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II. Rio de Janeiro, março de 1880

II

Rio de JaneiRo, maRço de 1880.

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a sala estava deslumbRante, as lamparinas acesas e as mesas ornamentadas traziam o colorido desejado para a ocasião.

Os convidados transitavam alegres, escravos e criados serviam enquanto os mais ilustres do Império se faziam ver.

Fogos de artifícios pipocavam na noite clara com a lua vibrante, que iluminava a casa assobradada de Ana Néri.

Ela estava parada, diante da grande janela que dava para o jardim. Num momento de não perturbação, encostou-se à parede e olhava.

Que fazer? E essa agora de trazer escravos pra minha casa, eu que não tenho! Meu Deus, como isso? Bem, tinha que deixar Manuela trazer os dela… que horror! Escravos! Eu tenho a Tiana… e eu estou com a casa cheia, meu Pai do Céu!, pensava, um tanto quanto aflita. – O que tens, Ana? Cansada? Ou arrependida? – aproximou-se Manuela.

– Acho que cansada… ou mesmo aborrecida, mas arrependida não estou, não. Precisamos deles.

E a velha mãe voltou-se para o salão com um bom sorriso, o rosto esplendia uma suavidade nos traços marcados pela dor.

Eu tenho que demonstrar estar feliz, contente. Que me vejam assim!, pensou e voltou-se à amiga. – Temos que sentar um pouco. Meus pés não aguentam mais! – falou sofrida. – Vamos lá com aquelas senhoras que vieram na companhia da Princesa Isabel! – Apontou Manuela. – São senhoras ilustres e endinheiradas… – murmurou a outra.

Sorrindo e com passos delicados, avançaram em meio ao frenesi de convidadas.

Os ilustres do Império estavam presentes. Ana era reconhecida por méritos realizados durante a guerra contra o Paraguai; havia recebido inúmeras homenagens, entre elas do Imperador d. Pedro ii, que lhe concedera uma pensão vitalícia, além da Medalha Geral da Campanha e da Medalha Humanitária.

Quando Ana atravessou o salão acompanhada de Manuela, olhos atentos e furtivos a observavam. Ana era o modelo de mulher e mãe naqueles anos difíceis do Império brasileiro.

A Princesa Isabel levantou-se e apressou-se ao encontro de Ana. Disse com voz baixa, quase sussurrante:

– Minha senhora Ana, gostaria que sentasses comigo! Ah! Como quero ter a honra de me sentar ao vosso lado!

Manuela e Ana se inclinaram reverentes, respeitosas. – Ora, deixem disso e venham sentar-se comigo e com estas senhoras. Estou em tua casa, dona Ana, não esqueças – lembrou a princesa, tomando a mão de Ana e conduzindo-a satisfeita às mesas onde estava sentada.

Ana acomodou-se em meio às nobres mulheres e todos voltaram-se a ela. Manuela estava sem graça. A princesa tomou a palavra. – Dona Ana, esta reunião dos principais do Império, em tua casa, será para a criação de um fundo de assistência? É isso?

Ana ergueu a cabeça, pronta: – Sim, minha senhora. Gostaria de provocar tamanhas doações a fim de criarmos e mantermos um bom hospital, uma assistência adequada aos mais pobres, aos mais necessitados. – … sim, bom motivo… sim, claro! – falava como que sozinha a Princesa Isabel. – Creio que isso é urgente, nossa cidade é um foco de doenças e contaminações variadas! Podemos estancar um pouco isso, que nos envergonha perante as nações vizinhas e aquelas da Europa. Estamos muito mal nos serviços de saúde! – falou Ana para as mulheres que ouviam, atenciosas. – Falarei com o Imperador, dona Ana. Prometo! – asseverou Isabel.

Ana se inclinou e segurou as mãos da princesa com firmeza. – Isso é urgente, Sereníssima Princesa!

O toque provocou em Isabel o pretendido por Ana. As duas se olharam demoradamente.

O pianista principiou a tocar e também a cantar uma modinha. Uma das damas ergueu-se entusiasmada. – Essa modinha me agrada. Vamos? – convidou.

A princesa sereníssima permaneceu sentada. Mulher de porte pequeno, contudo os seus olhos passeavam pelo salão frequentado, procurando avidamente com quem iniciar a conversação. Olhou, reparou e encontrou seus olhos com os de Ana, do outro lado da sala. As duas fixaram-se, cúmplices.

Não tenho com quem contar… ufa! Não tenho mesmo, mas Deus me guiará! O Império não tem garantia em seus homens ilustres!, pensou desanimada a filha de d. Pedro ii.

Ana, circundada por damas alvoroçadas, voltou-se ao célebre pianista a contragosto.

Valha-me…! Valha-me Deus, que não sirvo pra isso! Que meus pobres enfermos me animem a suportar este inferno de gente folgada, pensou enquanto ria, fingindo-se alegre e espontaneamente satisfeita.

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