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Quero dar aos Homens o que de melhor há em mim
Eu, José Pedro Coelho Neto, nascido a 31 de agosto de 2002, um mero viajante na terra, sei quem fui, sem sombra de dúvidas, ou apenas tenho uma imagem de quem fui numa época distante. Afinal de contas, sempre fui uma chegada inesperada na minha família, os braços da minha mãe ansiavam uma menina, talvez por intuição ou apenas por uma ideia que a medicina e os médicos lhe tentaram transmitir. Dadas as circunstâncias e as
certezas que os especialistas apresentavam no nascimento de uma menina, a família preparou-se. Um quarto cor-de-rosa, bonecas de trapos e cortinas de princesa, mas, como tudo na vida, a verdade não tardou a chegar e a admiração denotou-se no momento em que afinal não eram precisas princesas, mas sim carros de corridas, não eram necessárias bonecas, apenas personagens fictícias e super-homens.
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Surgiu um novo conceito, mas nem por momento algum menos desejado, claro está que a caminhada foi grande e as dificuldades apareceram, uma mãe sofre bastante, afinal, tinha nos seus braços um bebé asmático, uma dificuldade sem dúvida, uma preocupação crescente e perfurante. Uma inquietação que logicamente não passa só pelos braços de uma mãe, passa por todos que rodeiam
a criança, amigos, familiares, médicos e até meros conhecidos. Claro que a rotina transforma os seres e com a rotina, o desassossego dissipa-se e transforma-se numa mera ideia vaga que, às vezes, volta à mente.
Daí em diante de pouco me lembro, tenho a vaga ideia de nas quentes férias de verão dedicar-me a atividades de campos de férias. Era uma criança irrequieta, acho que a tranquilidade nunca chegou a passar por mim. Aquela pequena aldeia onde cresci, Turquel, aquela que me acompanhou, durante a minha infância viume a dedicar-me, exclusivamente, a treinos e jogos de hóquei, época de poucas preocupações, no fundo, desfrutava realmente da vida e de algumas festas de anos, coisas de miúdos.
Fui obrigado a descobrir muito cedo que a vida magoa, que a morte dói, não só em quem parte, mas principalmente em quem fica. Nenhuma criança merece receber a notícia do falecimento do seu pai tão novo e, ainda, com tantos sonhos por realizar. Tenho uma ideia daquele a que posso chamar o pior ano da minha vida. Se não o tiver sido espero apenas que nada me volte a doer tanto como aquela dor. Momento de reviravolta, de interrogações e de agonias, mas a vida continua, e às vezes, aquele que parece o fim, torna-se o começo de uma nova era. A dor dissipa-se, nunca desaparece, certamente, mas transforma-se num lugar especial, na parte mais profunda do meu ser.
Fui forçado a renascer, a mudar a minha vida e a estudar no Colégio Militar em Lisboa. Mentiria se dissesse que foi fácil desapegar-me do conforto materno, abdicar das tardes com os meus avós, habituar-me a uma realidade diferente. No meio deste novo turbilhão de emoções tinha o meu irmão, o ser que sempre me foi querido, mas que, estando na mesma instituição que eu, raramente se cruzava comigo dada a diferença de idades.
Quatro anos se passaram repletos de problemas supérfluos e de uma vivência em comunidade com 90 pessoas, uma família de coração. Contudo, a vida trocou-me as voltas no final do meu oitavo ano. Fui proibido de renovar a matricula por várias ocorrências ao longo do ano, alguns episódios que me ajudaram a crescer. Por consenso familiar fui parar a um colégio em Pedroso, mais
uma volta de cento e oitenta graus: pessoas novas, uma realidade oposta a que me adaptei. Sempre fui um ser que facilmente se integra seja no contexto que for. O internato foi bom, trouxe-me vários amigos que infelizmente estiveram apenas de passagem. Só o secundário me trouxe aqueles que considero os meus amigos para a vida, aqueles que põem as mãos no fogo por mim e que me apoiam em todas as minhas iniciativas.
Atualmente, considero a minha vida monótona, mas no meio da calmaria deparo-me com momentos de felicidade que me motivam a investir em alguns projetos. Encontro-me sem rumo, não sei para que curso ir, que universidade escolher, embora saiba o mais importante - quero voltar para Lisboa, é a minha cidade favorita, sempre foi, é o centro do mundo, o lugar a onde pertenço e a minha segunda casa. No meio destas questões, sei que me encontro numa idade demasiado bonita e que tem de ser vivida com alegria e diversão independentemente de tudo.
Do meu futuro, apenas tenho uma visão, é incerto e simultaneamente bem planeado. Pretendo dar continuidade aos projetos da minha família e criar algo que seja fruto de esforço e dedicação minha. Posteriormente, sonho com uma carreira política, de certa forma quero fazer acontecer, abandonar o estado de dormência em que a população portuguesa se encontra e mostrar que reclamar não ajuda uma sociedade, mas sim que só nós temos o poder de a mudar. A caridade sempre mereceu a minha atenção e pretendo nunca a deixar para trás, mas não serão os meus últimos passos, quero ser mais do que planeio, quero dar à raça humana o que de melhor há em mim e ajudar as gerações futuras a irem mais longe. Independentemente das barreiras, o mote condutor da minha vida sempre será “Tenho em mim todos os sonhos do mundo”.
José Neto