom e mau e o guiam com censura e elogio. Favorecem os bons e os promovem, diminuindo e despromovendo os que não são bons. Assim, os castigos são postos de lado e não são usados; a cortesia e a justiça são praticadas e as responsabilidades confiadas aos sábios e virtuosos. Aqueles cujo conhecimento ultrapassa o de dez mil são chamados notáveis; aqueles que ultrapassam mil outros são chamados distintos. Aqueles que ultrapassam cem outros são chamados excelentes; aqueles que ultrapassam dez outros são chamados notórios. Tradução de Rui Cascais Ilustração de Rui Rasquinho

O texto conhecido por Wen Tzu, ou Wen Zi, tem por subtítulo a expressão “A Compreensão dos Mistérios”. Este subtítulo honorífico teve origem na renascença taoista da Dinastia Tang, embora o texto fosse conhecido e estudado desde pelo menos quatro a três séculos antes da era comum. O Wen Tzu terá sido compilado por um discípulo de Lao Tzu, sendo muito do seu conteúdo atribuído ao próprio Lao Tzu. O historiador Su Ma Qian (145-90 a.C.) dá nota destes factos nos seus “Registos do Grande Historiador” compostos durante a predominantemente confucionista Dinastia Han. A obra parece consistir de um destilar do corpus central da sabedoria Taoista constituído pelo Tao Te Qing, pelo Chuang Tzu e pelo Huainan-zi. Para esta versão portuguesa foi utilizada a primeira e, até à data, única tradução inglesa do texto, da autoria do Professor Thomas Cleary, publicada em Taoist Classics, Volume I, Shambala, Boston 2003. Foi ainda utilizada uma versão do texto chinês editada por Shiung Duen Sheng e publicada online.



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