Traiçoeiras, ciumentas, vaidosas e gastadoras. Estamos mesmo em 2019? (Correio do Minho)

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12 correiodominho.pt 4 de Março 2019

1 de Setembro 2016 correiodominho.pt 23

Opinião Ideias

PED R O M O R G A D O

P s iq u ia t r a e P ro fe s s o r d a U n iv e r s id a d e d o M in h o

T r a iç o e ir a s , c iu m e n t a s , v a id o s a s e g a s t a d o r a s . E sta m o s m e sm o e m 2 0 1 9 ?

A

o contrário do que se possa pensar, não é só para as mulheres que o machismo é negativo. É profundamente tóxico para os rapazes que, por via dele, se envolvem em frequentes situações de violência interpares, que crescem atemorizados por não serem suficientemente “masculinos” (seja lá o que isso for), que morrem mais precocemente por comportamentos perfeitamente evitáveis, que padecem de elevados níveis de ansiedade de desempenho nos seus relacionamentos afetivos e sociais, que demoram mais tempo a procurar ajuda para situações de depressão (e outras doenças psiquiátricas) e que gerem de forma excessivamente sofrida as normais frustrações da vida. Há uns tempos atrás estive perante uma plateia de jovens adolescentes (mais de 90% eram rapazes) a conversar sobre cérebro, género e orientações sexuais. O ponto de partida foi um desafio em que lhes pedimos para encontrarem características definidoras das mulheres e dos homens. O objetivo era salientar os preconceitos e os estereótipos que assimilaram ao longo das suas vidas para os confrontar com a falta de evidência científica para cada um deles. Recebemos a garantia de que os homens eram “fortes, líderes, capazes e cheios de adrenalina” enquanto as mulheres eram “traiçoeiras, ciumentas, vaidosas e gastadoras”. As poucas participantes do género feminino aceitaram passivamente o consenso, ou-

sando discordar da questão da vantagem masculina no que respeita à adrenalina: “se pensas que as mulheres não têm adrenalina é porque conheces as mulheres erradas”, retorquiu uma delas. Um dos rapazes, num misto de culpa e discernimento, tratou de declarar que “as mulheres são assim, mas a sua mãe não”. A declaração, solene, foi seguida por um movimento quase unânime de acenares afirmativos de cabeça. Compreende-se a ressalva tendo em conta que estamos no Minho, uma região onde a sociedade tem laivos matriarcais que, ainda assim, não atenuam o machismo dominante. Detivemo-nos por uns instantes na questão da traição e do ciúme. Os dados são esmagadoramente bárbaros: em menos de um mês, nove mulheres morreram vítimas do ciúme e da brutalidade criminosa dos seus ex-companheiros em Portugal. Nove mulheres e, que se saiba, nenhum homem. “E a Rosa Grilo? Era traiçoeira ou não era, professor?”, pergunta um jovem perante o gáudio generalizado dos colegas. Quase todos a conhecem. A Rosa Grilo entrou-lhes em casa pelo Correio da Manhã e pelas parangonas sensacionalistas dos outros noticiários a que ingenuamente não chamamos populistas. Ficou-lhes gravada na memória como nenhum dos femicídios do mês anterior, ganhando no imaginário de cada um destes jovens o estatuto de confirmação de todos os preconceitos

prévios: as mulheres são ciumentas e traiçoeiras, seres humanos em quem não se pode confiar. Esta memória seletiva exibe certamente o medo e a insegurança próprios de uma adolescência demasiado pautada por afirmações tóxicas da masculinidade. A cena mediática está alinhada com a perpetuação dos estereótipos e dos preconceitos: enquanto o femicídio passional é normalizado, a diabolização de uma mulher alegadamente assassina tem destaque verdadeiramente desproporcionado. Desde há vários anos que diversas instituições internacionais delinearam políticas públicas de combate à violência de género. Em Portugal, está quase tudo por fazer: do sistema educativo aos serviços de saúde, do sistema judicial aos sistemas de proteção social, dos órgãos de comunicação social às forças de segurança, as desigualdades entre mulheres e homens perpetuam-se ano após ano e os números da violência de género não dão sinais de abrandamento. Os consensos internacionais afirmam que a forma mais eficaz de combater a violência contra as mulheres é promover a mudança da narrativa machista que ainda domina o espaço mediático dos nossos dias. A mudança faz-se nas escolas, nas igrejas, nas televisões, nas rádios, nos festivais de verão, nos relvados de futebol e nos ringues de boxe. A mudança faz-se quando deixarmos de

chamar “Manuela” ao avançado que falha golos; quando deixarmos de chamar maricas ao homem que não bebe; quando deixarmos de ridicularizar o homem que aspira a casa; quando deixarmos de chamar menina ao rapaz que é franzino e tem cabelo comprido; quando deixarmos de olhar para a homossexualidade masculina como um horror e para a feminina como uma excitação; ou quando deixarmos de chamar galdéria à mulher que gosta de sair. Os exemplos de expressões, normas e atitudes que reforçam as desigualdades de género são intermináveis. Sem qualquer descortesia para as flores que todos gostamos de receber como gesto de generosidade e afetividade, neste Dia da Mulher guardemos as flores para as campas das vítimas do machismo e lutemos civicamente para garantir que todas as mulheres e todos os homens do nosso tempo têm garantidos os seus direitos cívicos e sociais em condições de verdadeira igualdade.

!!! H á u n s te m p o s a trá s e u m a p la t e ia d e jo v e n s ( m a is d e 9 0 % e r a m r a v e rsa r so b re cé re b ro , g t a ç õ e s s e x u a is .

s t iv e p e r a n t e a d o le s c e n te s p azes) a co n é n e ro e o r ie n -

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inquérito O

q u e é q u e m a is g o s t o u n o d e s file d e C a r n a v a l d e V ia n a d o C a s t e lo ?

J O Ã O F E R N A N D E S T é c n ic o d e a r c o n d ic io n a d o

“ O q u e e u m a is g o s t e i fo i d o C o m b o io , F o i o q u e m e c h a m o u m a is a a t e n ç ã o p e lo s e u v o lu m e e d e it a r fu m o . A c h e i e n g r a ç a d o .”

PROPRIETÁRIO E EDITOR Arcada Nova – Comunicação, Marketing e Publicidade, SA. Pessoa colectiva n.º 504265342. Capital social: 150 mil €uros. N.º matrícula 6096 Conservatória do Registo Comercial de Braga. SEDE Praceta do Magistério, 34, Maximinos, 4700 222 BRAGA. Telefone: 253309500 (Geral)

S O F IA S A M P A IO E stu d a n te

“ G o s t e i m u it o d o c o m b o io , p o r s e r u m a c o is a d ife re n t e e t in h a m u it a s c r i a n ç a s .”

CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO administracao@correiodominho.pt Manuel F. Costa (Presidente); Paulo Nuno M. Monteiro e Sílvia Vilaça F. Costa. SEDE DA REDACÇÃO Praceta do Magistério, 34, Maximinos, 4700 - 222 BRAGA. Telefone: 253309500 (Geral) e 253309507 (Publicidade). Fax: 253309525 (Redacção) e 253309526 (Publicidade). DIRECTOR COMERCIAL comercial@correiodominho.pt António José Moreira DIRECTOR DO JORNAL director@correiodominho.pt Paulo Monteiro (CP1145A)

D O M IN G O S C U N H A T é c n ic o c o m e r c ia l

“ G o s t e i m u it o d e v e r a C a d e ia . T in h a m u it a s á t ir a p o lít ic a e s o c ia l à m is t u r a . G o s t e i m u i t o .”

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V ÍT O R M A R T IN S E m p r e s á r io

“ N ã o v i q u a s e n a d a , p o rq u e n ã o lig o m u it o a o s fe s t e jo s d e C a r n a v a l. P a s s e i p o r a q u i , m a s n ã o v i m u i t a c o i s a .”

Nota: Os textos assinados são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. NOTICIÁRIO: Lusa. Estatuto editorial disponível na página da internet em www.correiodominho.pt ASSINATURAS assinaturas@correiodominho.pt ISSN 9890; Depósito legal n.º 18079/87; Registo na ERC n.º 100043; DISTRIBUIÇÃO: VASP IMPRIME: Naveprinter, Indústria Gráfica do Norte, SA. Lugar da Pinta, km7,5. EN14 - Maia. Telef: 229411085. Fax: 229411084 TIRAGEM 8 000 exemplares


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