EM - Fevereiro - 2022

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EM IEC 60079-10-1:2020 (partE II) ESTELLITO RANGEL JÚNIOR

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mitida em dezembro de 2020, esta “norma” voluntária, que aborda a classificação de áreas por atmosferas de gases e vapores inflamáveis, trouxe algumas mudanças interessantes em relação à edição anterior. Algumas dessas alterações foram abordadas na edição anterior de EM. Outras modificações são descritas a seguir. Parâmetros de ventilação As modificações feitas nos parâmetros de ventilação estão presentes em vários pontos do documento. A principal diferença entre esta edição e a anterior está na definição dada ao parâmetro característico da emissão Wg*. Outra mudança notável foi sobre a velocidade mínima do ar a ser considerada nos ambientes. A edição anterior havia adotado 0,05 m/s, mas, na nova, esta referência foi retirada. Atribuição de zonas segundo a ventilação A tabela D.1 foi mantida nesta edição, mas, por ser meramente conceitual, em certos casos ela apresenta conflitos com a definição das zonas, como, por exemplo: para um grau de liberação contínuo e disponibilidade de ventilação “pobre”, seria gerada uma “Zona 0 e uma Zona 1”. Entendemos que tais atribuições devem ter sido “inspiradas” nas “Práticas Recomendadas” da API, porém, tendo em vista o caráter de modelagem fluidodinâmica adotado nesta edição, apenas a avaliação quantitativa das fontes de emissão e da ventilação disponível poderá oferecer uma correta classificação. Extensões das áreas classificadas O Anexo D.3 desta nova edição, do mesmo modo que na anterior, apresenta um diagrama logarítmico, com base em fluidodinâmica computacional, para diferentes velocidades da ventilação do local. Na abcissa, é mostrada a vazão da liberação e, na ordenada, é indicada a extensão da atmosfera explosiva para três tipos específicos de liberação. Utilizando o diagrama, reparamos que, para distâncias maiores que 1 m, os resultados são coerentes para o gás metano, enquanto que, nos casos de propano e hidrogênio, as distâncias mostradas são menores do que as

obtidas por modelos de dispersão já consolidados em softwares comerciais. Isto indica que a linha que representa as distâncias para ocorrência de jato foi obtida com simulações de dispersão tendo o gás natural como substância representativa. Desta forma, o diagrama não parece ser aplicável em grande parte das situações encontradas nas indústrias. Outro ponto que merece atenção no nomograma é a dispersão de vapores de líquidos inflamáveis em poças. Fisicamente, a dispersão de uma poça inflamável é regida pela velocidade do ar (uw) que a toca. Em particular, conforme a velocidade diminui, o fluxo, de turbulento, torna-se progressivamente laminar, e a extensão da área classificada aumenta. Nesta edição da “norma”, o modelo de dispersão de poças de inflamáveis indica valores para a extensão da área classificada apenas para a velocidade do ar de 0,25 m/s. Cabe, portanto, um alerta quanto ao uso deste modelo de poça dentro de ambientes fechados: “As curvas não são aplicáveis em situações internas com diluição ‘média’ e ‘baixa’’. Conclusões Haja vista que o estudo de classificação de áreas contribui decisivamente para a segurança da unidade, seus documentos devem ser preparados sobre um sólido embasamento, uma vez que serão consultados tanto para a especificação de equipamentos, quanto para a emissão de procedimentos operacionais. Desta forma, se uma ferramenta computacional for manipulada mecanicamente por pessoas sem a bagagem teórica necessária, os resultados poderão até comprometer a segurança da unidade, ao ficarem dissociados da realidade operacional da planta. Como não há modelo de dispersão único, aplicável a todas as situações, algo “simples e rápido”, é questionável emitir uma “norma” neste caso (e por isto o termo foi usado aqui entre aspas). Mais adequado seria a emissão como um “relatório técnico”, especialmente quando o texto não se caracteriza pelo estabelecimento de requisitos mínimos comprováveis por ensaios, que é típico nas normas. A dinâmica dos fluidos, por não ser uma disciplina do dia-a-dia dos profissionais de eletricidade, não deveria ser tratada em documento IEC, entidade com foco na eletricidade e cuja missão é estabelecer padrões para facilitar o comércio internacional de produtos elétricos. Ressalte-se que as últimas edições desta “norma” apenas passaram a incluir modelos matemáticos após a entrada no MT de representantes do HSE inglês, que haviam desenvolvido o software “Quadvent”, e que não são profissionais de eletricidade. O resultado claramente demonstrou que

a composição do MT até então não tinha condições de avançar e, consequentemente, ele passou a ser dependente das pesquisas do HSE. A ISO, por estar em cenário mais amplo, contando com contribuições de profissionais de várias áreas tecnológicas, seria o fórum adequado para tais documentos. Um ambiente que não realiza uma análise crítica das propostas e suas implicações, limitando-se a simplesmente traduzir ao pé-da-letra o que vem de fora, sem haver o perfeito entendimento das consequências do que foi escrito, não contribui para o progresso tecnológico. Em auditorias, temos encontrado recorrentemente estudos de classificação de áreas como meras reproduções de figuras genéricas, aplicadas em todas as situações e plantas industriais. Com a IEC 60079-10-1 claramente compreendese o grave equívoco de tal prática, que revela ser feita por pessoas sem a necessária capacitação. Não obstante, a divulgação nas redes sociais de “certificados de competência” em classificação de áreas por pessoas não atuantes nesta atividade, e tendo como base justamente esta “norma” (que além de ter tido diversas alterações em relação à edição anterior, possui limitações apenas identificadas por estudiosos com ferramentas adequadas), deve acender um sinal de alerta nas empresas que contratam tais serviços. Se pessoas sem a necessária expertise conseguem obter tal “certificado”, a confiança no respectivo esquema de certificação fica comprometida! Apenas um estudo de classificação de áreas confiável contribuirá para o gerenciamento do maior risco envolvido nas unidades das indústrias que processam inflamáveis: o de explosão, capaz de acarretar grandes prejuízos materiais e pessoais. Caso você tenha dúvidas sobre classificação de áreas, envie-as para o e-mail em@aranda editora.com.br. Elas poderão ser abordadas em uma próxima edição. Estellito Rangel Júnior, engenheiro eletricista, primeiro representante brasileiro de Technical Committee 31 da IEC, apresenta e discute nesta coluna temas relativos a instalações elétricas em atmosferas potencialmente explosivas, incluindo normas brasileiras e internacionais, certificação de conformidade, novos produtos e análises de casos. Os leitores podem apresentar dúvidas e sugestões ao especialista pelo e-mail em@arandaeditora.com.br, mencionando em “assunto” EM-Ex.

JANEIRO/FEVEREIRO, 2022 EM

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