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EDITORIAL
Estamos no mês das mulheres, assim no plural mesmo, que é para incluir todas, e não poderíamos deixar de se fazer presente em uma data tão significativa como essa. Ser mulher vai muito além de qualquer explicação óbvia e clichê. Somos resistência, somos muitas, somos todas, e você merece toda homenagem do mundo, não só em março, mas em todos os dias do ano. Para comemorar nossas conquistas e reafirmar nossa luta por um futuro melhor para nossas irmãs, trouxemos uma edição super especial, para enaltecer a história de mulheres que diariamente desafiam os preconceitos em busca do que querem.
editorial
Como não ando só, contamos com a colaboração de mais quatro mulheres fodas, que escreveram sobre assuntos importantes, necessários e urgentes, que vão desde empreendedorismo até política e saúde mental. Você já ouviu falar em Tokenismo? Acredito que muitas não conhecem. Esse tema pouco discutido traz um debate racial que precisa entrar em evidência, por isso convidamos a estudante de jornalismo, Ana Beatriz Rocha para falar sobre ele e nos alertar sobre a falsa representatividade. Outra novidade é nossa nova editoria sobre dicas. Toda edição traremos indicações sobre livros, filmes, séries, documentários e, para inaugurar com chave de outro, começaremos com a leitura. Se você não sabe o que ler, ou tem buscado um livro que possa trazer ensinamentos importantes, então esse é o lugar certo. Além disso, nossa playlist continua por aqui, para você se empoderar até na hora de curtir aquele som. Sem mais papinho, boa leitura! Esperamos que você goste.
QUEM SOMOS Raquel Duarte @raqueldcn
Jornalista | 23 anos | Lutando por um feminismo interseccional | Empoderando mulheres através da informação | Paraibana | Canceriana | LGBTQIA+
COLABORADORAS
Michelly Santos @michellysantoss
Estudante de Jornalismo | 24 anos | Geminiana | Pernambucana de corpo e alma | Amante de fotografia | Bolo de rolo e frevo representa mais do que carnaval e futebol
@gabsferrera
Estudante de administração e jornalismo | 25 anos | Criadora de Conteúdo | Viciada em Games/Animes/Doramas | Ariana | Ama cerveja gelada | Pessoense
@anabeatriz_pr
Comunicadora oral e escrita | Paraibana | Constrói narrativas em vídeos, áuidos mas, principalmente, em linhas | Ativista negra pela justiça social | Amefricana que vê o mundo sob a ótica interseccional | Andarilha desbravando o jornalismo
Bruna Falcão
@brunafalcaopsi
Psicóloga Clínica | CRP 13/9194 | Pós-graduanda em Terapia Cognitivo Comportamental | Ênfase em saúde mental da mulher e no tratamento dos transtornos de ansiedade
Carol Alcoforado
@c4rulina
Publicitária | Diretora de arte | 27 anos | Roraimense morando em João Pessoa | Artista por definição | Libriana decidida
PROJETO GRÁFICO
Gabs Ferrera
Ana Beatriz Rocha
SUMÁRIO Playlist .................................................................................................................. 06 Leituras para Empoderar Você .............................................................................. 07 Saúde mental feminina e a busca pela autoaceitação ........................................................................................................ 08 Bruna Falcão Tokenismo: Um “quase lá” que representa o esforço superficial dos grupos dominates .......................................................................... 11 Ana Beatriz Rocha Doce dia: Um empreendimento gostoso de se conhecer .......................................................................................... 16 Raquel Duarte Cicatrizes .............................................................................................................. 21 Gabs Ferrera Empreendedorismo consciente: Manayra Barreto levanta suas bandeiras e luta pelos animais e meio ambiente através da Shower Saboaria & Biocosméticos ...................................................................... 25 Raquel Duarte A invenção da beleza ideal no Instagram de cada dia ........................................................................................... 29 Michelly Santos Dietas que aprisionam: Uma bate-papo rápido com a Nutricionista Comportamental Talita Ferraz ............................................. 32 Michelly Santos Representação feminina na política: Uma conversa com a Secretária Executiva de políticas públicas para as mulheres, Cris Furtado .......................................................................................................... 36 Raquel Duarte Os desafios da mulher empreendedora ................................................................. 40 Gabs Ferrera
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LEITURAS PARA
EMPODERAR VOCÊ Indicação: Ana Beatriz Livro: Olhos D´água, de Conceição Evaristo O livro reúne contos que misturam a dor e o afeto. A cada capítulo mulheres e homens negros tem suas vidas expostas numa sensibilidade de quem inventou ficção para contar sobre o real. Conceição Evaristo é uma criadora de palavras-símbolos, com uma mania própria de adjetivar expressões onde ela qualifica as sensações mais intrínsecas da experiência do ser negro no Brasil.
Indicação: Raquel Duarte Livro: Sejamos Todos Feministas, de Chimamanda Ngozi Adichie A obra é considerada um clássico para quem quer entender e questionar sobre a opressão da busca pela beleza inalcançável. Escrito pela jornalista Naomi Wolf que problematiza a indústria da beleza e os efeitos que se tem na saúde mental das mulheres.
Indicação: Bruna Falcão Livro: O Mito da Belza, de Naomi Wolf A obra é considerada um clássico para quem quer entender e questionar sobre a opressão da busca pela beleza inalcançável. Escrito pela jornalista Naomi Wolf que problematiza a indústria da beleza e os efeitos que se tem na saúde mental das
Indicação: Michelly Santos Livro: Amor Plus Size, de Larissa Siriani A obra é considerada um clássico para quem quer entender e questionar sobre a opressão da busca pela beleza inalcançável. Escrito pela jornalista Naomi Wolf que problematiza a indústria da beleza e os efeitos que se tem na saúde mental das mulheres.
Indicação: Gabs Ferrera Livro: O Conto da Aia, de Margaret Atwood “O Conto da Aia” é uma narrativa da luta pela sobrevivência da mulher numa república Teocrática, contada através de Offred – uma Aia. O livro mostra como a sociedade depende de todas nós, mulheres. Como devemos ser e justificar seus abusos através da religião.
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BRUNA FALCÃO
SAÚDE MENTAL & autoaceitação
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SAÚDE MENTAL FEMININA E A BUSCA PELA
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ocê concorda que autoaceitação tem tudo a ver com nossa autoestima? E que isso tudo tem relação com nossa saúde mental? Vamos lá que vou te ajudar a entender! Temas que envolvem amor próprio, autocuidado, saúde mental vem ganhando espaço, apesar de avançar a passos lentos, já vemos debates e problematizações em muitos meios de comunicação. A busca pela autoaceitação vem sendo discutida, sobretudo, nas redes sociais. A exemplo de várias blogueiras como a Isadora do @umacorrida ou @alexandrismos do Movimento Corpo Livre que discutem, informam e compartilham experiências reais sobre autoestima, padrões de beleza e a escravidão dos procedimentos estéticos.
Goo
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Diante de tanta informação, de verdadeiros bombardeios de opressão sobre o corpo da mulher, não tem como não afetar nossa saúde mental. Pare por dois minutinhos e tenta lembrar quantas vezes você foi julgada por estar acima do peso ou abaixo. Certamente você lembrou de algumas situações que te deixaram mal e te fizeram duvidar de si mesma. Com tantos padrões estéticos também fica difícil nos aceitar, não é mesmo? Por isso a importância e necessidade de fortalecer nossa saúde mental e o primeiro passo, sem dúvidas, seria o autoconhecimento para sabermos lidar com tudo o que nos afeta e sentirmos livres para a jornada da autoaceitação. A autoaceitação é a capacidade de nos aceitar em sua plenitude, possibili-
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tando fortalecer seus pontos fortes e acolher seus pontos fracos. É aceitar quem você é, sua história, sua visão de mundo, suas potencialidades, suas escolhas. Inclusive é aceitar e reconhecer que você é uma mulher que merece valorização, cuidado e respeito! E antes de tudo, isso precisa ser feito por você, para você! Talvez você esteja se perguntando o que deve fazer para conseguir essa capacidade de se autoaceitar. E a primeira coisa que te digo é: não tem receita de bolo! A autoaceitação se trata de um processo único, particular e subjetivo de cada pessoa. No entanto, há algumas práticas que podem te ajudar a enxergar e reconhecer a importância de saber mais desse processo e se aventurar.
Seja seu próprio lar, acolha suas vulnerabilidades, respeite seu processo e aproveite as possibilidades que a autoaceitação pode te oferecer. Sem dúvidas, esse caminho pode te ajudar a perceber a mulher maravilhosa que você é!
Com carinho,
Bruna Falcão
1) Evite se autojulgar
2) Invista no autoconhecimento
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3) Não se importe com a opinião alheia 4) Reconheça que você tem valor 5) Busque cultivar o amor próprio 6) Acredite que você pode tudo! 7) Respeite sua individualidade 8) Aprende com seus erros 9) Não busque aprovação das pessoas 10) Confie em você
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ANA BEATRIZ ROCHA
racismo
TOKENISMO
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TOKENISMO: UM “QUASE LÁ” QUE REPRESENTA O ESFORÇO SUPERFICIAL DOS GRUPOS DOMINANTES Existe um sentimento comum quando reviramos as dinâmicas do sistema e entendemos as estruturas de opressão que sustentam o mundo do jeito ele é. Existe uma frase que volta e meia nos assombra, rouba sorrisos e devolve as inquietações: “tava bom demais para ser verdade”. Os grupos minorizados nunca receberam nada de bom grado. As mudanças sociais que houve até hoje precisaram de contestações e levantes. O modelo vigente de sociedade agrada uma parcela considerável da população. Considerável pois, embora pequena, possui mecanismos poderosos o 12
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suficiente para determinar os rumos do jogo. No topo da pirâmide os homens brancos, heterossexuais, cisgênero, de classe alta. Ainda é possível estabelecer recortes como territorialidade, em terras brasileiras vozes do sul e sudeste do país costumam silenciar o norte e nordeste. Essa é a equação, poucos no topo, tantos na base. E para garantir que as coisas se mantenham como estão, essa parcela mínima da parte de cima costuma se organizar para garantir que a ordem dos fatores não altere o produto: a soberania. Em seus estudos, a pesquisadora estadunidense Michelle Alexander expli-
ca que essa organização acontece, na maioria das vezes, através da antecipação.
segregação, quem acredita em fábulas poderia prever um cenário de águas tranquilas para os grupos minorizados, mas ele nunca se tornou real.
Deixando tudo como está
Para garantir que essas pessoas seriam mantidas sob controle, e seguiriam ocupando as margens, os maquinistas da locomotiva dilacerante que é o capitalismo trataram de se antecipar mais uma vez. Nas décadas seguintes os presidentes da “maior potência do mundo” investiram energia em propagar a “Guerra às drogas”. A disseminação de ideais discriminatórios contra os guetos e as várias medidas de repressão e punitivismo levaram ao encarceramento em massa da população negra. Mais um mecanismo histórico para legitimar o genocídio e o racismo institucional. Mecanismo este presente e dominante até hoje.
Ao longo da história, a comunidade negra teve que enxergar as amarras que lhe prendem sendo substituídas por outras. Talvez a oração anterior tenha causado estranhamento, é compreensível. O coerente seria que sofrimentos, quando findados, fossem substituídos por garantia de direitos de chances de ascensão, mas não foi o que aconteceu. Ainda de acordo com os registros de Michelle, a história negra nos Estados Unidos da América ilustra bem essa sequência de opressões. O modelo escravocrata regulado pela lei, no formato que conhecemos, foi abolido por lá em 1863. Em tese, as pessoas negras não estariam mais sob tutela dos homens brancos ricos do país. No entanto, ainda na transição do século 19 para o século 20 foram instituídas as Leis Jim Crow. O regime é conhecido como período de segregação nos EUA, onde a comunidade negra era tratada como sub-humana e não poderia frequentar sequer os mesmos banheiros dos brancos, sob pena de prisão. Essas medidas de estratificação racial, que dividiam o país em pessoas de valor e seres desprovidos de dignidade (por ser negada), só foram abolidas em 1964, com a assinatura da Lei dos Direitos Civis. Décadas de humilhação, onde a população negra era diuturnamente maltratada e representada como dejeto social nos discursos políticos públicos de homens poderosos do sul. Com o fim da
Uma farsa revestida de representatividade O chão histórico do Brasil possui muitas particularidades, mas alguns pontos se assemelham aos caminhos traçados acima. A comunidade negra no Brasil ainda lida com as chagas do período escravocrata e da má vontade das décadas seguintes. Má vontade não, projeto. Existe um projeto em vigor no país, de subalternização dos corpos negros. Em combate, o país sempre teve um movimento negro aquecido de mentes brilhantes, intelectuais e ativistas dispostos a destroçar as estruturas de opressão e lutar pela justiça social. Nos últimos anos, discussões como a importância da representatividade tomaram o centro do debate. Grupos
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pontuais da sociedade entenderam que não tem como desconstruir o racismo sem que as vítimas tenham chances de ascensão socioeconômica. A discussão é crucial, pessoas negras precisam ocupar todos os espaços dignos, valorosos e confortáveis. Pessoas negras precisam ocupar espaços de poder. Mas a depender de como essa dinâmica acontece o processo pode ser, na verdade, desagregador. Depois de entender que o sistema está pronto para se antecipar e criar alternativas para manter as relações de opressão, fica mais fácil observar alguns movimentos em falso. Existem empresas, companhias e instituições que se aproveitam de discursos importantes como o da luta antirracista para ganhar pontos no mercado. Formas de esvaziar o enfrentamento, silenciar o ativismo e oferecer um esforço mínimo e superficial para problemas basilares. Quando um cargo é ocupado com esse plano de fundo, o termo tokenismo é utilizado. Ainda durante a luta pelos direitos civis nos EUA, o ativista Martin Luther King chamou de token as pessoas dos grupos minorizados que eram utilizadas pelos grupos dominantes para serem assimiladas. A famosa “cota de negro”. Cota, aqui, não faz alusão às importantes ações afirmativas criadas nas últimas décadas para ampliar direitos. Na verdade, me refiro a um espaço mínimo cedido aos grupos marginalizados, numa tentativa de forjar uma representatividade que é vazia, e não oportuniza ascensão do grupo como um todo. Uma empresa com dezenas de funcionários em seu quadro não pode chamar de inclusão e representatividade a contratação de 1 ou 2 trabalhadores negros. Essa distorção é muito comum no cinema e na publicidade.
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Diversas obras fílmicas costumam abrir espaços para pessoas negras no elenco, no entanto, insistem em colocá-las em papéis estereotipados onde relações de poder e dominação são reiteradas ao longo do filme. Outro enredo comum é o do negro protagonista, que apesar do papel de destaque figura sozinho nessa experiência de minoria na produção, rodeado de uma equipe majoritariamente branca. Para além da presença, é importante pontuar quais as imagens estão sendo construídas a partir daquela narrativa.
Histórias de uma “quase” oportunidade Em 2019 a comédia dramática Green Book, do diretor Poter Farrelly, foi indicada ao Oscar de Melhor Filme, além de outras categorias da premiação. A obra, que mexeu com críticos e cinéfilos, conta a história de um pianista negro e seu motorista branco. A ruptura da normalidade se dá pelos cargos ocupados pelos personagens principais, bem como pelo tempo histórico trazido no filme. A história se passa no período de segregação dos Estados Unidos, o que torna tudo complicado. A problemática surge em como os personagens foram construídos no longa-metragem. O ator Mahershala Ali interpreta o renomado pianista, e a promessa inicial do filme é que sua história de obstáculos e crescimento através da sua arte seria contada. Mas durante o longa, o destaque é dado ao personagem do ator Viggo Mortensen, o motorista branco. O enredo se desenrola mostrando como o homem branco é capaz de entender as dores do homem negro, e como ele age de maneira
acolhedora e benevolente para cuidar do seu patrão, até o ponto de ter ele sob tutela e orientar suas decisões. E a promessa de representatividade só serviu para reiterar imagens de controle, um exemplo clássico de tokenismo.
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O termo token também pode se referir a mulheres e pessoas trans, que por ocuparem um grupo minorizado também podem ser assimiladas numa tentativa frágil de “validar” um discurso de inclusão e criação de oportunidades. Muitas empresas costumam achar que apenas por terem mulheres no quadro de funcionários estão quebrando a corrente de exclusões, mas do que adianta se todas essas mulheres forem brancas e magras? Se não houver mulheres de outros grupos étnicos, mulheres gordas e com estéticas diversas, essa representatividade é real? Uma pequena parcela do grupo minorizado no meio de uma consolidação do grupo dominante os deixa vulneráveis a estratégias de opressão, além da perpetuação de preconceitos. A pesquisadora brasileira Joice Berth explica que o ideal para diluir as estruturas de opressão é a proporcionalidade, que sem ela a representatividade é falsa e não atende ao propósito de diminuir a marginalização dos sujeitos pertencentes a grupos minoritários.
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RAQUEL DUARTE
DOCE BIA
empreendedorismo 16
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DOCE DIA: UM EMPREENDIMENTO GOSTOSO DE SE CONHECER Fotos: Arquivo pessoal
Tudo começou de forma não planejada. Ser uma mulher empreendedora não estava nos planos de Bianca Medeiros, de 26 anos, muito menos ser confeiteira. Devido a problemas emocionais e físicos, Bia, como é chamada por todos, se viu em uma situação em que precisava mudar a sua vida. Aconselhada por médicos, psicólogos e psiquiatras que a acompanhavam, ela resolveu criar a Doce Bia, lá em feve-
reiro de 2019, uma empresa especializada em tudo que a gente mais ama: bolos e doces. Segundo ela, seu maior motivador foi buscar sair do buraco em que se encontrava, onde ficava triste, sem esperanças na vida e sem saber qual rumo sua vida tomaria. Bia tem escoliose em toda coluna, com grau 60º e uma doença cística que produz cistos em todo corpo, e essa situação por muitas vezes a deixava mal. Empoderar Você | Edição Especial
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Quando pensou no que seria boa e o que poderia deixá-la mais feliz, veio a ideia da “Doce Bia”. “Sempre fui apaixonada por cozinhar e principalmente coisas doces, bolos. Sempre gostei muito de servir, da pessoa comer e pensar “caramba, isso tá tão gostoso”, faz meu dia melhor”, contou ela, que ama fazer as pessoas mais felizes.
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Apesar das minhas limitações físicas, por ser uma pessoa com deficiência, eu sempre dei o meu máximo. Já passei dos limites as vezes, mas hoje eu descobri o meu corpo, até onde consigo ir, e assim as coisas estão ficando melhores.
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Inicialmente, Bia conta que começou a vender bolo no pote para amigos mais próximos. Não almejava e nem esperava que essa ideia fosse passar disso. “Eu sempre fui nos meus passinhos lentos, respeitando o meu tempo de cada vez, porque eu sabia que não ia poder ter a mesma agilidade de sempre, mas no meu tempo as coisas também começaram a dar certo, sabe?”, completou. Hoje, Bia não vende apenas para amigos, agora ela está presente em muitos momentos especiais como aniversários, surpresas de Dia dos Namorados, casamentos, noivados, chá de fralda e qualquer evento que convidarem. Esse, inclusive, é um grande motivo de orgulho para ela, que iniciou esse empreendimento como uma forma de melhorar sua vida, e hoje percebe o quanto vem alegrando a vida das pessoas.
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Para quem iniciou com bolo de pote, hoje Bia vem se tornando referência quando o assunto é bolo de festa. E não ache que é qualquer bolo não. Além de super recheados, são ornamentados no tema que o cliente preferir. Olhando assim parece que tudo foi fácil, né? Mas não foi. Bia já encontrou muitas dificuldades, como em relação às entregas, quando não sabia como fazer nem com quem fazer. Ela também conta que já teve dificuldades financeiras em investir em certos produtos, afinal, para ter uma boa qualidade nos seus doces, ela precisava de ingredientes de qualidade. Outra dificuldade enfrentada no início foi seu problema de saúde. Por nem sempre acordar bem, muitas vezes ela se cobrava para trabalhar e acabava se encontrando em uma frustração por não conseguir dar conta de tudo. Hoje ela conta que consegue respeitar o seu tempo e corpo, e que passou a entender até onde aguenta ir.
O COMEÇO DE TUDO X DEU TUDO CERTO Apesar dos momentos ruins, ela se sente grata por tudo que vem conquistando. Quando olha para trás e compara quando começou até onde chegou, ela comemora. Para Bia, ver as pessoas felizes, elogiando seu trabalho e fazendo parte de momentos importantes, se tornou um combustível para continuar. Outra alegria para ela é poder estar se tornando uma mulher mais independente, olhar para o seu negócio e perceber o que
está construindo. “Pra mim, é extremamente importante ter um lugar no mercado de trabalho, poder dizer “eu sou independente, eu comprei com o fruto do meu trabalho”. É muito gratificante”, completou Bia. Hoje ela tem seu horário de iniciar e finalizar o trabalho, tem um WhatsApp apenas para a empresa, e delimita uma quantidade de demandas para fazer. Dessa forma, consegue realizar um trabalho de qualidade, sem prejudicar sua saúde física e mental.
2021 Hoje Bianca trabalha em casa, usando o espaço da sua cozinha e, para 2021, seus planos são fazer desse lugar algo mais estruturado, onde possa ter tudo que precisa sem ficar apertado. Outra meta é dar consultoria e ensinar outras pessoas a seguir o mesmo caminho que o dela. E, como já vem fazendo há um tempo, ela deseja continuar participando da vida das pessoas, ajudando a promover momentos de felicidade.
DAQUI A 5 ANOS Quando perguntada sobre metas a longo prazo, Bia não tem grandes planos, como abrir espaços físicos. Segundo ela, há muitos sonhos para serem realizados, por isso prefere ir dando cada passo de uma vez. Bia também conta que gosta de ensinar, e por esse motivo está cursando pedagogia na Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Para ela, o mais importante é estar com sua vida estruturada, vivendo bem e colhendo os Empoderar Você | Edição Especial
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frutos da Doce Bia. Ela também deseja estar fazendo os mesmos bolos que faz para os clientes, para os seus filhos, e assim seguindo descobrindo o que é melhor para ela. E quando o assunto é mulher dona do seu próprio negócio, Bianca é só orgulho. Ela conta que sempre foi independente. Desde cedo buscava fazer algum trabalho para ter seu dinheiro e comprar o que queria, sempre almejando conquistar seu espaço. Hoje, com a Doce Bia, ela consegue mostrar que não há limites para as mulheres quando a assunto é ser dona uma empresa.
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VOCÊ TEM QUE SE ENCORAJAR EM VOCÊ, POR VOCÊ E PARA VOCÊ
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MENSAGEM PARA TODAS AS MULHERES “Olha, eu acho que primeiramente tem que ter muita coragem. Você tem que se encorajar em você, por você e para você. Segundo lugar, deixe as pessoas duvidarem do seu potencial, porque elas vão se surpreender vendo você fazer o que está fazendo. Em terceiro lugar, fique em silêncio, porque quanto mais você fala, mais as pessoas com ouvido ruim, com energia ruim, vão jogar essas energias ruins, essas opiniões ruins em você. Guarda para você ou entrega diante de Deus. Peça muita força a Ele. Tenha muita fé
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em Deus, e caso você não seja cristã, se segure naquilo que você acredita. Confie em você e decida não desistir. Palavras como “desistir”, “não vou conseguir”, tire da sua vida. Saiba o seu objetivo. Você que nasceu para o quê? O que que pulsa no seu coração? Corra atrás do que você quer. Não desista só porque tem várias outras pessoas fazendo o mesmo que você. Se fosse para eu desistir só porque já existem outras confeiteiras, eu não estaria aqui. Não só tem um médico, não só tem um dentista. Tem espaço para todos, e com certeza para você. Tenha foco. Não olhe com a visão de concorrentes, olhe para você e para tudo de bom que você pode proporcionar com o seu trabalho”, recado final de Bianca para todas as mulheres que desejam empreender.
GABS FERRERA
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C ARTA ABERTA autoconhecimento Empoderar Você | Edição Especial
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Cicatrizes Estou radiante em fazer parte mais uma vez da nova edição da revista, trazendo conteúdos e temas importantes ao lado de outras pessoas incríveis! Na coluna dessa edição, resolvi trazer um relato sobre um assunto muito delicado com múltiplas consequências e problemas: traumas. Esses tempos de pandemia nos fizeram ficar de quarentena em casa e em si. O mergulho em nossas próprias questões pode ser maravilhoso, construtivo ou em situações sem acompanhamento psicológico, destrutivo. No geral, o processo é intenso e urgente. A personagem desse relato se chama Ana. Leia o que ela tem a compartilhar com a gente: “Oi. Me chamo Ana, tenho 32 anos e sinto bloqueios para demonstrar afeto desde criança. Bom, isso não é um diagnóstico já que nunca fui a um psicólogo, mas depois da minha última crise, cheguei à conclusão de que não posso adiar. Queria compartilhar com você um pouco disso que sinto, como que alguns acontecimentos podem potencializar isso de forma negativa e como eu nunca falo sobre essas situações com ninguém, torço para que seja um relato que te ajude de alguma forma.
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Era um domingo. Aparentemente estava tudo bem, já fazia tempo que eu não me sentia tão segura. A vida seguindo como de costume e com ela, a brisa de um novo ano atravessando a janela rapidamente, mas o calor foi voltando a ser o rei de qualquer ambiente sem ar condicionado, ou seja, dia perfeito para aproveitar o sol numa praia bem cedo - para evitar aglomerações já que diferente do que muitos achavam – a pandemia não ficou em 2020. Chamei um casal de amigos, minha namorada e fomos. Foi um dia muito especial, apesar das minhas paranoias porque - como a maioria das mulheres - sou insegura com meu corpo (infelizmente). Todos entraram na água, mas eu fiquei só olhando até que resolvi entrar, depois de observar a felicidade de todos curtindo e foi ótimo! Eu parecia aquelas pessoas que são muito praianas e estão sempre ocupadas pois vivem na praia (rs). Curti muito com minha namorada, principalmente. Foi tão bom que até o celular dela foi mergulhar com a gente (trágico). Tiramos algumas fotos, emprestei o meu para ela usar o Instagram e todos nós voltamos para casa. Durante a estrada, no carro, recebi algumas notificações no celular que não eram para mim. Eram para ela. Você já assistiu aquele filme “Corra!”? Espero que sim, pois vou contar um pequeno spoiler: Lembra da parte em
que a mãe da Rose usa a técnica de hipnose em Chris e ele mergulha numa escuridão profunda? Cai dentro de si mesmo, através de gatilhos mentais usados pela hipnose, trazendo à tona um acontecimento traumático que ele passou. Em tese, foi o que eu comecei a sentir. Aquelas notificações foram o anúncio do meu mergulho no vazio, relembrando coisas muito delicadas para mim. Cheguei a questioná-las em tom de brincadeira para minha namorada, que fez pouco caso. Foi o empurrão necessário para que eu ficasse em silêncio. Isolada em minhas lembranças e pensamentos. Os dias foram passando e nós duas, que moramos juntas há pouco mais de 12 anos, falávamos apenas sobre assuntos triviais. “Coloca o frango para fora” ou ”você pode pegar a toalha para mim? Esqueci”. Ela até tentou saber a razão da minha estranheza, mas enxerguei suas tentativas como hipocrisia, já que sabia o motivo. Continuei em silêncio.
Minha sogra nos chamou para um almoço em família. Pensei em não ir, mas isso era o que a antiga Ana fazia. Ela quando estava mal se isolava 100% e eu – naquela época – acreditava que isso era o nível mais problemático de bloqueio. Então decidi ir. Eu e minha namorada já tivemos sérios problemas com insegurança virtual. Ciúmes. Possessão. Fomos trabalhando isso com o tempo e estávamos indo bem. Por esse motivo, mantive a conta dela conectada ao meu celular. Seria egoísmo da minha parte privá-la de sua rede social e eu queria mostrar que apesar das notificações, não era mais aquela pessoa. Eu posso ser mais forte do que essas questões. Queria que ela visse minha mágoa não como algo superficial, pois ela vai além daquilo. Além de uma simples notificação. Mas as mensagens voltaram minutos antes da gente sair e com elas, meus bloqueios. Eles voltaram bem pior. Voltaram como um grito de alguém muito preocupado que eu novamente fosse
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para o buraco, onde havia entrado há alguns anos atrás. Eu as olhei. Olhei as notificações num misto de culpa e medo. Olhei, mesmo sabendo que era errado, mas pior do que olhar, era continuar fingindo que aquilo não me afetava tanto. Fingindo que aquilo não era um gatilho certeiro para um dos piores momentos da minha vida. Fingir que minha cicatriz por mais tampada que parecesse estar, não estava. Abriu. Menti. Disse que tinha umas coisas para fazer e que havia me esquecido delas. Ela saiu, eu fiquei. Sozinha... perdida. Voltei no tempo, olhei em volta: Nossa casa, um lugar onde vivi esses momentos ruins e que agora não parecia mais ser tão aconchegante. Agora, ela soava um alarme alto, dizendo “você vai viver tudo de novo. Está acontecendo. Você sabe e é só questão de tempo.” Desse dia para cá, eu já chorei, já pensei, repensei, fui honesta e conversei, mas nada consegue tirar de mim esses bloqueios. Sinto saudade, sinto vontade de abraçar, vontade de dizer “eu acredito em você”, principalmente depois dela ter me pedido desculpas. Mas o bloqueio veio com tudo. Não consigo tocar nela. Não consigo abraçála. Veja: não é falta de vontade. Eu tenho, sinto e bastante! E dói travar. Dói viver quase 2 meses assim. Sem afeto, sem carinho, sem bom dia. Noites em claro. Dói fingir que estou bem quando claramente não estou. É difícil perceber que uma “simples coisa” pode trazer à tona uma enxurrada de traumas não superados. Dói perceber quase que de forma palpável, como um acontecimento pode te travar tão profundamente por tempo indeterminado. Tenho medo de me permitir abrir o coração e as palavras da nossa casa se concretizarem.
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É isso. Torço para que se você está passando por isso, procure terapia. Eu adiei sentir minhas dores, cuidar dos meus traumas, cuidar de mim e adiei essa visita por tantos anos, mas agora - mais do que nunca - vejo que não há outra saída para salvar minha mente. Não quero continuar nesse ciclo. Não quero perder o controle sobre mim de uma forma tão rápida, sorrateira. Não quero colocar mais cimento nos muros enormes que venho construindo dia após dia. Antes de trabalhar meu amor próprio, preciso fortalecer meu interior para não perder a sanidade mental.” A Ana – nesse desabafo – traz um importante alerta: Autoconhecimento é urgente. Falarmos sobre como nossos afetos são relativizados, é urgente. Debatermos sobre como é problemático diminuir a dor do outro, é urgente. Falarmos sobre responsabilidade afetiva, é urgente. Não existe idade para isso. A vida é um filme intenso para todo mundo e cada capítulo exerce um tipo de carga sobre o protagonista. São adultos, crianças e adolescentes com mil conflitos e questões em suas mentes e eles têm suas travas menosprezadas. Não existe problema sem causa, as pessoas não criam questões sozinhas e muito menos irão se cuidar sem ninguém.
RAQUEL DUARTE
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EMPREENDEDORISMO CONSCIENTE: MANAYRA BARRETO LEVANTA SUAS BANDEIRAS E LUTA PELOS ANIMAIS E MEIO AMBIENTE ATRAVÉS DA SHOWER SABOARIA & BIOCOSMÉTICOS Fotos: Victoria Falcão
Manayra Barreto, de 32 anos, nasceu lá em Timbaúba/PE, mas foi em João Pessoa/PB que ela decidiu fazer morada e continuar construindo sua história. Formada em Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda, seguiu outro caminho totalmente diferente: o do empreendedorismo. Dona do seu próprio negócio, tem mostrado que mulher pode ocupar o lugar que quiser. Desde 2018, Manayra tem a Shower Saboaria & Biocosméticos, uma marca 100% vegana, que no início só vendia sabonetes, desodorantes, creme dental, máscaras de argila e shampoo sólido. Hoje possui mais de 30 itens, entre produtos faciais, corporais, capilares, maquiagens e produtos sustentáveis / de Spa e cuidados terapêuticos. Motivada pelas suas causas, criou a Shower como uma forma de liberdade para consumir produtos veganos, que não agredissem o meio ambiente, nem os animais. “Comecei a empreender em março de 2018 quando me tornei vegana e não encontrava variedade de produtos em João Pessoa. Fiz um curso e comecei
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a produzir para uso pessoal, 2 meses depois estava vendendo para outras pessoas e iniciei formalmente com a Shower”, completa.
Fotos: Kinho Moura
Como nem tudo são flores, para Manayra não seria diferente. Logo de início enfrentou dificuldades para encontrar as matérias-primas e fornecedores confiáveis. Também precisou lidar com a administração da nova empresa, as entregas, rotulagem e as produções de conteúdo, afinal, seu trabalho funciona online, no Instagram e no site. Desistir não está nos seus planos, pois além de trabalhar com o que gosta, sabe da importância de ser uma mulher à frente de um negócio e de poder ser uma marca mais consciente. “É gratificante poder ajudar outras pessoas a terem consciência dos produtos que usam na pele, do lixo que geram e da saúde atrelada aos produtos naturais”, finaliza. Antes da Shower, Manayra trabalhava como atendente em uma locadora de veículos. Hoje, se dedica único e exclusivo a sua empresa. Para isso, é preciso muita dedicação e organização. Segundo Manayra, ela usa um planner de acordo com os pedidos que vai recebendo, deixa tudo agendado e nas terças ou sextas-feiras, passa tudo para uma motogirl, que segue entregando para cada cliente. Além das entregas, também planeja toda sua produção, programa as postagens nas redes sociais, pois sabe que lá é uma das maiores ferramentas para captar novos consumidores. Apesar de não trabalhar na sua área de formação, usa todos seus conhecimentos para alcançar ainda mais pessoas. Empoderar Você | Edição Especial
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Quando perguntada sobre o momento que ela percebeu que as coisas estavam dando certo, ela lembra das primeiras vendas. “No primeiro mês de vendas já me surpreendi com a procura das pessoas, gente que não me conhecia pessoalmente e que entrava em contato para encomendar e personalizar produtos para suas reais necessidades”, conta Manayra, super empolgada com tudo que vem conquistando. O ano mal começou, mas Manayra já tem alguns planos em mente. Segundo ela, a meta é focar em lançamentos de produtos sólidos, e reduzir mais ainda o uso de frascos, mesmo que já trabalhe com a reutilização de embalagens de vidro, pretende ser uma empresa lixo zero total. E daqui a 5 anos, como ela se enxerga? “Me imagino com um ateliê físico aberto para mentorias online e oficinas presenciais, além de um ponto físico para atender os clientes em maior escala, ter uma funcionária e ser conhecida nacionalmente.” Manayra levanta suas bandeiras através do seu trabalho, impactando outras pessoas a mudarem seu estilo de consumo e de vida. E para as mulheres que pretendem empreender ou abriram recentemente o seu negócio, ela deixa uma mensagem: “Anotem os desejos, revisem o que tem em mãos e comecem! Muitas vezes idealizamos tanto, no fundo (apesar das dificuldades que vão surgindo no caminho), a atitude de começar já faz muita diferença. Sigo um mantra de que é melhor feito do que perfeito não feito. Há 28
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várias pessoas inspiradoras na internet, perfis que podem ajudar a administrar os primeiros passos e o restante vai se lapidando à medida que a empresa está funcionando. Foco e muita determinação!” Girl Power total, Manayra vem se tornando referência de empreendedorismo, empoderamento e luta. Trabalha por um mundo mais consciente, para as pessoas, para os animais e para o meio ambiente.
MICHELLY SANTOS
Foto: Wikimedia Commons
PRESSÃO E STÉTICA beleza ideal Empoderar Você | Edição Especial
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Foto: Print do video de Sthefane
A INVENÇÃO DA BELEZA IDEAL NO INSTAGRAM DE CADA DIA Fechando uma década, 2020 não entregou as realizações dos desejos mais fiéis daqueles que prometeram fazer do ano o melhor de todos. Entre isolamento social e o medo de tudo que aconteceu nesse ano inimaginável, contamos com a internet e as redes sociais para nos manter conectados com os nossos e, principalmente, nos manter conectados com as nossas comparações e o medo de não estarmos no padrão. Ficamos mais suscetíveis aos filtros e ao corpo do outro. As redes sociais, principalmente o Instagram, foram as que mais cresceram no período de quarentena. Segundo a empresa de marketing para influencer, Squid, houve um aumento de 24% de engajamento comparado com o mesmo
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período de 2019. Eu aposto que você assistiu, pelo menos, uma live no Instagram; decorou uma dança do tiktok, fez comparações e mais comparações com uma pessoa que não tem nada a ver com seu estilo de vida. Eu também aposto que você viu alguém no seu explorar do Instagram ou uma blogueira que você segue, fazendo alguma cirurgia plástica ou procedimento estético. Com a chegada do verão, esses procedimentos só aumentam e abre para antiga discussão sobre padrões estéticos. A banalização das cirurgias plásticas fica cada dia mais comum e nociva. A queridinha do momento, a lipo LAD já está espalhada por muitos perfis e em
muitas pessoas (principalmente em mulheres, sempre em mulheres). Não só ela, mas o silicone e a tradicional lipoaspiração não perderam terreno no país, muito pelo contrário. De acordo com a Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética, em 2018, o Brasil se tornou o “campeão” entre os países que mais realizam procedimentos estéticos. Foram mais de 1 milhão de cirurgias plásticas e quase 980 mil procedimentos estéticos sem cirurgias. Sim, o Brasil ultrapassou os Estados Unidos e se tornou o país que mais faz cirurgias plásticas. Em dezembro de 2020, Sthefane Matos, influenciadora baiana, com mais de oito milhões de seguidores no Instagram, fez um vídeo para o seu canal no YouTube contando das complicações que teve com a cirurgia feita no nariz. Ela sofria críticas sobre a aparência desde o começo de suas aparições na internet. Ao passar do tempo, tendo que lidar com as mensagens de ódio, Sthefane decidiu realizar sua primeira rinoplastia. Mas não foi o suficiente, ela ainda recebia mensagens constantes sobre como o nariz dela não era bonito. Rendida e, provavelmente exausta, a influenciadora se submeteu novamente a um procedimento no nariz que desencadeou uma série de voltas ao médico. A recente cirurgia não cicatrizou e a baiana se viu com a cartilagem do seu nariz para fora. Sthefane é uma mulher negra de 22 anos e um dos seus traços foi horrivelmente apontado na internet como feio. No vídeo, ela conta como se arrependeu do procedimento, porque, olhando a situação em que estava, seu nariz não tinha nenhum
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defeito. E, se tivesse visto algum relato de cirurgia mal sucedida antes, não teria feito o procedimento. Há jovens que fazem parte de uma geração de adolescentes e jovens adultos que estão se submetendo a procedimentos estéticos cada dia mais cedo. Dados da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), dizem que houve um aumento de 141% nos últimos dez anos de procedimentos entre jovens de 13 a 18 anos. Somos influenciadas todos os dias a mudar nosso corpo. Seja com uma dieta da moda, uma cirurgia plástica ou um procedimento estético. Nossa beleza é cobrada, julgo dizer, de forma moral. Estamos cada dia mais nos submetendo. Estamos cada dia mais gastando nosso dinheiro para tentarmos estar mais belas aos olhos alheios. Mas não é nossa culpa! Estamos perdidas em um caminho bilateral. Será que a gente faz o que faz porque genuinamente queremos ou estamos sendo influenciadas a querer? As redes sociais são cruéis com nossa aparência e continuarão sendo. Daqui a algum tempo, ou, de ano em ano, novos procedimentos e cirurgias plásticas serão inventadas. Vamos ver defeito onde não tem. Talvez a próxima seja para definir a perna, ou talvez o braço. E eu pergunto, onde vamos parar?
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DIETAS QUE APRISIONAM: UMA BATE-PAPO RÁPIDO COM A NUTRICIONISTA COMPORTAMENTAL TALITA FERRAZ Em uma busca rápida no Google podemos ver o que significa a palavra dieta "regime alimentar”, prescrito pelo médico a um doente ou a um convalescente. No dia a dia vemos tanto na mídia como nas conversas corriqueiras, um espalhamento de dietas da moda com o objetivo de colocar as pessoas e, principalmente, as mulheres no padrão de beleza. Uma “dica” aqui, outra ali faz com que nós, mulheres, sejamos eternamente seguidoras de dietas.
cérebro analisa como uma ameaça. Sendo assim, o organismo entra em “estado de alerta”, reduzindo o metabolismo como forma de proteção. E como essas dietas normalmente são insustentáveis a longo prazo, ao retomar o consumo excessivo de calorias, ocorre a conversão em gordura corporal. Isso pode sobrecarregar o organismo e afetar, principalmente, pessoas que possuem predisposição à hipertensão ou diabetes, por exemplo. Além disso, há evidências científicas sobre a influência de restrições e autoimposições de quem pratica dietas da moda - dietas restritivas - sobre a saúde mental. A sensação de “falhar” impacta diretamente na autoestima e causa grande insatisfação, podendo gerar quadros de ansiedade e até mesmo depressão.
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Colocamos toda nossa energia e frustrações na comida. Algo que é essencial para nossa sobrevivência é transformado em terror e culpa. Porém, atualmente, já estamos conseguindo enxergar esse problema e dialogar sobre ele. Por causa disso, conversamos com Talita Ferraz, Nutricionista Comportamental, que fala sobre os perigos e como podemos lidar com todas essas informações sobre dieta.
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Quais os danos que as dietas restritivas podem causar na saúde da mulher? Primeiramente, adotar modelos restritivos, ao longo do tempo, pode gerar o famoso “efeito sanfona”, que é caracterizado por perda e ganho de peso de forma constante. Ao seguir padrões restritivos, o Empoderar Você | Edição Especial
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Vivemos em um mundo totalmente publicizado e digital, onde as imagens criam padrões de beleza e, consequentemente de alimentação, como lidar com toda essa cultura da dieta nas redes sociais?
mesmo religiosas. E, por fim, demonstrar empatia e acolhimento durante todo o acompanhamento ou tratamento. Resumidamente, este seria o formato de atendimento ideal, isto é, humanizado.
Creio que o primeiro passo seja olhar para dentro, avaliar crenças e comportamentos que você vem cultivando ao longo do tempo. O que realmente te motiva e faz bem? E o que faz o contrário, gerando angústia e insatisfação? Feito isso, é importante filtrar ao máximo os gatilhos escondidos nas redes sociais. Não siga perfis que mostram/falam sobre padrões de beleza, piadas gordofóbicas ou vergonha em relação ao corpo. Também deixe de seguir os perfis que “vendem” um tratamento para atingir “corpo perfeito” através do medo. Observe o conteúdo de cada perfil que você segue atualmente e analise qual é o impacto em sua vida (positivo ou negativo?). E, por fim, vale ressaltar que é importante conversar de forma amigável com pessoas próximas, informando-as que você não gostaria de falar sobre peso, emagrecimento, etc.
Se você pudesse deixar uma mensagem para uma mulher que queira mudar o corpo por questões da sociedade, o que você diria?
Primeiramente, todo e qualquer profissional da área da saúde deveria ampliar a escuta. Estar atento ao que o paciente precisa dizer é essencial para entender o contexto em que o mesmo está inserido. É nosso dever cuidar de todos os pacientes de forma global, respeitando suas condições individuais, psicológicas, clínicas, culturais, socioeconômicas e até 34
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Fo to: Go od fon
Falando de gordofobia, uma das maiores reclamações de pessoas gordas é a gordofobia médica. Você, enquanto profissional de saúde, como acha que esse cenário pode mudar? Quais os cuidados que um profissional de saúde pode ter nessas situações?
A imposição de um padrão estético inalcançável e completamente incompatível com o corpo de nós, mulheres, tenta nos "calar". O fato de não sermos atendidas e/ou representadas somente reforça a insatisfação e a inadequação social. Como já dizia Naomi Wolf, autora do livro “O Mito da Beleza”, a beleza é uma criação patriarcal para a dominação das mulheres. Ou seja, o padrão está ligado a formas de controle e disciplina. Sendo assim, buscar um modelo estético só nos leva a focar todas
as nossas forças nesse sentido, como se isso fosse uma característica que preencherá nossa felicidade e/ou o que queremos ser. Portanto, independente do seu peso, da sua forma, das suas marcas, etc, você pode e DEVE ser o que quiser, viver como quiser e ir atrás de tudo o que almeja. A diversidade é linda e você faz parte dela! Então não deixe que te calem com a fome. Vamos juntas! Talita trabalha em suas redes sociais, principalmente instagram (@nutri.tati) e Telegram, sobre a desmistificação do padrão de beleza, mostrando que a alimentação não pode ser inimiga e que seguir dietas mirabolantes, trazem grandes perigos a saúde física e mental. Além da nutricionista, a psicóloga também pode ser uma grande aliada para te ajudar a lidar melhor consigo mesma.
Lembre-se, o autoconhecimento é um processo longo, todas nós temos nosso tempo!
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RAQUEL DUARTE
P OLÍTICA o representaçã 36
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REPRESENTAÇÃO FEMININA NA POLÍTICA: UMA CONVERSA COM A SECRETÁRIA EXECUTIVA DE POLÍTICAS PÚBLICAS PARA AS MULHERES, CRIS FURTADO Fotos: Arquivo pessoal
Até ano passado, vinhamos discutindo sobre a baixa representatividade feminina na política paraibana, principalmente na Câmara Municipal de João Pessoa. Ao todo, eram 4 mulheres vereadoras. Com as eleições de 2020, a esperança de que esse cenário mudaria foi ganhando força, mas, para nossa surpresa, apenas uma mulher se elegeu. Entre essas candidatas estava Cristiana Maria Furtado, mais conhecida como Cris, que por pouco não ocupou uma vaga. Cris é formada em Direito, Pós-graduada em Direito do Trabalho e Processual do Trabalho, já escreveu contos infantis e trabalhou por muitos anos em órgãos públicos. Devido sua vasta experiência profissional e por tudo que enfrentou e enfrenta enquanto mulher na sociedade, decidiu ocupar o meio político como forma de mudar a realidade das mulheres. Sem medo de se intitular uma mulher feminista, tem buscado usar todos seus conhecimentos para trazer mais informação a respeito da causa. Quem olha o seu perfil nas redes sociais, encontra diversos conteúdos sobre direito das mulheres e o que de fato é o feminismo. Empoderar Você | Edição Especial
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Hoje, Cris é Secretária Executiva de Políticas Públicas para as mulheres, e conversou com a Empoderar Você sobre os desafios de estar ocupando esse espaço, da importância da representação feminina na política e como pretende trabalhar para melhorar a vida das mulheres pessoenses. Confira a entrevista abaixo: 1 - O que faz uma Secretária Executiva de Políticas Públicas para as mulheres? R- Busca promover ações que visem ao empoderamento feminino, nas mais diversas áreas, a exemplo de trabalho, educação e saúde. Além disso, combate à violência doméstica e familiar contra a mulher. 2 - É a primeira vez que você se candidatou a vereadora de João Pessoa? R- Sim, é a primeira vez. 3 - Por que decidiu entrar no meio político? R- Por ideologia. Por acreditar firmemente que, com determinação, coragem e boa vontade política, é possível contribuir para a execução de políticas públicas que promovam importantes mudanças na nossa sociedade, diminuindo a gritante desigualdade social existente na nossa cidade. Somente por meio da política é possível promover as ações transformadoras necessárias à sociedade. Acredito que só poderemos discutir meritocracia quando existirem as mesmas oportunidades para todas as pessoas. 4 - O que você acha da representação das mulheres na política? R- Considero de suma importância a presença da mulher em todas as áreas, principalmente nos espaços políticos, a fim de conferir equilíbrio, uma vez que a mulher tem um olhar mais humanizado sobre as mais diversificadas questões, além de possuir mais legitimidade na luta pela implementação de políticas que busquem a equidade de gênero. 38
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5 - Como você enxerga o fato de apenas uma mulher ter sido eleita na Câmara de Vereadores de João Pessoa? R- Lamento profundamente e fico decepcionada, uma vez que a maioria do eleitorado, na nossa capital, é formado por mulheres. Tal resultado denota a presença, ainda muito forte, do machismo estrutural, levando muitas mulheres a votar em candidatos do sexo masculino. 6 - O que podemos fazer para mais mulheres possam ocupar esses espaços políticos? R- Acima de tudo acredito que precisamos lutar para que haja sororidade entre as mulheres. É necessário tentar desmistificar o entendimento de que nós, mulheres, estamos competindo umas com as outras. Ao contrário, devemos nos ajudar. Acredito que só mudando determinados paradigmas é que conseguiremos modificar essa realidade. 7 - Na BIO do seu instagram, você colocou que é feminista. Muitas mulheres, principalmente do meio político, preferem não ser vistas como mulheres feministas, e você segue outro caminho e expõe esse posicionamento. Para você, qual a importância de se afirmar uma mulher feminista? R- Creio que a mulher que não se diz feminista o faz por total desconhecimento do tema. A partir do momento em que defendemos a igualdade de direitos entre homens e mulheres, somos necessaria-
mente feministas. Você só está podendo me entrevistar em decorrência das conquistas oriundas dos movimentos feministas, e, no meu caso, jamais ocuparia o cargo de secretária executiva se não fosse a luta das notáveis mulheres feministas que nos antecederam. 8 - Você acredita no feminismo como um meio de transformar o mundo? R- Sem dúvida. Somente prosseguindo nessa luta é que conseguiremos colocar as mulheres nos espaços de poder. 9 - Quais os desafios que você acha que enfrentará como Secretária Executiva de Políticas Públicas para as mulheres de João Pessoa? R- O primeiro deles é mostrar para a sociedade a importância de uma secretaria voltada à realização de políticas públicas para as mulheres, deixando patente o poder transformador de ações simples em prol desse público, a exemplo da capacitação profissional de mulheres em situação de vulnerabilidade social. Outro importante desafio será a transformação da nossa secretaria em ordinária,
conferindo-lhe autonomia financeira, aumentando, assim, o seu poder de realização. 10 - Como você pretende usar esse espaço para ajudar as mulheres da nossa cidade? R- Atuando nos mais diversos eixos, a fim de que todas as mulheres se sintam contempladas por políticas públicas, principalmente as mais necessitadas. 11 - Você pretende se candidatar novamente nos próximos anos? Por quê? R- Sim. A partir do momento que consegui enxergar que posso contribuir, de forma efetiva, para melhorar a vida das pessoas, não posso me omitir. A omissão das pessoas de bem traz como grave consequência a ocupação dos espaços políticos por pessoas mal-intencionadas. 12 - Qual mensagem você deixa para as mulheres de João Pessoa? R- De que não podemos deixar de lutar pela construção de um mundo diverso e plural, em que o respeito e a tolerância imperem entre as relações humanas.
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GABS FERRERA
Foto: Unsplash
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OS DESAFIOS DA
MULHER EMPREENDEDORA
Houve um tempo onde a única opção para a mulher era ser sustentada e ensinada a costurar, a cuidar do lar, a ter boas maneiras e as virtudes morais de uma boa mãe e esposa. Isso era sinônimo de sucesso. Com o passar dos anos e com a predominância masculina na vida em geral, sobretudo no mercado de trabalho, as mulheres foram percebendo que precisavam silenciar além do limite para terem o mínimo de bens de consumo. O empreendedorismo feminino então, tornou-se um método de protesto para a sociedade machista – mulheres defeituosas, indomesticáveis, fora da regra. Ao longo dos anos, foram muitas das grandes corajosas e inspiradoras empreendedoras que sabiam que mereciam mais e foram em busca da sua independência. Em 12 de outubro de 1810 nascia Nísia Floresta Brasileira Augusta. A história de Nísia talvez não seja muito conhecida nos dias de hoje por empreendedores e empreendedoras que pode ser considerada uma das primeiras, senão a primeira mulher empreendedora do Brasil, atuando como educadora, escritora poetisa e feminista.
Foto: Nisia Floresta - Reprodução Internet
Começar algo do 0 sempre é assustador. Independentemente do que se vá construir, o fato de não existir um histórico na mente sobre nosso desempenho em fazer determinada coisa, é assustador. Nós, mulheres, somos desde cedo amedrontadas pelo fracasso: seja bela, recatada e do lar se quiser arrumar um marido, caso contrário, vai ficar sozinha.
Nísia foi uma mulher à frente do seu tempo, pois tinha uma proposta considerada inadequada, que era dar para as mulheres uma educação semelhante a oferecida para os homens daquela época. Tinha 28 anos quando colocou para funcionar o Colégio Augusto - nome dado em homenagem ao seu parceiro desaparecido – escola só para meninas, ensinando gramática, escrita e leitura do português, francês e italiano, ciências naturais e sociais, matemática, música e dança. O lugar funcionou por quase 20 anos, na cidade do Rio de Janeiro. Ela também acreditava que a educação era o ponto chave para que o desenvolvimento da sociedade pudesse acontecer com sucesso e desejava que todas as mulheres tivessem nas mais
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Reprodução Netflix
variadas esferas de trabalho, inclusive na área pública. Para ela, as mulheres também tinham o direito de ser juízas, advogadas, médicas e governantes do país.
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Por que [os homens] se interessam em nos separar das ciências a que temos tanto direito como eles, senão pelo temor de que partilhemos com eles, ou mesmo os excedamos na administração dos cargos públicos, que quase sempre tão vergonhosamente desempenham?
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Nísia Floresta.
Nísia também escreveu livros. Seu primeiro, “Direitos das mulheres e injustiça dos homens”, foi escrito aos 22 anos. No decorrer dos anos, até seu falecimento em 1885, escreveu outras 14 obras, hoje prestigiadas mundialmente, defendendo os direitos das mulheres, dos povos indígenas e dos escravos. Nísia também participou ativamente das campanhas abolicionistas e republicanas, defendendo o direito à educação científica para meninas, fundando a base de gerações de mulheres que hoje estão em escolas e universidades, aprendendo e ensinando.
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Na plataforma de streaming Netflix, temos um caso real muito inspirador de empreendedorismo feminino. A série “Vida e obra de Madame C. J. Walker” nos apresenta a história de uma mulher negra americana, que luta contra a pobreza, machismo, racismo, padrão estético e contra as adversidades da vida, para se tornar uma empresária de sucesso.
Luiza Trajano Foto: Flavio Santana Biofoto
Atualmente, um dos grandes exemplos da nossa geração é Luiza Helena Trajano, presidente da Magazine
CEO, porque eu que lidero o time, eu que mexo as peças de lugar, eu que contrato as pessoas, fico observando... a cabeça da um nó! É normal. Tem dia que dou uma choradinha no meu cantinho, dou uns surtinhos, mas depois volto linda e maravilhosa”. – Bianca Andrade para Forbes Brasil.
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Luiza, loja que teve início no interior de São Paulo com os tios da empresária. Ao assumir a loja na década de 1990, Luiza fez com que o negócio se expandisse nacionalmente, com mais de 700 lojas, em 16 estados. Os bens financeiros da empreendedora ultrapassam R$ 1 bilhão, incluindo-a em uma seleta lista de empreendedores de sucesso bilionário. Além de referência como empresária, Luiza destaca-se pelas políticas de inclusão e incentivo ao empreendedorismo feminino, empoderando outras mulheres.
Bianca Andrade para Forbes Brasil.
Bianca Andrade Foto: Adalto Jr para a Forbes
Falando sobre o empreendedorismo feminino oriundo da internet, tivemos o caso da Empresária e Influenciadora Bianca Andrade, CEO e Diretora Criativa à frente da marca de cosméticos Boca Rosa Beauty. Bia recentemente saiu numa matéria da Forbes Brasil, falando sobre seu faturamento de R$120 milhões em 2020, ano de pandemia, sem demitir ninguém da equipe.
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Eu sempre falo da gente ser multifacetada, de dar conta de tudo. Ainda mais agora que sou mãe, esposa, empresária, digital influencer, e
Alexya Salvador Foto: site Matilda.my
Alexya Salvador é mulher trans, mãe e empreendedora. Começou a empreender para complementar a renda familiar. Sem muito dinheiro para investir no negócio, pegou uma máquina de costura emprestada e aprendeu a costurar assistindo tutoriais no Youtube e se apaixonou pelo nicho. Como toda mulher trans, foi hostilizada apenas por querer viver sua vida e gerar seu próprio sustento, mas utiliza disso como combustível para continuar gerindo seu negócio.
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As pessoas fazem de tudo para deslegitimar a minha condição feminina e a minha maternidade. E como empreendedora acabo sendo tratada de forma diferente, como se o meu produto final não tivesse qualidade.
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Alexya Salvador.
No meio artístico, também temos incríveis cantoras e atrizes dominando o mercado e sendo atacadas por serem quem são. Posso citar como exemplo a Anitta, MC Carol, Ludmilla, Pabllo Vittar, Luísa Sonza, Glória Groove e Bruna Linzmeyer. O mesmo ocorre no meio político, filosófico e educacional. Qualquer mulher que se impõe contra o padrão, incomoda. Se você chegou até aqui, deve estar se perguntando: por qual razão Gabs resolveu trazer todas essas informações? O ano de 2020 para mim foi muito intenso. Fiz uma análise geral da minha vida e percebi que algumas coisas precisavam dar espaço para o novo, para algo que realmente estivesse de acordo com quem eu sou. Por isso, no final de novembro, decidi pedir demissão do meu emprego CLT e caí de cabeça num projeto meu: comecei a empreender. Vimos aqui os milhares de desafios enfrentados por nós, mulheres. Sejamos cis, 44
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trans ou tantas outras de nós, o mercado não gosta de nos ver crescendo, ganhando nossa independência. Tenho enfrentando muitos desafios na minha recente jornada: falta de apoio, noites sem dormir, problemas financeiros, discursos vazios de pessoas que supostamente apoiam o empreendimento feminino, mas me deram as costas. A saída para o mercado autônomo de pessoas que assim como eu, são mulheres pretas fora do padrão, é difícil e existe sim uma não aderência ao que temos a trazer para o mundo. Mas preciso te lembrar que foram muitas as batalhas vencidas e as perdas das nossas para esse mundo. Muitas se sacrificaram para nós estarmos aqui, para que eu pudesse ser alfabetizada e hoje, ser colunista da primeira Revista Digital com foco feminista de João Pessoa e isso não foi em vão. Se você está nessa batalha há algum tempo ou chegou agora e pensa em desistir, não faça isso. Sabe, ninguém, absolutamente ninguém vai fazer por você o que só você está disposta. Apenas nós sabemos a dificuldade que é lutar diariamente pela nossa independência, vivendo em um país machista, racista, cis-heteronormativo, homofóbico, que ocupa o 5º lugar como o país com mais casos de feminicídio. País que elegeu Jair Bolsonaro como presidente e exemplo da Família Tradicional Brasileira. Eles nos querem caladas, quietas, biologicamente padronizadas, domesticadas. Nos querem burras, para que a lavagem cerebral do amor romântico, do homem salvador, do príncipe encantado funcione. Nenhum sustento vale a nossa independência.