5
Cap.
O Clima
©
Lidel –
edições técnicas
Introdução Desde que é possível medir a temperatura, o que acontece desde 1880, pode dizer-se que a primeira metade de 2010 foi o período mais quente de sempre em todo o mundo. Na Alemanha a temperatura média durante este período foi de 20,2ºC, o que corresponde a um aumento de 3,3ºC relativamente à média climatológica que era de 16,9ºC. As consequências foram bem visíveis. Assim, entre muitos outros casos, várias centrais eléctricas foram obrigadas a reduzir a produção de energia, uma vez que com a subida das temperaturas das águas dos rios, não conseguiam garantir de forma eficaz o funcionamento dos sistemas de arrefecimento. Na Rússia, dezenas de pessoas morreram vítimas dos incêndios que devastaram centenas de milhares de hectares de floresta. Moscovo esteve dias seguidos envolta numa espessa nuvem de fumo, obrigando os seus habitantes a utilizar máscaras. A capital russa registou em 29 de Julho de 2010 37,8ºC, um recorde absoluto. Noutros pontos do país as temperaturas terão atingindo, e até ultrapassado, os 40ºC. No Paquistão, as temperaturas atingiram uns impensáveis 53,5ºC em Maio de 2010, o valor mais alto de sempre na Ásia. Parte do país ficou alagada com cheias gigantescas, afectando milhões de pessoas e levando a vida a milhares delas. Em 12 de Janeiro, o Haiti sofreu um dos mais devastadores sismos da história, afectando milhões de pessoas e causando a morte a um número que poderá rondar as 200.000 pessoas. O país, já de si um dos mais pobres do mundo, ficou devastado. No oceano Árctico, o aquecimento global tem provocado o degelo de áreas imensas, aumentando o nível das águas do mar. Uma catástrofe natural só por si não é indiciadora de que estejam a ocorrer alterações climáticas. No entanto, se atendermos ao número de acontecimentos deste tipo que se tem verificado, assim como à sua frequência, teremos de concluir que de facto o clima está a mudar, sendo que os seus efeitos são sentidos à escala planetária. O número de fenómenos meteorológicos extremos, como são os casos de tempestades e cheias, triplicaram desde 1980 e a tendência mantém-se. 41
Os Grandes Desafios da Indústria Seguradora
Assim a ocorrência de tornados em zonas do planeta até agora poupadas a este tipo de fenómeno atmosférico, mais tempestades tropicais, furacões, chuvas torrenciais, longos períodos de seca e sismos têm-se registado com uma frequência e capacidade de destruição a que não estávamos habituados. Também em terra, os gelos sazonais têm diminuído e os glaciares estão a desaparecer rapidamente, assim como as neves perpétuas. A consequência directa desta situação é a forte diminuição da água doce disponível para utilização agrícola e consumo humano. As emissões para a atmosfera dos gases provenientes dos combustíveis fósseis também não param de aumentar, não só porque os principais países emissores têm demonstrado enormes dificuldades em se entenderem, sendo que quando chegam a acordo, produzem apenas documentos contendo princípios gerais e intenções excelentes que dificilmente serão operacionalizadas. Além disso, temos grandes economias emergentes, com destaque para a China e Índia, cujo crescimento é em grande parte sustentado pelo aumento do consumo de petróleo, situação que certamente não vai ser alterada num futuro próximo.
As alterações climáticas e a indústria seguradora As alterações climáticas representam um dos maiores riscos de longo prazo que as companhias de seguros e resseguros vão enfrentar, tornando a indústria seguradora um dos sectores que mais impacto sofrerá com esta situação, já que é o que de uma forma mais directa irá lidar com os respectivos prejuízos. As consequências nos riscos que os seguradores pretendem cobrir serão profundas. Ainda num passado recente, o número de furacões oriundos do oceano Atlântico foram responsáveis por perdas recorde nos EUA no que respeita aos seguros patrimoniais. Assim, para além dos danos pessoais, inúmeros sectores de actividade vão ser grandemente afectados, sendo que os custos com sinistros vão aumentar, principalmente por situações decorrentes de danos patrimoniais, perdas de exploração, perdas de colheitas e forte diminuição de stocks, entre outros. Adicionalmente, incêndios florestais, cheias, sismos e outras catástrofes que têm ocorrido no mundo têm tido um importante impacto nos resultados das companhias de seguros. Estima-se que aproximadamente um terço dos sinistros a nível mundial tem origem em situações relacionadas com a ocorrência de desastres naturais. Nesta sequência, o aumento das perdas daí decorrente irá aumentar o custo do capital, aumentando assim a instabilidade da indústria seguradora e diminuindo os seus resultados. As companhias vão enfrentar novos tipos de sinistros e terão obrigatoriamente de desenvolver novos produtos e reavaliar outros já existentes, por forma a adaptá-los à nova realidade. 42
O Clima
Para melhor ilustrar esta situação, e segundo o Geveva Report N.º 2, a nível mundial as alterações climáticas poderão vir a ser as seguintes:
África O continente africano é bastante vulnerável às alterações climáticas, situação que se agrava com a falta de capacidade de adaptação das sociedades afectadas pelos novos fenómenos. O Sahel e a África Austral serão afectados por períodos de seca cada vez mais longos, pelo que se prevê que em 2020 as áreas dos terrenos destinados à agricultura sofrerão uma forte redução. Entretanto, as zonas costeiras serão alvo de um cada vez maior número de cheias, provocando um aumento da erosão das costas. As águas serão mais salobras devido ao aumento do nível do mar.
Ásia
©
Lidel –
edições técnicas
Na Ásia, as alterações climáticas estão principalmente associadas a várias pressões socioeconómicas ao nível dos recursos naturais, dada a crescente urbanização, industrialização e crescimento económico. Tal como em África, prevê-se um agravamento das inundações nas regiões costeiras, tendo como factor agravante a elevada densidade populacional dessas áreas. A quantidade de água doce disponível poderá sofrer uma redução. Também a duração das secas irá aumentar em diversas regiões do continente asiático. Este cenário poderá também contribuir para problemas ao nível da alimentação das populações, dadas as repercussões que poderão ocorrer nas colheitas. Um exemplo concreto desta situação poderá ser encontrado na Rússia que, afectada por uma onda de calor de que não há memória no Verão de 2010, registou centenas de incêndios, muitos deles destruindo gigantescas plantações de cereais. Como a Rússia é um dos maiores exportadores mundiais de cereais, a redução súbita da sua produção fez com que as autoridades russas suspendessem as exportações destes bens até ao final de 2010, garantindo assim o abastecimento aos russos. A consequência seguinte foi o aumento do preço dos cereais a nível mundial, aumento esse que acaba por ser sentido numa parte importante dos alimentos em que estes produtos são utilizados, com destaque para o pão.
Austrália/Nova Zelândia O panorama para esta zona do globo não é mais animador. Assim, prevê-se o aumento da frequência de toda a espécie de fenómenos extremos. Inundações, tempestades, ondas de calor, secas e inundações na faixa costeira. Poderão também ocorrer alguns problemas no que respeita ao abastecimento de água potável. 43
Os Grandes Desafios da Indústria Seguradora
Europa Os países do sul da Europa terão menos precipitação, mais secas e ondas de calor que poderão aumentar o número de incêndios. No que respeita à Europa do Norte, o cenário é o oposto. Prevê-se mais precipitação e mais cheias. No entanto, ondas de calor e cheias de Verão estão igualmente previstas. A intensidade do vento e das tempestades de Inverno irão aumentar, e a subida do nível do mar poderá também provocar inundações costeiras. No norte do Mediterrâneo, assistiremos a Invernos mais suaves e Verões mais quentes, o que até poderá dinamizar o sector turístico. Também a agricultura poderá sair beneficiada por estas alterações climáticas, uma vez que se prevêem longos períodos de condições meteorológicas caracterizados por temperaturas e condições adequadas ao desenvolvimento da vegetação.
América Latina A América latina verá os índices de precipitação diminuir, assim como a dimensão dos glaciares. A consequência mais directa desta situação será sentida ao nível da redução da água disponível para o abastecimento das populações, agricultura e produção de energia. No que respeita ao fornecimento alimentar, as colheitas irão diminuir, assim como a indústria pecuária. Também na América latina, a subida da água do mar irá traduzir-se em inundações nas áreas costeiras. Nas Caraíbas, prevê-se um aumento da intensidade dos ciclones tropicais, situação que se poderá afigurar como uma séria ameaça para os restantes países da região.
América do Norte As zonas costeiras da América do Norte serão alvo de tempestades tropicais mais fortes. As neves perpétuas das montanhas, principalmente no sudoeste, irão diminuir assim como a água doce disponível. As cheias irão aumentar e os regatos provenientes da neve derretida durante o Verão irão diminuir. As ondas de calor serão cada vez mais frequentes e prolongadas. Os períodos de seca serão mais longos, principalmente no sudoeste, e, em consequência, o número de incêndios deverá aumentar.
Ilhas Estado As Ilhas Estado de menor dimensão irão enfrentar grandes desafios no decorrer do século XXI, uma vez que serão afectadas por condições climáticas adversas 44
O Clima
que poderão colocar em causa a sua própria existência física. As maiores ameaças serão as tempestades e o aumento do nível do mar que terá repercussões negativas ao nível da qualidade e da quantidade de água potável necessária para abastecer as populações, assim como para garantir a continuidade da actividade agrícola.
O Impacto das Alterações Climáticas na Indústria Seguradora Para além do impacto directo provocado pelas alterações climáticas, vão provavelmente aumentar os sinistros de responsabilidade civil. Voltando aos EUA, tem-se registado um crescente número de casos nas barras dos tribunais, em que são processadas empresas responsáveis por emissões elevadas de dióxido de carbono e outros gases, contribuindo assim para o adensar do efeito de estufa.
Efeitos das alterações climáticas na frequência e intensidade dos desastres naturais Efectuando uma análise de longo prazo relativamente às catástrofes naturais associadas às alterações climáticas, conclui-se que estas se têm traduzido em perdas económicas importantes. No entanto, e apesar das explicações para os prejuízos financeiros assentarem quase exclusivamente nas alterações climáticas, concluiu-se que também os factores socioeconómicos têm sido determinantes para estes resultados com especial ênfase para os sociais. Exemplos desta situação podem ser: crescimento económico; ■■ Uma economia altamente integrada; ■■ Aumento da densidade populacional, especialmente em áreas de risco; ■■ Aumento do valor dos bens das pessoas; ■■ Maior penetração dos seguros.
©
Lidel –
edições técnicas
■■ O
O número médio de catástrofes naturais relacionadas com as alterações climáticas registadas a nível mundial aumentou significativamente, passando de cerca de 1,5 em 1950 para 3,7 nos últimos 10 anos. Com este aumento, cresceram substancialmente as perdas dos seguradores com impactos na economia mundial. As regiões do planeta que mais sofreram em 2008 com os desastres naturais foram a América do Norte e a Ásia, a primeira em perdas económicas (incluindo bens seguros), e a segunda em número das vítimas. No caso dos EUA, conforme se pode verificar na Tabela 5.1, prevê-se que se a situação actual não sofrer alterações, os custos consequentes de catástrofes naturais poderão ser os seguintes: 45
Os Grandes Desafios da Indústria Seguradora
Tabela 5.1 - P revisões do impacto das alterações climáticas entre 2025 e 2100 Milhões de dólares
Origem dos danos Furacões Patrimoniais Energéticos Água
2025
2050
10 34 28 200
2075
43 80 47 336
2100
142 173 82 565
422 360 141 950
Fonte: The cost of climate change – NRDC (Natural Resources Defense Council).
Na Europa, as tempestades e as inundações foram os fenómenos climáticos mais frequentes, tendo representado cerca de 65% de todas os prejuízos relacionados com catástrofes naturais. Na Tabela 5.2, podemos ver os desastres naturais que mais impacto financeiro causaram na Europa. Tabela 5.2 - C atástrofes naturais com maiores custos para a indústria seguradora na Europa entre 1980 e 2009 Milhões de dólares
Ano
Evento
Países afectados
Mortes
Custos com Sinistros
110
5.900
1999
Tempestade Lothar
Áustria, Bélgica, França, Alemanha, Suíça
2007
Tempestade Kirill
Áustria, Bélgica, Bielorrússia, República Checa, Dinamarca, França, Alemanha, Holanda, Polónia, Eslovénia, Suíça e Ucrânia
49
4.500
1990
Tempestade Darla
Bélgica, Dinamarca, Finlândia, França, Alemanha, Irlanda, Luxemburgo, Holanda, Noruega, Polónia, Suécia e Reino Unido
94
4.400
2002
Cheias e tempestades
Áustria, República Checa, Alemanha, Hungria, Itália, Moldávia, Eslováquia e Suíça
39
3.500
1987
Tempestade 87J
França, Noruega, Espanha e Reino Unido
18
2.750
1999
Tempestade Martin
França, Espanha e Suíça
30
2.500
1999
Tempestade Anatol
Dinamarca, Alemanha, Letónia, Lituânia, Polónia, Rússia, Suécia e Reino Unido
20
2.400
2007
Cheias e tempestades
Reino Unido
4
2.400
2007
Cheias
Reino Unido
1
2.200
2005
Tempestade Erwin
Dinamarca, Estónia, Finlândia, Alemanha, Irlanda, Letónia, Lituânia, Noruega, Rússia, Suécia e Reino Unido
18
2.000
383
32.550
Total Fonte: Valores de Outubro de 2009. Munich Re, Geo Risks Research, NatCatService.
46
O Clima
Estima-se, por exemplo, que a agricultura europeia sofreu prejuízos de 10 biliões de Euros no ano de 2003 devido ao efeito combinado do calor e incêndios. Entre 1980 e 2008, 86% de todas as catástrofes naturais registadas no mundo foram causadas por eventos meteorológicos, como vendavais, granizo, tempestades severas, inundações e temperaturas extremas. Na Europa, os números são ainda mais surpreendentes. No mesmo período, 90% de todas as catástrofes naturais relacionaram-se com fenómenos climáticos extremos. Entretanto, fenómenos geofísicos como por exemplo, sismos, erupções vulcânicas e tsunamis, ao contrário dos outros fenómenos já aqui referidos, não viram aumentar a sua frequência.
Catástrofes Naturais no Mundo entre 1980 e 2008 Durante 28 anos registou-se um número de desastres naturais verdadeiramente impressionante, provando o aumento da sua frequência. Na Figura 5.1 ficamos com a informação relativa ao número de fenómenos ocorridos em todo o mundo, no período compreendido entre os anos de 1980 e 2008. A partir dos dados apresentados, concluímos que os principais desastres naturais registados foram de origem meteorológica. No outro extremo ficaram as ocorrências relativas a incêndios florestais, secas e ondas de calor ou frio. Figura 5.1 - Catástrofes naturais no mundo entre 1980 e 2008 Número de eventos 18.000 13%
14%
35%
38%
Origem geofísica (sismos, erupções vulcânicas e tsunamis) – 14%
Origem hidrológica (cheias) – 35% Origens diversas (incêndios florestais, temperaturas extremas e secas) – 13% Fonte: CEA – Tackling Climate Change – The vital contribution of insurers.
©
Lidel –
edições técnicas
Origem meteorológica (tempestades) – 38%
47
Os Grandes Desafios da Indústria Seguradora
Na Figura 5.2 podemos ver a forma como ficou distribuída o número de vítimas mortais por tipo de acontecimento durante o mesmo período, sendo que foram os fenómenos de origem geofísica que mais contribuíram para o elevado número de fatalidades. Destes fenómenos, os mais mortíferos foram os sismos e tsunamis, causando centenas de milhares de mortos, principalmente devido ao facto de a sua maioria ter ocorrido em zonas pobres do mundo, em que a debilidade das construções e a quase inexistência de serviços públicos de saúde contribuíram de forma decisiva para estes números verdadeiramente trágicos.
Figura 5.2 - Número de mortes 1.700.000
24% 39% 14% 23%
Origem geofísica (sismos, erupções vulcânicas e tsunamis) – 39% Origem meteorológica (tempestades) – 23% Origem hidrológica (cheias) – 14% Origens diversas (incêndios florestais, temperaturas extremas e secas) – 24% Fonte: CEA – Tackling Climate Change – The vital contribution of insurers.
A Figura 5.3 mostra-nos os custos totais consequentes dos diversos tipos de catástrofes naturais. Os fenómenos de origem meteorológica foram os que mais prejuízos causaram em todo o mundo.
48
O Clima
Figura 5.3 - Custos totais 1.768 biliões de euros
12%
22%
24%
42%
Origem geofísica (sismos, erupções vulcânicas e tsunamis) – 22% Origem meteorológica (tempestades) – 42% Origem hidrológica (cheias) – 24% Origens diversas (incêndios florestais, temperaturas extremas e secas) – 12% Fonte: CEA – Tackling Climate Change – The vital contribution of insurers.
©
Lidel –
edições técnicas
Por último, a Figura 5.4 revela-nos os custos suportados pelas companhias de seguros por tipos de catástrofes naturais. Como se pode verificar, a distribuição dos valores correspondentes à totalidade dos prejuízos e aos custos suportados pelos seguradores com os sinistros é bastante diferente. Uma das ilações que se pode tirar é o facto de os sinistros originados por fenómenos que não os de origem meteorológica não estarem cobertos por seguros. Isto pode acontecer por duas razões. Ou os seguros pura e simplesmente não existiam ou, tendo sido subscritos, não foram contratadas as coberturas indicadas para o efeito.
49
Os Grandes Desafios da Indústria Seguradora
Figura 5.4 - Valores indemnizados pelos seguradores – 468 biliões de euros
8%
5% 7%
80%
Origem geofísica (sismos, erupções vulcânicas e tsunamis) – 7% Origem meteorológica (tempestades) – 80% Origem hidrológica (cheias) – 8% Origens diversas (incêndios florestais, temperaturas extremas e secas) – 5% Fonte: CEA – Tackling Climate Change – The vital contribution of insurers.
Catástrofes Naturais na Europa entre 1980 e 2008 Na Europa, embora o número de catástrofes naturais seja muito menor quando comparado com o que acontece no resto do mundo, a forma como estes se encontram distribuídos não é muito diferente. Assim, foram também os fenómenos de origem meteorológica e hidrológica que registaram um maior número de ocorrências. Quanto às outras origens, a Europa registou um menor número de fenómenos geofísicos do que aconteceu no resto do planeta. Na Figura 5.5, podemos ver o número de eventos ocorridos no período compreendido entre os anos de 1980 e 2008, distribuído pelo tipo de fenómenos.
50