O Sul Fevereiro nº 19

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NR 19

ano: 2012 . nr 19 . mês: Fevereiro . director: António Serzedelo . preço: 0,01 €

http://jornalosul.hostzi.com

O PODER DA IDEIA: PARA QUE QUEREMOS UMA CULTURA LIVRE? Há processos globalizantes mais globais que outros. Para o melhor e para o pior. Com o advento da Internet e com a popularização das tecnologias que lhe acessam, fecham livrarias e deterioram-se algumas naturezas humanas, mas criam-se canais de comunicação à escala planetária capazes de pôr a andar revoluções. Vimos agora que as redes sociais, gravações de telemóvel e blogues aceleraram a compreensão e o contágio das mobilizações no Médio Oriente, Norte de África, Espanha, Grécia, Portugal e Estados Unidos da América. Alguns movimentos tornaram-se mais eficicazes e organizados, chegando a substituir facilmente o papel de jornalistas no terreno. No Egipto dissese ‘a revolução na Tunísia inspirou-nos para começar a nossa revolução o mais rapidamente possível’ e na Grécia disse-se ‘os nossos protestos começaram a partir dos indignados,

O conceito de ‘cultura livre’ surge no legado da defesa do software livre. Defende a protecção da autoria sem os contornos clássicos da propriedade, abrindo a discussão para a necessidade de adaptação das leis existentes à actual sociedade do conhecimento. De acordo com as tradicionais leis de copyright, os autores proibem que o seu trabalho seja reproduzido, adaptado ou copiado. Por contraste, o movimento copyleft, soldado da cultura livre, permite que o autor se proteja, advogando simultaneamente o direito à reprodução, distribuição ou cópia o seu trabalho, se isso for feito de acordo com a mesma licença do trabalho original. Actualmente, novas licenças, como a creative commons, permitem ao autor decidir por si mesmo um pacote adequado de licenças, que retêm alguns direitos abdicando de outros.

em Espanha’. A 17 de Setembro de 2011, Wall Street foi ocupada depois de um núcleo de protestantes ter entrado em contacto com protestantes de Espanha, Grécia e Norte de África. As ideias circulam pelo mundo e originam novas formas de organização social, política e económica. A cultura das nossas sociedades começa também a ser produzida online, partilhando, alterando e reproduzindo dados a uma velocidade futurista. A Internet tem um efeito que vai para além dela própria – um efeito que afecta a maneira como a cultura é produzida. A Internet causou uma mudança importante e não reconhecida nesse processo. Quem o diz é Lawrence Lessig, autor e activista por uma ‘cultura livre’.

revolucionária no que diz respeito à forma como o conhecimento e a cultura se criam, partilham e transformam. Assim, o modelo de propriedade intelectual utilizado para proteger as bíblias de Gutenberg não pode ser aplicado na era digital. É urgente abrir espaço para a discussão de novas opções para protecção e livre disseminação de conhecimento. Depois de um 2011 repleto de revoluções, com mobilizações massivas como não havia registo desde as manifestações americanas contra o Vietname, irrompem supreendentemente propostas políticas como a SOPA (nos Estados Unidos da América) e a ACTA (na Europa): tratados que regulam de forma abusiva os direitos dos cidadãos no que toca à produção e ao acesso de informação. Saibamos proteger os nossos autores, mas protejamos também o poder de uma ideia. Se a legislação que aí espreita tiver como principal objectivo proteger os monopólios restritivos de empresários, fornecedores de serviços de comunicação e indústrias de entretenimento, estaremos apenas a engrossar a lista de regimes a derrubar. Sandra Coelho Jornalista

Ilustração Dinis Carrilho

A ideia de Lessig é que ao contrário do paradigma anterior, em que as leis se concentravam na cultura comercial e regulada, controlada por indústrias intermediárias, agora surge no primeiro plano a importância e poder da criação e difusão de cultura não comercial. Os cidadãos estão hoje tão sujeitos às empresas distribuidoras como às ferramentas do faz-tu-mesmo. As possibilidades de comunicação cibernáuticas passaram a constituir-se como novas linguagens, garantes libertários e campos infinitos para a expressão dos homens. E por isso as indústrias, que para além dos autores protegem a doutrina da ‘propriedade’, lutam pela afirmação do seu negócio neste novo mercado irregulado. Como seria, como sugere o nome de um movimento espanhol, se a Internet fosse uma outra TV?

O movimento pela cultura livre entende que vivemos uma época


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