Machado Jr., Rubens. “Das vagas de experimentação desde o Tropicalismo: Cinema e Crítica” in: Ikeda, Marcelo; Lima, Dellani. (orgs.) Cinema de garagem 2014. Rio: Wset Multimídia, 2014, pp. 79-93, disponível em <http://issuu.com/alinepaiva68/docs/cgrj_catmiolofinal_web>, acesso em 2/8/2014. [isbn 978-85-63357-09-0]
DAS VAGAS DE EXPERIMENTAÇÃO DESDE O TROPICALISMO: CINEMA E CRÍTICA.
“É possível conceber os frutos de um Tropicalismo, plural do singular, sem donos, sem heróis nem anti-heróis? Sem vítimas nem monumentos de papel no concreto desarmado? Sem auras do onipresente KAPITAL?” 1
Há evidência suficiente de que o Tropicalismo levou mais longe o projeto moderno nas artes brasileiras, como se o completasse de uma postura crítica mais ampla e profundamente dialética, incorporando sem dogma um espectro de experiências sociais indefinidamente maior, ainda então indeterminado, talvez infinito. Esse espectro de experiências parecia envolver tudo, desde o que de mais nobre se almejasse, ainda que em chave distinta, derrisória ou irônica, até ao que de mais recalcado se percebesse ou de rebaixado se intuísse. Esta hipótese, a que várias almas vanguardistas estiveram desde lá sensíveis, incluindo Glauber Rocha, merece ser retomada com toda a vontade crítica e largueza espiritual possível; isto é, precisa ser tomada em sua própria medida. O moderno de vocação vanguardista se inicia no Brasil há quase um século nas artes plásticas, literatura, música e dança. Mas chegaria com mais de duas décadas de demora ao teatro. E ao cinema, só com mais duas décadas ainda, ali pela confluência dos anos 1950 e 1960. Talvez não tão diferente assim do resto do mundo, que registrava a agitação sísmica dos “novos cinemas” pela mesma época, em repercussões várias, sentidas como ecos amplificados do neorrealismo italiano, ressoantes desde o pós-guerra europeu, daquela barbárie uma espécie de epifenômeno, compartilhado em ondas concêntricas. O estrondo maior da Nouvelle Vague se beneficiou sem dúvida do convívio mais próximo da faina crítica, e uma vitalidade cultural de larga tradição crítica no centro da Europa, em que um difuso élan ensaístico aguça o debate mais reflexivo. No filme brasileiro a eclosão moderna, com toda a diferença que se observa entre paulistas, cariocas ou baianos, proporcionou mesmo uma “Revolução do Cinema Novo”, como proclamaria Glauber Rocha. E como, aliás, já aspirava o movimento em sua palavra de ordem inaugural “Uma câmera na mão e uma ideia na cabeça” — lema que bem ou mal se espraia por diferentes decênios, e vem se atualizando porventura até os dias de hoje. Por que não? Um pouco como no caso francês, em que não soa impróprio falar de novas vagas. Quase uma para cada nova geração de cineastas. Apenas que lá, em mais de meio século, já persistem uns remanescentes que não cessam de se espraiar ainda, regularmente, em sístoles e diástoles de uma longevidade delicadamente impávida, para além dos obituários autorais. Estabilidade algo precária, mas persistente, força inerte que mesmo alguma síncope maior como o Maio de 68 não parece extinguir, interromper, nem mesmo contrariar. A turbulência das vagas e contravagas, no nosso caso tropical obedece, porém, dinâmica diferente. Com o Golpe de 64 o Cinema Novo vai reordenar-se, preocupar-se e voltar-se a novos temas, cogitar novas formas antes de se ver desabrocharem as ainda nascituras; vai mesmo lançar-se em autocríticas. Vemos tomar proporções contraditórias de paradoxal riqueza uma segunda vaga cinemanovista, mais crispada de perturbações entre 64 e 68. Filmes como O DESAFIO (1965) e TERRA EM TRANSE (1967) podem ser vistos como revoltas para com o mundo atual mas também o 1
Britto, Jomard Muniz de. “Poesia Interativa — o que é isto?”, in: Cyntrão, S. H. A forma da festa. Brasília: Ed. UnB, 2000, p. 112.
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