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GEOVANNE OTAVIO URSULINO
from Intempestiva n.01
Vive em Maceió. É historiador. Editor da revista Alagunas [www.alagunas.com]. Publicou os livros de poemas como num inferno pra marinheiros (Maceió: Imprensa Oficial Graciliano Ramos, 2017) e os gigantes atravessam o eufrates (São Paulo: Patuá, 2018). Escreve no blog Amorfo Poema [www.amorfopoema.tk]. Contato: ursulino@ alagunas.com
nenhum de nós aCreditou
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ouvimos q os gigantes atravessaram o rio em milhares de anos nenhum gigante sobreviveu
às correntezas do eufrates deus e protetor da terra entre rios juiz e salvador dos povos livres
ouvimos q os gigantes atravessaram o rio nenhum de nós acreditou nenhum gigante nunca
sobreviveu às tentativas de atravessar o maior entre os rios o mais violento entre os violentos o mais forte entre os fortes
ignoramos os rumores vindos do oeste daquela gente estranha q acredita em coisas estranhas
gente q mais parece bicho gente q nem parece ser primo ou irmão da gente com seus rumores estranhos ouvimos q os gigantes atravessaram o rio rimos bêbados enquanto inventávamos histórias
histórias dos gigantes do oeste atravessando bravamente o mais violento entre os rios o mais forte entre os fortes
os gigantes vivem nus comem bicho vivo porq não conhecem o fogo nem falar sabem direito
nunca atravessariam o eufrates nunca invadiriam a terra livre dizíamos uns pros outros
maaFa
há muito tempo disse pro senhor arkaikea q algo profundo mudou em nós somos o q somos
dizia o senhor arkaikea mas eu sentia na pele nos olhos nariz boca orelhas sentia em cada fio de cabelo
q algo profundo mudou em nós quando entramos naquele barco nem quando torramos no sol conseguimos
mostrar pro senhor arkaikea q algo profundo mudou em nós eu sentia em cada osso nosso nome foi esquecido
nossa língua se perdeu quando entramos naquele barco sentia em cada fio de cabelo mas o senhor arkaikea
não dizia nada além de somos o q somos por isso chegando aqui falamos nossa língua
como não tivesse se perdido adoramos nossos deuses como não tivessem nos deixado dizíamos uns pros outros somos o q somos como dizia o senhor arkaikea mas nada trazia harmonia pra nenhum de nós
q vivemos como bestas q dormimos como bestas q comemos como bestas nem morrendo como bestas
conseguimos mostrar pro senhor arkaikea q algo profundo mudou em nós quando entramos naquele barco
sinto na pele nos olhos nariz boca orelhas sinto em cada osso em cada fio de cabelo
mas continuamos vivendo comendo dormindo falando como se não tivéssemos entrado naquele barco
como se não tivéssemos esquecido nosso nome como se não tivéssemos perdido nossa língua
há muito tempo disse pro senhor arkaikea mas aprendemos a repetir somos o q somos
edward hyde
na manhã do último dia 16 acordei transformado em hyde tive sonhos tranquilos de q o monstro q sou tinha partido
o sol entrou pela brecha nas telhas rasgando a única paz q sempre tive percebi q o monstro tava ali
mãos ásperas e cabeludas olhos fundos e sem brilho quebrei o espelho com a cabeça mas o monstro não partiu
na manhã do último dia 16 entendi q não tenho controle sobre hyde q agora é por inteiro tudo o q sou e fui
entendi q nada de mim restou nem palavras doces ou gestos suaves nem a calma dum abraço ou o calor do sol do verão
só as pernas curtas e tronchas os dentes podres e fedorentos soquei minha própria cabeça q agora é dele na manhã do último dia 16 meu medo foi embora o medo q fez o q sempre fui substituído pelo ódio ardente
hyde q desde então sou eu não conhece limites pro monstro seu interior vazio e escuro consome tudo ao seu redor
tive sonhos tranquilos de q o monstro q sou tinha partido soquei minha própria cabeça o monstro inda tava ali
na manhã do último dia 16 me entreguei à tragédia num belo dia de sol bom pra ver o mar
hyde é o melhor q posso ser tudo q meu velho eu lutou contra toda vida hoje tá em mim
com suas unhas quebradas e com sua boca murcha com seus cabelos poucos e suas costas curvadas pro abismo