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b) Quinto Aurélio Símaco

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Bibliografia

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Esse concerto de elogios recíprocos, esses arroubos de piedade sugerem que para a posteridade pagã existia no coração dessas duas pessoas um verdadeiro sentimento de piedade que os triunfos do cristianismo não foram capazes de esmorecer. Repetimos: a verdadeira convicção religiosa era rara entre os pagãos do ocidente; e não é indiferente encontrá-la viva, manifesta e mesmo prenhe de entusiasmo num homem que, colocado numa situação tão eminente, dava o exemplo a seus concidadãos.

Do lado dos cristãos as expressões eram bem diferentes. São Jerônimo chama-o d e miserabilis e de sacrilegus homo, 96 coloca-o não no céu, mas in sordentibus tenebris,

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97 e Acônia não é para ele mais que uma infeliz. Afirma que Pretextato teria tido a ironia de dizer, em tom de deboche, ao papa Dâmaso: “Fazei-me bispo de Roma e imediatamente me tornarei cristão”.98 O caráter de Pretextato, todavia, era sério demais para semelhante provocação. Provavelmente essa afirmação é uma das maledicências que nesse tempo de paixão, cada grupo se julgava no direito de divulgar contra os representantes do partido oposto.

b) Quinto Aurélio Símaco

O legado espiritual e religioso de Pretextato passou para o senador Símaco pois os romanos tributavam o mesmo respeito aos dois homens que se assemelhavam em muitos aspectos.

96 Jerônimo, Epistola, I, 662. 97 Jerônimo, Contra Iohanem Hierosolymitanum, 1, 99. 98 Ibidem.

Símaco (*340–†402) era filho de Lúcio Aurélio Aviano Símaco, personagem que havia exercido altas funções públicas, que pertencera ao colégio dos pontífices maiores, e cujos longos e honrosos serviços haviam sido recompensados com duas estátuas erigidas, segundo o costume, uma em Roma e outra em Constantinopla.99 Lúcio Aurélio, tendo sido enviado pelo Senado como embaixador junto ao imperador Constâncio que então, isto é, em 360, se encontrava em Antioquia, conheceu nessa cidade o ilustre Libânio, a quem confiou seu filho a fim de formá-lo na eloqüência e, certamente também, confirmá-lo nas idéias pagãs. Esta circunstância, que os biógrafos de Símaco geralmente não tomam em consideração, exerceu grande influência no caráter desse senador pagão.100

Símaco contraiu, no seu relacionamento estreito com o chefe dos sofistas do Oriente, o hábito de considerar o paganismo sob um aspecto completamente diferente daquele sob o qual era apresentado em Roma. Retornou à sua pátria convencido de que existia no seio das doutrinas pagãs um princípio suficientemente forte, capaz de salvar a antiga tradição; os interesses políticos, por sua vez, poderosos a seu modo de ver, não o eram, na verdade, tanto a ponto de prevalecer sobre as idéias religiosas. Mesmo que seus amigos e parentes mostrassem pouco interesse pelas cerimônias sacras, ainda que visse o pontificado cair pouco a pouco em descrédito, ele conservava as convicções que havia adquirido na Ásia e se empenhava em transmiti-las à alma de seus concidadãos. A piedade de Símaco era ativa, persistente, refletida e inflexível.

99 Boissier, G. Op. cit., t. II, p. 267-268; Callu, F. P. Simaque, Lettres, t. I, introduction, Paris: Belles Lettres, 1972, p. 8-9. 100 Beugnot, A. Op. cit., t. I, p. 451; Callu, J. P. Op. cit., p. 9.

Nas inscrições dos monumentos, toma apenas a simples qualificação de Pontifex major, 101 e as crenças de Mitra e da Mãe dos Deuses parece não terem recebido suas homenagens. Ainda que o caráter desse patrício não tenha sido um tipo mas uma exceção, é, no entanto, curioso estudá-lo, pois assumiu a defesa da religião moribunda com o mesmo zelo que aqueles que contribuíram para a formação da mesma.

Símaco identifica-se pelo zelo da religião que seus antepassados haviam praticado e transmitido. O que o atraía ao antigo culto é que em tudo amava o passado; os antigos costumes lhe eram igualmente caros e desejava que nada fosse modificado. Celebrava com perfeita regularidade as cerimônias do culto, e acreditava sinceramente que a salvação de Roma dependia dos sacrifícios que se ofereciam aos deuses. 102 Quando ficou sabendo que os exércitos romanos haviam sido vencidos, que os germanos penetravam na Gália e que os godos invadiam o Oriente, persuadiu-se de que isto acontecia só porque não haviam sido imolados alguns bois a Júpiter. “Deuses da pátria, exclamava, perdoai as negligências nas funções sacras”.103

Símaco era a alma do colégio dos pontífices e, ainda que lançado num momento oportuno na agitação da vida política, sempre deu preferência às funções religiosas. Censurava Pretextato, a seu ver algumas vezes negligente; infelizmente este não era o único culpado; também Flaviano foi inúmeras vezes objeto das benévolas repreensões do zeloso pontífice: “As cerimônias aos deuses e as festas exigidas pela divindade

101 Reinesius. Syntagma inscriptionum antiquarum a Grutero omissarum. Lipsiae, 1682, in-fol., p. 399. 102 Boissier, G. Op. cit., t. II, p. 269-270. 103 Símaco. Epistola, II, 7.

nos são conhecidas. Tu queres que te substitua; sabes como é costume delegar nas funções sacras; tu me impões as obrigações do cargo: aproveita o justo descanso. Nós nos conformaremos às tuas ordens; mas lembra-te que, depois das festas, compartilharemos com teu lazer, e aqueles a quem terás tanto fatigado se associarão ao teu jejum”.104 Em outra passagem lhe diz: “Julguei que com tua presença ornarias a festa da Mãe dos Deuses. Insistes com teus amigos que se unam a ti e voltas as costas a nós e à pátria”.105

Comunica com alegria a Pretextato que serão prestadas honras extraordinárias aos deuses: “Assuma a direção das coisas importantes. Meu irmão advertido executará melhor aquilo que é solicitado. Os pontífices decidiram que, para garantir a segurança dos cidadãos, daremos testemunho público de nosso respeito para com os deuses. A benevolência divina se perde quando não se a entretém mais com o culto. Os deuses serão honrados de uma maneira infinitamente mais pomposa que de costume”.106

Assim era Símaco. Uma cerimônia sua, de um culto celebrado com magnificência, fazia-lhe esquecer todos os males que então ameaçavam a pátria. Qualquer pontífice, dos melhores tempos da república, certamente não teria falado com tanta preocupação dos maus resultados de um sacrifício que deixou de ser oferecido. Comunica a Pretextato: “Estou profundamente aflito porque depois de inúmeros sacrifícios, o funesto presságio que acometeu Espoleto ainda não foi expiado publicamente. Apenas Júpiter mostrou-se favorável com a oitava imolação. [...] Conclua daí em que estado nós estamos.

104 Símaco. Epistola, II, 53. 105 Símaco. Epistola, II, 34. 106 Símaco. Epistola, I, 40.

Trata-se de convocar agora os colegas para uma assembléia. Agirei de sorte que tu saberás se terão descoberto algum remédio divino”.107

Uma festa, um sacrifício, uma reunião do colégio pontifical eram acontecimentos importantes na vida de Símaco. O homem político desaparece diante do pontífice: um é triste, abatido, desanimado, o outro é quase sempre tomado de piedoso zelo. Muitas vezes a indiferença, outras tantas o desânimo dos pagãos provocavam grande aflição em sua alma. Numa carta a Pretextato deixa transparecer essa tristeza e esse desgosto, sentimentos muito normais num homem cujo espírito era capaz de perceber que o Império Romano não estava longe do abismo. “Nós tínhamos decidido permanecer ainda algum tempo fora da cidade, mas, um enviado da pátria agonizante fez mudar nossos planos. Minha segurança nas adversidades comuns seria inexplicável. A administração do sacro pontificado exige minha dedicação durante o mês indicado. Não suporto a idéia de me fazer substituir por um colega numa época em que os pontífices se mostram tão negligentes. A delegação nas coisas santas não teria inconvenientes em outros tempos. Agora, distanciar-se dos altares é meio de fazer a corte”.108 Esta última frase é importante pois retrata, numa só pincelada, o espírito religioso da facção pagã.

Os pontífices maiores tinham jurisdição sobre os pontífices de segunda ordem, e, particularmente, sobre as virgens de Vesta, sacerdotisas ingenuae et clarissimae. Símaco zelava por elas com uma ternura paternal que via, pouco a pouco,

107 Símaco. Epistola, I, 43. 108 Símaco. Epistola, I, 45.

diminuir o número de suas filhas. Aconselhava-as, orava por elas, admoestava-as para que mantivessem o respeito público. Opôs-se ao projeto de erigir uma estátua em homenagem a seu grande amigo Pretextato; em nome das santas tradições, fez calar a voz da amizade. Sobre esse assunto, escreve a seu confidente, Flaviano, pagão sincero mas pontífice negligente, ao deixar a província: “não se faz, não se diz aqui nada que um espírito e um coração sincero possam aprovar; seja qual for a situação reinante, se estivesses em Roma e nos prestássemos auxílio mútuo, nós a tornaríamos melhor. No momento estou sozinho, enfrentando os graves ataques desfechados contra tudo: citarei um exemplo donde concluirás facilmente o resto. As virgens sacerdotisas de Vesta, propondose erigir uma estátua a nosso Pretextato, consultaram os pontífices. Estes, antes de examinarem o que se devia ao supremo sacerdócio, ao costume antigo e às circunstâncias presentes, decidiram, apesar do pequeno número dos que seguiam meu conselho, que o projeto das Vestais fosse aprovado. Eu sustentava que as honras tributadas pelas virgens a esse homem eram contrárias à honestidade, pois não haviam sido concedidas nem a Numa, o fundador de nosso culto, nem a Metelo, seu conservador, nem aos soberanos pontífices. Calei-me, com receio de que os adversários de nossa religião tirassem proveito de nosso desentendimento. Escrevi àqueles que comigo consideram inusitado esse ato, dizendo-lhes que este é um exemplo a ser evitado, porque uma homenagem bem intencionada poderá mais tarde ser concedida por bajulação a homens que não sejam dignos”.109

Símaco devotava piedoso respeito pelas virgens de Vesta. Todavia, causavam-lhe também grandes dissabores. Na qua-

109 Símaco. Epistola, II, 36.

lidade de sumo pontífice, tinha o dever de vigiá-las e mantinha-as sob sua custódia. Certo dia, quando soube que uma delas, da cidade de Alba, havia transgredido o voto, dirigiu-se imediatamente, em nome do colégio dos pontífices, ao prefeito de Roma para requerer a aplicação das devidas penas à culpada.110 Primigênia, a incestuosa, não foi a única sacerdotisa de Vesta a sofrer sob a penosa regra a que as virgens estavam submissas. Para outra, que se suspeitava culpada, escreve Símaco: “Os boatos não confirmados não têm qualquer valor. Não permito que se fale superficialmente diante de mim da honra das Vestais. Como pontífice e senador, acato somente os fatos comprovados. Há quem queira que abandones o culto de Vesta antes da época fixada por lei: não creio em boato público. Espero que tenhas falado, que tenhas confirmado ou desmentido o que dizem de ti”.111

A situação de Símaco era extremamente penosa porque havia poucas pessoas ativamente fiéis ao culto tradicional com quem pudesse partilhar suas preocupações pelo culto sagrado. Totalmente absorvido na sustentação da luta contra o cristianismo, não pôde contar com o apoio de seus amigos e colegas de profissão, que na maioria olhavam com indiferença seus esforços quase sempre infrutíferos.

Por outro lado, havia também divergências entre a corte imperial e a administração pública da capital. Esse desajuste, que cada grupo procurava encobrir, ocorria, às vezes, por motivos insignificantes; porém, como o poder estava nas mãos sólidas da aristocracia, as disposições incômodas dos imperadores produziam poucos efeitos.112

110 Símaco. Epistola, IX, 118. 111 Símaco. Epistola, IX, 119. 112 Beugnot, A. Op. cit., t. I, p. 464.

A correspondência de Símaco indica que estava em contato permanente com todos os homens poderosos de sua época. A maior parte de suas cartas é endereçada a Estilicão, Ricômero, Bauto, Ausônio, Drepânio, Flaviano, Protádio, Minérvio, Florentino, entre outros. Depois de Pretextato, Flaviano e Ausônio foram os que mais influência exerceram sobre ele. Teve quatro irmãos, entre os quais estimava particularmente Celsino Ticiano que era pontífice e áugure.113 Foi a este irmão que, ao recomendar um bispo da África, chamado Clemente, dizia: Commendari a me Episcopum forte mireris. Causa istud non secta persuasit. 114 Sua correspondência não contém nenhum ataque direto aos cristãos. Parece que se impôs extrema reserva nesse assunto irritante o que, de alguma forma, chega a ser surpreendente, quando se considera que a maior parte de suas cartas era dirigida àquelas pessoas com quem simpatizava abertamente.

Símaco era do pequeno número dos romanos que estava em comunhão constante com os retóricos e sofistas da Ásia; suas idéias sobre a situação geral do paganismo eram, por isso, bem mais amplas do que as da maioria de seus compatriotas. Seu relacionamento com os sofistas datava da época em que seu pai o havia levado para Antioquia e entregue aos cuidados de Libânio. O tempo e os infortúnios do paganismo haviam estreitado os laços que o uniam a esse homem que, entre outras raras qualidades, possuía a de fazer nascer no coração do discípulo o sentimento do mais vivo reconhecimento. A distinção entre mestre e discípulo deu entre Libânio e Símaco lugar à intimidade e confiança para unir dois ho-

113 Símaco. Epistola, I, 63. 114 Símaco, Epistola, I, 69.

mens preocupados com as mesmas idéias e a quem os mesmos acontecimentos entristeciam ou alegravam.115

Todavia, a amizade entre ambos e a aparente semelhança nas situações em que se encontravam, não deve levar à conclusão de que não houvesse divergências contrastantes entre os dois personagens. Libânio falava das instituições romanas mais ou menos como os demais romanos; divinizava a cidade eterna. Mas, para ele, essa espécie de apoteose seria mais uma fórmula de linguagem do que uma crença sincera. Exaltava os luminares e a sabedoria do Senado, mas esse nobre corpo era para ele simplesmente um dos elementos da constituição política, e parece ter ignorado que a aristocracia foi durante todo o quarto século o único esteio sólido para as crenças pagãs. Para ele, enfim, o paganismo se apresentava sem mescla de interesses ou preconceitos políticos. Empenhava-se na sua defesa, não porque essa religião fosse antiga e por esse motivo venerável, não porque detestasse as transformações, mas porque acreditava realmente na superioridade do culto nacional em relação ao culto cristão e porque via nas tradições gregas a fonte inesgotável dos belos e grandiosos pensamentos. Símaco, durante sua permanência em Antioquia, foi influenciado por todas essas idéias; mas de volta à sua pátria, no turbilhão dos afazeres públicos, sentiu-se forçado a misturar seus princípios religiosos com as idéias políticas para poder ser entendido por seus concidadãos.

Há uma oposição ainda mais acentuada na atuação desses dois personagens: Símaco poderoso no Senado, era reverenciado por todos os pagãos da capital; como membro influente e ativo do colégio dos pontífices maiores tinha sob

115 Libânio. Epistola, 923.

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