"É Música o que Eu Tô Sentindo" - Entrevista com Hermeto Pascoal

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PÁGINA 16 FORTALEZA - CE, SEGUNDA-FEIRA - 21 DE DEZEMBRO DE 2015

HERMETO PASCOAL

“É MÚSICA O QUE EU TÔ SENTINDO” Cem por cento intuitivo, como gosta de se definir, o multi-instrumentista Hermeto Pascoal fala, em ritmo de samba, sobre passado, inspirações e amizades eternas

Músico autodidata de reconhecimento mundial, Hermeto Pascoal, hoje com 79 anos, diz que no momento em que nasceu recebeu um “impacto sonoro do mundo”

PERFIL

Jáder Santana TEXTOS E FOTOS jader.santana@opovo.com.br

H

ermeto fala em fluxo - não o interrompam! sobre passado, presente e futuro. Salta perguntas, retoma respostas, mistura ideias, conceitos e memórias. Vai de tópico em tópico pincelando pedaços de infância, narrando causos, lendas e assombrações que ajudam a defini-lo enquanto homem e artista. Colecionador de sons e ruídos, rende-se vez por outra ao silêncio, sabedor que é da sua importância. Em nossa entrevista, puxando pela memória, fez desfilar em suas respostas um rol de personagens - famosos e anônimos - que cruzaram sua história e o moldaram como músico: Elis Regina e Miles Davis dividem importância com a parteira que o trouxe ao mundo, a vizinha que narrava histórias fantásticas e o coronel que enrolava os passos sempre que o ouvia tocar.

OPOVO - Qual a sua lembrança mais antiga de som - de som, e não de música? Hermeto Pascoal- É o primeiro dia, quando eu nasci, no dia 22 de junho de 1936. Quando eu nasci, recebi um impacto sonoro do mundo, e foi o primeiro som que eu não esqueço. É esse som que me embala pra fazer tudo isso que eu faço na música. As pessoas perguntam “quantos anos você tem de música?”. Eu tenho 79 anos de música também. O dia em que eu nasci foi o dia em que eu comecei a fazer som na terra. OP- E a primeira lembrança de música? Hermeto - A primeira música foi justamente aí. Eu sou um músico autodidata. Eu hoje sei teoria, aprendi teoria com uns 40 anos, aprendi com a vida, com as deduções minhas, com a minha intuição. Eu sempre digo: eu não premedito nada, nada mesmo! Só se Deus clareasse pra eu premeditar minha morte, ou

que eu premeditasse o meu nascimento novamente, mas ninguém tem o direito de premeditar as coisas, quem premedita é quem não sabe. É por isso que te falo, tudo o que acontece comigo, vem comigo. Aqui não se aprende gosto, a ter bom gosto, se você não tiver um percepção. E a gente nasce com ela. Quando eu nasci eu trouxe a bagagem toda, na mente vem tudo. Aí me deram esse “carro branco” aqui pra eu andar na terra e eu tô andando com ele. Tá aguentando, ainda. Coitado, sofre muito esse carro. Porque a parada é grande, já com minhas seis mil e tantas músicas, e isso eu conto só as escritas. Então, tudo o que você perguntar “primeiro”, pra mim, dentro da criatividade das coisas, vem justamente do dia em que nasci. Esse é o dia forte da minha vida aqui, da minha passagem pela Terra. OP - Falando da infância, o senhor tocava sanfona com seu

Apelidado de “bruxo dos sons”, Hermeto Pascoal é considerado um dos maiores artistas em atividade na música mundial. Multi-instrumentista, recebeu esse apelido por ser capaz de extrair música de uma infinidade de objetos, como chaleiras, serrotes e latas. Nascido em Olho d´Água, no interior de Alagoas, começou a ganhar fama como pianista e flautista no início dos anos 1960, com O Quarteto Novo. Participou como arranjador, compositor ou instrumentista em mais de 35 discos, tendo sido elogiado por nomes como Miles Davis e Sivuca.

irmão nas ruas de Lagoa da Canoa (AL). Nessa idade, o senhor já experimentava com a música? Hermeto- Eu pequenininho já tocava, eu comecei a tocar nos bailes, devia ter meus sete anos, com meu irmão, o José Neto. Era uma dupla, o nome era “Os Galegos do Pascoal: Sinhô e Zé Neto” -lá me chamavam de Sinhô. E aí é o que te falo, tudo o que acontece desde o nascimento é isso aí. 79 anos de música, de tudo, de som, e eu acho que a música não é só pra quem toca um instrumento. Você pode dirigir um carro sendo jornalista, sendo advogado, sendo médico, sendo qualquer coisa. Então, um músico pode ser um músico mesmo sem pegar num instrumento. Tá lá na cabeça dele. Você vai num auditório pra ver o Hermeto e você não vê 2% da minha geração no auditório. Claro que a maioria já se foi, tudo bem. Quem se foi, foi. Foi o “carro”, mas tá a alma. Lá tá cheio de Tom Jobim, que não podia estar comigo nunca - a gente se encontrava no aeroporto, tá cheio de Sivuca, que a gente quase não se via; de Luiz Gonzaga, de Dominguinhos, de todo mundo. Deus deu uma coisa pra cada um de nós, que é o dom da gente. Às vezes a gente chega aqui e se esquece do dom, por conta da vaidade, que vai puxando a gente pra onde a gente não quer ir. A música, pra mim, sem exagero nenhum, tá em todos os contextos. OP - O senhor falou em dom. Como o senhor reconheceu que fazer música era o seu? Hermeto - Justamente quando eu era pequenininho, que eu tava tocando no meu fole, na minha sanfoninha, parapapá parapapá... O meu irmão Zé Neto, que era mais pacato do que eu, e eu tocando o oito baixos lá, quebrando

O dia em que eu nasci, foi o dia em que eu comecei a fazer som na Terra”

tudo. Daqui a pouco, o coronel - tinha de tudo naquela época -um coronel bravo, chegou e chamou meu pai: “ó, tira aquele menino dali porque eu tô topando, tô dando topada na minha mulher, porque o que ele tá tocando não dá pra dançar não”. Assim mesmo! E eu, pequenininho, escutava o cara dizer aquilo lá. Aí papai chegava, e pra eu não ficar com raiva dizia: “ó, Sinhô, pega o pandeiro”. E eu tocava pandeiro e meu irmão o oito baixos, e a gente se revezava, tocava um baile a noite toda, só nós dois. Aí o que aconteceu? Eu tava tocando um oito baixos, e já tinha umas ideias de fazer umas polirritmias, vinham ideias na minha cabeça que não eram coisa costumeira, entendeu? Em dois meses, a gente já tocava os instrumentos melhor que papai. Então é lindo isso aí. São coisas que cada vez renovam a gente. OP- Quando o senhor saiu de Alagoas pro Recife e começou a se aproximar do universo da rádio, encontrou resistência contra a música que fazia? Hermeto Não, porque pra lá pra onde eu morava eu tava

adiantado, mas pra lá pra onde eu fui era normal. E isso foi uma intuição minha, pra você ver como eu já pensava. Cheguei pro meu irmão e disse: “Zé, vamos pra Recife”. Eu tinha 14 e ele 15. “Se você não quiser ir, eu vou, e vou sozinho”. Era minha vontade de ir pra lá e aprender, né? Aí ele não queria, e eu perguntei se ele tava com medo de ir e levar uma pisinha quando voltasse. “E se eu não for?”. “Você vai levar duas, cara, vamos logo aí”. E aí fomos embora, chegamos à estação do ônibus e quando falamos que éramos de menor, tivemos problema. Mas aí eu botei a mão nos olhos e comecei a chorar, de mentira, como ator: “minha tia tá morrendo, meu Deus do céu”. Aí o cara aceitou a gente e disse “olha, vocês são galegos, vocês sabem que o pessoal vê vocês de longe, então, na estrada, quando eu disser pra vocês ficarem lá atrás, vocês vão e se agacham o máximo que puderem e ficam embaixo do banco, por causa da polícia da estrada”. A gente de menor, sem documento nem nada, e sem nenhuma carta dos pais! Foi eu, cara! OP- O senhor voltou a tocar com seu pai? Hermeto Cheguei até a botar meu pai pra tocar no meu grupo. Eu fiz um show na TV Bandeirantes, levei ele pra Argentina pra tocar comigo também. Dei muita alegria pra ele. Na Argentina ele era um sucesso a hora dele no show. Eu deixava ele tocando bem do jeito dele, e ele tocava e o povo cantava junto com ele, cantava que parecia que tava ensaiado, e ele todo contente. Porque o papai era assim, eu já combinava com ele de botar as mãos no ombro dele quando fosse pra ele parar. E ele dizia: “me avise, ou eu não paro nunca mais”. E aí, quando ele faleceu eu fui pra Ar-


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