Edição 40, março de 1989

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Perfil dos sindicalistas Avaliamos ainda a inexperiência e despreparo da maioria dos dirigentes para o exerc feio das atividades de organização das categorias. 14 Com efeito, grande parte dos sindicalistas são novos na direção de sindicatos tomados aos pelegos, cabendo, por· tanto, a eles a neces5idade de revolucionar suas entidade5 e categorias. Assim, além de uma classe de formação recente, com pouca experiência de luta, há também dirigentes novos, com horizonte limitado, devido à descontinuidade causada pelo vazio que se criou nos tem~os da ditadura. Por isso, mesmo as tentativas mais sérias de trabalhe; com a base são muitas vezes frustradas pela sua dificuldade em trabalhar os aspectos mais eler;lentares que levem à grupalização, à organização e à luta. Por outro lado, a irr.ersão dos sindical is tas nas tarefas cotidianas das entidades leva-os a secundarizar o investimento na sua própria formação, o que causa, por exemplo, o esvaziamento de cursos ou seminários organizados por CUT, D iEESE ou outras entidades e dirigidos a sindicalistas. Somado a este despreparo, manifesta-se no plano subjetivo um apego ao exercfcio do poder,

combinado a um certo pragmatismo oriundo das próprias dificuldades de sobrevivência. Principal· mente os dirigentes liberados acabam por se tornar muito dependentes de sua permanência no sindi· cato, porque ficam defasados profissionalmente e "marcados" pelos patrões, o que praticamente in· viabiliza sua permanência na categoria no caso de afastamento do sindicato. Por isso, muitas ve1es o sindicalista passa a ter medo da própria base, passando a temer greves, lideranças que emergem da base, e cuida do não vazamento de informações "confidenciais". Esta possibilidade se apresenta principalmente ·em períodos de relativa baixa, em que o dirigente muitas vezes passa a descrt:r m:s possibilidades de avanço da luta e, por outro lado, a própria ausência da categoria impede-a de forçar uma maior abertura do sindicato. Assim, embora os sindicalistas sejam parte desta classe operária e estejam comprometidos com um projeto ideológico classista, na ausência de pressão da base do movimento eles são parcialmente cooptados pelo aparelho, o que os leva a tomarem atitudes menos decididas e mais dúbias.

Possibilidades de mudança Por outro lado, consideramos importante avaliar as condições hoje existentes para o desenvolvimento de organismos de democracia direta e de base no interior do movimento sindicai brasileiro. Os limites que apontamos certamente não são fáceis de serem superados. A repressão patronal, que tende a continuar intensa, e o "modo" corporativo, seletivo e doutrinário de fazer sindicalismo não permitem prognósticos muito otimistas.

patronato têm sido invariavelmente retiradas pela legislação econômica e trabalhista, ao mesmo tempo em que o recurso do governo à inflação tem representado um confisco salarial permanente. Com isso, o verdadeiro interlocutor está muito longe e o movimento sindical tende a manter o centro da intervenção no espaço pol rtico, até para solucionar as mais elementares reivindicações sala· riais.

Já no plano das condições poi rtico-econômicas para o desenvolvimento das lutas e a prol iteração de organismos de base, há duas ordens de influência que estimulam, uma, e inibem, a outra, o movimento a ter avanços nesse sentido. Por um lado, num pafs como o nosso, em que o enorme desnfvel social não tem estado presente entre as preocupações dos governantes e a crise econômica estrutural só pode ser solucionada a partir de medi· das pol fticas ousadas que também não estão na agenda polrtica, esta instabilidade tende a atuar sempre no sentido de estimular grandes lutas. Por outro lado, há uma tendência à institucionalização dos conflitos, bem apropriada à transição conservadora, que se dá com uma - ainda que problemática -manutenção da hegemonia burguesa. As conquistas obtidas nas lutas dirigidas diretamente contra o

O movimento operário continua a ser um protagonista de peso, com a perspectiva permanente de apresentar avanços imprevis fveis nas suas lutas. Mas, paralelamente a i.sso, os conflitos tendem a permanecer subordinados a uma situação mais 0.u menos controlada. Dificilmente se poderá esperar um avanço linear do movimer:to para chegar a uma situação qualitativamente mais elevada. Pelo contrário, é mais plausfvel um processo dclico de avanços e recuos, o qual, espera-se, se dará em espiral, apontando para um crescimento a longo prazo, onde inexlstem rupturas significativas, e levando em conta os problemas antes apontados, não está afastada a possibilidade de uma certa burocratização dos sindicatos, independentemente do nível em que se mantiver a estrutura sindical e mesmo nas entidades com direções comprometidas com a

14 Sobre as caracterlsticas dos dirigentes sindicais, ver Marcelo G rondim, Perfil dos Dirigentes Sindicais ne Grande Sio Paulo, São Paulo, 1985.

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