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NR 18
ano: 2012 . nr 18 . mês: janeiro . director: António Serzedelo . preço: 0,01 €
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Submergidos pela azáfama e o imediatismo dos nossos dias, a fúria das soluções fáceis para ontem, prometidas todos os dias pelas pessoas ligadas ao poder, parece que estamos dispostos a aceitar o empobrecimento generalizado das classes médias, num nivelamento típico do pão que o diabo amassou. Esse empobrecimento radical, fruto da pobreza material deste país, não provém da falta de matérias-primas, tão pouco da falta de produção de bens transaccionáveis. Aliás, há alguém que realmente acredite nesse problema? No entanto, o país está miserável. Todos nós sentimos isso profundamente. A nossa pobreza é a nossa amnésia. É o que nos torna indigentes e incapazes de compreender o devir dos tempos. Sem coordenadas, escravos do imediato, servos do já, manipuláveis por todo e qualquer um que jure suprir a nossa angústia originada na perda. Estamos à mercê de boys de Massamá ou do Canadá, com os quais os próprios militantes do partido governante conflituam. A mediocridade substitui fatalmente o mérito, premiando com o despedimento casos incontáveis de assaz frequentes, permitindo-nos destacar, por particularmente simbólicos, os do director do Museu Nacional de Arqueologia e do director do CCB. Portugal vive hoje a experiência da dureza da sua perifização. Portugal é mátria, terra de génios e poetas, terra de gentes boas, que preferem amar a guerrear, terra de aventureiros e de humildes,
é seiva que nos corre no sangue espesso de novecentos anos de memória colectiva. Guimarães capital europeia da cultura, que mais não seja, relembra-nos isso. Porém, somos também um povo de iconoclastas. Talvez o sejamos ainda por longos tempos. O nosso misticismo precisa de uma boa dose de materialidade para acreditar. Dentro das nossas preciosas referências de adoradores de imagens, juntámos, à nossa genuína devoção a Nossa Senhora de Fátima e a Santo António, líderes políticos Armani. As nossas gentes fascinam-se pelo que brilha, daí só darem depois pela falta de conteúdo. Gerações virão que não terão esta aceitação pelos nossos erros colectivos, mas como se dará uma nova energia e alegria a um país velho e acossado, que só quer hibernar, ficar quieto?! No centro do furacão em que Portugal se tornou, continuamos a fazer as coisas simples. Com paciência dedicamo-nos a reconstituir ao modo antigo, sem relegar por inútil o muito que se tem vindo a descobrir, integrando o melhor que se conquistou nessa longa tecitura. Por isso, realmente fundamental, é saber perceber o essencial, sendo que tudo o mais é acessório. Três são as chagas culturais e sociais: pobreza, discriminação e autoritarismo. É a partir daqui que se podem e devem construir as soluções. Nós, com o nosso modesto contributo, continuaremos a fazer a nossa parte. Leonardo da Silva e José Luís Neto Direcção da Prima Folia - Cooperativa Cultural, CRL
Ilustração Dinis Carrilho
No Centro do Furacão - Editorial