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c) Vírio Nicômaco Flaviano Capítulo 3 – Novos rumos na política religiosa do Es-

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seus cuidados os afazeres religiosos no âmbito da prefeitura da cidade. Por outro lado, não mantinha nenhum relacionamento ou compromisso com os pagãos das províncias; estes ignoravam o que se passava em Roma. Combatia na sede do paganismo, lá onde devia ser decidida a vitória. No entanto, não recebeu nenhum reforço ou apoio das províncias.

Libânio, ao contrário, exercia influência nas províncias da Ásia. Seus numerosos discípulos, espalhados na Grécia, no Egito ou na Síria, recebiam dele inspirações, planos de combate e até fórmulas de se expressar.

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Símaco era o eco de um grupo político pertinaz, preocupado com a sobrevivência dos costumes ancestrais, pouco diplomata e pouco hábil na arte de defender sua própria causa. Libânio, por sua vez, comandava um grupo ativo, buliçoso, loquaz que, pela natureza de sua organização, parecia ser a única força capaz de combater com sucesso os esforços do clero cristão.

Conhecemos suficientemente Símaco. Perseguido por terríveis decepções, reduzido a alimentar-se de ilusões, transformado, por sua piedade rígida e irrequieta, em censor fatigante para seu próprio partido, ensina-nos o quanto é triste a sorte dos homens que dedicam suas forças e seus talentos a serviço de uma crença sem futuro.

c) Vírio Nicômaco Flaviano

Depois de Pretextato e Símaco, o personagem que maior influência exerceu no grupo pagão foi Vírio Nicômaco Flaviano. Manteve-se tão fiel às aspirações de seu pai Murrano Vírio Venusto quanto seu filho Nicômaco às suas. O amor ao culto nacional era tradição nessa família que, apesar de sua oposição declarada aos interesses da corte imperial, não dei-

xou de exercer, durante todo o quarto século, ativa e constante influência na política do Ocidente.

Nicômaco Flaviano era o verdadeiro chefe dos pagãos. Como Pretextato e Símaco, estava ligado ao antigo culto; porém, suas decisões não tinham, em absoluto, o mesmo caráter. Primeiramente, porque não lhe interessavam todos os deuses. O único título que recebeu nos monumentos erigidos em sua honra foi o de membro do Colégio dos Pontífices. Seu caráter também não parece ter sido tão diligente quanto o de seus dois companheiros. Gaston Boissier, analisando o caráter religioso de Flaviano, diz que era mais supersticioso que devoto. 116

Os pontífices serviam aos deuses por turno. Flaviano era negligente no desempenho das funções de pontífice: quando ausente de Roma, fazia-se esperar ou, então, representar por alguém.117 Nos dias de festa em que o jejum era de rigor, contratava alguém para jejuar em seu lugar.118 Se as cartas de Símaco fossem mais francas, mais íntimas, mais que simples troca de gentilezas e de cumprimentos, conheceríamos Flaviano a fundo, pois é um de seus correspondentes mais familiares. Como todos os grandes ambiciosos fracassados de Roma, Flaviano fala dos prazeres do retiro, dos encantos do campo. Recusa-se a voltar a Roma quando lho rogam; anuncia que está decidido a retirar-se dos negócios públicos. 119 Flaviano era, na verdade, um descontente. Concebeu, talvez, grandes idéias e alimentou grandes esperanças que, por um motivo ou outro, não conseguiu realizar.

116 Boissier, G. Op. cit., t. II, p. 281. 117 Símaco. Epistola, II, 50. 118 Símaco. Epistola, II, 53. 119 Símaco. Epistola, II, 18.

Macróbio faz menção a Flaviano; e, apesar de esse ardente defensor dos ídolos ter sido vencido e morto em combate contra Teodósio, honra sua memória com os seguintes termos pomposos: “Flaviano sobrepujava seu próprio pai Venusto tanto no decoro de seus costumes e na seriedade de sua vida, quanto pela simplicidade de sua profunda erudição”.120 Ninguém lhe dedicou apologia mais longa e mais viva que Símaco. Às vezes, chama-o de filho ou então amigo do meu peito (pectoris mei dominus).121

Flaviano entrou em momento oportuno na vida pública, e alcançou mais que seu amigo. Durante o reinado de Graciano, foi governador na Sicília e os cristãos, certamente, não viram com bons olhos essa nomeação. A seguir, encontramo-lo vigário da África, qüestor do palácio, prefeito da Itália e da Ilíria; enfim, como termo de sua ascensão, Eugênio o elevou ao consulado. Parece que no tempo da revolta de Máximo ou talvez antes, renunciou à vida política para dedicar-se ao estudo, logrando grande progresso. De fato, o filho de Símaco, casado com a filha mais moça da Flaviano, honrando-o com um monumento, qualifica-o na inscrição de historicus disertissimus. 122 O segundo livro de Símaco, repleto de cartas endereçadas a Flaviano, mostra que esse patrício era homem ativo, empreendedor, muito pouco preocupado com as cerimônias do antigo culto, apesar de membro do Colégio dos Pontífices Maiores, e mais ocupado com o triunfo dos interesses políticos de seu partido que com a defesa das bases desgastadas do paganismo. Nesse aspecto, assemelha-se pouco ao seu amigo, mas representa melhor que ele o espírito e o caráter geral dos pagãos do Ocidente.

120 Macróbio. Saturnalia, I, 5. 121 Símaco. Epistola, III, 86 (da carta a Rufino. Ano de 382-383). 122 Reinesius. Op. cit., p. 441, nº 92.

Para ser mais completa a lista dos chefes do grupo tradicional, deveríamos citar os nomes de quase todos os personagens com quem Símaco manteve correspondência. No entanto, poderia tornar-se longa e ofereceria pouco interesse, pois existe reduzido número de documentos sobre a época em questão. Além do mais, seria impossível, citando simplesmente o nome de algum pagão célebre e poderoso, indicar a participação efetiva desse personagem na polêmica travada em defesa da religião tradicional. Por outro lado, os personagens pagãos, dos quais tomamos conhecimento aqui, são suficientes por si mesmos para caracterizar as diferentes correntes de idéias que, sem causar divisão, existiam no seio da facção tradicional.

Pretextato representa a influência do patriciado no que tinha de mais elevado e mais nobre. Vivia ele cercado não só de uma multidão de clientes, de libertos e de escravos, mas da população da Urbe em geral. Exercia, ali, poder praticamente igual ao do imperador – não legal mas de fato. A grande popularidade de que gozava não era conseqüência somente da posição social: sucede que Pretextato exercia com honra funções importantes. Muitos outros senadores lhe eram iguais, seja pela antiguidade da família, seja pelas grandes riquezas, mas é preciso buscar alhures a origem dessa popularidade extraordinária. Beugnot pretende que os princípios religiosos de Pretextato eram, se não a única, pelo menos a principal fonte do poder e influência sobre seus concidadãos. Após a fundação de Constantinopla, Roma ficara reduzida a simples cidade, onde a opinião pública anticristã podia desenvolverse livremente. Pretextato, encarnando a situação dos pagãos que tiveram seus sentimentos feridos pelos imperadores cristãos, devia naturalmente subir a um grau de popularidade ao qual há muito tempo ninguém havia chegado em Roma. Seu

caráter é, pois, o de um chefe eminente da oposição aos cristãos de Roma. Percebe-se que nesse caráter havia muito de pessoal, fruto das circunstâncias da época. Para seus contemporâneos, é pouco provável que houvesse outro patrício tão hábil quanto ele, capaz de cativá-los e dirigi-los.

Símaco veio a ser o depositário das esperanças e sofrimentos do grupo pagão. Foi ele capaz de preencher o vazio deixado por Pretextato? Tudo leva a crer que não, porquanto a morte desse homem contribuiu sensivelmente para o ocaso de uma religião, cuja situação estava, a nosso ver, no último grau de fraqueza a que um sistema religioso possa chegar.

Pondo de lado Pretextato, que constitui verdadeira exceção, tentemos caracterizar agora os pagãos que Símaco representava.

A convicção e o interesse pessoal são princípios dos quais se servem os grupos religiosos ou partidos políticos para se firmar, fortificar, expandir ou resistir. Nos partidos políticos, prevalece, em geral, o interesse pessoal, enquanto que nas ideologias religiosas, a convicção parece ser o primeiro móvel. Esses motivos são geralmente constantes e comuns; contudo, não podem ser aplicados aos chefes dos pagãos, para quem a religião não passava de um motivo simulado. A aristocracia não se cansava de falar de sua veneração pelos deuses, da fé no seu poder. Fingia chorar sobre os altares desolados, mas na realidade vivia preocupada com o perigo que ameaçava seus próprios interesses. Não devemos, no entanto, generalizar: havia, no Império, homens de profunda convicção pagã. Habitantes dos campos e das cidades, notadamente os de condição mais humilde, demonstravam fidelidade aos deuses sem segundas intenções. Suas queixas não ressoavam tão forte quanto as da aristocracia; não se envaideciam a todo o instante da glória do passado e do respeito tributado à grandeza de Roma. Mas, sua dor era viva e profunda. Diante do cristianismo triunfante e da indiferença disseminada den-

tro do paganismo, esperavam reavivar a fé nos altares dos deuses. Símaco é a mais digna personificação desse grupo de verdadeiros pagãos. Por sua reta intenção, sua integridade e seu talento, mereceu que os cristãos lamentassem não tê-lo entre seus membros. 123

Flaviano, homem ambicioso, ativo, empreendedor, instigador de revoltas, negligente no desempenho de suas funções religiosas, detrator irônico das novas idéias, inimigo obstinado de Teodósio, pereceu em combate no comando de um exército pagão. Representava a imagem viva do interesse aristocrático, tal qual aparece no século IV.

Por fim, existia no paganismo um terceiro elemento, independente dos dois anteriores, que exercia notável influência no espírito dos homens esclarecidos da antiga religião: os filósofos, os retóricos, os sofistas. Todos esses pretensos reformadores das doutrinas de Platão eram homens de crédito e estima em toda Ásia, conquanto no Ocidente, sua influência e autoridade fossem menores. No entanto, os professores que lecionavam nas escolas de Roma, Milão, Bordéus, Tréveris,Toulouse, Narbona e outros centros, sob o pretexto de ensinar as letras clássicas, de explicar Homero ou Hesíodo, Aristóteles ou Platão, empenhavam-se em incutir nos espíritos jovens as idéias favoráveis ao antigo culto. Grande parte desse professores era simpatizante dos sofistas gregos e primava, como estes, na arte de conciliar com as idéias, os gostos e a educação de seus discípulos, os sistemas filosóficos os mais opostos ao cristianismo. Os imperadores não desconheciam esse fato. Vemo-los muitas vezes ordenar a esses “doutores” que, indevidamente se vestiam com as insígnias da filosofia, vindos a Roma de todas as direções a fim de ensinar a juven-

123 Prudêncio. Contra Symmachum, I, 636.

tude, retornem para suas respectivas cidades de origem. Valentiniano I ordena a Probo, prefeito do Pretório: “Seja repatriado todo aquele que estiver fazendo uso indevido das insígnias da filosofia, exceto aqueles que, uma vez aprovados como aptos, sejam separados desse ecletismo”.124 Os imperadores certamente compreendiam que, enquanto a educação estivesse nas mãos desses homens, o antigo culto, fosse qual fosse de resto a situação política, continuaria recrutando partidários nas altas esferas da sociedade; e quando Graciano, o “espoliador” do clero pagão, estabeleceu, em 376, remuneração para os retóricos e gramáticos,125 não se sabe o que impressionou mais, se a força dos costumes públicos que levava o príncipe cristão a favorecer os propagadores da fé pagã ou a pouca sagacidade de que dispunha o conselho do príncipe. Seja qual for o motivo, é certo que esses homens, que do alto das tribunas onde era permitido falar livremente, impregnavam a mente da juventude de idéias anticristãs, constituíam parte importante do grupo pagão. Tinham pelo menos o mérito de não se acovardar no silêncio, se isto era para eles um mérito, e de responder com seus frágeis recursos aos ataques do cristianismo satisfeito de encontrar adversários que não recuavam diante da discussão.

Percebe-se, portanto, três matizes de mentalidades pagãs: Os políticos, mais poderosos e mais ativos; os devotos, fracos em Roma mas numerosos nas províncias; os sofistas, influentes na capital e em algumas outras metrópoles.

Penetramos, o quanto a escassez dos documentos históricos o permitiu, no âmago do pensamento pagão. Depois

124 CTh. XIII, 3, 7 (19 de janeiro de 369). 125 CTh. III, 3, 11 (23 de maio de 376).

de esboçar as instituições e idéias que apresentavam resistência ao cristianismo, reproduzimos a imagem dos homens cuja missão era sustentar uma sociedade em declínio e deter a difusão das verdades que conquistavam o mundo.

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