Sonetário / Pedro Proença

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Este livro foi publicado por ocasião da exposição Sonetário , de Pedro Proença, com curadoria de António Gonçalves, realizada na Galeria Ala da Frente, em Vila Nova de Famalicão, de 19 de Outubro a 9 de Fevereiro 2025.

sonetário pedro proença

O Soneto é a mais grave Composição que há na poesia Espanhola; e por isso este nome, que parece comum a todo o género de Copla, se dá por Autonomasia a esta. Esta denominação de Soneto, vocábulo Toscano e diminutivo (como é dito no Cisne de Apolo), se apropria a este género de Poesia; porque soa mais grave, que nenhuma outra compostura. De ordinário não leva senão um só conceito, e esse disposto de tal maneira, que não sobre nem falte nada. Segundo o Cisne de Apolo não se pode conter em Sonetos matéria vasta, porque cada conceito se haverá de compreender num Soneto. Recebe comparações, semelhanças, perguntas e respostas, e serve para quantas coisas quiser cada qual dele usar; para louvar e vituperar, para persuadir, ou dissuadir, para consolar, e animar; e finalmente para tudo aquilo que servem os Epigramas Latinos. Há muitas formas de Sonetos: convém saber Soneto Simples, Dobrado, Terciado, com Cauda, Contínuo, Encadeado, com Repetição, Retrógrado, de duas línguas, com Ecos, de três Línguas, Acróstico, e de outras variações: isto é, Septenário e com Ritornello.

Juan Rengifo, Arte Poetica Española, 1592

I

Doença, mania, vício, moda? O soneto por vezes ataca, tem as suas inflamações, dita e infringe regras, desaparece, é tido por desusado, ou visto como nefando, e é considerado ainda como produto típico da cultura ocidental-colonial-egocêntrica (bleurk?). Ou, pelo contrário, é tido como exercício, malabarismo rítmico e de rimas (vulgares ou raras), transgressão de tudo isso, refúgio burlesco de novas e velhas regras. O mais bicudo dos casos em que a sonetite aguda atingiu proporções nunca antes vistas (e até hoje insuperadas) foi o do psiquiatra americano Merrill Moore1, autor de cerca de 25.000 a 50.000 sonetos (a diferença entre as estimativas é significativa). Alguns dos seus livros publicados em vida foram ilustrados pelo extraordinário Edward Gorey. Um desses livrinhos chama-se A Case Record from a Sonnetorium e atrevo-me a citar a sua Admisson Note, como prelúdio aos golpes e contragolpes que aqui se sucederão:

Estes não são poemas sobre pessoas, tal como os meus Clinic

Sonnets e Illegitimated Sonnets. Estes são amostras das novas e variadas formas que o soneto pode assumir mal se livra das antigas prescrições de que deve ter um octeto e um sexteto para ser «regular» (petrarquiano ou italiano) ou, de igual modo, sendo «irregular», ter três quadras e um dístico (forma shakespearea-

1 Moore teve por percursor, na quantidade, o poeta Giuseppe Gioachino Belli (1791-1873) que compôs «apenas» 2279 sonetos. Conheço outro caso de sonetomania aguda que é a do ilustrador Pedro Cavalheiro, do qual só foi publicada, sob o pseudónimo João Tenório da Maia, uma pequena selecção de sonetos chamada Atum, na editora Fenda.

na ou inglesa). Por outras palavras: dê-se ao soneto um pouco de liberdade, e veja-se o que acontece. Nunca tomei muito a sério a legislação do soneto, no entanto estou preparado para aceitar o dogma descritivo de algumas autoridades que consideram que todas as formas diferentes dos sonetos «regulares» e «irregulares» são sonetos «ilegítimos», que é a designação que aplico aos meus. Aceito tal dogma. E então? Toca a começar do zero. Continua a ser um soneto se tiver as 14 linhas e uma forma própria? Diria que sim, e na minha opinião pode haver muitas formas de sonetos — a bem dizer, qualquer combinação de linhas cuja soma seja catorze. Não existe nenhuma relação especial entre o poema e os desenhos que aparecem na mesma página. Os desenhos têm a sua própria contiguidade. Os poemas são uma sequência per se.

Sinto-me confortável nesta ideia de que sonetos e imagens gostam de partilhar o mesmo espaço numa página, sendo que uma página é uma espécie de instalação, no sentido artístico — instalação bi-dimensional num objecto tri-dimensional e quiçá sequencial — o livro. Um livro é convencionalmente formatado em função de páginas brancas que tendem a amarelecer, povoadas por hordas de letras repetitivas, ou, na versão simplificada e mais abrangente de Pessoa, Livros são papéis pintados com tinta (tal como muitos desenhos). Há algo de enigmático, hierático e sacerdotal nos livros. Mas, como nos de Moore e Gorey, também há uma sábia tradição humorística e refinada, que não se sente incomodada com a convivência de dois modos de pintar com tinta que co-habitem nas mesmas páginas. As imagens devolvem-nos algo de concreto e universal ante os mecanismos de abstracção próprios da escrita e da linguagem verbal, reféns de códigos e significados codificados.

Propõe-se aqui uma espécie de «auto-museu» de um delírio (multi)pessoal a que fui acometido há cerca de ano e meio, e

por imitação de Moore, chamei-lhe Sonetário (há afinidades óbvias com a ideia de Sanatório, qual local onde se poderá, quiçá, sanar a insanável doença do sonetismo).

Depois e antes de Moore o Soneto tem provado que a sua versatilidade e variabilidade é mais vasta do que se imagina. Nem sempre as 14 linhas foram rigorosamente canónicas, e basta investigar um pouco ou consultar artes poéticas seiscentistas (por exemplo) para nos darmos conta de que há possibilidades que foram sendo exploradas com rigor, sendo que o número 14, por razões (inéditas) que avançaremos, condensa o perfume desta forma literária, a partir da qual as demais variantes orbitam.

Pode, ou deve, um artista «visual» expôr sonetos, e teorias sobre sonetos, como obras de arte? Sim. O soneto é uma forma literária que adora ocupar páginas com grande elegância. Tem um tamanho excelente nessa tarefa, sendo esta de dimensão ideal para a leitura (mais ou menos entre o A6 e o A5). Qual é esse tamanho? O que é legível, com linhas que não são demasiado compridas (o que se aplica também à prosa) e com uma letra confortável para a velocidade do olho. O soneto, deixa, além do mais, respirar a página sem a encher totalmente ou cair na monotonia irritante das páginas em prosa. Convida a que se escreva o número, o título, a dedicatória, uma epígrafe, um mote, etc. Uma página de tamanho médio aguenta no máximo dois sonetos, mas um só soneto é o ideal. O soneto pode ser acrescentado de versões, explicações, notas, paráfrases. Nas edições quinhentistas não era invulgar virem acompanhados de ornamentos. O ornato e a linguagem ornada são afins, e isso percebe-se na estilística de Petrarca (o soneteiro-mor), grande fã da retórica ciceroniana e da exploração dos recessos da alma (ou

do Ego) de Santo Agostinho — estilo florido, dolcezza, inflamação amorosa, etc. Mas também é forma que dá conta das fricções entre si e o mundo (o desconcerto camoniano), o frisson metamórfico e o inevitável memento mori, com buriladas moralidades, que vieram a estar em voga, de forma mais contundente, no século XVII. II

O que é psicologicamente um soneto? A elaboração do estado passional por um objecto ausente? As definições e indefinições que se transformam na praxis amorosa? Regra geral esta forma literária descreve as tormentas de uma aporia afectiva, as impossibilidades, as mágoas, os desentendimentos, os anseios, as sublimações, etc. É um aprofundamento psi do eu no confronto com as atribulações de índole passional que fazem mover o sujeito (contruindo o que mais tarde, vide Stendhal, se chamará egotismo)1. O que não é novidade, pois quer Safo, quer a poesia trovadoresca já haviam dado passos poéticos nesse sentido. A maior diferença é incutida por Dante que intelectualiza, espiritualizando até onde pode, a poesia. O amor é elevado a uma condição chamânica-intelectual na Comédia. Dante inculca assim a filosofia na relação com o amor, a morte, e o que possa haver para lá disso (o fecundo imaginário post-mortem, espelho selecto da vida).

1 Exagero. O soneto serve para muito mais coisas, como o elogio bacoco ou honesto de uma figura, a chacota, a expressão de profunda devoção, etc. Há ainda certos sonetos que falam do soneto, velada ou abertamente, como o soneto de Lope de Vega: Um soneto, que eu faça quer Violante.

O conhecimento dessa estrutura não é, à partida, muito complexo: catorze versos rimados em ABAB ou ABBA nos quartetos e variantes com duas ou três terminações nos tercetos, caso o soneto esteja repartido deste modo. Na versão spensariana-shakespeariana seriam 3 quartetos e um dístico (rimando as 2 linhas), como já referido por Moore.

Em termos estruturais temos sempre quatro partes, o que implica, três separações mentais entre essas partes. Há muitas formas de dar a entender essas quatro partes. As mais correntes são as de fazer retroceder os alinhamentos relativamente à primeira linha de cada parte. A segunda, mais corrente nas edições actuais, é a de intercalar um espaço vazio entre cada uma das partes.

O gosto pelas capitulares e pelas maiúsculas faz parte da beleza visual e do equilíbrio na página. Um excelente exemplo é a edição das Rhythmas de Camões. Aí, os sonetos de uma página são em itálico, acompanhados de ornamentos. Quando há dois sonetos numa página o itálico desaparece e as páginas são mais confusas e encafuadas.

Os ornamentos, as capitulares e o itálico fazem parte de uma ordem e de um concerto que lhes dá uma graça óptica que foi negada pelo modernismo. As vanguardas foram anti-líricas e anti-intelectuais. Depois de um passo em frente com Marinetti, Apolinaire e os Dada, a maioria dos «modernos» tiveram dificuldade em lidar com o aspecto visual que fora entretanto valorizado por Mallarmée, e de uma forma mais tímida, por Pound. Não é necessário invocar prestígios duchampianos para sentir que o daimon da literatura faz das suas nas artes. Antes pelo contrário, o que aqui é reivindicado é o lado retiniano do soneto, o seu modo de povoar, de

explorar recursos tipográficos, sendo que em alguns dos casos apresentados, sobretudo na obra de Jonh Rindpest, o lado semântico é muitas vezes posto de lado. Rindpest está mais interessado em modelar a forma de organizar o espaço do poema, não tanto em se submeter a regras como as do grupo Oulipo, que no entanto lhe são bem-vindas como fonte de inspiração. Mas dá-se o caso de que em Rindpest há uma inconstância barroca que não se adequa à frieza chá-de-tília deste venerável grupo de investigadores das poéticas. Rindpest precipita-se, tem pressa, parece estar mais preocupado com a quantidade e com a experimentação, do que com o rigor. Se é engenhoso é-o também por descuido. Pertence a uma tradição mais órfica e chamânica. Ao contrário do poeta-artista Marcel Broodthaers, Rindpest tenta vir das artes para a poesia, embora nem sempre consiga fugir à fatalidade de ser artista. É vítima do príncipio enunciado por Pedro Portugal, em que uma vez sendo artista é quase impossível deixar de ser tido por artista. O que é o contrário dos poetas, cuja vocação é refém da ideia de que é uma actividade amadora (ou amatória). É-se inevitavelmente qualquer coisa antes de ser poeta. A poesia faz-se nas horas mortas (ou nas horas vivas). Não dá ganha-pão, regra geral, mesmo nos melhores casos. Acrescente-se que poetas já não são apetecíveis pelos poderes, elites ou patronos. Seriam um adorno vergonhoso a acrescentar como descaso a um exercício também ele esmaecido.

E, voltando à vaca fria, talvez o soneto explique a poesia como exílio, deambulação espiritual e sublimação (muitas vezes falhada) do erótico. Os artistas ditos plásticos, pese embora a sua costumeira alienação, estão muito mais nos rodízios do aqui e agora e são bem mais concretos nas relações com a matéria.

Regressando à visualidade do soneto, ou mesmo ao soneto, citarei várias observações. A primeira é o duplo tratado de Phillipe Nunes (sobre poesia e pintura), um condensado do magistral tratado espanhol de Juan Rengifo, completo e sistemático. Não é uma obra-prima teórica, mas é prática e directa esta Arte Poetica, e da Pintura, E Symmetria, com Principios da Perspectiva. Nunes define a poesia segundo Platão (?): a Poesia he hum habito do entendimento que rege ao Poeta, & lhe dá regras para compor versos com facilidade Ou arte que ensina a falar com limitação, ordem, & ornato. Depreende-se desta citação que a poesia é uma espécie de razão que possui (é-se tomado por algo que nos rege), e sobretudo dá regras.

A segunda parte da definição é mais oulipiana, dado que fala de limitação (no sentido de constraintes), ordem e ornato. As duas definições insistem sobre regras e ordem, embora a primeira fale implicitamente do Enthousiasmous, como (insisto) modo de entendimento do mundo.

Há muitas das observações de Nunes que são interessantes, como: Verso he huma oração travada & presa com certa limitação sogeita a certo número de sylabas com sonora cantidade. Nunes define assim os sonetos: A Ordem de fazer Sonetos, he que hum Soneto não ha de ter mais que hum conceito, & em cada quatro versos dos primeiros se ha de concluyr sentido perfeito; & dos seys derrradeiros, a cada tres se ha de fazer também clausula. Nestes seys versos ha de estar a sustancia do Soneto. Os oyto dantes hão de vir dispondo, & fazendo a cama a estes derradeiros. Pode ter comparações, semelhanças, perguntas, respostas, & servem para tudo, para louvar & vituperar, persuadir, consolar, animar & para tudo o que servem os Epigramas latinos. Os exemplos que Nunes dá vêm sumariados no século seguinte no incontornável Vocabulário de Bluteau:

Ha sonetos de muytas castas, a saber Sonetos simples, dobrados, terçados, continuos, encadeados e retrogrados. Sonetos de duas ou mais linguas, Sonetos com repetição, com Eco. Há sonetos que trazem quartetos, como os versos de oytavas, pondo interpoladamente consonantes, hum para cada dous versos, como usou Luis de Camões. Há Sonetos que têm cauda no fim que são dous versos, mais um pequeno de sete pés, & outro heroico de onze. Ha Sonetos Anagramaticos, que dizem nas primeyras letras dos versos qualquer nome que tenha quatorze letras. Ha Sonetos, que se chamão Laberyntos, que dizem pelo meio, ou em varias partes cousas muyto diferentes do que explicam. Finalmente há Sonetos de consoantes forçadas, cuja invenção se atribue a um francez chamado Du Lot.

Numa das adendas ao Vocabulário, Bluteau oferece-nos este engenhoso exemplo de Soneto Proteo, em Labyrintho:

Retrogrado, Terciado, Continuo, tirado dos Enneaticos applausos, que compoz Francisco de Sousa de Almada

Por qualquer verso dos 14 por donde se queira começar a ler, fórma Soneto, e sentido perfeito. Está dividido em duas linhas, e também por cada huma delas faz dous generos de Sonetos miudos; hum de seis syllabas na primeira linha, começando a lerse das ultimas palavras retrogradamente, outro de cinco syllabas, lendose progressivamente na segunda linha. E lendose inteiro o Soneto Heroico, se pode começar a ler, quando for retrogrado tanto da ultima palavra, como da penultima. Contem este Soneto oitenta e sete mil cento e setenta e oito milhoens, duzentas e noventa e huma mil e duzentas combinaçoens, em que se transfigura, conforme a regra Arithemetica combinatoria.

Estamos em pleno oulipismo. Bluteau, a que não era alheio o interesse pela Cabala (como o comprova um texto que publicou sobre um cálice cabalístico) remata: Não duvidará da prodigiosa multidão destas combinaçoens quem considerar que das vinte e tres, ou vinte e quatro letras do Alphabeto, differentemente combinadas, constão as palavras de todas as Linguas do Mundo.

Faça-se referência aos Sonetos com Cauda (ou Cola), também chamados em Itália de strambotti — acrescentos de alguns versos aos 14 estruturais, podendo variar a estrutura com meios-versos, versos inteiros, duas linhas, e, sugiro, quartos-de-versos, ou uma letra, ou um sinal de pontuação, ou um ornamento. Pelo contrário, não entraremos em engenhos menos visuais. Um belo exemplo, ainda barroco, é

este soneto combinatório de Gregório de Matos (o boca do inferno):

Uma extensão do soneto de 14 linhas a 18 é feita por Thomas Watson na sua Hekatompathia or the Passionate Century of Love. O livro tem sonetos que são préviamente explicados na mesma página (a paráfrase acompanha o poema? faz também parte do esforço poético? — curioso1…), assim como a intertextualidade. Há sonetos de 18 linhas, uma profusão de

1 A poesia não é parafraseável, mas uma paráfrase junto a um poema é como uma porta de entrada. Não se trata de explicações que matam, mas de dar pistas que aprofundem. Por outro lado, poemas são paráfrases criativas de outros poemas.

F abiana s orrento

Nasce em São Paulo a 18 de Maio de 1983. Estuda guitarra clássica e percussão (2001-2004). Dedica-se à criação musical, sobretudo de chorinhos de «vanguarda» (as suas principais influências são Xenakis e Villa-Lobos). Viaja pela Europa a partir de 2004 e fixa-se perto de Nápoles, vivendo, ora com o namorado Luigi Pulci, ora com a namorada, a argentina Violeta Vargas. Estuda Literatura Portuguesa na USP entre 2007 e 2011. Participa em inúmeras sessões de slam. Publica o artigo Hilda Hilst e Neto Jorge — sintaxes do sexo (2013). Conclui em 2015 a tese de Mestrado Villa Paulista, sobre a estada de Emilio Villa em São Paulo e a sua relação com a arte Moderna Brasileira. Publica no ano seguinte uma edição rítmica de poemas caxinauás para a editora Em Tupi. Faz a parte curricular do doutoramento na USP e granjeia alguma fama com o texto A Arte do Expurgo — Ensaio sobre a Obra Expurgada de Herberto Helder. Escreve Seu Basílio (2018) — poemas feitos a partir das obras de Camilo Castelo Branco e Clarice Lispector. Publica na revista portuguesa Relâmpago o ensaio «O melhor verso da língua portuguesa (eclipse, nesse passo, o sol padeça)», a partir do soneto O dia em que nasci morra e pereça. Muda-se para Lisboa em Agosto de 2018 para investigar a obra dos poetas Soropita e Camões. Inicia a tese de doutoramento Os Ritmos das Rhytmas e é bolseira da FCT. Escreve uma série de poemas, os quais foi publicando na net e nos jornais. Torna-se artista no Outono de 2019 e começa a expôr no ano seguinte Expurgos e Heresias na Galeria Inês Pereira, no Porto, influenciada por Kosuth e a Escolástica. Expõe também críticas de arte e textos curatoriais em forma

de poemas visuais a partir de textos existentes, transcrevendo-os muitas vezes à mão, invertendo assim o processo habitual. Considera a sua arte uma forma de copismo imanentista em oposição ao Conceptual Writting. A sua súbita e prolífica produção no domínio do Soneto deve-se a uma actividade despudorada de pura rapina. No primeiro livro apropria-se dos Sonetos Berriganianos de John Rindpest. Escreve a autora:

Escrever na mesma língua quase o mesmo texto que Rindpest já escreveu nela é redundância estafada. Porém esta apropriação segue uma via rebuscada, dado que passei os seus 79 sonetos de 14 linhas para 122 sonetos curtais (à moda do Manley Hopkins) de 11,5 linhas, sendo essa meia linha uma espécie de rabo (ou «cola», ou «estramboto», como dizem os tratados antigos), de tamanho muito variável, que remata o poema. Escrevi todos estes poemas em menos de 24 horas, depois de já os ter «vertido» para um malíssimo inglês. Não sei se devo assumir o Rindpest como persona. Nunca esperei ser Rindpest, nem estava ou estou para aí virada. Mais do que uma tradução é uma transfusão onde inventei o que pude. Passou-se exactamente um ano. Rindpest demorou Fevereiro e Março de 2023 para desfazer os sonetos do Berrigan, e eu demorei o 18 de Março de 2024 para mastigá-lo. Claro que irei introduzir alterações caprichosas ao longo do tempo. Nenhum poema meu se dá por acabado (é a influência do Jorge Judas). É uma arte ruminatória, como referiu Nietszche.

Um mês depois, num outro livro, Novos Expurgos Sandralexandrinos, Sorrento repete a brincadeira:

Refaço a Sandralexandra em sonetos curtais, como já refizera, com mais labor, John Rindpest, utilizando regras simples e dupla tradução. Ganha-se uma linguagem mais banal, que aqui se manifesta como ironia do traduzir, e uma maior quantidade de

poemas «condensados», «partidos». Assumo-lhe a vida na minha vida. Pirata, apropriacionista, safadona. Nefandos nomes podem me chamar. O resultado são mais uns 80 poemas a acrescentar à centena e picos da Sandra, perfazendo a redonda (ou bicuda) soma de 190.

O jogo continua e Fabiana tem entre as mãos mais três séries, uma de sonetos em prosa, a partir dos sonetos shakespearianos de Sandralexandra e Sóniantónia, a que chama 122 Sonetos em Prosa Brasileira. A segunda série chama-se Sonetos Falidos, e já nem recorda em que águas andou a pescar. Talvez um dia se lembre. O terceiro caso chama-se Vilões

Segundo Sorrento. A poetisa lavra neste volume em Sonetos de 14 a 16 linhas, segundo uma linha mais experimental, rindpestiana. Há que referir ainda o seu Roncar Ronsard, um trabalho de expurgo dos versos inúteis do poeta francês, com vista a livrá-lo da tralha e da retórica moralista da época. É uma broca poundiana com certeza.

s ara t rystana

Autora irlandesa (não o esqueçamos), nascida em Dublin a 24 de Julho de 1977 e licenciada em Literatura Portuguesa pela Universidade de Lisboa. É autora de Chamar o Xamã — um conjunto de 53 Sonetos. Quanto ao título do seu livro de estreia, escrito em 2008, e que acabou por ser publicado na :Aliás, tanto é em francês La philosophie rasée, como a Filosofia no depilatório, ou a Filosofia Depilada, talvez devido a erros/ diferendos de tradução ou transcrição. Mas qual será o título no original (em inglês?), Shaved Philosophy? Ou Philosophy in the Depilatory? Será uma alusão à primeira cena do Ulysses onde o jovem Stephan Daedalus se barbeia? Renato Ornato, por sua vez, encontra semelhanças no seu nome com a obra heteronímica de Queneau, Les oeuvres complétes de Sally Mara, uma irreverente revolucionária irlandesa. Considera aqui que o nome aparentemente banal de Sara é composto com a primeira sílaba de Sally e a última de Mara. E que o nome verdadeiro dela seria Sara Lima (que teria começado por assinar Sara Llyma, anagrama da persona de Queneau, sendo que Llyma é um advérbio inglês que significa here is [ou are]). Trystana, por sua vez é um nome praticamente não praticado.

O seu reaparecimento com um livro de sonetos jactantes é surpreendente. Apesar dos conselhos que lhe dá Flaubert nas 3 cartas por ele enviadas do além1, Sara parece seguir o seu

1 Há toda uma correspondência póstuma de Flaubert endereçada a vários criadores deste círculo, e no qual há 3 cartas endereçadas a Sara. Aí

daimon florido. Escreve a alta velocidade e de forma xamânica e serial, sem pensar muito, esperando que no fim tudo se componha e se harmonize, o que parece acontecer. Os textos são-lhe segredados, e jamais premeditados. Tem que aceitar a Voz rilqueana. Se na sua filosofia inicial é prometido um culto limpo, revolucionário, de certo modo afim a Sade (um boudoir com ressonâncias também de Le Queau), Sara parece ter mudado para um campo em que aceita a própria confusão, o emaranhamento das paisagens conceptuais, e a sensação de ser um aracnídeo venenoso e dançante saído de um conto apropriacionista de Pierre Delalande.

Flaubert testa a sua actualidade com observações notáveis. Alguns asseveram que se trata de uma impostura literária. Mas não é uma impostura toda a literatura que se digne?

a nónimo h erbértico

Não sabemos por ora quem é o/a autor/a dos Sonetos Herbérticos, um conjunto de quase quinhentos poemas em seis volumes, que se apropriam da totalidade de uma das versões da sua obra poética completa. Julgava-se ser obra de Fabiana Sorrento, porque tudo para aí apontava, mas esta nega-o com irritação.

O primeiro volume compreende 122 sonetos em prosa; o segundo 32 sonetos normais; o terceiro 126 sonetos curtais; o quarto 140 sonetos de 17 linhas (duas quadras e três tercetos); o quinto 119 sonetos curtais em prosa; e o sexto 39 duplos sonetos.

Sublinhe-se também que este ciclo se integra (dizem-nos os organizadores desta edição) num projecto neo-herbertiano cuja primeira parte se chama Museum Herberticum , a segunda Uma Cerveja no Eterno, e a terceira estes 478 sonetos. É uma obra de pura apropriação, no bom espírito herbertiano?

O que é certo é que o texto é já uma subtil transformação da poesia do influente poeta. E sabemos também que Herberto se interessava profundamente pelo soneto (embora dele só tenhamos uma Canção em Quatro Sonetos) e que almejava concretizar uma antologia pessoal de sonetos.

Reproduzem-se aqui os desenhos de Pedro Proença destinados à exposição

Sonetário

Assim sendo há o semi-soneto canónico com 16 modelos de soneto; o curtal com 64 modelos; e o soneto inteiro deste tipo com 256 hipóteses de ser ordenado.

22) Se podemos pensar em termos de meios versos, também é possível refazer o soneto a partir de estruturas que integram os quarto-de-verso, ou (sem ir tão longe) em que o quarto de soneto é composto de 2 versos e três meios-versos (com as respectivas variantes, nas 5 linhas possíveis). Temos aqui uma extensão da elasticidade do soneto, em que há 10 tipos de combinações de configurações de 5 linhas de versos/ meio-versos (compostas por 0,5 + 0,5 + 0,5 + 1 + 1). Ora se o quarto-de-soneto deste tipo dá 10 possibilidades, o semi-soneto dá 100, o curtal dá mil, e o soneto dá 10 mil, o dobrado 100 mil, e o duplex um milhão.

23) Mantendo 2 ou 3 versos inteiros, para não perder a referência, obtemos assim mais algumas estruturas para o quarto de soneto que também usa quartos de verso, como a de 3 + 2 × 1/4 (5 linhas) e a de 2 + 2 × 1/2 + 2 × 1/4 (6 linhas) e, hipoteticamente (não se isto já será desvirtuar…) a de 2 + 6 × 1/4 (8 linhas) e a de 2 + 1/2 + 4 × 1/4 (7 linhas).

24) Assim como existe o quarto de verso, podemos pensar no duplo verso como uma possível unidade excepcional que ocupe a linha praticamente toda e tenha mesmo uma dimensão que duplica a linha de referência do soneto. Teríamos aqui uma economia variada que pode utilizar desde o duplo verso ao quarto de verso, isto é, quatro unidades de medida que estruturem o soneto, em lugar de uma só. Por exemplo, o soneto de duplos versos (na sua versão mais simples), no esquema do soneto italiano, é composto por 2 + 2

duplos versos, mais 1 duplo + 1 verso duas vezes, isto é, 6 duplos versos mais 2 versos, 8 linhas no total com 3 intervalos.

25) Uma linha não é um verso. Um verso é uma unidade de uniformização divisível (como quando se diz, dividir um verso em partes) — a linha não é divisível, e pode ser uma linha cheia, com pouco preenchimento, ou vazia. Normalmente não se contam os intervalos vazios como linhas do soneto (são linhas de valor zero). O modelo corrente de soneto impresso, ao contrário do soneto antigo, é claro na integração de três linhas vazias, quer no soneto italiano, quer no soneto spenseriano. Neste uso corrente, o soneto tem, na realidade, 17 linhas e não as 14 convencionadas praticadas no início. Esse valor gráfico introduz um ritmo visual que areja (um pouco como as teorias intervalares do silêncio, de John Cage). É claro que há sonetos que podem ser praticados com mais (ou maiores) intervalos (podendo chegar aos 13, mas perdem a eficácia) ou com intervalos de duas ou mais linhas (ou ainda espaços irregulares).

26) Como já referi, há outros dispositivos que podem fazer parte do soneto, sendo-o e não o sendo — o parergon do soneto é praticado desde Dante. Podemos ver a prosa da Vita Nova como um parergon de sonetos e outras formas poéticas que integram esse livro, e não como parece à partida, tais poemas serem ilustrações da prosa. Além da ornamentalidade, da possível bonecada, integrante ou não integrante, verbal ou não verbal, o soneto (como qualquer outro texto) pode integrar notas, comentários, bocas, disparates, desvios, outros poemas, a forma-resumo, etc.

27) Há ainda que tratar dos vazios internos, dos vários tipos de espaçamentos. Por exemplo, um verso inteiro pode-se decompor em metades, terços e quartos, ou outras unidades. Quando se criam espaços internos, vazios, há muitas maneiras de os ordena(da)r e reg(r)ar (limitar), seja alinhando-os, seja retirando partes que correspondem a proporções aproximadas. A poesia contemporânea, sobretudo depois de e.e. cummings, aplica intuitivamente os espaçamentos dentro dos versos e das linhas para lhe dar elegância e respiração. Estes espaçamentos são alternativas às vírgulas, pontos finais e parágrafos. Porém os sinais de pontuação têm uma vida gráfica própria, e frequentemente convivem com estes espaços. A convivência é confusa. Essa confusão não é nociva, e gera ricas possibilidades.

28) Não entro em questões de ritmo e rima, quiçá essenciais, porque têm séculos sobre elas. São elementos estruturadores importantes, embora tema que a língua oral, ainda que subjacente na poesia, é uma forma de sonoridade muda, uma vibração mental, como os mantras recitados interiormente, tidos por superiores à recitação externa. O efeito musical da leitura é importante, embora não seja dominante. A poesia, como toda a leitura, tornou-se uma prática silenciosa sobre um suporte visual, um exercício espiritual bizarro sem fim preciso. Ao escrever estas notas e reflexões quero sublinhar o prazer do olhar que ajuda o prazer dos restantes elementos da poesia, que são a música silenciosa e os elementos significantes, que tanto podem ser metafóricos, imagéticos, afectivos, mitológicos ou conceptuais. Para estes últimos contribuíram Cage, Jim Dine, além de Zdanevich e Picasso, mais que as contribuições, a não desprezar, da poesia visual e concreta. As actuais ferramentas, comummente acessíveis, como pro-

gramas de processamento de texto, de paginação, ou de tratamento de imagem (como o Photoshop ou o inDesign), oferecem, cada uma à sua maneira, possibilidades que não exigem uma grande especialização e que expandem a prática poética e literária. Num sentido oposto, a página escrita à mão, também oferece possibilidades que têm sido desprezadas e mal tratadas. Mais uma vez remeto para a fúria de Picasso, ou para manuscritos de várias partes do mundo, dos códices medievais, à caligrafia árabe e do extremo-oriente.

29) Isto devia vir no príncipio e mais desenvolvido. A atomização do soneto leva ao oitavo de soneto, unidade mínima, tripartida em 1 verso de linha inteira, outro de meia linha e outro de quarto (1 + 1/2 + 1/4); isto é à divisão/unidade básica dos ritmos (mínima, semínima, colcheia). Esta estrutura simplicíssima, e, diríamos, algo cúbica (ou hipercúbica?), é vista por Roubaud como esférica. Estamos no domínio do 6 = 9 = 0, isto é, o cubo e a esfera acabam por ser o mesmo. Confesso, e isto é uma impressão intuitiva, que não consigo deixar de pensar o soneto senão com faces, pontos e arestas.

30) Chamemos ao oitavo de soneto o sonoitavo (linha ± meia linha + quarto de linha). Um soneto (não-tradicional) é composto de várias hipóeses: a) O sonectoctal de 8 sonoitvos; b) O soneto-quaquartal de quatro quartais (quartos de soneto); ou c) O Semineto ou Duplo Semi-soneto (em que as duas partes formam contrastes); d) O curtal-quartal, ou ainda curto-quartal, que é um soneto-curto (curtal, de 3/4, de Hopkins/ Roubaud) somado ao quartal; e) Ainda podemos usar formas combinadas mais complexas a partir de combinações entre o sonátomo, o semi-soneto e o quartal, todos de 14 versos, mas com um número muito variado de hipóteses de linhas.

31) Qual é o átomo do soneto? O quarto de verso (de uma linha). Pode ser divisível em palavras ou em sílabas.

32) O soneto é assim constituido por 56 átomos de soneto (7 × 8). Confesso que não encontrei nenhuma utilidade prática, a não ser que se dêem atomizações visuais em que um soneto possa ser dividido em 56 partes que depois podem ser reorganizadas ou desorganizadas de várias maneiras. A ideia de quarto de soneto é vaga, mas deve continuar assim ambígua e operacional.

33) Soneto visual constitído por 14 anéis concêntricos (repito-me?), sendo que no anel a «frase» pode não ter princípio nem fim. Os círculos concêntricos podem-se organizar com intervalos maiores, como no soneto tradicional.

34) Soneto visual em forma de tacho. Por exemplo 4 linhas formando os lados de um quadrado aberto contendo 9 linhas internas e um linha semi-circular por cima de tudo virada para baixo.

35) Soneto em escada. Podem existir várias versões, mas sempre com unidades regulares.

36) Soneto constituído por 4 quartos de soneto que se dispõem como os quatro lados de um quadrado com o vazio no meio (caderno verde)

37) Soneto em octógono, idêntico ao soneto anterior, constituído por oito oitavos de soneto, isto é, dispostos em forma de octógono com vazio no meio.

38) Soneto Babélico, a 14 (ou menos) línguas, sendo que cada linha possa ser numa língua distinta. Este método pode ser aplicado a qualquer soneto previamente dado. O número de línguas pode variar. Este tipo de técnica, era aplicada até três línguas no período dito barroco (termo duvidoso).

39) O soneto com boca, em vez cauda/cola/estrombo, tendo linhas curtas, meias-linhas, ou quartos de linha, antes das 14, numa espécie de cauda invertida.

40) O soneto desdobra redobrando. Divide-se até chegar a unidades como a linha + meia - linha + quarto de linha, para que depois lhe entendamos a duplicação — dobra-se para se desdobrar. Por isso é intimamente barroco antes de o ser. É o percursor matemático do Barroco. O soneto é a forma da dobra perpétua do Uno e do Único, provocando o Múltiplo, cada vez mais múltiplo.

41) O que o Soneto instaura, antes de Descartes, é o Eros/ Ego como motivo/movimento cogitante, e sede do pensamento (a borbulhar). O Amor petrarquiano semeia todas as metamorfoses que vão levar a Fichte, a Hegel, e até a Marx. O soneto já é intimamente dialéctico na sua estrutura. No tecido do Eu e da Razão é a intimidade passional que impera, posta no singular, a querer abarcar o infinito e as contrariedades. A dialéctica passional é a madre da máquina filosófica.

a s penas de um soneto a partir do sete

Camões no poema «Sete anos de pastor» meta-sonetisa a estrutura do soneto, como se o soneto fora um duplo serviço amoroso: os sete anos de labores redobram-se em quatorze anos, precisamente o número de versos do soneto. Trabalhos bígamos ou polígamos. Por obrigação? Por paga? Por serviço a quem?

Sete é o número de dias da semana, o dia do descanso de deus, ou o dia dedicado a HYHV. Poderíamos ver na estrutura do 14 a de uma semana e a sua repetição, ou o seu duplo (a criação redobrada, ou a criação e o seu simulacro?).

O último verso , «se não fora tão longo amor, tão curta a vida», ecoa o adágio latino ars longa, vita brevis (decalque demasiado óbvio), sendo a arte, ou o ofício, substituído pelo amor. Trata-se de equiparar o amor a uma arte? E de fazer equivaler pastor com poeta (um tropo vulgar na época, via Jacopo Sannazaro)?

Soneto, amor, arte longa (e difícil /engenhosa) para vida breve, são quiçá a mesma coisa. Pede-se ao sonetista que pene, pratique e seja hábil e astuto como Jacob.

t irésias

O número quatorze é também um dos números de Tirésias, além do 9 e do 10, que completa dois ciclos de sete anos de transformação sexual. O 7 é assim o número da metamorfose sexual, que surge quando se impedem as serpentes de copular. Acto alquímico? Como na Kundalini em que as serpentes se entrançam? A cópula/entrançamento de serpentes existe no caduceu de Hermes, em Esculápio e no final da vida de Cadmo e Harmonia. O gesto de Tirésias é uma krisis no steady-state da união de contrários. Os quatorze anos de metamorfoses do adivinho representam assim um ciclo de dupla transformação, e a integração da advinhação/ profecia, como dom/maldição.

© Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão (Ala da Frente), 2024 © Sistema Solar (chancela Documenta) imagens e texto © Pedro Proença design gráfico © John Rindpest

ISBN: 978-989-568-182-2 Outubro de 2024

Depósito legal: 538341/24 Pré-impressão e acabamento: Gráfica Maidouro SA

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