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Rita Basílio
MANUEL ANTÓNIO PINA uma pedagogia do literário
D O C U M E N TA
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apoio à investigação FCT — Fundação para a Ciência e Tecnologia
© SISTEMA SOLAR (DOCUMENTA), 2017 RUA PASSOS MANUEL, 67 B, 1150-258 LISBOA © RITA BASÍLIO, 2017 1.ª EDIÇÃO, MARÇO 2017 ISBN 978-989-8834-29-4 NA CAPA: MANUEL ANTÓNIO PINA, FOTOGRAFIA DE LUCÍLIA MONTEIRO REVISÃO: CRISTINA GUERRA DEPÓSITO LEGAL 424306/17 ESTE LIVRO FOI IMPRESSO NA ACDPRINT RUA MARQUESA DE ALORNA, 12-A 2620-271 RAMADA
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ÍNDICE
Não é um prefácio (nem algo parecido, da mesma substância) Sousa Dias . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
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MANUEL ANTÓNIO PINA — UMA PEDAGOGIA DO LITERÁRIO
Nota Prévia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Prólogo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
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Uma Entrada pelo Lado de Fora — Aprendizagens gerais O Forasteiro. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Tardio ou Contemporâneo? . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . A Revolução. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . A Citação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
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Uma História que Começa pelo Fim — Quatro tópicos inaugurais Nota Prévia: de volta ao ponto de partida . . . . . . . . . . . . . . . As Palavras . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . O Poema . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . A Viagem . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . A Escrita . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
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As Paixões da Literatura — Exercícios de resistência A Alegoria . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . A Máquina Literária . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Circulações e resistências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . O Humor Ensina a Cair . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
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Índice
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Uma Saída pelo Lado de Dentro O Lugar da Testemunha . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . «Ler e Escrever» — uma autopsicografia . . . . . . . . . . . . . . . . A cadeira vazia de Jacques Réda . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . A génese do poema ou a leitura activa . . . . . . . . . . . . . . . . . A solicitação e a escrita passiva . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . A assinatura: um bilhete de alteridade . . . . . . . . . . . . . . . . Um Pacto com o Incalculável . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Por Último, um Princípio. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
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Epílogo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Referências bibliográficas. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
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• Índice
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NÃO É UM PREFÁCIO (nem algo parecido, da mesma substância)
Manuel António Pina (MAP) falou-me com entusiasmo deste ensaio. Ou, antes, do que dele conheceu, umas quantas dezenas de páginas ainda provisórias enviadas, para avaliação, pela autora. MAP, que fazia questão de não me deixar esquecer (com que orgulho e emoção o afirmo) o projecto que eu lhe anunciara de um livro sobre a sua poesia, quis que eu visse também essas páginas. Mais de uma vez me disse: «tens de lê-las, parecem-me excelentes, e citam até Deleuze!, podem ser-te úteis para o teu livro sobre mim». O entusiasmo dele era tão genuíno que não pude senão pedir-lhe que me passasse esses textos mas impressos, e não reenviados conforme os recebera, como ficheiros informáticos. Só que, súbita, rápida, absurda, sobreveio por esses dias a doença que nos roubou a todos o grande poeta e, a mim, o insubstituível amigo, o inconsanguíneo irmão. E nunca cheguei a obter dele aquelas páginas. Para ser sincero, nunca mais me lembrei delas. Até há pouco tempo, até a autora me ter procurado, talvez por me creditar especiais competências como escritor íntimo de MAP e da sua poesia, solicitando-me um parecer mas agora sobre o conjunto do seu ensaio entretanto concluído. Então, com o texto nas mãos, compreendi. Compreendi toda a expectativa criada no poeta pelas escassas páginas, nem sequer definitivas, que conheceu. E compreendi a insistência com que ele me queria cúmplice dessa leitura e dessa expectativa. Porque — há que sublinhá-lo sem reservas, aquém ou além da eventual recepção crítica e académica — este não é apenas um texto entre outros publicados e por publicar, pretéritos e futuros, sobre a obra poética de MAP. O ensaio de Rita Basílio é o livro que faltava, que era urgente escrever, sobre essa obra. Um livro que exime a poesia de MAP — Prefácio
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uma das mais excepcionais da literatura contemporânea — à problemática habitual dos estudos literários para destacá-la na singularidade do plano paradoxal, a que a autora chama de «pedagogia do literário», que é de ponta a ponta o seu, exclusivo. Em termos sumários: no plano de uma criação poética assumidamente «tardia» indiscernível de um pensamento sobre a (im)possibilidade da poesia tarde vinda e portanto sobre a sua própria (im)possibilidade — impossibilidade de dizer, porque já tudo foi dito, «já temos palavras de mais, sentimentos de mais», mas também impossibilidade de não dizer o indizível que nos interpela e que só a poesia pode ainda «desesperadamente» dizer, ou deixar falar, «sob tanta literatura». «Já não é possível dizer mais nada / mas também não é possível ficar calado»: estes quase primeiros versos do primeiro livro de poemas de MAP (significativamente chamado Ainda Não É o Fim Nem o Princípio do Mundo Calma É Apenas Um Pouco Tarde) traçam, de uma vez por todas, o «verdadeiro rosto», como também aí se diz, desta poesia. O mérito de Rita Basílio consiste antes de mais nisto: em instalar-se neste paradoxo, nesta aporia fundadora do universo poético de MAP, em instalar-se pois no plano intrinsecamente auto-reflexivo desse universo, para nele rastrear uma pedagogia da palavra poética na sua condição tardoliterária, uma pedagogia do sentido do literário nessa condição. Com um rigor analítico expressivo da paixão pelo objecto de análise, Rita Basílio restitui-nos em toda a sua complexidade a grandeza desta poesia ao mesmo tempo tão simples e sempre tão bela, desta voz «pós-pessoana» (Eduardo Lourenço) exterior às correntes e genealogias poéticas modernas. O presente ensaio, longe de se arrogar a última palavra sobre a poesia de MAP, explicitamente pretende suscitar outras percepções, outras leituras teóricas dessa obra. Mas ele perfila-se desde já como a exigente fasquia com que tais leituras terão doravante de medir-se. Rita Basílio escreveu deveras o livro que eu sonhara escrever sobre a poesia de MAP, mas fê-lo com uma excelência que, apraz-me reconhecer, me seria sempre inacessível. Sousa Dias
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• Prefácio
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MANUEL ANTÓNIO PINA uma pedagogia do literário
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NOTA PRÉVIA
O nome do autor será abreviado para a sigla MAP. A citação dos poemas far-se-á recorrendo à sigla TP, que remete para a edição de 2012, Todas as Palavras — poesia reunida, indicada na bibliografia final, seguida do número de página respeitante a cada poema. Para a menção específica de alguns dos livros do autor usar-se-á igualmente um conjunto de siglas que abreviam os respectivos títulos, nomeadamente: ANF — Ainda Não É o Fim Nem o Princípio do Mundo Calma É Apenas um Pouco Tarde. AQQM — Aquele que Quer Morrer. HCT — Histórias que Me Contaste Tu. DVA — Dito em Voz Alta. Nas referências bibliográficas finais referir-se-á o ano da edição citada ou consultada.
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• Nota Prévia
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A viagem das crianças, eis o sentido nu da palavra grega pedagogia. Michel Serres Um poema é sempre mais do que um poema: é uma poética, uma ideia de arte poética. Sousa Dias Cada livro é uma pedagogia destinada a formar o seu leitor. Jacques Derrida
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PRÓLOGO
A tarefa que empreendo é ilimitada e não menos misteriosa que o universo e que eu, o aprendiz. Jorge Luis Borges
Parto da hipótese que me põe à prova: a de ler uma pedagogia do literário em Todas as Palavras de MAP. O autor não se interessa pelas grandes teorias do saber, pelas grandes correntes literárias, pelos conceitos e técnicas maiores, interessam-lhe as relações que, nos e pelos textos, se estabelecem com a língua e com a memória, com a morte e com a infância, com o mundo e com o silêncio. É o menor (esclarecer-me-ei teoricamente com Deleuze) o domínio epistemológico da aprendizagem do literário que esta obra solicita. Chamo-lhe «literário» porque não sei o nome de isto que se relata assim: RELATÓRIO
É um mundo pequeno, habitado por animais pequenos — a dúvida, a possibilidade da morte — e iluminado pela luz hesitante de pequenos astros — o rumor dos livros, os teus passos subindo as escadas, Prólogo
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o gato perseguindo pela sala o último raio de sol da tarde. (TP: 352). Em 2001, MAP publica, na Revista Portuguesa de Psicanálise, um ensaio intitulado «Ler e Escrever» no decorrer do qual adianta esta hipótese: Talvez todo o texto literário seja a expressão pública de um vazio privado que, por isso mesmo, há-de querer facultar-se, através de processos de ocultação mais ou menos complexos. Isto é, talvez todo o texto literário seja também um texto sobre a própria literatura, ou, pelo menos, sobre o processo literário. (MAP, 1999: 37). É sempre a meio de um lugar aberto por um talvez, um como se, que as hipóteses se ligam à possibilidade de experimentar saber para além — ou para lá — do que é sabido. Ensaio, neste estudo, alguns modos de dar resposta à solicitação que em Todas as Palavras é aprendizagem de um pensamento sobre a própria literatura, sobretudo enquanto processo que agencia publicamente um não-saber, «um vazio privado» que, por isso mesmo, «há-de querer facultar-se», solicitando acesso. No fim — numa «introdução», por exemplo —, olha-se ainda para trás, para o que fica(rá) para ser dito. Este ensaio é apenas um ponto de partida (aprendizagem inicial) para (os) outros. Por razões de ordem metodológica divido a leitura em quatro partes. Cada uma delas adopta como que um modelo próprio de escrita, determinado pelas matérias em análise e pelas formas de exposição ou reporte que requerem. É à questão da «exterioridade», tópico recorrente nesta poesia, que dedico a parte I, que recebe o título «Uma Entrada pelo Lado de Fora».
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Falo de fora, por conseguinte, descritivamente. Esta parte I, subintitulada «Aprendizagens Gerais», está organizada em quatro capítulos. No primeiro capítulo, demoro-me na exposição de algumas reacções e leituras críticas que acompanharam o aparecimento dos primeiros livros do poeta, publicados entre 1974 e 1989. Esta passagem impõe-se menos pela necessidade de fazer o traçado de um «estado da arte» do que pelo propósito de sublinhar a extravagância que obras como Ainda Não é o Fim Nem o Princípio do Mundo Calma É Apenas um Pouco tarde, Aquele que Quer Morrer ou Nenhum Sítio representam na poesia portuguesa dos anos que vão de 1970 a 1990. Tal extravagância não tinha como deixar de ser notada; no entanto, foram poucos os críticos que à época se tornaram capazes de sair do seu circuito familiar de visão e acolher a inesperada perspectiva de forasteiro que MAP dava desde logo a conhecer. A par do levantamento de algumas das extravagâncias mais evidentes à superfície dos textos e dos modos como estas foram sendo lidas, interessa-me sobretudo destacar a demarcação face a alguns lugares literários — excessivamente territorializados pela crítica nacional — que os primeiros livros de poemas de MAP tornam manifesta. Um desses incontornáveis territórios é o do universo pessoano, que parece continuar a ter a faculdade de eclipsar, pondo-os imediatamente na sombra da revisitação ou do seguidismo, todos os escritores para quem as questões da linguagem, as questões do sujeito e as da impessoalidade da escrita se mantêm, inesgotavelmente, questões poéticas em aberto.1 No segundo capítulo atravesso o tópico do «tardio», sobretudo como modo de pensar a questão do «contemporâneo». Como entender o contemporâneo numa poesia em que se incoincide intransigentemente 1 Uma tentativa de ler as relações que se geram entre a poesia de MAP e a obra do poeta da heteronímia solicitaria a demora e a dedicação de um estudo inteiro. Não é esse o trabalho a que me proponho aqui, pelo que a referência a Fernando Pessoa ocorrerá (hélas) apenas, superficial e espaçadamente, quando a passagem se impõe como inevitável.
Prólogo
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com a fixação de tempos e de lugares? Poderá falar-se de «tardio» a propósito do que é, desde sempre já, contemporâneo de tudo o que, por ter vindo, está ainda para vir? É da (re)leitura do sentido da palavra «revolução» que decorre o terceiro capítulo. Procedo a uma análise das três epígrafes que, logo a seguir aos quatro poemas inaugurais de ANF, acompanham o título da sua (chamar-lhe-ei) «segunda secção», intitulada «Billy the Kid de Mota de Pina, Vida Aventurosa e Obra ou Tudo o que Acabou Ainda Nem Começou» (TP: 15). Retomando o sentido cíclico da palavra «revolução», que a época moderna tornou anacrónico, MAP relê esta palavra à luz de uma outra temporalidade, muito menos mobilizadora e progressista, muito mais conforme, por isso mesmo, ao movimento que agencia a sua própria «cosmogonia poética» onde o tempo é, afinal, a metáfora que redefine eternamente o sentido da «passagem sucessiva dos corpos pelos mesmos lugares». Esta alteração do sentido de «revolução» não significa, porém, uma superação ou uma ultrapassagem da chamada época moderna; solicita antes a necessidade de uma profunda revisão das suas inúmeras formas de legibilidade. Eis um dos tópicos da pedagogia do literário em Todas as Palavras. Passo, no quarto e último capítulo desta «Entrada pelo Lado de Fora», para a questão da «citação». Associado que está à problemática da Literatura, o trabalho da citação — ou a consciência de uma «segunda mão» (para citar os termos do célebre ensaio de Antoine Compagnon2) — é uma questão incontornável em qualquer estudo da obra deste autor, uma questão a que críticos como Américo Lindeza Diogo e Maria Alzira Seixo (entre outros) dedicaram leituras que exigem especial atenção. Quando a linearidade irreversível da marcha do tempo dá lugar à circularidade como movimento reiterativo e recorrente da passagem pelos mesmos lugares, a repetição manifesta-se com maior evidência à superfície dos La Seconde main ou le travail de la citation, texto que traduzirei a partir da edição francesa que consta da bibliografia final. 2
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textos. Não cair na superficialidade da aparência do mesmo implica uma leitura das diferenças. Para tal, não só é necessária uma ponderada atenção, como é sobretudo importante aprender a ter «calma», único modo de evitar exasperadas precipitações. Esta pedagogia implica também uma aprendizagem da demora e das dificuldades e atrasos no caminho. É precisamente a esse singular modo de auto-reflexividade poética que me dedico na parte II, que intitulo: «Uma História que Começa pelo Fim». Da perspectiva generalizante da reflexão crítica passo para a leitura (aqui em moldes de close reading) dos quatro primeiros poemas de Todas as Palavras como «Quatro Tópicos Inaugurais» da aprendizagem do literário. Na parte III, dedico-me à matéria central deste estudo, razão que me leva a intitulá-la «As Paixões da Literatura»3. O plural «paixões» irrestringe o âmbito da relação, denotando, de imediato, a coexistência de diferentes (e)feitos, afectos, padecimentos, fascínios e provações que afectam, indecidivelmente, tanto a literatura, quanto aqueles que com ela se relacionam.4 Esta terceira parte volta a ser organizada em quatro capítulos que incidem sobre quatro pontos interdependentes pelos quais a «literatura» é observada enquanto tópico aglutinador comum, agenciador e vítima de todas as paixões que provoca e sofre. No primeiro capítulo, o tópico da «citação» começará por ser observado sob a lente de algumas leituras críticas, a partir das quais o foco da Paixões da Literatura é o título que vou buscar ao nome de um encontro organizado na Suíça, em Julho de 1995, por Michel Lisse. Passions de la literature. Avec Jacques Derrida era o nome do encontro no qual o filósofo da desconstrução apresentou o seu texto «Fiction et témoignage», que viria a ser publicado sob o título Demeure. Maurice Blanchot, aquando da sua edição em livro pela Galilée, em 1998. Neste ensaio, Derrida demora-se na explicitação da indecidibilidade do sentido do nome do congresso que o acolhe. (Cf. Derrida, 2004: 10). 4 O recurso ao genitivo no enunciado «Paixões da Literatura» indecide a referencialidade pragmática que provoca: a «Literatura» é o agente ou o objecto das paixões? Eis uma pergunta para a qual a poesia de MAP (nos) solicita respostas, sendo ela mesma, a sua poesia, uma reiterada e sempre adiada tentativa de lhe responder, procurando esclarecer-se a si mesma. 3
Prólogo
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análise se irá deslocando, progressivamente, para a materialidade dos textos de MAP e para o olhar sobre a Literatura que auto-reflexivamente os seus poemas nos dão a pensar, testemunhando a experiência da relação com a tradição que deles devém. É como «Exercícios de resistência» que nomeio os lugares que atravesso. No primeiro capítulo concentro-me na questão da alegoria, justificando o uso que faço deste modo específico da expressão que Walter Benjamin nos ensinou a pensar como tal. Ao segundo capítulo cabe o título «A Máquina Literária» e é por ele que entro no tópico da «Literatura» que, sobretudo na primeira parte de Todas as Palavras, é a grande questão que o escritor tem consigo mesmo. Partindo do poema que se intitula, precisamente, «Literatura» (TP: 24), ainda do primeiro livro, ANF, procurarei aproximar-me daquela que considero ser a expressão alegórica da condição — ou, melhor, o testemunho da experiência de uma condição alegórica — que é a do escritor na era da Literatura. Dissonante com uma manifesta fascinação pelo movimento auto(re)produtor da máquina literária — «Literatura incrível esta / que a si própria se escreve» (TP: 24) —, a consciência das consequências deste fascínio pelo funcionamento autotélico e autocrático da linguagem vai-se agudizando, tornando-se cada vez mais manifesta à superfície dos poemas. Do fascínio pela Literatura enquanto máquina de escrita «que a si própria se escreve» resulta a experiência da paralisação ou do «emperro» (como a designou Américo Lindeza Diogo) em que o escritor se encontra nestes tempos (que são os tempos do poema): «Descobri o movimento perpétuo / mas não saí (ó palavras!) do mesmo sítio» (ibidem). A saída é, em MAP, a única via de acesso à entrada no Poema. As dificuldades não deixam, porém, de ser declaradas: «Nada no poema é impossível e tudo é possível / Mas não arranjo maneira de entrar no poema / e de sair de mim» (TP: 14).
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O terceiro capítulo, «Circulações e Resistências», é dedicado ao segundo livro, Aquele que Quer Morrer, que é, muito provavelmente, a mais complexa e prolixa das experiências de aprendizagem do literário que esta poesia nos solicita. Em entrevista a Osvaldo Silvestre e Américo Lindeza Diogo, MAP não deixa de reconhecer a «desmesura» de alguns dos propósitos que alimentam a sua poesia inicial, nomeadamente a de AQQM, quando diz: «A poesia [de Aquele que Quer Morrer] vive, com efeito (acho eu, que sou hoje apenas um leitor dela), de alguns propósitos desmesurados […] e, simultaneamente, da consciência da inutilidade — e despropósito — deles. (DVA, 2016: 20). Mais do que em qualquer outro, coexistem (discordantemente) neste segundo livro de MAP todas as paixões, inquietações e reflexões que traçam a paradoxal condição do poeta que escreve na falta da poesia — «faltas-me tu poesia cheia de truques.» (TP: 13). AQQM é, todavia, entre todos os livros que compõem a obra do autor, o que mais se aproxima, ao mesmo tempo que mais se desvia ou afasta, do entendimento (enquanto modo paradoxal de esquecimento) a que esta poesia aspira. Se este é, manifestamente, um livro «carregado de literatura» (na justa expressão de Maria Alzira Seixo), de propósitos, projectos e anseios, dominado por uma retórica do excesso, do esgotamento, do impasse e da exterioridade, é, não obstante, também o livro em que, sob o ditado de T.S. Eliot, se anuncia não só a existência de uma fuga, como sobretudo a possibilidade de um lugar aonde chegar: (…) Para chegares aí, Para chegares aonde estás, para saíres de onde não estás, Deves seguir por um caminho onde não há êxtase. T.S. Eliot (TP: 75). Prólogo
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Há nestas palavras de Eliot um ensinamento de tal modo familiar à poesia de MAP que a expressão «um caminho onde não há êxtase» se desloca, como que naturalmente, do lugar de epígrafe à secção III de «Aquele que Quer Morrer» (TP: 75) para o lugar de título do poema que fecha essa mesma secção (TP: 81). O caminho da poesia de MAP (sobretudo até Farewell Happy Fields) é o caminho partilhado e mediado, e todavia solitário, do escriba de «O último dos homens» (TP: 61). Um caminho onde o excesso de memória, a repetição exaustiva, a violência e a discórdia assaltam, a cada passo, o viajante, desapropriando-o da autonomia e do prazer de caminhar. No extremo oposto do infans (aquele que não fala), o escriba-viajante (sobretudo o da primeira metade da obra) é aquele que fala «de mais» porque sabe «de mais», velho de si (para evocar um verso famoso de Fernando Pessoa). Ainda que na difícil posição do «escriba acocorado»5, como no poema de Rui Knopfli, o poeta é, todavia, deslocado pelo desejo da alteridade que o (co)move: «atravessa o deserto às costas do melhor amigo.» (TP: 61). Na condição de «último dos homens», o escritor — escriba esgotado — tem de começar pela revisão de todas as respostas, pela releitura de todas as palavras e de todas as lembranças, para aprender a calar-se, para aprender a esquecer, para reaprender a perguntar como se fosse de novo a primeira vez. Sê-lo-á de novo? Há em MAP, assim procurarei argumentar, um trabalho de desaprendizagem (evoco Alberto Caeiro) da consciência de si, nomeadamente das convicções subjectivas de dependência romântica que lhe determinam e condicionam o alcance da visão. É pelo despojamento e pela desfiguração identitária que o poeta acede a um improgramável processo de Procederei neste capítulo a uma aproximação entre a leitura do escriba de «O último dos homens» de MAP e a do «escriba» do poema «O escriba acocorado» (1978) que dá título ao livro, coetâneo da publicação de AQQM (1978), de Rui Knopfli. 5
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subjectivação6 que nada tem a ver com uma decisão ou uma intenção pessoal, mas com uma experiência de recepção que afecta aquele que aprende, com e pelo Outro, a desconhecer para poder (re)conhecer o próprio rosto. MAP faz da escrita o espaço de aprendizagem de um não-saber que ficou esquecido e (a)guarda a chegada. Trata-se, por conseguinte, não de um processo de esquecimento activo, no sentido de uma decisão (intenção) de desprezar, excluir ou omitir o que não interessa, mas de uma desaprendizagem enquanto procedimento que desconhece objecto ou intuito e que, por isso mesmo, tem de aprender a (re)inventar (descobrir) o seu próprio movimento actuante, a direcção que só assim se lhe abre. É neste sentido que, quando falo de desaprendizagem, não me interessa tanto indagar o que neste procedimento possa haver de confronto (oposição ou ruptura) com qualquer tipo de «aprendizagem» (ou ensino) no uso comum do termo, mas tão só o que nele há de agenciamento da memória e do esquecimento que a modela, reconfiguração do que, por não pertencer à memória, também se lhe não opõe. É uma aprendizagem de 6 É a Deleuze que vou buscar o modo mais claro de enunciar o sentido deste processo: «Um processo de subjectivação, isto é, uma produção de modos de existência, não se pode confundir com um sujeito, a menos que este seja destituído de toda a interioridade, de toda a identidade. A subjectivação nem sequer tem que ver com a “pessoa”: é uma individuação, particular ou colectiva, que caracteriza um acontecimento […] É um modo intensivo e não um sujeito pessoal, é uma dimensão específica sem a qual não se poderia ir além do saber nem resistir ao poder.» (Deleuze, 1996: 77). Em MAP, a intenção não é um modo de sujeição do outro (objecto do querer) à acção (ao poder) de um sujeito; é o próprio querer (agenciamento de um desejo) que sujeita aquele que quer a uma força que lhe é exterior e alheia, a uma forma que o afecta e contamina, deslocando-o do estrito lugar subjectivo e intencional, desterritorializando-o. O que interessa a MAP segue a mesma orientação impessoal das perguntas que Deleuze formula assim: «Nós, hoje, qual é o nosso modo de existência, quais as nossas possibilidades de vida ou os nossos processos de subjectivação»? Ou ainda: «Teremos nós maneiras de nos constituirmos como «si próprio» (soi), e, como diria Nietzsche, maneiras suficientemente «artísticas», para além do saber e do poder? (Ibidem). Interrogações que põem a vida e a morte em jogo: «Será que somos capazes disso, pois que de certa maneira é a vida e a morte que estão em jogo.» (Ibidem).
Prólogo
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reconhecimento, anamnese do que não se sabe que se sabe, do que ficou esquecido: «… knowledge is but oblivion…» (TP: 62).7 Desaprender é também um modo de pensar a memória, de incluir na experiência dela (modo de reconhecimento) o esquecimento e a ignorância. Desaprender é deixar-se agenciar pelo devir, pelo que (ad)vem da e na relação com as palavras e com o silêncio do mundo, é aprender, como o infans, a deixar-se transformar (sem o saber) pela mudança e pelo desaparecimento, mais do que pelo que permanece invariável ou imutável. Eis a indecidibilidade desta pedagogia do literário: o modo da relação que afecta tanto aquele que ensina (o pedagogo) quanto o aprendiz. Uso o termo «literário» como designação possível de um processo de aprendizagens imponderáveis, rizomático: a literatura ensina o que não sabe; por ela e com ela se apre(e)nde em correspondência(s) o imprevisível que (ad)vem nas conexões e nas trocas, nos contágios do toque. É pois de um acontecimento indeterminável que se fala quando se fala de «pedagogia», na medida em que o movimento de conexão (e neste sentido, o tempo e o espaço do encontro) não é nunca excluído da própria acção de (des)aprender a via. A grande questão que atravessa Todas as Palavras poderia ser então a que Alexandre O’Neill formula assim: «E para quê e como se desaprende?» Isso, talvez só a Literatura — «(Chamo-lhe Literatura porque não sei o nome de isto);» (TP: 71) — nos possa ensinar a descobrir. Poeta da era da Literatura (no sentido que desenvolvo na última parte deste estudo), MAP faz da escrita uma forma de aprendizagem da 7 Esta expressão, que serve de epígrafe ao poema «Na hora do silêncio supremo» (TP: 62), advém, explicita-o MAP nas «Notas a Aquele que Quer Morrer», de uma conexão com um excerto de um ensaio de Francis Bacon, citado por Borges. O Poeta transcreve o excerto do texto de que a epígrafe derivou: «“Salomon said: There is no new thing upon the earth. So that as Plato had an imagination, that all knowledge was but remembrance; so Salomon giveth his sentence that all novelty is but oblivion”, Francis Bacon, Essays, LVIII (citado por J.L. Borges in “El imortal”)» (TP: 98). É evidente, creio, a dessincronização e desvio que afecta a escrita enquanto tessitura citacional (sem origem, nem fim) que faz devir o sentido da conexão — a múltiplas vozes — entre memória(s), esquecimento, ignorância e reescrita.
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fuga, uma desterritorialização, modo de aprender — ensinando-o a si mesmo — a sair da Literatura que o in(con)forma. A decisão de sair joga, porém, com o excesso de exterioridade que afecta a própria possibilidade de saída (para onde?) e o Poema não tem como evitar os caminhos do paradoxo para aprender a libertar-se da encruzilhada em que se tece. Afinal, «Aquele que quer morrer / é aquele que quer conservar a vida» (TP: 81) e, para a conservar, tem de morrer, sair de si. A pedagogia do literário em MAP é uma aprendizagem da leitura que implica uma desaprendizagem do que é escrever. Nenhum dos seus livros expressa, como já referi, mais agudamente os antagonismos desta paradoxal condição do que AQQM, que não deixa de ser contaminado pelas risíveis quedas daquele que quer saber. O quarto e último capítulo destas «Paixões da Literatura» concentra-se, por isso, na questão do humor em MAP. Dou-lhe o título «O Humor Ensina a Cair» porque é ainda de pedagogia que se fala. O humor é um dos modos da subjectivação poética em MAP, reconhecimento de uma inapelável cisão da língua. Por isso mesmo, em Todas as Palavras, o humor é também irredutível à mera paródia, ainda que seja a figura bífida da paródia um dos seus múltiplos modos de expressão alegórica. No fundo, é como se só o humor ensinasse ao poeta a aprender humildemente e consigo mesmo a corrigir os seus extravios, a aliviar as tensões e os medos, a rir das suas próprias quedas e precipitações, dos seus desvarios e despropósitos. O humor apela à «calma»: Ainda Não É o Fim Nem o Princípio do Mundo Calma… Rir é um modo de (se) testemunhar. À quarta parte deste ensaio cabe o título «Uma Saída pelo Lado de Dentro». Uma vez mais por razões de ordem metodológica, volto a dividi-la em quatro capítulos. Antes de chegar à leitura do ensaio «Ler e Escrever», que constitui o objecto de estudo da última parte desta pedagogia, demoro-me, no capítulo designado «O Lugar da Testemunha», na questão testemunhal (que Prólogo
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é também questão de legado ou testamento). Há em Todas as Palavras, defendo-o, uma paixão do testemunho8, quer dizer, um desejo de reporte que é, simultaneamente, um pathos que afecta a própria enunciação. O testemunho é a exigência e a servidão daquele que não pode senão dar-se em testemunho, daquele que se entrega, retirando-se, ao seu leitor, consagrando-se a ele sob a forma do livro em que devém: «Toma, come, leitor: este é o seu corpo, / a inabitada casa do livro» (TP: 339). Não se trata, neste capítulo, de traçar uma teoria do testemunho, mas de tentar pensar a anomalia, a perturbação que a noção de testemunho provoca na literatura, ao mesmo tempo que não se esquece que a literatura (a ficção) é a noção que instabiliza e perturba, tornando-a anómala, a relação pacífica com a verdade do testemunho na língua. Pode uma ficção de testemunho ser um testemunho verdadeiro? No segundo capítulo desta «Saída pelo Lado de Dentro», o ensaio «Ler e Escrever» converte-se, na proximidade do fim, no texto que ilumina, afinal desde o princípio, a minha leitura da Literatura na obra de MAP. Chamo a este capítulo «“Ler e Escrever” — uma autopsicografia» e responderei pelo título que lhe dou. Foi a partir deste ensaio, escrito pelo autor em 1999, que fui orientada a rever, reactualizando-o, o meu próprio entendimento das noções de escritor e de leitor, de autor e de testemunha, de escrita e de leitura, a que recorro. É toda uma pedagogia do próprio processo literário que se enuncia nesta reflexão sobre «o percurso da palavra literária […] entre a escrita e a leitura». (MAP, 1999: 38). Quando falo de processo não me restrinjo às questões exclusivamente literárias da auto-reflexividade do signo (inerentes à sua própria estrutura textual e linguística) nem às inevitáveis problemáticas meta-literárias da 8 Recordo que a palavra «Paixão», na inapagável memória da significação romano-cristã que afecta todas as línguas latinas como a nossa, conota o martírio. Toda a paixão é também testemunho de um padecimento; nesse sentido, cito Derrida: «Uma paixão testemunha sempre» (Derrida, 2004: 22).
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intra- ou intertextualidade que afectam todo o discurso. Em MAP, a reflexão sobre o processo de escritura-leitura inclui a expressão alegórica de uma outra experiência ainda — a do Outro, de cuja invenção o poema se torna cúmplice, inventando-a. Falo de «literatura» no sentido moderno do termo, isto é, enquanto experiência de uma desapropriação (que se) manifesta na impessoalidade da escrita que conecta multiplicidades imperceptíveis, existênciais. Tornado testemunha da sua própria reflexão sobre o processo de criação, o ensaio «Ler e Escrever» ensina-nos a (re)pensar as questões implicadas nas noções de autoria e de assinatura. Com ele aprendemos a reflectir sobre o modo como todo o escritor é um «leitor activo» que se destina, escrevendo (como quem escreve para casa), à «escrita passiva» da leitura por vir. Com MAP somos solicitados, também nós, a responder à pergunta que despoleta o que neste seu ensaio é já experiência de dar resposta: de que se fala afinal quando se fala de «literatura»? Solicitação que agencia outras: em que moldes é (ou pode ser) a questão do testemunho da experiência literária pensada na (e como) literatura? Em que sentido aquilo que um escritor escreve sobre o seu próprio processo de escrita se torna um documento decisivo para a compreensão da literatura? A partir do ensaio «Ler e Escrever», lido aqui como uma «autopsicografia» (o que não ilude ressonâncias pessoanas), interessa-me sobretudo indagar sob que forma (ou fingimento — modo de dar forma) pode o texto literário devir expressão pública «de um vazio privado que, por isso mesmo, há-de querer facultar-se» (cf. MAP, 1999: 37). De que forma (ou sob que formas) de testemunho se serve este «vazio» para se facultar? É pois na questão do testemunho que me demoro nos dois primeiros capítulos da parte final deste ensaio e é por ela que prossigo no terceiro capítulo. Sob o título «Um Pacto com o Imponderável», interessa-me pensar a relação entre o testemunho e o imaginário, entre o real e a Prólogo
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imaginação dita «literária» (porquanto verbal, sujeita à gramática da língua). Em MAP, o acordo é este: «A imaginação é tão real quanto o real é imaginário.» (DVA, 2007: 126). Como quem volta ao ponto de partida para rever os mesmos lugares, regresso, neste terceiro capítulo, à questão da citação enquanto marca ou rasto da inscrição do Outro: «É sempre Outro quem escreve» (TP: 95), eis o princípio que abre acessos à aprendizagem ou ao reconhecimento da própria voz, da Outra Voz9. É de novo por uma epígrafe (inscrição de uma escolha autoral, decisão de leitor) que entro no que nesta poesia é anúncio de uma união que devém e advém da relação que se funda no «imaginário radical» da língua: «núpcias contranatura», no vocabulário de Deleuze, ou «as chamadas núpcias literárias» (TP: 23), nos termos do poema «Desta maneira falou Ulisses». Diz Silvina Rodrigues Lopes: O imaginário radical seria então, na sua indissociabilidade da linguagem verbal, partilha da força criadora que na ausência de origem, na falha ou defeito que tal significa, é suplemento constitutivo. Por essa força, o exercício da linguagem não se reduz ao puramente racional, a um conjunto de interferências lógicas, mas é inscrição do fora, verdade do acontecimento, na sua ficção, fingimento, invenção. Ele é inscrição do que nunca foi presente e se dá na sua modelação em imagens radicais, imagens que não são cópias de alguma coisa mas sim semelhança sem nada a que se assemelhe. (Lopes, 2011: 30). É a Octavio Paz que vou buscar o entendimento poético desta «Outra Voz», quando a descreve assim: «Pela boca do poeta fala — sublinho: fala, não escreve — a outra voz. É a voz do poeta trágico e a do bobo, a da solitária melancolia e a da festa, é a da risada e a do suspiro, a do abraço dos amantes e a de Hamlet diante da caveira, a voz do silêncio e a do túmulo, louca sabedoria e rigorosa loucura, sussurro de confidência na alcofa e tumulto de multidão na praça. Ouvir essa voz é ouvir o próprio tempo, o tempo que passa e que no entanto regressa trazendo umas quantas sílabas cristalinas. (Paz, 1990: 68). 9
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É aí nesse nenhum sítio onde (e por onde) se inscreve o que «nunca foi presente» que se d(ar)á, por já terá sido dado, «o encontro do escritor com o seu silêncio». Morte motriz, princípio matricial de Todas as Palavras. É a este tópico que me dedico no quarto e último capítulo. «Por Último, um Princípio» é o título que ajusto à leitura do poema «Desta maneira falou Ulisses» (TP: 23), que me traz de volta à questão da voz sob palavra (questão de testemunho) e da (im)possibilidade de responder, em nome próprio, pelo próprio nome. Eis a hipótese — e assim concluo — (em) que (me) ponho à prova: a poesia de MAP é também (sublinho o «também») «um texto sobre a própria literatura, ou, pelo menos, sobre o processo literário». O «pelo menos» anuncia o a mais que me sustém: o testemunho — expressão pública de um vazio privado — advém (devindo) da relação com o suplemento que em todo o texto é já testemunha de uma inalienável falta: «É o infalável que fala.» (TP: 231). Todo o texto transporta, inventando-a, a sua própria pedagogia, agenciamento de todas as paixões da literatura: Eis o verdadeiro rosto do poema. Assim seja feito: a mais e a menos. (TP: 12).
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